quinta-feira, 24 de julho de 2025

A alma apareceu ao ouvir as músicas de Luiz Gonzaga.

 

(*)

        Ontem vi um vídeo curto com o depoimento do Dominguinhos e sobre o que ocorreu com ele no momento em que gravava A Triste Partida. No meio da gravação ele parou, ficou em silêncio e chorou. 
    
        Quando ele falou que esteve na gravação em que Luiz Gonzaga fez do poema, que estava no estúdio. Disse que com o disco pronto levou para seu pai, que de imediato colocou para tocar e quando começou a ouvir destampou a chorar e naquele instante, ao recordar, chorou de novo, emocionado, também chorei, também me emocionei, também senti-me como um retirante que sai do Nordeste e não consegue mais voltar.
        
        Era final de 2001, há meses a vontade voltar para Pernambuco vinha se insinuando. As dificuldades de crescimento na carreira me deixava com uma carga de frustração enorme, constante e contrariando o ótimo desempenho de pelo menos 5 anos. Desempenho ruim, guilhotina, desempenho superior, nada. Era aquela realidade na época do Paraná. Então eu havia começado a alimentar o espírito para escapar dessa frustração, ou fugir dela. A história me puniu assim mesmo.  A carreira estagnou do mesmo jeito.
        
        No final de 2001, houve uma reunião geral em Curitiba com os adminstradores do Banco do Brasil no Paraná. Três dias, ouvindo os líderes da empresa, aí chegou a hora de retornar, de pegar o vôo de volta para Maringá. 

        Esperando a hora de embarcar, saí passeando pelo Aeroporto Afonso Pena. Foi uma tentativa de evitar que o tédio tomasse conta da alma. Doido por leitura e livros dei de cara com uma banca de revistas. Na hora em que me aproximo cresceu aos meus olhos um CD de Luiz Gonzaga. Luiz Gonzaga ao vivo. Volta para curtir. De tantos discos dele, de vinil ou CD aquele era uma novidade absoluta para mim. Leio a contracapa, a história daquele CD e daquela gravação ao vivo. Um resgate de quase trinta anos de quando ocorreu o show ao vivo no Teatro Tereza Rachel, no Rio de Janeiro, em 1972. Estávamos em 2001.

        Quanto é? Paguei sem barganhar qualquer valor.
        
        No avião venho ao lado do gerente de Cidade Gaucha, com quem tinha afinidade e que infelizmente não recordo o seu nome. Ainda no voo comentei sobre a vontade de voltar a Pernambuco, cuja ausência completava 13 anos. Eu vivia um momento de melancolia. Aperto financeiro sem fim. A carreira estagnada, uma sensação que a minha origem atrapalhava minhas ambições profissionais. Era preciso tomar decisões.  Há muito que sentia que nossos filhos não tinham uma forte relação afetiva com os outros parentes e eu achava que eles deveriam ter.
        
        Ao chegar em Maringá, o amigo me oferece carona até Cianorte, a 70 km de distância.  No meio do caminho peço para ouvir o CD, ele permite e aí comecei a fungar, a falar da saudade, a me sentir, mesmo com um emprego ótimo, um salário que me permitia de vez em quando voltar e rever os parentes, a me sentir um retirante. Naquela hora de viagem ocorreu uma tsunami de sentimentos evidenciados pelas canções que ouvia, pelo sorriso misturado às lágrimas por estar ouvindo as prosas de Luiz Gonzaga. Foi uma sofrência inimaginável.
        
        Volto ao que disse Dominguinhos sobre o choro do pai, que saiu de Garanhuns para nunca mais voltar. Que quando o pai ouviu A Triste Partida chorou copiosamente, ele afirmou, aquilo foi a morte, a morte do pai, embora estivesse vivo. Até arrisco interpretar o sentimento de Dominguinhos, o pai entregava os pontos de nunca mais ver Garanhuns e os seus amigos. Estava derrotado. A música fez romper a barragem da saudade.
        
        Sabe, cada música que Luiz Gonzaga cantou no show, reproduzida no CD, tocou uma parte do meu coração. Cada canção me lembrava de uma parte da minha vida, da infância, da juventude, da vida adulta. Do assassinato de papai, dos encontros em nossa casa, especialmente na Semana Santa e no Natal. De ter me sentido expulso de Pernambuco quando o Banco do Brasil promoveu a drástica reorganização em 1995. De ter procurado o Superintendente do Banco do Brasil de Pernambuco e não ter nenhum efeito prático. De ter me sentindo muito feliz por ter sido nomeado e ido embora para o Paraná. De ter me sentido enormemente feliz quando reencontrei a família em Curitiba, após 4 meses de separação.

        A volta de lá doeu, e engraçado, é que fui recebido por vários colegas do Banco do Brasil como um invasor das vagas do estado. Um certo quê de discriminação. Mas isto o tempo ajudou a superar.
        
        Há cerca de 26 anos estávamos em Bom Conselho para batizar Philip, em certo instante me afastei e fui para a calçada frontal da Igreja Matriz, me escorei na mureta e comecei a olhar para as duas praças adjacentes. A grande, praça Pedro II e a menor, Praça João Pessoa, que preserva o nome, mas virou mera rua.
        
        Fiquei vários minutos olhando tudo ao redor, quase nada era igual ao tempo de adolescente. Corri os olhos para dentro tentando achar aquele rapaz, magro, andando desengoçado, atravessando a praça na longitudinal indo ou vindo de sua da casa. Não achei o rapaz e nem o menino, o adulto que olhava todas as edificações queria achar um sentido especial naquela miragem, mas não achou, o passeio apenas reconheceu as praças que vira outras vezes. Nem saudade, nem alegria pelo retorno momentâneo. A sua alma estava neutra. Na praça não estava sua alma, a alma apareceu ao ouvir as músicas de Luiz Gonzaga naquele CD.
        
        Felizmente pudemos voltar e vivemos vários anos de um congraçamento familiar saboroso. Encontros natalinos em Bom Conselho lindos e alegres. Não temos mais, mas que valeu muito, valeu. Esses encontros valeram a pena ter voltado do Paraná.
        
        Bem, chegou a hora de ouvirmos Dominguinhos, razão desta crônica.
                

Clique no vídeo.


                Por hora é só, abração!


                Marconi Urquiza.


(*)
Imagem retirada deste site: 
https://novabrasilfm.com.br/app/uploads/2023/02/dominguinhos-foto-daryan-dornelles.jpg


13 comentários:

  1. Grande Marconi, excelente crônica.
    Creio que muitos deste seleto grupo, já se sentiram como retirantes e com tremenda saudade de voltar às origens. Em casa, aprendi a ter uma vida cigana, pois apenas na fazenda em Guanhães-MG, consegui viver oito anos por lá. A partir dos oito anos eram no máximo dois anos em cada cidade. No Banco, o máximo de tempo que consegui passar foi em Caruaru e no final Recife. Daí adotei a música, Vida do Viajante, do Mestre Luiz Gonzaga para minha vida:
    "🎼Minha vida é andar por esse país
    Pra ver se um dia descanso feliz
    Guardando as recordações das terras onde passei
    Andando pelos sertões e dos amigos que lá deixei
    Chuva e sol, poeira e carvão
    Longe de casa, sigo o roteiro
    Mais uma estação
    E alegria no coração
    Êh, saudade!"🎼
    E enquan­to temos saúde, vamos viajar e desbravar as belezas dos rincões de nosso país e do mundo. Eu ainda não consegui conhecer tudo por aqui, mas estou tentando. Simbora, pegar a estrada 🤝

    ResponderExcluir
  2. Caro amigo, Esses sentimentos que voce detalha no texto eu conheço de muito perto. No Mato Grosso do Sul, em Minas Gerais e no Pará eles dormiam e acordavam comigo. Fomos repatriados e hoje o Nordeste nos abraça. Valeu.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Amigo, Ademar. Abração, muito obrigado por compartilhar sua história.

      Excluir
  3. Já tinha visto esse vídeo, Marconi. Também me comoveu.
    Sou filho de um bancário maranhense com uma paraibana, que um dia me levaram, ainda menino, para Alagoas. Dessa travessia, herdei um certo espírito cigano que me fez, mais adiante, virar pernambucano, baiano e, por fim, candango no Planalto Central. Por isso, entendo bem as cores e dores que você tão bem resgata.
    Quando, em 1995, você procurou o superintendente do BB em Pernambuco e nada mudou — como você mesmo diz —, seguramente Érico Furtado, meu antecessor e guru, nada pôde fazer. Um ano depois, assumi o cargo e me deparei com dilemas parecidos: alguns conseguimos resolver; outros, infelizmente, não.
    Tempos duros, meu caro. Mas seguimos — nós e até o BB, na época combalido desde 1990, com o advento do Plano Collor.
    Fato é que setembro passou, outubro e novembro também. E agora, em dezembro (como na “Triste Partida” objeto do vídeo), cá estamos nós, cantando “Esquinas” feito Djavan:
    “Sabe lá o que é não ter e ter que ter pra dar... Sabe lá o que é morrer de sede em frente ao mar...”

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Amigo Hayton, muito obrigado por seu comentário. enriquecendo a crônica,

      Excluir
  4. Parabéns Marconi pela crônica. Afirmou como Londrinense a existência da mistura de terra no sangue dos nordestinos migrados para outras terras. Meu pai e um grupo de primos em Londrina,.todo final de ano, renovaram a vontade saudosa do retorno. Abraços Walmir

    ResponderExcluir
  5. Também vivencei este jeito cigano de ganhar a vida, para poder criar com dignidade minha família. Até entrar para o Banco e tomar posse em Santiago (RS), aos 23 anos e em estado de penúria financeira, eu nunca havia saído de minha cidade natal, Santa Maria (RS).

    De lá, para cá, depois de 46 anos, só retornei para lá por um pequeno período (em torno de 02 anos), quando fiz concurso interno para Implantador - mas, quando tomei posse, o cargo já era de Analista.

    Nesse período, além de Gaúcho de origem, fui Paraense, Candango, Paraense de novo, voltei a ser Gaúcho (por uns dois anos), Pernambucano, Baiano, Pernambucano de novo, Carioca e, mais uma vez, Pernambucano. Agora, estou prestes a me tornar Candango novamente. Talvez para o próximo ano.

    Juntando tudo, eu me sinto um "legítimo" Gaupacapagapebapecarpecaense...

    De 1980 a 2007, quando me aposentei do Banco "precocemente", via PAA, fiz dezessete mudanças - todas com múltiplos efeitos, principalmente emocionais. Dessas mudanças, três foram para Recife, onde permaneci, por mais tempo. Até hoje.

    Na média, passei menos de dois anos em cada cidade, com exceção de Recife. Para alguns lugares, fui sozinho. Para outros, minha família me acompanhou. Mas, não vou detalhar, aqui - nem seus múltiplos efeitos - porque, se o fizesse, este "pequeno" (🤔) comentário iria virar um "livro".

    Neste momento, estamos, eu e minha esposa, em "viagem exploratória", para tomarmos uma decisão entre o (alto) custo e a qualidade (minimamente razoável) de vida, que esperamos ter neste Planalto Central, enquanto damos o apoio necessário que nossa filha está precisando.

    Nós estamos bem em Recife e, se fosse somente pelo coração, não mudariamos. Mas, a idade avançou demais e mais depressa do que esperávamos. Estamos sentindo seus efeitos e, junto com eles, a necessidade da segurança de estarmos próximos dos filhos - com o bônus de ficarmos próximos do neto, claro!!!

    Espero poder contar, em breve, "as cenas dos próximos capítulos". Aguardem!!!

    ResponderExcluir
  6. Isso é uma crônica com C maiúsculo. Das boas! A sua volta a Bom Conselho, 26 anos depois, parece ilustrar bem a frase atribuída a Heráclito de Éfeso: " Ninguem atravessa um rio duas vezes". A cidade mudou e você também. E a alma? Talvez não fique escondida numa cidade, num tempo... Pode estar dentro de uma caixinha com musicas que falam ao coração. No mais, a crônica é sentimento, é toda feita de coração. Correr mundo a fora, muitas vezes, não é questão de escolha...  é destino.

    ResponderExcluir
  7. Marconi, você continua grandecíssimo. Suas crônicas nos ensinam e proporcionam momentos de plena graça espiritual.

    ResponderExcluir

Deixe seu comentário.

Existimos: A que será que se destina?

Viktor Frankl             Começou, começou, começou aquilo que muitos refugam, mas têm uma apaixonada, apaixonada reação ao ouvir opiniões c...