Ontem vi um gesto que cutucou a mente. Seria voluntário?
Simples ato de uma vaidade latente? Seria apenas um gesto corriqueiro? Ou
então, um aceno de um flerte inconsciente? Ou aquele gestual de tirar os
cabelos de trás das orelhas foi consciente de quem desejava se mostrar mais
bonita.
Tal sutileza me fez lembrar de dois escritores brasileiros
e as suas artes de mostrar tais nuances em seus contos.
O primeiro deles é o conto Missa do Galo. Nele, Machado de Assis apresenta o sutil flerte de
uma mulher casada para o sobrinho do seu marido, que estava hospedado em sua
casa. Pequenos sinais, palavras que soam como avisos, mas que eram uma abertura
para o rapaz, desde que ele se ligasse nela.
O outro conto, também de Machado, do qual não recordo o
título, vem da inteligência do escritor e do seu personagem central em atrair o
amante de sua esposa para um encontro furtivo em nome dela, onde a morte o espera.
O terceiro conto, tal qual o segundo, é o ódio que move o personagem,
masculino, a atrair o feminino em Venha
ver o pôr do sol. Aqui Lígia Fagundes Telles usa de uma maestria que ocorre
em muita gente: a dissimulação. O rapaz dissimula até o final a sua real intenção.
Flerte, ódio, traição, dissimulação, frustração,
ingenuidade. Vida e morte.
Tais contos são da era em que o comportamento humano era
influenciado pela comunidade, pelos jornais, pelo rádio, pela tevê, pelas
fofocas e pelos sentimentos naturais, educacionais e culturais de um povo. De
construção mais lenta, por meio da população de uma região, bairro, grupos de
convívio.
Agora vamos sair da era analógica para a digital.
A psicologia, a psicologia social, sociologia, psicanálise,
psiquiatria, as religiões, enfim, todas as ciências, entidades ou estudiosos
que se aprofundaram nos comportamentos humanos. Todo o saber a esse respeito
estão interligados para influenciar as pessoas nas redes sociais.
Recentemente li um artigo no Estadão intitulado: O
pertencimento é mais importante do que a verdade: a era da desinformação.
Pode-se traduzir desinformação como Fake News e a causa desse padrão comportamental
se reflete na demonstração de aprovação ao que se recebe, onde “a verdade de um
post ou a autenticidade não foram identificadas como motivo para retuitar”.
Esse pertencimento é o básico pelo qual as pessoas se juntam
em grupos. Para se sentirem participantes, de dentro de algo que lhe parece
valioso: ser aceito. Tal contexto preenche uma parte de suas vidas. Tal
percepção é muito importante para uma interpretação adequada e até possibilitar
uma conversa sem agressões.
Agora volto a matutar sobre aquele gesto de soltar o cabelo
de trás das orelhas e embelezar o rosto, dele é que veio as ideias abaixo.
Imagine uma pessoa com 61 anos, lá pelo ano de 2082. Que
teve acesso e viveu todo o tempo com um celular na mão, participando de grupos,
dando likes e cliques negativos e positivos. Lendo e absorvendo aviões diários
de notícias, mensagens, imagens, opiniões. Ela sente pertencer ao mundo, pois o
mundo é o digital.
As relações sociais foram todas intermediadas pelas redes
digitais, pela internet. Ela conhece pessoas distantes, sem nunca ter convivido
ou conservado longamente. As ama ou odeia, muitas vezes são indiferentes. O que
se tornou raro. Os seus sentimentos são intermediados pelos algoritmos,
incessantemente.
Como seremos em 2082?
Como estaremos? Ricos em nossa cultura e diversos ou apenas na medida da cultura permitida
pelos donos dos algoritmos,?
Abração e ótimo final de semana.
Marconi Urquiza
Tradução: Mind = Mente.
