sexta-feira, 17 de abril de 2026

"A arte de viver é simplesmente a arte de conviver", Mário Quintana

        

        O carro corria suave pela avenida, via de mão única com duas faixas,  o passageiro olhava placidamente as pessoas andando na calçada e as fachadas das lojas. Nisso o carro para, ele levanta a cabeça e ver o sinal fechado, no mesmo momento um Virtus engata ré e inicia a saída do estacionamento de uma academia. A tranquila viagem se transforma. O motorista do Uber, na faixa dos 45 anos, aciona a buzina, não como um alerta,  agressivo,  demorado,  inconsequente. Para avisar bastaria três toques curtos.

        O sinal abriu e o motorista fez um comentário, entendido pelo passageiro como discriminatório. Ele preferiu silenciar. 

        A viagem prosseguiu por cerca de 500 metros, logo mais outro semáforo fechou e deu oportunidade para o Virtus emparelhar e dizer ao motorista que ela havia visto o carro pela câmara de ré e que não iria bater nele. Depois saiu rápido e o motorista a perseguiu ruidosamente, raivosamente. Perigosamente. Logo adiante a dona do Virtus entrou à direita e o motorista desejou ir atrás,  mas logo lembrou que tinha um passageiro e seguiu para o destino, abandonando a perseguição.

         O passageiro disfarçou, mas se preocupou com a explosão raivosa,  um ressentimento brutal contra aquela mulher, que o motorista nem conhecia, uma violenta misoginia, um perigo ambulante ao volante daquele Uber. Durante cerca de 20 minutos foi descarregando toda sorte de ódio contra aquela motorista. 

         Aquele passageiro desceu e não agradeceu pela viagem. Saiu acreditando que ali estaria uma pessoa violenta, com ares de um ser simpático, uma máscara que caiu em um poucos segundos.

        Na calçada olhou para o carro se afastando, torcendo que ao pegar novo Uber encontrasse um espírito mais ameno, mais responsável e não misógeno. Sem ranço de ressentimento.

            O tempo passou e mais de dois anos depois do episódio a sua recordação trouxe à tona algumas questões, por exemplo:
            
        Como você reage ao interpretar que seu interlocutor é inferior?
     
        Como você reage ao levar uma fechada de uma pessoa com um carro humilde?
      
        Como reage ao levar um não ao chegar em um atendimento? 

        E se o seu viés de certeza for contrariado?

        Como você reflete a respeito de tudo isso e sobre este texto?
      
        Estas questões são uma parte da realidade que nos cerca, dos seus vieses afetivos que serão super estimulados nos próximos meses e, possivelmente, testando nossos freios emocionais, que deverão estar revisados junto com a capacidade de reflexão para se evitar o descontrole emocional que acometeu o motorista do Uber. 

      Zele pelo seu entorno, ele vai devolver saúde, paz, alegria, companheirismo, apoio, amizade e amor.

      Bem, é o que tenho para o momento. 

     Abração, Marconi.

6 comentários:

  1. Grande Marconi, brilhante e oportuna crônica para nos lembrar da importância de revisar nossos freios emocionais. Afinal, se a emoção acelera demais, o risco de um capotamento moral é real. A frase de Mario Quintana, citada na abertura, é um alerta precioso sobre o convívio e o autocuidado. Se antigamente bastava contar até dez para não explodir, hoje precisamos contar até cem — e, às vezes, escolher o silêncio para não deixar o trem das emoções descarrilar.
    Simbora, viver em paz, harmonia e com muita empatia, afinal a vida e bela para ser curtida e vivida com muito amor, paz, respeito, humildade e sabedoria.

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  2. A sociedade está embrutecida, gestos empáticos e cortesia são palavras e atos distantes. Oportuno texto.

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  3. Amigo Marconi, recado dado! Não deixemos que o "barulho exterior" sirva de anestésico à nossa racionalidade com as pessoas e as coisas. Bela crônica!! 👏👏

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  4. Marconi nos faz lembrar as palavras do Professor Clovis de Barros - "O mundo não sai da frente e somos o resultado dos encontrões da vida". Como passageiros e pacientes vamos torcer para sermos a maioria, mesmo nos momentos de nuvens cinzas e céu pesado. Abraços

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  5. Excelente!
    E se a pessoa tiver um viés de confirmação enrustido, o que virá depois?

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  6. Amigo Marconi, seu texto mostra como uma situação, que é comum no cotidiano, pode revelar emoções intensas e preconceitos escondidos. A tranquilidade pode se transformar em agressividade, quando emoções mal administradas assumem o controle.

    Ao mesmo tempo, é um convite à autorreflexão, ao lembrar que preconceitos, impulsos e certezas rígidas podem estar presentes em todos nós e podem emergir em qualquer situação.

    Que tenhamos discernimento e sejamos mais pacientes, mesmo diante de um mundo cada vez mais agressivo.

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