sexta-feira, 18 de julho de 2025

Lua Bonita

        É uma mistura de conto com as minhas lembranças 
das mocinhas que andavam aos bandos 
na nossa rua lá em Bom Conselho, 
ao mesmo tempo tão próximas e tão inacessíveis.

        
        Um mês atrás, o algoritmo do YouTube "advinhou" minha alma e como advinhou, me fez escutar Belchior cantando a canção  Lua bonita com Dominguinhos acompanhando. De imediato, me encantou; de imediato, minha mente vive (veve) a cantá-la.


        Como essa canção ficou escondida para mim tanto tempo? Comecei a me indagar, a me cutucar e, naquela mania — mania de interpretar e mania de inventar fiquei tentado a achar uma história.


        Primeiro, Lua Bonita era aquela moça descia a rua Conselheiro João Alfredo com a saia rodada, com seu perfume de fulô amarela a embeleza a vida. A moça que eu e meus amigos não podíamos nem chegar perto, tudo que se tinha era a fantasia de ter um cheiro distante e a fuganda no pescoço, que nós fazíamos como se fosse nela, mas que nada, Lua passava serena, no alto de sua paixão pelo outro e não por nós.


        A gente olhava para os outros rapazolas, "mas o que esse cara tem" para Lua ser tão apaixonada, todos ali pensavam, e lá vinha ela balançando seu perfume. A lindeza dela era de doer. Do homem dela, mal se via a ponta dos dentes, "que cara fechada" e o cara se divertia com aquele magote de rapazolas apaixonados por sua Lua. Pelas costas, o sorriso dele era aberto, a sua máscara era de ser sisudo. Mas ele se derretia de paixão.


        De repente, descobre-se que Jorge, com quem jogávamos bola, é o amor de Lua; e manda nela com a força de uma apaixonada. "Lua tá cega, que tu vê nele?" Mas Lua só escuta os corações dos rapazolas zabubarem descompassados e olhava para cima ignorando um monte de rapazes que estavam emplumando-se, querendo que aquela beldade dissesse: Oiiii, Antonio; Oiii, Marcos; Oiii, Tito; Oiii,  Benedito!. Nada, nada, nada de nos embelezar também com a sua voz, mas ela não podia nos impedir de vê-la, de ver Lua Bonita e brilhosa.


        Aí um dia, Carlos, que morava em outra rua, chegou arrojado, com aquele carro enorme do pai. Quando a viu descer a rua, rodando a saia do vestido, se pôs de pé, armou o melhor sorriso, ajeitou a roupa nova, balançou o cabelo para o seu perfume se espalhar. Naquele dia, Lua estava com o vestido florido, Carlos não teve dúvida, encostou nela e disse: Quero namorar com você; Como? Me respeite, eu sou uma mulher casada. E Lua desceu a rua, enfeitando a vida dos nossos olhos.

        Então um dos rapazolas, afeito à poesia, cantorolou, de início baixinho, a canção que seu avô adorava cantar, e  logo depois a estrofe saiu forte e sentida, e foi  assim:

Lua bonita

se tu não casada

eu preparava uma escada

Para ir no céu te beijar...

        


    Clique no vídeo e escute a canção na voz de Zé do Norte

Lua bonita

Se tu não fosse casada
Eu preparava uma escada
Pra ir no céu te beijar

Se colasse teu frio
Com meu calor
Pedia a Nosso Senhor
Para contigo casar


Lua bonita
Me faz aborrecimento
Ver São Jorge num jumento
Pisando teu quilarão

Pra que casas-te
Com homem tão sisudo
Que come dorme e faz tudo
Dentro do teu coração


Lua bonita
Meu São Jorge é teu senhor
É por isso que ele vive
Pisando teu esplendor


Lua bonita
Se tu quer o meu conselho
Vai ouvir eu tô alheio
Quem te fala é o meu amor

Deixa São Jorge
No seu jubaio a montado
E vem cá para o meu lado
Pra gente viver sem dor



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