sexta-feira, 17 de junho de 2022

Minha vida no Amazonas

 

Platô do Piquiá - Boca do Acre (AM)

        Parafraseando Hannah Arendt, vivemos tempos sombrios (Homens em tempos sombrios), onde o poder se apresenta carregado de maldade. É incessante, o que exige um esforço contínuo em contrário e também para não sucumbir e se deixar levar por essa maldade, se transformando em uma vítima ou um agente dela.

        Esse episódio envolvendo o jornalista e o funcionário da FUNAI me fez viajar na memória, de algumas experiências que andavam totalmente esquecidas. Não que outros acontecimentos de violência não tivessem sidos noticiados. Violência policial no Rio, latrocínios, feminicídios, novo cangaço. São tantos os casos que, neste momento, às 4:31h desta sexta-feira, percebi como isto se naturalizou. Não é a repetição que se aprende, mas a repetição que vai se entranhando e deixando algo extremo ser "natural", naturalizado.

        Geograficamente os assassinatos ocorreram na região do rio Javari, na vasta área de Atalaia do Norte (AM). Em 1987 eu fui morar e trabalhar em Tabatinga (AM), cidade maior e próxima a Atalaia do Norte. Ao chegar na cidade, já de cara ouvi que era uma cidade onde narcotráfico era o fator de girava a economia da cidade. Que era preciso ter cuidado. Foi a época que violência na Colombia, com Pablo Escobar, estava no auge. 

        O aviso inicial me precaveu como deveria ser o comportamento naquela cidade. Discreto, olhos que não viam alguma coisa perigosa, boca fechada e sódar conta da própria vida.  Tinha, então, 27 anos ao começar tal experência.

        Alguns anos depois, volto ao Amazonas, fui trabalhar em Boca do Acre, cuja cidade tinha mais relação comercial e afetiva com Rio Branco, no Acre, do que com Manaus. Fui ser gerente do Banco do Brasil. Logo que cheguei rolava um caso de um furto de uma D10 Luxe de um médico, que diziam estar envolvido com drogas. 

        A D10 estava segurada pelo Banco do Brasil. Quando essa situação me foi inteiramente informada, com todos os detalhes, saí sondando internamente sobre o caso.  Primeiro se dizia que o médico facilitou o furto do carro e depois que foi indenizado, vários meses depois, ele apareceu rodando no carro pela cidade.

        Sabe, mesmo com todo aviso, pedi a um colega que conhecia bem o carro,  para fazer uma vistoria visual e verificar se era o mesmo carro que havia sido furtado. E a resposta, é que era.  Com esta informação veio o recado: "Não se meta, ele é perigoso, sintetizado na palavra bandido."

        Este caso ficou meio frio, até que o médico foi embora da cidade alguns meses depois, seu contrato com a prefeitura não foi renovado.

        O tempo correu em Boca do Acre, não é que certo dia, após a gente andar cobrando uns devedores, entra um cidadão, de sobrenome Pamplona, que havia feito financiamento para plantar seringueira, em cultivo com mudas. O empreendimento não deu certo, os seringais artificiais não produziram e ele faliu.

        Ao ter a dívida ajuizada, ele entregou ao Banco do Brasil, para a empresa ser fiel depositário, um barco de madeira grande e era dotado de um motor potente, caro. Valia um bom dinheiro.

        Ele chegou a mim e disse: Não tenho como pagar a dívida, o bem que servia de garantia eu entreguei ao banco.  Pegamos a pasta dele e lá estava o documento em que ele entregou a posse do barco ao Banco do Brasil.

        Beleza, tudo certo, o cidadão foi embora. Foi ele sair, eu pedi ao colega que atuava com Fiscal para verificar onde estava o barco, o que havia ocorrido com ele.

        Situação corriqueira, até aquele momento. No dia seguinte ele chegou, tenso: Olha só tem o barco. O motor Fulano levou, está com ele. Esse ele, era um funcionário que havia ido trabalhar em Rio Branco. Beleza, pensei, vamos ver com ele, disse ao fiscal. 

        Foi aí que a coisa virou.  Esse Fulano emprestava dinheiro para os colegas. Depois, tinha um pai com histórias cabeludas com coletores de borracha nos seringais que gerenciava.

        Arredondando. O funcionário se apropriou do valioso motor e tinha vendido o mesmo.

        Abri um processo disciplinar, não é que certo dia, o rapaz apareceu na agência e logo no início da conversa colocou uma bolsa com revólver sobre a mesa. Na hora não senti medo, os cuidados só vieram depois que avisei ao meu chefe em Manaus.

        Veio inspetor, entrou no apaziguamento os maçons da cidade, e a coisa acalmou um pouco. Mas o processo rolava em Brasília. De repente um funcionário do Banco do Brasil, do órgão que julgava tais processos, me ligou.

        — Olhe, sou Humberto e estou cuidando desse processo que você abriu. Pediu algumas explicações e fez uma observação. Quando comentei o que era me ordenou: Abra outro processo e mande para cá. Então eu disse:

        — Humberto, olhe, esse rapaz andou me mostrando arma, tá rolando o maior estresse e eu me sinto ameaçado.

        — Abra, abra, rapaz.

        — Humberto.

        — Abra. É uma abertura simples.

        Obedeci, fiz como ele determinou.  Fiz um relatório e mandei. O tempo passou, a coisa esfriou.  Muitos meses depois chegou um resultado do julgamento daquele processo, o rapaz foi inocentado e manteve-se empregado no Banco do Brasil.

        Escapei, escapei de uma represália por um detalhe. O complemento que Humberto pediu foi considerado sem base factual.  O primeiro caso, na decisão, nem se tocou no assunto.

        Hoje, passados quase 30 anos, penso que uma rede de proteção invisivel me ajudou a criar os filhos.


        Por hoje, é só.

        Abração, Marconi Urquiza.

        

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