sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Fi de uma égua


            E você, como xinga?
        
        Uma réplica que me fez pensar, e ainda contínuo pensando.

        Em dezembro surgiram algumas propostas de serviços extra-agenda. Não tínhamos braço para atender a 5 clientes,  então falei com um trabalhador temporário,  no jargão do nosso negócio: um extra.

        Ao ligar para ele fechamos um acordo. Na primeira semana ele cumpriu o acordado e atendeu aos clientes com uma garra surpreendente. Tudo certo, com a sua anuência e a certeza que ele atenderia essa agenda extra, fechei mais serviços.

        Quinta e sexta-feiras fechou um grande atendimento antes do previsto, no entento, logo na segunda-feira seguinte falhou e justificou.  Veio a terça e a quarta-feira seguintes, tudo certo, cumpriu, recebeu elogio. Preocupado com o atraso que havia ocorrido na quarta-feira pedi para deixar os equipamentos no meu carro ao final do dia.

        Acordei com ele que o pegaria na manhã seguinte.  Sem nenhum sinal de embróglio voltei para o hotel. Antes das sete da manhã me dirigi à casa dele, na     metade do percurso mandei uma mensagem e a resposta me quebrou: Não iria trabalhar naquele dia e o pior, silenciou. Ainda assim insisti e fui na sua casa, zero de êxito. Conversei com a esposa dele, até lhe disse que só havia fechado os serviços pela "certeza" que ele havia me dado. 

        Para não queimar com o cliente, agendado há mais de uma semana, fui atender junto com outro funcionário, ainda aprendiz. 

        Serviço concluído, sentei-me na frente do prédio em uma pequena praça e fiquei conversando um pouco com o funcionário em treinamento, de repente lembrei da quebra do acordo do trabalhador temporário e exclamei irritado: Fi de uma égua. Aí me espantei.

        O funcionário olhou para mim, segurando o capacete da moto. Ele em pé, eu sentado em um banco de cimento sob a sombra de árvores, sem mudar o tom de voz, na maior calma, perguntou: O que a mãe dele tem haver com isso?

        Vou repetir: O que a mãe dele tem haver com isso?

        Qual não foi a minha surpresa. Tentei sair com uma resposta que justificasse meu xingamento, não achei, busquei jogar de volta a saia justa indagando como deveria xingar apenas o indivíduo e acanhado descobri que não sabia xingar a pessoa sem trazer a mãe,  a mulher, o pai, etc. Um terceiro.

        Vi ali um traço de uma visão diferente de mundo, uma consideração sutil do rapaz pelo trabalhador temporário e um respeito à sua própria mãe, já falecida.

        O primeiro pensamento, na esteira de uma reflexão que se aprofundou, foi que, de novo, caiu sobre minha cabeça a exagerada mania de confiar e acreditar nas primeiras impressões sobre uma pessoa. Uma certeza incerta. Uma falha que me acompanha a vida inteira, colocar fé em pessoas que não se conhece adequadamente.

        A intuição ajuda,  e como ajuda, mas o viés da certeza que me tomou por aquele trabalhador embotou a percepção de qualquer sinal que algo podia dar errado. Outro ponto desse episódio, é que o senso de oportunidade deve estar escorado em uma retaguarda organizada, se não, vai queimar a melhor coisa que se conquistou até agora, a de uma empresa confiável.

        Bem, voltando ao xingamento. Caí no Google e fui pesquisar outras formas de xingar apenas o indivíduo, vi poucas.  Apesar desse impulso inicial, importante mesmo é  a luta diária para não chamar alguém de Fi de uma égua quando essa pessoa merecer um xingamento, mesmo apenas mental.

        Sabe de uma coisa, no final foi a memória que me socorreu com uns poucos xingamentos individuais. Agorinha mesmo lembrei de um jeito de xingar só o indivíduo, fui na juventude, lá em Bom Conselho de 50 anos atrás e achei isso aqui: Ele não vale um Cibazol. Ele não vale a banda de um conto. É um desqualificado, entre outros que a memória foi trazendo do dicionário de papai quando se irritava com alguém.

        Ele não vale um Cibazol era do povão. Se você não sabe o que Cibazol vou explicar. Ele era um medicamento (comprimido) vendido antigamente nas farmácias e de tão barato, não era nada valorizado. 

        Pronto,  agora posso extravasar. 

        Mas, e a resposta para a indagação "O que a mãe dele tem haver com isso?" Mesmo merecendo uma resposta sensata e educada, não achei, ainda estou a procura.

        E você, como xinga?

        

        Por hora é só. 

        Abração! 
        Marconi Urquiza


        PS: A imagem que ilustra esta crônica foi criadapor mim pela IA no Bing.

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