Quando comecei a ler o livro Os Espiões, de Luís Fernando Veríssimo, uma impressão foi tomando conta, páginas e páginas, muitos capítulos, aquelas conversas dos personagens irradiando pedaços de suas próprias impressões e a minha, isto aqui está com jeito de fofoca.
Aí o passeio pelas páginas escapou para algumas lembranças, como a do fofoqueiro clássico, o malidicente, daquele ainda mais classudo, o que fica levando e trazendo conversas só para ver o "mel" correr solto. Desses eu fugia dos encontros, vai para lá boca fedorenta.
Mas há o fofoqueiro, aquela meia boca, que só insinua, sabe de alguma coisa que pode desagradar e chega como conselheiro: Olhe, se eu fosse você, fica de olho! De olho em quê? Até imagina que há um interesse, fique só de olho e solta uma meia verdade e nunca diz nada inteiro, o desejo é ser importante e assim, vai manipulando algumas pessoas.
Eu gosto mesmo, a quem chamo de fofoqueiro, aquele que chega, quando não tem assunto, inventa um só para nos fazer rir. É o fofoqueiro das invenções, um criador de literatura oral das mais originais. Acho que essa história eu já falei por aqui. Adolescente, chegou um dos fregueses de papai e começou a conversa na farmácia, naquelas horas em que a freguesia não chegava. Conversa animada, cheia e "is", ilustrando cada passagem e arrematou: Você conhece a história de Zé Mole? Conhecia Zé Mole, um ancião que era freguês de papai. Aí contou como ele ganhou o apelido.
Certa vez, Zé Mole, que era "inspetor de quarteirão" chegou perto de um valentão que tumultuava uma festa e deu voz de prisão: "Teje preso", o valentão sabecou um murro em Zé e o derrubou no chão, na versão daquele fofoqueiro, do chão mesmo Zé gritou: "Teje solto" e aí Zé virou Zé Mole. O pior é que eu, aos 17 anos, mangando do idoso, falei: Teje preso, teje solto. Resumo: nunca mais ele foi comprar seus remédios na fármacia de papai.
Aí ontem foi a minha vez, o do fofoqueiro intrometido, do pitaqueiro que entende ou não do traçado. Estou ali, lavando as mãos para ir ao encontro da turma da AABB de Recife, que participa dos jogos dos aposentados em Natal, nisso chegam dois atletas de futebol da AABB Natal. Um deles falou assim para o outro, não sei se eu bebo, se eu beber e tomar um gol eles vão reclamar e aí eu disse de supetão: Homem, vá beber, por que se tomar gol, eles vão reclamar do mesmo jeito. Ainda hoje pela manhã escuto uma das maiores risadas espontâneas que ouvi na vida, o goleiro se desmachou em um riso logo e contente. Parece que aquele pitaco lhe abriu uma gigantesca lembrança saborosa que o fez gargalhar.
Mas não é mesmo, peladeiro adora reclamar, adora alfinetar uma jogada ruim, adora se sentir o "Pelé" e arrochar no que ele ver de medíocre no outro e muitos deles, esquecem de se divertir. Nessa horas não digo nada, mas a vontade é dizer: Homem vá se divertir, ora bolas!
Homem vá beber, por que se tomar gol, eles vão reclamar do mesmo jeito.
Olhe, não sou fofoqueiro, mas adora ouvir uma conversa mole.
Abração, Marconi Urquiza.