sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O tempo e suas experiências

            Aqui a idade é 13 anos.

Tinha 17 anos e sentia inveja de muitos rapazes da minha idade. Bebiam, dirigiam velozes, namoravam e diziam que faziam sexo.

A minha timidez e também os limites da criação me amarravam.  Sexo: era donzelo.

Aí um dia, estava na farmácia de papai, reclamei e demonstrei inveja dos rapazes mais jovens que eu e que faziam tudo isso.

Seu Naduca ouviu minha queixa,  na minha inveja juvenil. Trinta anos mais do que eu, me fitou sério e então falou: "Olha, você vai fazer coisas antes deles" e enumerou algumas.

"Vai tirar carteira de motorista, vai votar antes deles, será de maior antes, se apresentará no Exército". Foi um consolo e uma verdade. Eu tinha algo  que aqueles rapazes teriam depois de mim. Foi mais que um consolo.  Foi quase um: "você é foda". Não era, mas me senti o "foda".

Minha gratidão ficou incompleta, nunca lhe disse assim: "Seu Naduca, muito obrigado, o senhor me fez me ver diferente, melhor". 

Agora, 50 anos depois, estou aqui, na casa dos 67 anos, e passei por novas experiências que só idade dá: aposentadoria, ser empreendedor sem depender do empreendimento; fazer duas cirurgias que vém com a idade, como a raspagem da próstata e a cirurgia da catarata.

Não tem jeito, nenhum gênio em situações normais as fará antes que tempo o venha abraçar. 

Então volto aos 17 anos, em que de certo modo queria adiantar o tempo, agora ocorreu ao contrário, empurrei quase ao limite para dizer: "Doutor ou Doutora, vamos marcar a cirurgia?"

Falando do tempo, me ocorreu de uma canção que fala dele no sentido de sua passagem, é uma de Alceu Valença, onde ele diz:

Você quer parar o tempo  
O tempo não tem parada

O tempo em si não tem fim
Não tem começo

Você quer parar o tempo
O tempo não tem parada. 

Assim é que Alceu Valença alerta em Embolada do Tempo, que ele não tem parada e vale mesmo é fazer da viagem que resta um imenso prazer. 


Então, um grande abraço.

Marconi Urquiza. 

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Sábado, 29.08.26. 
Na Praça do Sebo, Recife.  Dia do seu 45° aniversário 

Em tempo:
Seu Naduca é Arnaldo Cavalcanti, amigo de papai e frequentador diário da Farmácia Confiança, lá em Bom Conselho, Pernambuco. Hoje existinta.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

A notícia não era boa

       

        No último dia 13 de agosto ouvi a notícia que um amigo e antigo colega de trabalho está  bem doente, desenganado, magro e recluso.
         A minha mente fez o milagre de trazer boas recordações do convívio.
         Fez seis anos que o vi pela última vez em Salvador nos jogos de aposentados do Banco do Brasil, depois não nos vimos mais. Em 2019 estive em Araruna (PR), onde ele mora, fui à sua casa, mas não estava. Voltei a Recife sem conversar com ele.
         Mas ontem,  ao saber do seu estado de saúde, senti uma paralisia, como se uma notícia tão ruim nada significasse para mim, mesmo assim avisei a outro amigo em comum, que me pediu o telefone dele para falar ou enviar uma mensagem. Foi só aí que despertei da minha indiferença. 
        Saí dela e escrevi uma mensagem, mesmo intuindo que ele não leria. As notícias vinda do Paraná deram conta que ele se isolou, não quer visita e nem conversas, não quer palavras que não vão resolver seu problema de saúde. Não quer consolo. 
        Agora mesmo chegou esse questionamento: Qual consolo se pode levar a uma pessoa com doença incurável?
        Ontem foi essa minha dúvida e dilema. O que e como escrever? 
        Fui socorrido pela ótima recordação de um poema que ele fez para mim por causa de um gol que marquei no estádio municipal de Araruna. 
       Um gol em que fiz uma embaixadinha e chutei a bola. Por causa dele, recebi essa homenagem sua no mural da agência do Banco do Brasil na cidade.
        Que posso dizer?
        Abração, amigo. Abração!

        Marconi.

O fofoqueiro

      


         Quando comecei a ler o livro Os Espiões, de Luís Fernando Veríssimo, uma impressão foi tomando conta, páginas e páginas, muitos capítulos, aquelas conversas dos personagens irradiando pedaços de suas próprias impressões e da minha, isto aqui está com jeito de fofoca.

        Aí o passeio pelas páginas escapou para algumas lembranças, como a do fofoqueiro clássico, o malidicente, daquele tipo ainda mais classudo, o que fica levando e trazendo conversas só para ver o "mel" correr solto. Desses eu fugia dos encontros, vai para lá boca fedorenta.

        Mas há o fofoqueiro, aquele meia boca, que só insinua, sabe de alguma coisa que pode desagradar e chega como conselheiro: Olhe, se eu fosse você, ficava de olho! De olho em quê? Até imagina que há um interesse, fique só de olho  e solta uma meia verdade e nunca diz nada inteiro, o desejo é ser importante e assim, vai manipulando algumas pessoas.

        Eu gosto mesmo, a quem chamo de fofoqueiro, daquele que chega, quando não tem assunto, inventa um, só para nos fazer rir. É o fofoqueiro das invenções, um criador de literatura oral das mais originais. 

Acho que essa história eu já falei por aqui. Adolescente, chegou um dos fregueses de papai e começou a conversar na farmácia, naquelas horas em que a freguesia não chegava. Conversa animada, cheia de "is", ilustrando cada passagem e arrematou: "Você conhece a história de Zé Mole?" Conhecia Zé Mole, um ancião que era freguês de papai. Aí contou como ele ganhou o apelido.

        "Certa vez, Zé Mole, que era 'inspetor de quarteirão' chegou perto de  um valentão que tumultuava uma festa e deu voz de prisão: 'Teje preso'," o valentão sabecou um murro em Zé e o derrubou no chão, na versão daquele fofoqueiro, do chão mesmo, Zé gritou: "Teje solto" e aí Zé virou Zé Mole. O pior é que eu, aos 17 anos, mangando do idoso, falei: Teje preso, teje solto. Resumo: nunca mais ele foi comprar seus remédios na fármacia de papai.

        Aí ontem (novembro de 2025) foi a minha vez, o do fofoqueiro intrometido, do pitaqueiro que entende ou não do traçado. Estou ali, lavando as mãos para ir ao encontro da turma da AABB de Recife, que participava dos jogos dos aposentados em Natal, nisso chegam dois atletas de futebol da AABB Natal. Um deles falou assim para o outro, não sei se eu bebo, se eu beber e tomar um gol eles vão reclamar e aí eu disse de supetão: Homem, vá beber, por que se tomar gol, eles vão reclamar do mesmo jeito. Ainda hoje pela manhã escuto uma das maiores gargalhada espontânea que ouvi na vida. O goleiro se desmachou em um riso longo e contente. Parece que aquele pitaco lhe abriu uma gigantesca e saborosa lembrança que o fez gargalhar.

        Mas não é mesmo? Peladeiro adora reclamar, adora alfinetar uma jogada ruim, adora se sentir o "Pelé" e arrochar no que ele ver de medíocre  no outro e muitos deles, esquecem de se divertir. Nessas horas não digo nada, mas a vontade é dizer: Homem vá se divertir, ora bolas!

        Homem vá beber, por que se tomar gol, eles vão reclamar do mesmo jeito.

        Olhe, não sou fofoqueiro, mas adora ouvir uma conversa mole.

           

        Abração, Marconi Urquiza.

        

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Rapaz, você caiu em uma armadilha

        


        Rapaz, você caiu em uma armadilha e não foi a primeira vez. 

        Para deixar o leitor precavido, o assunto é sobre pontos da política. Essa danada que está em nossas vidas, quer se queira ou não;  quer se envolva diretamente ou não. 

        Na realidade, somos influenciado pela política todo o tempo. Até mesmo na omissão dos gestores públicos. 

        Na atualidade, conversar sobre política, com pessoas próximas, é caminho espinhoso e fácil para um desentendimento aqui no Brasil, à distância, os conflitos viraram regra. Como é fácil brigar pelas redes sociais! Aliás, não tão recente, o agravamento vem desde 2010 e piorou significativamente a partir de 2018. 

       Mas vamos para o agora. Na quarta-feira da semana passada peguei uma conversa andando e dei a minha opinião. O primeiro erro, foi não me inteirar antes de todo o assunto e evitar que opiniões tivessem se chocado. Era para sendo sondado mais do que se tratava e principalmente da visão de mundo dos meus interlocutores.

        Dez minutos antes, um amigo me perguntou o que estava escrevendo e respondi, informando de cara, o título do romance: A quinta forma de matar.  Logo em seguida falei uma sinopse, dizendo que o enredo é sobre os odiados e odiadores  (os haters) da Internet e também sobre o que me motivou a escrever envolvendo esta temática, que foi o suicídio de um filho adolescente de uma cantora de Campina Grande (PB), agredido pela gigantesca pressão sobre a sua sexualidade em uma rede social, em uma única noite. Depois, ilustrei, citando o "gabinete do ódio" de Bolsonaro, que foi um vetor de muitas agressões Brasil afora.

        Após essa informação, o amigo saiu e eu fui ao sanitário, ao voltar é que caí na minha própria armadilha. 

        O assunto naquela altura era a política eleitoral deste ano no âmbito da presidência da República.  Diferente de outros períodos eleitorais, comecei a acompanhar com mais assiduidade as pesquisas.

        Nessa de pegar o ônibus andando, me baseando nas mais recentes pesquisas para aquela quarta-feira a que me referi e quando assunto pendeu para a perspectiva de resultado da eleição à presidência eu me meti e opinei: "Lula vai ganhar".

        Como se diz no popular, "cutiquei onça com vara curta" e caiu sobre mim uma avalanche de "argumentos", opiniões e dados que não espelham a realidade, pelo menos das fontes que li e são várias, pelo menos estas: G1, UOL, Diplomatiqué Brasil e BBC Brasil.

        Vieram argumentos sobre os juros do Bacen, preço do diesel, fraude do consignado do INSS, entre outras que não recordo.  Tentei argumentar cada um dos pontos com os fatos investigados pela Polícia Federal, ledo engano, não estavam para ouvir qualquer informação que contradissesse seus "convicções".

        A armadilha apertou ainda mais o "meu pé", foi quando, tardiamente,  percebi que aquele papo estava viciado pela virulência, especialmente de um deles, que argumentava sem querer ouvir e elevava cada vez mais a voz. 

        Era hora de ir embora,  aquilo ali não tinha "futuro", pensei até que foi perca de tempo. Levantei-me e saí; já distante ouvi a frase irônica, "Marconi, também te amo". De costas, respondi com o polegar erguido.

        Sim, o papo em si não me ajudou em nada a enriquecer meus conhecimentos, mas foi muito útil para não cair em armadilhas como aquela; que podem transformar um relacionamento ameno, quase de amigos,  em um estrago que afasta as pessoas.

        Ao final, lembrei-me de uma frase que reporta uma decisão já de vários anos: Se for para eu me estressar, estou fora. Melhorando o entendimento, se for para me estressar, não quero nem saber. Só quero gastar minha energia com coisa boa.

        Foi assim, mais uma lição para a vida; a intolerância também está presente em quem menos se espera, ou pela sabedoria de um dos ditados mais populares da minha adolescência: Quem ver cara, não ver coração. É preciso estar sempre atento.

        Por hora, é o que tenho. 

Abração, Marconi.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Tenho saudade do tempo em que os meus grandes medos cabiam em um abraço

  

     

Tenho saudade do tempo em que os meus grandes medos cabiam em um abraço.

        Não sei o autor desta frase, mas ouvi nesta quinta-feira durante a audição do programa de rádio de Geraldo Freire, na CBN Recife.  O papo rolava sobre a situação atual, da influência desmedida para muita gente das redes sociais e dos temores que elas induzem a uma multidão. De certo modo, o temor à Deus foi substituido pelo temor de viralizar alguma que gere ódio e sofrer a avalanche de um Bullying digital.

        Ao dizer está frase, um dos presentes, quando sentia medo ia à sua mãe e ela lhe abraçava. Coisa tão simples quanto poderosa. Um abraço da mãe para acabar com o medo.

        Não é só o abraço em si, é uma mensagem de acolhimento, de pertencimento e sobretudo de amor. 

        O medo é uma força poderosa, arrasadora, que suprime a esperança e a fé que move uma pessoa para buscar ter a sua vida prosseguindo em paz. Quando o medo é real, próximo, a pessoa se retrai, muitas vezes esse medo é como um vento de uma irradiação atômica, não se vê, mas é real, outras, como foi mencionado hoje, o medo comum de agradar àquela multidão "sem rosto", pronta a beber o sangue que enche a internet de ódio. 

        Um daqueles que estavam no programa de Geraldo Freire revelou uma saudade, revelada com esta frase, de uma vida mais simples. Do medo simples, sanado com um abraço.

        Bem, é tudo que tenho para hoje.


        Um grande abraço.

         Marconi.

        

        

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Copas do Mundo

 

Criada pelo Google Gemini


        Na última segunda-feira, o radialista Geraldo Freire perguntou aos presentes, no seu programa Acerto de Contas, qual a copa preferida de cada um. 1970, 1982, 2002 foram as preferidas dos cinco participantes.

        Isso me estimulou a pensar. Tenho inúmeras lembranças, não de uma única copa. Meu desafio é escrever em um parágrafo o que algumas delas mais significou para mim.

        Vou começar pelo fim.

        2014 -  A derrota pesada contra a Alemanha foi como uma caixa de cerveja Original estragada e um silêncio avassalador e perda da paixão pela seleção brasileira.

        Vamos às lembranças ótimas e amenas.

        No tri o futebol não tinha despertado em mim tanto interesse, não entendia quase nada de futebol e, quando acabava o jogo, ia me juntar à multidão que se aglomerava na Praça Pedro II, em Bom Conselho, para ouvir a música tema da Copa, pular, a gritar e gozar dos adversários derrotados. No dia da final, isso foi marcante; o Diário de Pernambuco trouxe um pôster de Pelé e de uma bandeira. Isto antes do jogo pela manhã. Papai colocou o pôster de Pelé no capô da Ford Rural e estacionou o carro em frente da sua farmácia, depois andou pela cidade como se desfilasse. Dessa copa conservei comigo  durante uns 20 anos uma tabela miúda da Copa, preenchida; depois a perdi. O Pra frente, Brasil, salve a seleção.... me levou a desfilar no 7 de Setembro daquele ano uniformizado com a camisa 11, de Rivellino. Um colega perguntou por que escolhi a de Rivellino, "Ah! Quero ter um chute forte como o dele".

        Foi a vez da TV colorida em casa. Havia poucas na cidade e, nossa casa se enchia de gente para assistir aos jogos. Duas recordações recorrentes: eu e meu irmão Marcelo, após cada jogo assistido, fosse do Brasil ou não, íamos para a frente da casa tentar imitar os gols e defesas dos goleiros. A lembrança marcante foi ver papai lacrimejar ao assistir a disputa do terceiro lugar e o Brasil perder para a Polônia em 1974.

        Já estava morando em Recife, estudante, e, por causa dos horários dos jogos não se chocarem com os das aulas, assisti a todos os jogos que passaram na TV. Neste ano, catei um caderno novo de molas, pequeno, e me pus a anotar todos os jogos, quem fez o gol, em qual tempo ocorreu e o placar. Lembro com clareza quando Roberto Dinamite dominou a bola com a coxa e fez o gol contra a Austria em 1978. Aquele caderninho ainda me acompanhou anos a fio. Lamento que o perdi.

        Eita, foi o ano do choque total. Na derrota da seleção para a Itália já estava trabalhando em Afogados da Ingazeira (PE). No terceiro gol, a cidade silenciou; um grupo de colegas que assistia ao jogo na pensão de Dona Duda emudeceu. Após o terceiro gol, demorei alguns minutos, sem acreditar que o time tivesse forças para empatar saí discretamente de Dona Duda e fui à agência do Banco do Brasil. Se a memória não falha, naquele dia, só era para trabalhar de manhã. Fui andando pela cidade, silenciosa, silêncio absoluto; só se ouviam os sons  altos das televisões. Naquela tarde de 1982 fui o primeiro a entrar na agência. Tentei evitar ouvir a narração do jogo, mas não havia nenhum local dentro da agência ou na cidade que não a ouvisse. Impossível. Cada minuto martelava em minha cabeça. Após o término da partida, pouco a pouco os colegas foram chegando à agência em silêncio, naquela decepção absurda; o trabalho foi o refúgio para pacificar a mente.

        Nestas copas não recordo de episódios marcantes, apenas a lembrança do pênalti perdido por Sócrates contra a França, em 1986 e do passe de Maradona em 1990 para o gol que nos derrotou. 

        Não houve nada de especial durante as partidas que antecederam a final, apenas uma opinião aos amigos que assistiam e estavam impacientes, disse que naquele instante o jogo parecia ser de xadrez, via uma disputa de estratégia contra Camarões, dada a sua marcação até então eficiente. Logo depois Romário fez o gol. O jogo contra a Holanda eu estava na estrada, não vi. A final foi aquele jogo tinhoso. Mas a lembrança vigorosa foi no pós-jogo da final, durante a comemoração. Havia um pequeno clube de veteranos de futebol em Bom Conselho, chamado Falta de Ar. Assisti à final na sede desse clube. Quando Baggio chutou o pênalti para fora, toda a turma saiu correndo para ir para a Praça Pedro II, que explodiu de alegria naquela noite de 1994. Demorei uns 10 minutos, fiquei apreciando a comemoração dos jogadores no estádio. Quando saí para a rua, vi algo maravilhoso. Estava no alto do cemitério, apelido daquela rua. Deste local se pode ver toda a rua Manoel Borba. Como se fosse algo coordenado, os carros entravam na fila, subindo a rua para percorrer a cidade em carreata gigantesca e parar na Praça Pedro II. Não uma carreata qualquer. Se na cidade houvesse naquele ano mil carros, todos estavam na rua naquele instante. Confesso que não imaginava haver tanto carro na cidade. O buzinaço tomou conta.

        Já estávamos no Paraná, Ronaldo Fenômeno havia raspado a cabeça e nossos três filhos também rasparam. Do futebol, lembro de um gol de Rivaldo, creio que contra a Dinamarca em 1998, em que ele deu uma rosca na bola, com o goleiro em cima dele, e a bola passou um palmo ou dois palmos acima das pernas do goleiro. E a tristeza pela derrota contra a França. Lembro que o Paraguai foi um time com uma defesa forte e só perdeu para a França. 

        Nessa copa, foi a minha copa do nervosismo; não consegui assistir a nenhum jogo, ficava ouvindo a narração nervosa de Galvão Bueno madrugada adentro. Só vi a parte da final do jogo contra a Alemanha em 2002. Vitória consolidada, Nega saiu com os filhos e os amigos deles em cima da carroceria da  Chevrolet S10 a correr a passeata; de tanto buzinar, a buzina ficou rouca. Ela, com os filhos, correndo pela cidade, e eu em pé olhando, com lágrimas, o time do Brasil fazendo a roda no meio do campo para agradecer pela vitória na Copa do Mundo. Impressionante.

        Agora temos mais uma copa; para mim é melhor não se empolgar. Se ganhar o Hexa, vou vibrar muito. Se não ganhar, o futebol não sairá do meu coração.

        E as suas copas?


        Abração, Marconi.

       

sexta-feira, 29 de maio de 2026

A sensação que desliguei

 A SENSAÇÃO QUE DESLIGUEI


    Fazia tempo que a sensação de desligar mentalmente não ocorria. Atualmente, em geral, estamos todos conectados ao Instagram, no Facebook, TikTok e outras redes sociais.  Elas são mestres em pequenas doses constantes do hormônio do prazer, a dopamina, o que provoca na maioria das pessoas a sensação de nunca desligar.

        Outro efeito colateral é a falta de foco. No nosso caso, isso atinge de modo grave o que, no passado, era motivo de prazer e ocorria espontaneamente: a leitura. Lia habitualmente, um livro após o outro. Hoje em dia, a tentativa de ler exige um esforço enorme, horário marcado, tempo marcado, tempo mínimo de leitura. Hoje vou ler 30 minutos, amanhã será uma hora e assim ocorre a tentativa de levar a leitura de um livro adiante. Se o livro exige mais concentração, ocorre o abandono. Nos últimos 15 dias, dois ficaram pelo caminho: Ave Palavra, de Guimarães Rosa, e Todos os Contos, de Clarice Lispector. 

        Já estou no terceiro livro nestes mesmos 15 dias. Agora é "O Nazista e o Psiquiatra", escrito por um jornalista. A leitura não é complexa, e por isso, já li 50 páginas desde a última sexta-feira, mesmo com toda a dificuldade de manter o foco na leitura.

        A maior oposição que sinto é o impulso de abrir o celular e cutucar o Instagram; a mente está naquele viés de vício. Ainda não, ainda posso evitar e evito muitas vezes, mas meu foco foi embora, a minha imaginação seguiu pelo mesmo caminho.

        Aquele sentimento que desliguei mentalmene tem tanto tempo que não recordo quando ocorreu. Com segurança, foi há mais de 15 anos; ainda trabalhava no Banco do Brasil. Foi tão estranho que sequer lembrava a senha de acesso ao sistema geral da empresa. Depois da aposentadoria, desenvolvi um modo de viver para não sentir o vazio da falta de uma rotina. Naquela vibração do ditado popular que diz: ' Cabeça vazia é oficina do diabo.' Até que, há quase cinco anos, comecei a cuidar de uma nanoempresa e que hoje posso afirmar ser uma microempresa. Assim, a rotina que era leve foi ficando agitada e longa.

        Saltando no tempo. Em abril, nós (eu e Cida) viajamos para participar do CINFABB (jogos de aposentados do Banco do Brasil) em Belo Horizonte. Ir, vir, participar, acompanhar, conhecer a cidade — viagem para uma das cidades históricas. Mesmo abrindo o sistema para passar os serviços para a equipe e atender online os clientes, a rotina foi leve. Leve. Doze dias de viagem.

        Quando chegamos, no dia 3 de maio, fui ao quarto que uso como escritório, sentei-me à cadeira e pus os braços sobre a mesa, olhando para o computador. Neste momento veio o sentimento e a sensação: "Eu desliguei". Sabe, me senti ótimo. Feliz, até.

        Bem, por enquanto, é só.

        Abração, Marconi.

        


        PS: ilustração gerada pelo Google Gemini

        

O tempo e suas experiências

            Aqui a idade é 13 anos. Tinha 17 anos e sentia inveja de muitos  rapazes da minha idade. Bebiam, dirigiam velozes, n...