sexta-feira, 13 de junho de 2025

Basto, o amigo que se encantou

           


        Ontem à noite passei um bom tempo escutando forró e o You Tube foi me passando uma enormidade de canções, especialmente de Luiz Gonzaga. Dentre as músicas a do disco Luiz Gonzaga Sertão 70 de Gonzaga, nós tínhamos em nossa casa e fazia muito tempo que não ouvia. Boca de Forno, Já vou mãe e vários outras com tons tristes. E aí pensei, Gonzagão estava em uma fase da vida triste. De minha parte lembro que 1970, das que lembro foi uma das maiores secas que puder presenciar e por causa dessa seca eu tenho uma recordação recorrente. Várias vezes lembro e lembrei-me deste episódio. A alegria de um e a inveja de outro.

            Eu fui o invejoso e um amigo da escola o invejado.  Era metade de 1970, a seca queimava tudo, as frentes de trabalho espalhadas por todo canto e lá na região tinha uma na Serra de São Pedro, município de Bom Conselho.  Naquela tarde, finalzinho, já escuro, eu passava no calçadão da Praça Pedro II e na altura da loja A Princesa e dei de cara com o colega, todo empoeirado, dos pés a cabeça, rosto enegrecido pelo suor, pela poeira que tornava aquela parte da estrada, onde faziam melhorias, cinzenta todo o dia.

            Quando ele me viu disse:

            - Marconi, olha Marconi, olha! - e mostrou várias cédulas de 1 cruzeiro, verdes. Naquele instante eu senti inveja. Hoje e quando lembro do episódio e faço uma comparação relativa da vida dele e da minha na época, sinto que exagerei. 

            Muito anos se passou e eu e nossa família fomos cair em Barbosa Ferraz, noroeste do Paraná. Cheguei lá como gerente do Banco do Brasil.  A cidade tinha uma AABB simples. Um belo minicampo gramado, um salão aberto com churrasqueira, no qual no final dos sábados ficávamos conversando após a pelada. 

            Quem tomava conta era Basto, voz mansa, jeito calmo, e um coração bondoso.  Ele e Zefinha formavam um casal tão parecido. Calmos, bondosos. Moravam em uma casa simples, parte de madeira, parte de alvenaria. A casa dele era vizinho à AABB.

            Conversa vai, conversa vem, aí ele conta a sua história. Menino havia chegado a Barbosa Ferraz com os país para trabalhar no plantio de hortelã, então o "ouro verde" daqueles tempos. 1959 e parte dos anos 1960. Ele disse que era tanta grana que não sabia com o que gastar. Que o pagamento era feito por aviões que jogava os malotes de dinheiro para pagar pelo produto.

            Basto deu a entender que poderiam ter ficado aricos, mas eram pobres. Em outro momento, ele disse que havia nascido em Palmeiras dos Índios, Alagoas. Não sei se já havia dito, mas lhe informei que era de Bom Conselho, Pernambuco. Entre uma e outra, são apenas 28 quilômetros. Entre ele e eu, um mundo de diferenças de vida e que se encontraram em diáspora que a gente enfrentou em 1995. Quando no desespero, saímos procurando onde trabalhar e não ter que jogar fora 10 anos de empenho e desempenho profissional.

            Estávamos com três crianças. Com 9, 6 e 3 anos.  Victor, Raphael e Philip. Cida, ótima de papo e de relacionamento, fez amizade com Zefinha, amizade que perdura até hoje. Não sei precisar quando, Basto e Zefinha começaram a tomar conta dos nossos filhos. Eles ficavam na casa deles, ora em nossa casa, quando, pelos compromissos profissionais eu e Cida tínhamos que nos ausentar por algumas horas. A afeição era tanta que um dos filhos a tinha como segunda mãe.

            Chegou a hora de ir embora. A empresa exigia que gerentes tivessem curso superior, e tive que retomar os estudos em uma faculdade de Cianorte, e fui gerenciar a agência de Terra Boa e saí de Barbosa Ferraz. Sabe aquela sensação de luto, que havia deixado para trás pessoas muito queridas. Foi o que me acompanhou durante  muito tempo. 

            O tempo passou, voltamos para o Nordeste, e em 2019, 16 anos após a nossa saída do Paraná, fomos ao casamento da filha de outro casal amigo. Sérgio e Maris. E em uma tarde fomos visitar Basto e Zefinha. Quando chegamos ele estava só, Zefinha tinha ido ao cemitério cuidar do túmulo de familiares. Conversamos um pouco, tomei um cafezinho, o que ele sempre oferecia. Disse-me  que estava muito doente, e seu semblante era de tristeza. Logo depois, Cida chegou, pois tínhamos que voltar para Araruna, era final da tarde, e havia outra uma visita, a  Madalena, também de Barbosa Ferraz, que estava convalescendo de uma cirurgia na casa da mãe em Quinta do Sol. Tudo muito rápido.

        Basto e Zefinha, Adão e Madadela, eram nossos amigos, um convívio leve e que fazíamos nos sentir em casa naquelas paragem distante de nossa  família.

        Tempo depois, prometi a mim mesmo que voltaria para fazer uma visita demorada a Barbosa Ferraz, já foram 6 anos e Basto já se encantou. Ficou a lembrança daquele sorriso doce, tranquilo e de uma enorme boa vontade conosco. Um enorme coração bondoso.

        Bem, por hora é só.

        Abração, Marconi.

        

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