Amigas, amigos,
lá no comecinho da Bienal do Livro de Pernambuco deste ano eu fui bater um papo com mais dois escritores sobre o livro O último café do Coronel e os seus livros, naquela tarde de 03 de outubro estava cheio de expectativa, menos de público, já havia visto alguns eventos assim, em que apenas estavam os escritores, o pessoal do som e as apresentadoras da Bienal. De resto, mais ninguém. De repente, várias amigos chegaram e eu fiquei feliz. Mas muito inquieto. Começaram as perguntas, as primeiras respondi um tanto toscamente, depois fui ficando mais seguro e mais acostumado com o timbre de voz do mediador, que era baixo. Além de tudo, havia uma poluição sonora que nos impedia de ouvir claramente.
Depois que acabou, fiquei mais um tempo na Bienal, andei um pouco, o tempo passou, e em parte comecei a rememorar alguns contextos do ínício do projeto, em que fui a várias pessoas para conversar a respeito do evento que vitimou papai e elas não quiseram, ou não puderam, se esquivaram. Havia passado tanto tempo, e relembrar àquelas dores não era desejado.
Os dias foram passando e eu, como que encostei o livro em um canto de alguma estante, como se as lembranças mais dolorosas dos eventos provocassem em mim dor, desconforto, e um incômodo que a alma não queira enfrentar. Penso que de certo modo, até ontem, quis fugir da história que eu próprio escrevi.
Mas de 10 dias para cá a emoção saiu do passado e caiu no presente, nosso cão, o Freud, de 7 anos e meio, anda bem doente. Até julho ele tinha uma ótima saúde. No final daquele mês foi feita nele uma limpeza de tártaro com sedação, a partir daí, como marco temporal, ele apareceu com uma anemia profunda, acelerada, cavalar, beirando à morte.
Começamos a correr atrás de veterinários, mas um diagnóstico preciso, capaz de ensejar um tratamento correto, ainda não foi feito. Sabe, nós nos afeiçamos ao pequeno animal, ao mesmo tempo que o sentimento de uma perda, que pode ser próxima, foi crescendo em mim uma desconfiança que viramos uma "mina de ouro", que a cura não é pretendida, afora por nós. Às vezes isto beira a descrença que a doença de Freud não tem cura, mas juntando pedaços de reflexões, que o diagnóstico mais adequado e mais rápido não está sendo feito por uma incapacidade moral ou técnica, quem sabe?
Por fim, nesta segunda-feira, percebi no semblante dos funcionários da clínica que havia algo errado, o que só aumentou a desconfiança, aí, na quarta-feira nos avisaram que a amostra de sangue para um exame complexo coagulou, era preciso tirar mais sangue, de quem está muito anêmico? É quase uma irreponsabilidade.
Em tempo, Freud tomou uma tranfusão de sangue na quinta-feira passada, não melhorou quase nada, e hoje, também quinta-feira, a sua palidez só aumentou. Nisso tudo, só uma boa notícia, ele voltou a se alimentar quase normal.
Mas sabe aquele sentimento que em algum momento fomos ludibriado. Oxalá seja só a frustração de um tutor que não vê o quadro com otimismo.
Não tem como se desapegar de Freud, temos que ir administrando os sentimentos que ele, a qualquer momento falecerá, se a cura não for encontrada.
Bem, por hora é só.
Abração, Marconi.
