No último sábado fui cumprir a minha agenda comigo mesmo na AABB de Recife. Devolvi dois livros, um dos quais uma Antologia de Vinicius de Morais, um daqueles livros da lombada dourada. Nele li uma emocionada crônica de quando Antonio Maria faleceu em 1964. Aquele pernambucano que compôs um dos frevos mais lindos que já ouvi, Frevo n.1.
Nessa agenda, quase religiosa, inclui pegar emprestado mais livros, tomar alguns cafezinhos na biblioteca e consagrar a viagem ao paraíso tomando umas cervejinhas.
Ainda na biblioteca fui na estante dos escritores de crônica, nesta escolhi três livros. Houve um que folheei e quase o devolvi à estante, mas me lembrei da verve gostosa do filho do autor que com frequência está com Geraldo Freire na Rádio Jornal. Pai, José Nivaldo; filho, José Nivaldo Júnior e o livro, Nordeste à flor da pele.
Bem, fui no índice, li os títulos de algumas crônicas e fui, sem muito interesse às orelhas da capa e só não deixei o livro lá por causa do autor do texto da orelha ser um cronista arretado, Sérgio Gondim, filho do Dr. José Nivaldo, outro médico com a sensibilidade de um observador do mundo.
Na orelha, em certo trecho, ele fala da mãe na terceira pessoa, talvez para se afastar da emoção, disse que ela organizou carinhosamente a coletânea das crônicas publicadas pelo esposo ao longo dos anos no Jornal do Comércio do Recife e que compuseram o livro "Nordeste à flor da pele".
Aqui entra minha parte na história. Desejando aprender como compor personagens recebi um convite para conversar com Dr. José Nivaldo na sua casa, vizinha à agência do Banco do Brasil em Surubim. Bom de prosa, ele falou dos seus livros, dos prêmios literários e nada, nadinha de como compor um personagem.
Prosa vai, prosa vem, eu cheio de dedos por conversar com uma lenda viva quando de repente chega Dra. Neíse, ela olha para o esposo, como se a borracha da vida tivesse parado e ela tido uma janela para lembrar de Dr. José Nivaldo.
Tudo ali se transformou, o semblante alegre caiu para um expressão pétrea e ouvi: "ela tem Alzheimer". Esta frase vem se ombrear com a de Sérgio Gondim: "Organizá-lo em livro é uma homenagem à companheira. Uma forma de manter a motivação e a alegria, sabendo que não pode mais compartilhar com ela", contemporânea da época em que estive com ele, 2004.
Aí veio a lembrança que motivou esta crônica:
- Cida, ôh Cida! Cida, ôh Cida!
- Mas Cida saiu agora. - Foi a resposta da cuidadora.
- Não, estou chamando a Cida "menina".
Assim, assim dona Judite vai agarrando a borracha, travando uma luta, o quanto pode, para manter as lembranças de mais de 84 anos de vida.
Abraço,
PS:
Frevo nº 1 na voz de Maria Betânia.
