sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Novo no trabalho, trabalho novo

      Fez uma semana que iniciei o estágio em uma imobiliária. Tudo muito diferente dos mais de 30 anos da minha única profissão: bancário.

    
    Foram tantas reinvenções que nem sei direito quem sou quando comecei a ser bancário.
       
     Mas a realidade que vivi nos últimos 23 anos de trabalho no Banco do Brasil tromba com um paradoxo entre o trabalho atual de um bancário: de operador de crédito para um vendedor, operador de telemarketing; insistentemente chamado para ser um ultrapassador de metas, como o corretor imobiliário.
     
     Este é também um ultrapassador, com uma distinção: é autônomo; cuja estratégia é frequentemente criada pelo próprio profissional, especialmente para venda dos imóveis usados, ao contrário do bancário que aplica a estratégia pensada por outros, muitas vezes engessando iniciativas criativas.
      
     Carteira de clientes, só se for da imobiliária quando fecha acordos de vendas com as construtoras e incorporadoras.
     
     Uma semana cutucando a internet, levantando textos que me ensinem, minimamente, como ser um corretor "vendedor". Textos básicos, cujo teor já havia ouvido de corretores mais experientes, no entanto, há abundância de ofertas e explicações de como utilizar o Marketing Digital. Bem interessante, estou apenas tateando nesse momento.
    
     Captação do produto, sim produto.  É um lar? Foi um lar? Uma casa para uma família? Uma imóvel de investidor? 
    
     Olha a diferença entre as percepções, que muitas vezes no trabalho de bancário era solenemente "ignorada", com o cliente sempre se transformando em uma meta. Se este não se interessar por um produto bancário, a objetividade do número a entregar brilhando na tela, quase automaticamente, implica em desatenção.
   
     É nesse ponto que achei uma correlação com o trabalho do corretor: a atenção ao cliente que coloca na imobiliária seu "bem" à venda.  Esse freguês às avessas parece negligenciado, a ponto do gerente da área cobrar a atenção para que seja informado a cada 15 dias como anda a sua oferta de venda, como o mercado está vendo seu "produto". E não por um motivo fútil, às vezes o preço está fora da realidade, alto; outras vezes o imóvel está detonado e precisa de cuidados para se tornar "apreciável". etc.
    
        É um novo aprendizado, carregando na bagagem toda uma trajetória de vida, separando, quando der, as roupas que servirem para o novo trabalho. 

  Chuva no lago
  cada gota 
  um lago novo.
      (Alice Ruiz)

  
       

    
    

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Deve ser incomum!

     De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus... Frase de Rui Barbosa.

      Não foi a frase de Rui Barbosa que me inspirou escrever esta crônica, mas serviu de apoio para tratar da quadra atual no Brasil. Se em 1914 ele reclamava da vergonha de ser honesto, 108 anos depois, continuamos iguais.

      A Lei de Gerson é mais nova, dos anos 1980, mas conforme se manifestou Rui Barbosa o comportamento desonesto no brasileiro vem de muito longe, de maneira que a lei de Gerson apenas revelou a faceta esdrúxula da personalidade coletiva do brasileiro. Esse é um dos nossos coletivos. (Palavra de uso antigo com significado novo para expressar uma coletividade, uma unidade de valores compartilhados).

    Aí ocorreu uma situação nova, tão peculiar que vale um ano de observação para qualquer sociólogo ou antropólogo, já que o Homem tem se tornado predador dos bons valores: como ser honesto.     

      O que é essa coisa abissal?

      Bem, hoje participei de uma audiência e ao término da oitiva de uma das testemunhas em vez de um agradecimento formal eu ouvi e vi a juíza agradecer a essa testemunha por ter respondido as perguntas com sinceridade.

      Um pouco depois entra a segunda testemunha.  Vendedor emérito, daqueles que dá um nó em ponto d'água e que muitas vezes  a regra era só um detalhe.

       Pouco antes, papo de depois da audiência, a outro testemunha disse que ele citou a bíblia para dizer ao advogado que diria a verdade.

      Ele entrou e sentou convicto, respondeu todas as perguntas, assim que terminou a magistrada se voltou para todos os presentes e sorriu, seu rosto parecia aliviado, estava contente por ter conduzido uma boa audiência e finalmente disse: as testemunhas não mentiram; e completou, que o que ela conduziu era diferente de tantas outras oitivas, ali houvera honestidade.

        Saí de lá e nem me dei conta do que presenciara, pela expressão da juíza, uma exceção: as pessoas foram honestas.

       Depois de horas sem pensar nada a respeito, esta pergunta veio perturbar meu sossego:
        
       Será tão difícil assim ser honesto no Brasil?  

       Então comecei esta crônica pelo fim.
       

Existimos: A que será que se destina?

Viktor Frankl             Começou, começou, começou aquilo que muitos refugam, mas têm uma apaixonada, apaixonada reação ao ouvir opiniões c...