sexta-feira, 30 de julho de 2021

No trabalho, de novo



            Saber o que vai fazer, preencher o tempo, fugir da depressão, ser e se sentir útil no pós-aposentadoria é um desafio diário. Isto é, quando possível.

            Sendo possível. O aposentado, como regra geral, vai tentar se ocupar de muitas maneiras. Por experiência pessoal, com pedaços de atividades, trabalhos entrecortados e quase sempre de curto prazo. Coisa de dias. É um picadinho medonho a cada dia. Diria, que este aspecto é o normal.

            Os laços corporativos ou profissionais, regras, rotinas, amigos, colegas se esgarçam, tanto que às vezes estranhamos, em muitos momentos, ao se ver um antigo colega. Parece que uma ponte se rompeu em um rio largo, onde só vozes lançadas pelo vento chegam e ainda assim, fracas. Esse também é um quadro geral.

            No meu caso, a aposentadoria foi um duplo choque. Primeiro, por ter projetado uma saída em certo período e as circunstâncias me empurraram para fora do trabalho, rompendo esse planejamento. Depois, porque o que desejava fazer foi interrompido ao concluir o mestrado, dois anos antes.

            Achei, após muitos meses de aposentado, uma salvaguarda na escrita e que me ajudou a ir atravessando os dias, me tornando, de certo modo, um pequeno especialista na escrita criativa. Esse negócio de criar histórias me enche de satisfação.

            Aí, neste último mês comecei a atender, no home office, os clientes da Safe Clean João Pessoa. Tendo o Whatsapp como a forma prioritária de comunicação. Raras são as ligações.

            Como tudo, é um aprendizado. Descobrir como “falar” no zap. Aos poucos vi que usar emoji não é comum. Retirei. A fala dos clientes é pura objetividade, nos cabe mudar o enfoque, tirando do preço e tentando levar para o valor (qualidade) do serviço. Ainda não sei como fazer, estou tentando.

            Certos aspectos da comunicação oral, valem, mas não excessivo. Pedir desculpa e agradecer é essencial. De certo modo, ser veloz na resposta é fundamental. Entender o momento do cliente, tem que ser coisa de um ou dois minutos. Também estou aprendendo. Tem muita gente boa nisso, por causa deles comecei a praticar o Follow Up. Em resumo, é não desistir. Se não der naquele momento, voltar a falar com o freguês. Aliás, veja a pessoa sempre como freguês.

            É uma venda de varejo e a atividade, serviço. O essencial e ter atendimento na ponta de excepcional qualidade. Serviço primoroso. A gestão das expectativas é mais que exigida. Muitos fregueses contratam o serviço porque querem tirar manchas, mais que a limpeza.  Tem mancha que não sai. Nem com o melhor produto, técnica, tecnologia e o melhor profissional. Este é um dos aspectos dos mais difíceis, comunicar o que o cliente deseja e o que o serviço pode oferecer.

            Não sei dizer se isso é vantagem ou não. Passei a vida inteira, desde a infância, trabalhando no varejo e vendas de baixo valor, considerando o segmentos nos quais atuei. Primeiro foi na farmácia de papai, depois nas agências de varejo do Banco do Brasil.

            Uma mentalidade eu levei para essa vida de bancário. Naquele tempo da farmácia, cachete era sinônimo de comprimido. Muitas vezes o freguês só queria um Sonrisal (antiácido). Só um. Era o varejinho diário. Na nova atividade, da pós-aposentadoria, eu ajo com a mesma mentalidade. Cada negócio, cada cliente, cada consulta, não tem rosto, condição social. A fala, raríssimo, apenas o digital. Atendo como se fosse único, como a maior venda do planeta, sempre pensando que as pessoas são diferentes. Esta é uma vivência antiga que aplico no novo, adaptando ao meio e à oportunidade. Independe de tecnologia. É experiência e feeling.

            O pior nessa atividade, é que não existe venda recorrente, repetida em curso prazo. Se ocorrer, é de no mínimo 12 meses. É pedindo ao cliente que nos indique, pedindo que nos avalie no Google e nos esmerando em ser o melhor a cada atendimento. Nos comunicando incessantemente nas redes sociais. 

            É preciso, em serviço, ser obsessivo com a qualidade. Para tudo que for relacionado.

            Só o bom nome faz esse negócio prosperar. 

            Pois bem,  estou me sentindo como o personagem de Robert De Niro, em ambiente que não é propriamente estranho, e é a mesmo tempo é tudo novo. 

           A linguagem digital,  as imagens que devem ser trocadas a cada postagem,  as avaliações renovadas como em um Uber, aí,  de vez em quando alguém liga e que ouvir a voz, nisso vem a velha tecnologia da conversa que inspira confiança. 

          Bem, eu sou o novo Senhor Estagiário e estou me descobrindo.

Abração, 

Marconi Urquiza 


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