O nome dele é Francisco, um dos milhões de Francisco do Brasil. Um dos tantos que sente que a cor da sua pele o pega e o faz sofrer
Mais de um ano já se passou quando ele escreveu em grupo do Whatsapp: Naquele tempo não tinha nada disso. Era início dos anos 1970, onde ele não sentia o racismo.
Eu também não, menino branco, conversava com os amigos e os tratava pelo nome ou pelo apelido sem nenhuma outra conotação. Mais que isso, só as briguinhas de criança e jovens.
Francisco era Francisco, Marconi era Marconi, Everaldo, era o Vevé, Manoel, o Mané. Até ganhei um apelido de um desses amigos que tinha dificuldade em falar meu nome e inventou um nome bem mais difícil e estranho: Malincônico. Já visse uma coisas dessas?
A reclamação em 2020 tocou em mim de modo diferente, tocou no sentido de pensar cada palavra, cada expressão, cada ponto e cada vírgula. Zerou a espontaneidade. É tanta vigilância, que em vez de falar, prefiro ouvir, pois é preciso cuidar para que as ideias preconceituosas que os anos de vida possam ter incutido em minha mente não magoem as pessoas.
Quando Francisco disse: Naquele tempo não tinha isso, senti a sua tristeza, a dor por um negócio que nem sequer poderia existir, sei que existe e é mal, maltrata, mata, exclui, acaba com as oportunidades.
Pois bem, Francisco, somos agora sessentões. Vai meu abraço, vai meu apreço. Estamos juntos.
Marconi Urquiza