Há livros que ficam dias, alguns anos e até a vida inteira na lembrança de um leitor.
Sou fã de Graciliano Ramos e dele quando penso na arte de uma escrita, seca como o enredo, seca como os personagens, sem rebuscamento, apenas as palavras colocadas com precisão. Parafraseando Graciliano, palavras são para dizer e não para enfeitar. Na leitura que fiz de Vidas Secas só identifiquei uma leve metáfora envolvendo o Sol. Este livro para mim é uma obra de arte, pela forma como as palavras e a construção do texto se encontra com a realidade dos personagens no sertão e na seca. Sou um leitor que ler rápido, fruto do hábito e de um bom vocabulário adquirido em uma vida de leitura. Mas Vidas Secas eu li devagar. É um livro que li com reverência, poucas páginas por dia. Um livro que merecia uma leitura como se aprecia uma pintura, em que se ver os detalhes e não uma vista rápida como ocorre na rua.
A pouco anos li o que era para ser um roteiro de um filme e virou livro de Ariano Suassuna. O humor, o personagem Malaquias Pavão, o malandro sertanejo, cheio de manhas para vender uma cachaça falsa pelas feiras das cidades sertanejas. O livro, O Sedutor do Sertão, também é uma obra de arte, repleto de ilustrações que provoca no leitor um encontro com a imagem que saltam das palavras para as gravuras que estão nas páginas do livro. Que rir, rir muito, leia este livro.
Sabe, li 13 livros de Gabriel Garcia Marquez, era tão fã que comprei dois livros em espanhol, editados em Bogotá. Um deles foi La mala hora, que levei seis meses para concluir a leitura. Tinha frase que era preciso adivinhar, tinha de tentar captar o contexto para entender muitas passagens do livro. Isto fruto das expressões idiomáticas empregadas por Gabo. Durante anos qualquer livro que via do Gabo eu comprava, sem hesitar. Bem, vários me encantaram, cito dois: Amor em tempo de cólera e principalmente Crônica de uma morte anunciada. A analogia que faço é, ao ler este romance, como estivesse vendo um filme. Dele também gostei da forma como criava seus textos, parágrafos curtos, linguagem acessível. Sem ser imitador, me inspiro nele para criar algumas passagens dos meus romances, contos e até crônica.
Estava para ir para Belo Horizonte em 2007, aguardava no Aeroporto dos Guararapes a hora do voo então subi ao primeiro andar e fiquei circulando por lá. Só queria ocupar o tempo. Passei direto para o ponto de observação das chegadas e partidas dos aviões. Me entediei e voltei a andar, em um dos corredores encontrei uma livraria, pequena, ainda cheia de livros. Hoje os livros nesse mesmo aeroporto ocupa uma pequena seção de uma loja. Fiquei folheando revistas, no limite que era permitido, poucas páginas por vez, até que me deparei com um romance de Mario Vargas Llosa. Muito tempo antes eu tinha lido A Guerra do fim do mundo, cujo enredo é sobre o massacre em Canudos. Fiquei encantado com este livro. Aí a vista se encontrou com Travessuras da menina má, li a quarta capa que falava de um amor de mão única. Um homem que amava uma mulher. Comprei e comecei a ler no avião, passei a semana lendo. Fiquei impressionado com a história e como ela foi contada, mas até hoje creio que o livro traz é uma história real. Sei que um escritor do gabarito de Llosa faria uma ficção tão primorosa, excepcional, mas como leitor, meu sentimento é: Aquilo foi real. Ótimo, ótimo romance.
Mais recente, menos de um mês li dois livros, um deles foi Os perigos de imperador. Neste livro Ruy Castro mistura textos do diário do Imperador Pedro II, reportagens de um jornal americano na viagem que ele fez aos Estados Unidos em 1876, também do poeta Sousandrade, opositor de Pedro II. A história é séria, mas contada em detalhes e com leveza sobre o atentado que ele sofreu em Nova Iorque. Para mim, uma coisa fenomenal, que nada conhecia da personalidade do imperador. A sua leveza, uma visão de futuro, um homem de letras e artes como ele se autodenominava.
Ainda bem que li este livro depois de O Rei de Havana, do cubano Pedro Juan Gutiérrez. Comecei cheio de expectativa, o título me levou a crer que a história teria um tipo herói, um personagem grandioso, até uma história edificante. Com aquele viés da auto ilusão, que o mundo é apenas de cores e bons cheiros, comecei a ler e fui entrando pela história, e fui avançando, preso à curiosidade e torcendo que a vida do Reinaldo, o Rei de Havana, desse uma virada, só piorou. O livro traz a situação de uma família pobre, desagregada, com vizinha prostituta que ganha mais que um trabalhador normal em Cuba, de uma mãe que vivia a gritar, quase louca e uma avó que emudeceu da desgraça em que vivia. Quando lembro do livro, ainda sinto o amargar do fel da realidade narrada. É dura. O autor é um mestre que me fez ler até o fim, caminhar pela sarjeta junto com o personagem Reinaldo.
Eu precisava escolher uma imagem para ilustrar esta crônica, fiquei minutos pensando, então escolhi a frase do mestre Ariano, que espelha esta crônica.
Abração, escolha um livro para voar na imaginação.
Marconi Urquiza