Começou
dias antes, a paquera rolava solta. Os sorrisos doces, discretamente
convidativos entusiasmavam o rapaz, que deixou a adolescência e a magreza para
trás. Andava ficando bonito. O que não tinha curado era a timidez.
Na véspera, perfumado, encontrou a
paquera, ficaram proseando na praça. Os amigos e as amigas perceberam o clima e
se afastaram. Sorrisos dali, sorrisos de cá, olhos brilhando, só faltava o
tímido dizer: vamos namorar.
A menina festeira havia se encantado
pelo rapaz. Para ele era uma tortura saber que ela gostava de dançar, pois,
vivia fugindo de festas, das danças. De conversa lenta ficava esperando a
brecha milagrosa da moça, que por sua vez aguardava que o modelo de iniciativa
masculina daquela época ocorresse.
O baile de São João estava ali,
pertinho.
— Você vai amanhã para o baile?
— Claro, papai já deixou — respondeu
Rossi.
— Vai ser muito legal.
— Vai, vamos estar lá — foi quase
como um convite para ele dançar com ela.
O papo, a menos de um metro de um
abraço e de um beijo ficou mais um tempo. O rapaz se balançava, sempre achando
que qualquer avanço era demais.
Dez da noite, a irmã passou:
— Vamos, Rossi.
— Vamos, Roge.
Rossi foi com mão por cima da do
rapaz e fez um afago, apertou, sorriu e disse:
— Até amanhã — ele gaguejou ao
responder.
As irmãs desceram pela praça, ele
olhando para elas, na esquina, Rossi se voltou e balançou a mão. Quase que ela
mandava um beijo.
No dia do baile não se encontraram
durante o dia, umas duas horas antes de ir para o clube, o rapaz se encontrou
com um amigo e o convite veio assim:
— Vamos tomar umas cervejas para a
gente se animar.
Sabe, funcionou, o rapaz tímido, já
não estava tão acanhado, chegou ao baile todo animado e foi ao encontro de
Rossi, em pouco tempo estavam dançando. Ele com uma calça jeans Topeka,
estalando de nova, uma camisa xadrez, perfumada pelo tecido novo. Todo cheiroso
com Mens Club, barba feita, cabelo bem penteado. O melhor, se sentia bonitão
com a sua linda bota de cano curto de couro marrom.
Por minutos a dança correu fluída, alegre, repleta de energia. Pena que durou pouco.
Com o São João se achegando, muitas
festas juninas depois, ele assistiu a um vídeo que passou atômico pelo seu
celular. Cutucou a cabeça, repetiu o gesto de passar os dedos entre os cabelos,
agora mais comportados e ralos. Saiu da casa e foi para o degrau na frente
dela. “Vou esquentar o sol, hoje tá friozinho”.
Ele olhou para o celular e fez um
chamado de vídeo, reviu o amigo e perguntou:
— Esse vídeo que mandasse é daquele
tempo?
— É.
— Me lembrou daquele São João que eu
parecia o maior dançarino do mundo.
— Te empolgasse.
— Foi. Estava todo diferente.
— Foi.
— Foi bom.
— Que foi bom, foi!
— Quase namorasse.
— Foi. Faltou pouco.
— Por não namorou?
— Homem, e a timidez deixava! —
falou sorrindo, embalado pela doce lembrança.
— E hoje?
— Hoje — parou para pensar — Hoje,
não sei dizer. Os gostos mudam.
— Diz logo a verdade, deixa de
enrolação! — intimou o amigo.
Um leve sorriso apareceu para o outro,
que ouviu:
— Nem sei onde ela está.
O vídeo foi desligado e aquele homem
viajou no tempo, onde se viu, sem timidez, alegre, repleto de energia, bailando
com Rossi. “Pena que durou pouco”. Não foi pouco, está vivo nas suas lembranças
de mais de 40 anos.
