A sala virara um salão, enorme, muito maior que seu tamanho real. Ao voltar a olhar para a mesa papai não estava. Era o silêncio e o vazio.
Veio 2022, li a notícia do assassinato do cidadão em Foz do Iguaçu, ouvi a viúva falar, a câmara focada pertinho do seu rosto, ansiava por captar a dor, mas captou o amor.
No outro dia um amigo juntou um áudio com a citação de um filme, o Sniper Americano, e foi chocante. Uma pancada no cucuruto, uma introspecção imediata. Horas em um silêncio que só compreende já precisou refletir profundamente. Todo contexto do diálogo do filme se sintetizou em uma frase contundente, : Lá fora tem uma guerra, se prepare. Não seja mais uma vítima, está é por minha conta. Cuidados com as provocações.
Tudo, tudo isso me fez mergulhar. Mergulhei nas recordações de quando escrevia páginas de dores do romance O Último Café do Coronel.
Imaginava, imaginava naqueles dias de escrita concentrada a dor, a angústia, a agonia e as balas que um corpo recebeu e pereceu.
Para escrever fui buscar um simulacro do que doeu e matou. Claro, não morri. Mas a angústia daquilo que desejava expressar em uma criação literária foi bem real.
Então voltei a pensar na viúva, para aquele lar no domingo à noite, caminhei pelo mesmo sentimento de 40 anos antes. O jantar daquela família, se é que ocorreu, teve um olhando para o outro e sentindo um vazio indescritível.
Por hora, é só.
Marconi Urquiza
