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sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Foi assim, foi o título do convite: FEIJOADA BENEFICENTE.

 Solidariedade – Wikipédia, a enciclopédia livre

Quase sempre é

altruísta

Toda ação solidária

Busca ajudar o

próximo

E tem a lógica

gregária.

Da omissão nos 

redime

Pessoa que forma o

time

Nunca é beneficiária.

Poema de Ademar Ferreira Rafael


O momento, de tantas ações  solidárias, exemplificadas constantemente desde março, reforçando o caráter solidário de muitas pessoas na busca de ações coletivas para minorar o sofrimento de muita gente.

Eu estava atrás de uma inspiração para escrever a crônica desta semana, mas não pensava em nada que se assemelhasse a esse despertar do altruísmo, no entanto, eu achei esta história prontinha. Escrita na forma de um relatório, impessoal, escondendo todo o sentimento que nos moveu:

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13/10/2008

7:42

Foi assim, foi o título do convite: FEIJOADA BENEFICENTE.

     Caraúbas, 1990.

     Soubemos por vigilante da agência do Banco Brasil que a filha do vigilante do Banco do Estado do Rio Grande Norte tinha problemas nos olhos e que já havia perdido o olho direito. Um mal que levaria à cegueira total. Como notícia, como dor estava distante de nós, sentimos naquele momento apenas compaixão.

     Naquele época, discreta, minha esposa fazia entrega mensal de cestas básicas, havíamos adotado cinco famílias para as auxiliar nos alimentos.

     Cerca de dois meses após saber a notícia da garota de 13 anos, a filha do vigilante, eis que ele vem na agência, conversa com seus colegas de profissão e depois se aproxima de mim e faz o seu pedido. Conta-me a sua história e a sua falta de condição de curar a filha. Digo-lhe que não tenho dinheiro para lhe ajudar e fico por aí. Mas pedi que voltasse no dia seguinte.

     A noite converso com a minha esposa, [Cida], lhe narro o problema e juntos buscamos uma alternativa para conseguir o dinheiro. De um estalo surgiu a ideia de uma feijoada beneficente.

     Assim escolhida a alternativa, bolamos em casa mesmo os convites e tratamos de vender, 150 convites.

     Começamos a preparar a feijoada na sexta-feira anterior ao evento, fomos dormir de madrugada, no sábado cuidamos da organização da AABB, de como se faria o atendimento, do local em que ficaríamos com as panelas, a que hora lá chegaríamos, assim por diante.

     Do sábado para o domingo ficamos toda a madrugada cozinhando a iguaria lá no quintal de casa, conversando, cuidando do fogo de lenha e  usufruindo da fresca da madrugada, no quente Rio Grande do Norte.

     Sem experiência da quantidade que se colocaria em cada panelinha, fomos vendo com preocupação se acabar a feijoada antes das 14:00h, hora informada nos convites para o término do serviço. De 10 em 10 minutos a gente contava os ingressos, ainda faltam 40, ainda faltam 30, ainda faltam 20, refizemos a contagem e de fato apenas 120 pessoas vierem pegar a sua feijoada. 

     Frequentemente a gente chamava o vigilante [o pai da jovem]: como tá de gente lá? Tem muita gente, está chegando mais? Sim. E aí ficamos coletando esta informação e avaliando o que poderíamos fazer e ainda mais, torcer que não aparecesse todos os que haviam comprado o convite.

     14:00h. "Vamos encerrar logo, pois, do jeito que vai não sobra nem para o nosso almoço" e realmente, sobrou bem pouco, que  só deu para a gente almoçar, oito pessoas [que trabalhavam no evento], sem encher a barriga. 

      Feitas as contas e pagas as despesas repassamos ao vigilante 90% do lucro e 10% para uma senhora, que sem a gente dissesse que lhe pagaria algum valor, se propôs a nos auxiliar na empreitada.

      Dois meses após o evento vem o vigilante e nos informa: "Seu Marconi, a doença estancou, ela não vai ficar cega, mas ainda tem seis meses de tratamento, muito obrigado." 

    Apareceu e Agradeceu todos os meses até a nossa missão terminar naquela cidade, [em março de 1992], sempre trazendo informações acerca do tratamento da sua filha. 

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Quando eu pensava naqueles dias, em certo momento, alegre com essa recordação, me veio a imagem do dia em que o vigilante, do qual não lembro o nome, chegou onde eu estava e disse: 

- Ela está curada, agora só precisa ir de seis em seis meses para acompanhamento.

Passados 30 anos, espero que aquela menina seja uma mulher feliz, pois me sinto muito contente ter feito parte daquele esforço para salvar a sua visão.  

Esse altruísmo que a gente tem visto se aproxima do que disse Paulo Freire sobre a Esperança do verbo "Esperançar,  ... o esperançar de juntar-se com os outros para fazer de outro modo ..."

Abração, Semana Alegre.

Marconi Urquiza

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Distopia - por aqui

Black Mirror no blockchain - A distopia virando realidade | Cointimes

ROSA DO TEMPOS

O calendário informa,
quem será que 
passará o umbral?

O registro dos
tempos, que de
tempos da rosa 
dos ventos
vem comunicar.

Quem passará o
portal?

Deus não é maldoso,
muito menos
manhoso.

Mas a dor não
pode evitar.

É construção do
mundo,
Que no fundo
harmoniza,
avisa
que a rosa dos
ventos de tempos
em tempos rodará.

(Araruna-PR, 19.8.2000)

N
ão precisa concordar ...

    Eu não saberia explicar a distopia brasileira se não recorresse a um exemplo que convivi durante muitos anos. Na época dos acontecimentos eu começava a planejar a minha dissertação: Evidências de Tensão Ética em uma Instituição Financeira. Por ter me chamado a atenção, eu fui guardando as comunicações, da então, diretoria de distribuição, sobre desvios éticos que estavam ocorrendo na empresa.

A partir do episódio da denúncia de um ex-funcionário, que disse a um canal de televisão problemas internos da empresa. Problemas relacionados ao uso de robôs de informática para implantar pacotes de tarifas. Por causa disso, o diretor estampou na mídia interna a sua preocupação e começou a exigir que todos os funcionários lessem o código de ética, fizessem seis cursos relacionados à ética empresarial e respeito ao Código de Defesa do Consumidor. De um ponto de vista formal, a empresa seria a mais ética no Brasil.

    Eu continuei imprimindo e anotado as comunicações que tinha a ver com ética, quaisquer que fosse a temática subjacente. Guardei 30 dessas mensagens, separei 19 para estudar com a metodologia da Análise de Conteúdo. Quando o trabalho estava sendo finalizado, chegou uma mensagem proibindo se vender capitalização para pequeno produtor rural, o que era legalmente proibido. As comunicações iniciais traziam a mensagem de conscientização. 

A questão ética continuou forte, as metas a cumprir, com uma cobrança intensa, incessante, ainda mais forte e com exemplos abundantes de rebaixamento de gerentes gerais de agências, por não entregarem "os números". Mensagem que dizia o que de fato  era importante, e mais enfática, impossível. 

     O down grade era a ferramenta mais utilizada para convencer a se entregar a meta. Os meios legais, regulamentares e não regulamentares, mas aceitos, todos eram utilizados, desde que não vazasse.

Não é que um dia desses. Já após a deflagração do distanciamento social. Eu estava  expurgando meus arquivos físicos inúteis e achei uma mensagem que dizia, em resumo: Todos as vendas de capitalização para os micro e pequenos produtores rurais, beneficiado pelo programa de agricultura familiar, não somariam para o cumprimento das metas específicas deste produto. 

     Ao reler, eu recordei do meu pensamento ao ver pela primeira vez essa mensagem: "Não adiantou conscientizar" (A força do medo de perder o salário de gerente foi maior); "não adiantou as punições seletivas" (Os substitutos, impregnados pela cultura de resultados - por qualquer método - repetiram a venda proibida). Restou quebrar tudo, retirar o número do número. Os corpos foram indóceis.  

Essa foi a primeira distopia que tive consciência. Todo o paradigma ético, normativo, punitivo, do medo de perder algo valorizado, havia sido quebrado. Era a empresa reconhecendo que os parâmetros de controle e domínio das pessoas havia falhado, vencido por uma cultura empresarial muito poderosa. 

    Segundo a historiadora Lilia Moritz Schwarcz, o Brasil vive uma dupla distopia. A saúde, agravada por causa da pandemia e o outro, por causa da política. É o caos que se vive no país, e quando, muitos de nós, desejávamos que a liderança se espraiasse, pelo que imaginamos, de bom senso, e a pandemia fosse gerenciada a partir de uma coordenação consensual. 

Na última terça-feira, eu vi uma live (gravada) da historiadora Lilia, ela discutia com o mediador, o livro 1984, de George Orwell. Citou sobre a opressão, o caos, citou corpos dóceis, de Michel Foucault. 

A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, corpos ‘dóceis’. A disciplina aumenta as forças dos corpo (em termos econômicos de utilidade) e diminui essas mesmas forças (em termos políticos de obediência) […] a coerção disciplinar estabelece no corpo o elo coercitivo entre uma aptidão aumentada e a dominação acentuada. Foucault - Vigiar e Punir

Ao apresentar tais termos, ela acrescentou, palavras interpretadas por mim:
- Já vivemos o Caos (Confusão todo dia, confusão todo dia com método e propósito); 
- Já vivemos a opressão (A imprensa, as pessoas que manifestam a sua opinião contra esse caos são combatidos pelas ferramentas da informática e apontadas aos "corações" dos combatentes desse Caos para serem agredidas no verbo, a fronteira do físico já passou a tempos); 
- Corpos dóceis (As pessoas se auto impõem as restrições imaginadas pelo Grande Irmão, o Grande Caos, também já vem ocorrendo em larga escala.).

    Depois de muito tempo voltei a ler opiniões sobre o momento brasileiro. Há uma projeção que em agosto teremos 100 mil mortos de Covid-19. Há outra, que o Brasil poderá ser o país com maior número de mortos pela pandemia no mundo. 

E só não há maior resignação diante de tantas mortes e desse Caos todo, com desvio de foco da mazelas para outros assuntos, por que um um  grupo de brasileiros criou um site. Site onde os nomes dos brasileiros mortos pela Covid-19 e suas histórias são escritas em um memorial, o Memorial Inumeráveis. Para estes mortos não serão apenas um número, uma estatística. São gente, com nome, sobrenome, onde nasceram, as suas famílias, onde morreram. Gente! Gente!

     Retornando a questão das novas leituras. Nesta quarta esbarrei com um artigo individual que citava que no Brasil estava sendo utilizado pelo Caos os métodos nazistas. Os métodos nazistas consagraram o caos como método de dominação inicial da população. Primeiro vem o ódio, lá no passado foi fácil unir contra uma minoria, que já carregava um estigma de pelo menos 500 anos. Concomitante foi se criando o medo, mantendo o medo em alta, entre outros, daí vem aspectos do estado totalitário. Vigilância interrupta, punições rápidas e sem os ritos do judiciário, uma milícia forte e onipresente. 

Um dos métodos comentados pelos historiadores do nazismo é a comunicação transversal. Alguém vai dizer assim: "Olhe fulano, me deixe em paz." Um monte de sicranos, conhecendo o código, começa a agir e a perturbar, incomodar o fulano apontado no recado. Isto no mínimo.

     No nazismo havia muito esta atitude a partir do seu líder, o que era subentendido para a maioria das pessoas, para as tropas da SS (Schutzstaffel, em português, Tropas de Proteção), "cegamente leais", era claro e era uma ordem. 

Dias desses, eu vi o filme "Nunca Deixe de se Lembrar", contextualizado durante o nazismo e após a segunda guerra na Alemanha oriental e também na Alemanha ocidental. Há uma frase que eu guardei. O personagem principal ouviu uma pergunta, sobre ele ter fugido antes da construção do muro de Berlim: "Como é que você sabia que que eles iam fazer? - É só pensar ao contrário do que eles dizem. " 

     É preciso conhecer o método e o pensamento. "Como é que você sabia que eles iam fazer?"

O Caos precisa da polêmica, qualquer caos. A menção de um medicamento ineficaz só existiu para manter a estratégia de arenga em evidência, pois se houvesse concordância, seria escolhido outro ponto para polemizar. A estratégia é inventar novas verdades, repeti-las, mudá-las, nova repetição dessa nova verdade inventada, vem mais uma verdade, mais outra, mais uma, mais outra, mais uma, mais outra, mais uma, mais outra... Atacar as pessoas, atacar as pessoas, até que sejamos "corpos dóceis", aí poder sair cantando: "Tá dominado, tá tudo dominado"...

     A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, corpos ‘dóceis’. A disciplina aumenta as forças dos corpo (em termos econômicos de utilidade) e diminui essas mesmas forças (em termos políticos de obediência) […] a coerção disciplinar estabelece no corpo o elo coercitivo entre uma aptidão aumentada e a dominação acentuada. Foucault - Vigiar e Punir


Filtrar é a essência, fazer a profilaxia das mãos e do rosto. Água, sabão, pano duplo, cheirar de longe. Outra profilaxia é fundamental, a do pensamento. Lembre da frase: SE PUDER FIQUE EM CASA. "SE PUDER SE INFORME." Com isso a distopia brasileira pode começar a ser vencida pela nossa compreensão da realidade.


Abração, semana venturosa.
Marconi Urquiza

Links de citações:

Extra, livro para se aprofundar:
     

Existimos: A que será que se destina?

Viktor Frankl             Começou, começou, começou aquilo que muitos refugam, mas têm uma apaixonada, apaixonada reação ao ouvir opiniões c...