sexta-feira, 1 de agosto de 2025

O Dom do mistério

 



         Nesta semana ouvi um recorte de uma entrevista de Marcelo Rubens Paiva em que citou o período da pandemia de Covid-19, ele falou sobre ter escrito durante e sobre a pandemia, especialmente sobre ela.

        Falar, escrever, conversar sobre esse sofrimento virou meio um tabu e também das dores a serem esquecidas. Eu estou nesta corrente que se lembrar da sofrência durante a Covid é angustiante. Então tenho evitado.

        Dois dias após ter ouvido o comentário de Marcelo Rubes Paiva, na última quarta-feira li um e-mail em que um membro da Academia de Artes e Letras da AABB Recife informava o envio de sua obra para a Antologia 2025. Isto me livrou de perder o prazo para enviar a minha contribuição. 

        Faz tempo que crio apenas o normal, não que queira algo excepcional, mas um pouco melhor que o normal. Foi então que recorri ao estoque de contos. Estava lá, só utilizei.

        Abri o arquivo com os 78 contos e no primeiro título que me chamou a atenção eu cliquei e li o rascunho. Ao contrário de alguns contos, esse carecia de revisão, ajuste na diagramação, ajustes nos diálogos, enfim, um ajuste geral para que se tornasse compreensível. Comecei a debulhar o texto como se fosse uma espiga de milho. Depois de uma hora terminei.

        Vou fazer uma confissão. Comecei a leitura, releitura, e fui lendo sem entender o que o escritor queria, EU. Mas prossegui, fui lendo e corrigindo, ajustando. Ainda na metade , o escritor (EU) continuava obscuro, aí apareceu no conto, Machado de Assis, aí, a mensagem foi ficando menos enbaçada e foi nesse ponto que a recordação veio plena.

        Com a vacinação dando esperança de sobreviver à Covid fui dando vazão a uma infinidade de ideias que se chocavam na cabeça. De julho a novembro de 2021 me pus a escrever, havia terminado o romance Decisão de Matar e desejava me manter sadio, a escrita foi o caminho para isso naqueles longos meses. Então fui misturando fatos e fui deixando a mente ditar de modo espontâneo a escrita. São mais de 60 contos com temas diversos, aleatórios.

        Foi quando escrevi um conto inspirado pela personagem Maria Moura, do romance Memorial de Maria Moura, de Rachel de Queiroz, no qual fiz uma narração fantasiosa e para mim, saborosa. Esse conto foi fenomenal, despertou em mim a vontade de criar contos nos quais trago algum escritor para o contexto. 

        Foi quando comecei a me lembrar de  alguns sentimentos das leituras de vários escritores e foram caindo as ideias sobre a caneta e o papel A4. Eles foram inicialmente manuscritos.

        Ariano Suassuna, Clarice Lispector, Jorge de Lima (do poema A Invenção de Orfeu), Jorge Amado, Machado de Assis, Gilberto Freire, Antonio Maria (cronista de 3.000 crônicas, compositor, etc), Manoel Bandeira e outros.

        No conto que trago Gilberto Freire criei um encontro hipotético com ele, muitos anos depois que timidez nos fez fugir do seu aniversário de 80 anos. Eu vi na TV Globo que ele estava fazendo 80 anos e teria na sua casa um evento. Então eu convidei para meu irmão Marcello para irmos, e fomos. Ninguém nos barrou e subimos a ladeira que levava à sua casa, já dentro de área dela no bairro Apipucos, Recife. Então empolgados, andamos e subimos a escada frontal, quando paramos à altura da porta de entrada, envidraçada, lá vinha ele caminhando pelo corredor para chegar à sua biblioteca, estava dando entrevista a uma TV. A timidez tomou conta e voltamos rapidamente. Fomos embora. Perdemos a chance de o conhecer pessoalmente.

        Muito tempo depois li vários livros dele e Ingleses no Brasil me deixou apaixonado por uma pequena frase: Não foi tanto, decerto! Mas foi quanto. Em abril de 2002 escrevi um poema com esta frase como título, em 2021, finalmente consegui apresenta-lo a Gilberto Freyre, ao fantasiar um encontro com ele, e que a ficção me permitiu finalmente vencer a timidez.

        Aí o mestre Machado chegou, me pegou e puxou para dentro das letras, provocando o conto que intitula essa crônica. 

        Então um sentido de urgência chegou, de repente lembrei que todos aqueles contos podem caber em um livro, dois livros, até três pequenas coletâneas e que o tempo encurta a cada dia.

        Finalizo com as últimas estrofes do poema: Não foi tanto, decerto! Mas foi quanto.

        Decerto! Foi quando

        o coração se abriu

        para querer e 

        o resultado é mais

        que uma soma

        percebida

        É mais uma conta 

        Sentida,


        Então pode se dizer

        que o amor não


        É tanto, decerto! É

        quanto.


        Bem por hora, é só.

        Abração, Marconi Urquiza.

Existimos: A que será que se destina?

Viktor Frankl             Começou, começou, começou aquilo que muitos refugam, mas têm uma apaixonada, apaixonada reação ao ouvir opiniões c...