Por Djalma Xavier.
Pra começo de conversa, trago dois personagens que tem algo a nos ensinar e ilustram bem as questões principais abordadas nessa crônica.
Antônio Vaqueiro, meu avô, já dizia em meados do século passado: “O olho do dono é que engorda o boi”. Ele não sabia nada de investimentos, mas sabia cuidar do seu patrimônio, que se resumia a 2 juntas de bois de arado e uma dúzia de vacas mestiças. Sua poupança era seu pequeno rebanho. Em sua sabedoria sertaneja, acrescentava ao adágio popular: o cuidado e a vigilância do vaqueiro é que evitam que o boi seja roubado e que a vaca vá pro brejo, literalmente.
Ivan Sant’Anna, ex operador do mercado de capitais, escreveu o livro “Rapina”. É ficção, mas acredito que o autor pode ter se inspirado fatos reais, visto que trabalhava na área. Tem como pano de fundo a bolsa de valores na década de 90 e detalha como corretoras lesavam os fundos de pensão em negociações de ações, com base em informações privilegiadas e corrupção de agentes públicos.
Por incrível que pareça, as histórias reais de “Seu” Antônio Vaqueiro e a ficção de Ivan Sant’Anna servem de alerta para nós beneficiários da Previ e se relacionam com o rombo do Banco Master. É de domínio publico que fundos de pensão são frequentemente alvo de tentativas de negociatas danosas aos seus patrimônios e associados. No caso da Previ, o olho do dono, ou seja, nosso olhar, nosso cuidado com nosso patrimônio é fundamental. Talvez esse seja nosso diferencial e, juntamente com nosso estatuto e governança, é que permitiram que nosso fundo de pensão tenha sobrevivido relativamente ileso a tentativas de uso político e evitado alguns investimentos de alto risco, como por exemplo, em CDB’s do Banco Master.
Vamos aos fatos: Está estampado na manchete do jornal Folha de São Paulo, em sua edição de 25.11.25, “18 fundos previdenciários investiram R$ 1,86 bilhão no Banco Master”. Verifica-se, ao se ler a reportagem completa, que o nome da Previ não aparece na FSP, nem em nenhuma mídia relacionada a fraude em tela. Conforme portal de transparência da entidade e declaração da diretoria da Previ, não houve nenhum investimento em papéis do Banco Master.
O Déficit da Previ, ocorrido durante exercício de 2024, foi denominado apressadamente pela mídia como ‘O ROMBO DA PREVI’, amplificado e alardeado exaustivamente, especialmente pela CNN. Entre fevereiro e março/25 o site da CNN noticiou quase que diariamente o que seria o rombo ou o roubo do século na Previ. Não se dava ênfase alguma ao que dizia a outra parte, no caso, a diretoria da Previ. Eles não estavam interessados na explicação de que os papéis de renda variável flutuam de acordo com o mercado e que as aplicações em Títulos do Tesouro Nacional também variam para baixo caso as taxas de juros subam, como era o caso. Um certo ministro do TCU abriu uma auditoria no dia 11.02.2025, e, com ajuda da mídia, o presidente da Previ foi massacrado publicamente, julgado e condenado, sem direito a defesa.
Percebe-se a parcialidade da CNN, que publicou no seu site no dia 15.02.25, o seguinte: “Para Jorge Boucinhas, professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV/EAESP), a principal questão em debate é se o rombo resulta de gestão inadequada ou de atos ilícitos, como corrupção. A Previ é comandada pelo sindicalista João Luiz Fukunaga.”
Houve até um certo deputado, fritador de hambúrguer em Miami nas horas vagas e oportunista em tempo integral, que aproveitou o ensejo e desceu o sarrafo na Previ e no BB, com óbvios objetivos políticos.
Passado um tempo, verificou-se que realmente o déficit da Previ era decorrente de flutuação normal de mercado, que não havia rombo de R$ 14 bilhões e que o valor real do déficit acumulado era de aprox. R$ 3 bilhões, ao final do ano fiscal de 2024. Desde então, passaram-se 10 meses, e o resultado acumulado da Previ até o mês 10/2025 é superavitário em R$ 9,48 bilhões. A carteira de investimentos da Previ cresceu aproximadamente R$ 14 bilhões no ano de 2025, atingindo a cifra de R$ 239 bilhões.
A mídia estrategicamente esqueceu do assunto, pois divulgar resultado positivo não dá ibope. A CNN também não toca mais no assunto. O relatório da Auditoria do TCU para apuração do déficit, ao que tudo indica, não deu em nada. Se houve algum prejuízo para a Previ em função de acusações infundadas, fica por isso mesmo. Dessa forma, coloca-se uma pedra em cima e vamos em busca de outro assunto para desgastar o governo.
O que realmente foi espantoso foi a reação de alguns colegas, da ativa e aposentados. Posso estar enganado, mas aparentava que estavam torcendo contra a Previ, de quem são beneficiários, dando um tiro no próprio pé. Segundo parte deles, “a atual administração iria afundar a Previ”; “Já vi esse filme antes”, etc. Realmente, no passado, houve prejuízos em outros fundos de pensão e isso pode ter causado essa reação nessas pessoas. Na Previ foi diferente, essas pessoas receberam BET, igual aos demais colegas. Tento ter empatia, mas... Entretanto, ao que tudo indica, pelos números e fatos elencados, essas pessoas estavam equivocadas. Ainda bem, para todos nós.
Bem, mas vamos ao que interessa. A situação da Previ hoje e as perspectivas futuras. As previsões econômicas costumam não se cumprir ou mesmo macular a fama de oráculo dos analistas econômicos. Mas para 2026, há um consenso que haverá redução da taxa Selic.
A carteira de renda fixa da Previ se beneficia em um cenário de queda de taxa de juros. Basta a perspectiva de baixa de juros futuros para que o valor de mercado dos títulos públicos ( NTN-B) se eleve substancialmente. O efeito de uma redução na taxa Selic da ordem 2 ou 3% numa carteira de títulos públicos no valor de R$ 166 bilhões é muito positivo no resultado do fundo. Se nos próximos anos as taxas de juros retornarem para patamares civilizados, o efeito no balanço da Previ será fantástico.
A renda variável vem tendo um resultado consistente, com a alta das ações da Vale, Neoenergia, Itaú e Vibra. Somente essas quatro empresas elevaram o patrimônio da Previ em aproximadamente 10 bilhões de reais, em 2025, sem contar os dividendos.
Seria ingenuidade, muita ingenuidade, supor que ao longo de sua história a Previ não foi alvo de fraudes e tentativas de ingerência, propostas de corrupção ativa e ofertas de investimentos que, invariavelmente, teriam como consequência prejuízos para seus aposentados. A quantidade de recursos financeiros do fundo de pensão sempre atraiu os olhos dos governantes de plantão. O que fez a diferença em relação a outros fundos de pensão, que tiveram seus fundos dilapidados, foi nossa governança, nossa politica de investimentos e a autogestão. São os próprios beneficiários, que dependem da Previ pra sobreviver, que cuidam do seu patrimônio. Enfim, somos milhares de beneficiários, instruídos e conscientes. Nós que temos de cuidar do que é nosso. Cada noticia que envolva a Previ precisa ser analisada e ter sua fonte verificada. O site da Previ deveria ser visitado com mais frequência e ter seus números fiscalizados por nós. É de nosso interesse. O preço a pagar pela solidez da Previ, que nos garantirá uma aposentadoria digna, é a eterna vigilância.
E para um futuro mais distante, o que podemos esperar? As incertezas econômicas são muitas. Todo investimento tem um grau de risco, maior ou menor, mas sempre tem. Mesmo os investimentos mais seguros, em títulos públicos, estão sujeitos ao risco país e a um risco de moratória da dívida pública. A médio prazo, isso seria pouco provável, mas, econômica e estatisticamente falando, não seria impossível. Por outro lado, a curto prazo, com certo grau de otimismo, podemos ter esperança de dias melhores. Pode ser difícil, mas não custa nada sonhar: O Superávit deste ano (2025) está garantido e, em um cenário de queda de juros em 2026 e 2027 (possível), com crescimento da Bolsa (imprevisível), há uma possibilidade de recebermos novamente o Benefício Especial Temporário. Esse filme já vi. E gostei.
Excelente análise!
ResponderExcluirHélio, valeu!
ExcluirLi e reli o texto: muito bom.
ResponderExcluirDidático, não ataca ninguém ao por os pingos nos “is” de forma clara. Mas registra com elegância a falsa imparcialidade da mídia quando convém botar fogo na fogueira política em que segue ardendo o país.
Ainda que o público leitor é composto por membros da família BB, porque outros públicos, por mais esclarecidos que sejam, não entenderão o brilhante desfecho brincando com o “BET” – termo hoje mais associado à jogatina espalhada pelo Brasil afora.
Leia-se na abertura do parágrafo final: “Ainda bem que o…”
ExcluirHayton, obrigado pelo alerta. Informei a Djalma.
ExcluirParabéns amigo, expor nossas percepções sempre tem um custo, no Brasil estilo pastoril "tem somente duas cores, sendo uma inimiga da outra" o custo é maior. No caso da PREVI além da governança tem a Política de Investimento que muitos críticos sequer sabem da existência e finalidade.
ResponderExcluirAdemar, valeu!
ExcluirValeu Djalma xavier pela excelente e profunda análise.
ResponderExcluirA mídia, infelizmente leva algumas matérias para o viés político, mas só quando tem interesse. Veremos muitos políticos enroscados no caso do "Tamborete Master". A cobra vai fumar.
Simbora que eu também gostei do BET.
Didático. Parabéns, Djalma!
ResponderExcluirObrigada, Marconi, por publicar.
Eu sou um leigo em economia. so queria entender, por que depois de 10 anos aposentado, venho pagando, mensalmente para o plano cerca de R$ 1000,00?..Quando na ativa passei um bom período sem pagar a contribuição e ainda recebi o BET.
ResponderExcluirValeu, Marconi, por nos dar a oportunidade de leitura de uma crônica, tão oportuna para o momento.
ResponderExcluirMeu colega/amigo/irmão, Djalma Xavier, genial o seu texto. Fizesse uma análise cirúrgica.
Debatemos algumas vezes sobre o tema, bem no auge do alarde exponencial feito por alguns veículos de imprensa, sobre ROMBO na nossa PREVI, ao invés de DÉFICIT. O tempo foi passando e o que conjecturamos se confirmou. O DÉFICIT virou SUPÉRAVIT.
Somos sabedores, que todo e qualquer negócio, tem seu risco, inclusive, o investimento do vovô Antônio Vaqueiro. Já pensou, morrer uma vaca, não deixa de ser prejuízo, nem que seja passageiro. Oxalá, investimentos de um fundo de previdência, do tamanho da PREVI. Sustos, sempre iremos ter, mas na certeza de que a política de investimentos adotadas pela PREVI e seu grau de governança corporativa, nos tranquiliza.
Que possamos embolsar nova BET, por mais um bom período.
Gostaria de agradecer de publico ao amigo Marconi pelo espaço que me foi concedido no seu blog. A crônica aqui publicada foi produto de conversas com colegas, de leituras diversas, de análises de ações no site Status Invest, bem como coleta de dados no portal da Previ. Entre um dado e outro, inseri minha opinião sobre o caso. Opinião, cada um tem a sua e sei que alguns colegas ainda discordam de minhas conclusões. Sem problema. Procurei não ofender ninguém, espero que tenha conseguido. O objetivo principal é divulgar dados concretos da Previ e conscientizar colegas da necessidade de acompanhar e olhar a Previ, com um olhar de 'dono', como o fazendeiro que cuida, defende e depende de suas vaquinhas pra sobreviver.
ResponderExcluirParabéns, Djalma !!! Muito boa e esclarecedora sua análise !!! Sigamos em frente!!! Como diria um colega das antigas: "arregala o oi" !!!
ResponderExcluirParabéns, Marconi!
ResponderExcluirUma análise muito bem feita, dentro da conjuntura econômica atual!
Fco. Melo
Parabéns Marconi em mais uma excelente análise.
ResponderExcluirExcelente, Djalma e Marconi. E "O olho do dono é que engorda o gado", também se aplica a outras entidades, às quais estamos vinculados, como a CASSI e o próprio Banco.
ResponderExcluirO "Mercado" é um monstro de olhos grandes e apetite voraz. O de Planos de Saúde, então, sempre cobiçou a carteira de clientes (leia-se, nós) da CASSI.
Infelizmente, há alguns anos atrás, ouvi alguém (que prefiro manter no anonimato) dizer, com todas as letras e numa conversa pessoal, que "preferia que a CASSI fosse vendida".
Mas, se retratou a pouco tempo, quando precisou da CASSI. Disse que "caiu na real", não só pelo atendimento que recebeu, quanto por ter constatado a voracidade com que agem os Planos de Saúde e as Seguradoras do Ramo, em busca do lucro. Os clientes? Que se danem.
Já sobre o Banco, as investidas da "Iniciativa Privada" são constantes. Até iniciativas sutis como propostas de mudança do nome ("Banco Brasil"), ou da logomarca (que acabou mudando um pouco, infelizmente), foram tentadas.
Graças ao nosso "Espírito Corporativo", que felizmente ainda existe, e ao nosso sentimento de pertencimento, é que tais investidas não logram êxito. Que tenhamos forças e consciência, para continuarmos assim.
Excelente análise e brilhante artigo, PARABÉNS!! Devemos analisar melhor as fontes antes de emitirmos qualquer comentário.
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