sexta-feira, 25 de março de 2022

A CHUVA, O MOTOQUEIRO E A ROUPA DE ANO NOVO

"Chove chuva, chove sem parar..." e a canção pedia a Deus parar de chover molhava o seu amor.

Esta é a frase de uma canção de Jorge Ben Jor e as chuvas torrenciais que caíram em Recife e João Pessoa nesta semana me lembraram da canção e de uma história. Essas duas recentes eu presenciei e me fizeram viajar no tempo.

É a chuva que ajuda, é a chuva que desgraça,  depende do volume.  Nesta semana ficou mais,  para uma população carente, para aquela que desgraça. Chuva torrencial que mais parecia uma cortina de água. 

Com essa imagem eu viajei para o dia 01 de janeiro de 1988. Era um primeiro de janeiro chuvoso, como sempre no Estado do Amazonas e entendiante, como quase todo primeiro dia do ano.

Depois do almoço,  eu, Cida e Victor fomos para a garagem e ficamos lá sentados.  Victor no meu colo, Cida ao lado proseando e vendo a chuva que caia. Até aquele momento,  com toda a manhã chuvosa,  ela vinha mansa.

Depois de meia-hora naquele banzo, o tempo rugiu, trovões pipocaram e a chuva mansa virou uma cortina de água.  Era tanta água que não dava para ver além de cinco metros de distância.  E assim ficou um tempo, mas passou. Estiou.

Foi estiar e as motos começaram a passar na frente da casa. Preciso descrever como era aquela avenida.

Ela vinha do aeroporto de Tabatinga, 5 quilômetros antes e com piso bom até chegar perto da nossa casa, que ficava em frente aos Correios. 

De um pouco antes de nossa casa até 100 metros à frente o asfalto era esburacado,  mas nesse trecho da frente de nossa casa, era um mar de lama.

Na medida que as motos foram chegando o tédio foi sumindo, pois a nossa curiosidade só crescia na aventura daqueles motoqueiros. 

Era uma dilema sem solução. Se o piloto vinha rápido,  ligeiro caia, se o piloto controlava a velocidade,  o pé no barro vinha em câmara lenta. 

Nessa altura o tédio tinha ido embora de vez e a gente estava no portão vendo os motoqueiros desafiando a lama escorregadia. 

Aí veio um piloto,  ele e a companheira vestidos de branco, só que ele se recusou colocar os pés no chão para se apoiar. Ele não queria sujar a calça branquinha.

Aí ele entrou,  veio  controlando a força da moto. Passou pelo trecho inicial ruim, foi chegando nos Correios e passou por esse pedaço. A moto deu uma balançada, o piloto controlou. Foi mais, uns dez metros, aí ele começou a balançar,  escorregou para um lado,  para o outro, equilibrou meio metro,  um metro,  cinco metros,  dez metros e teimoso não colocou os pés no chão,  a calça continuou imaculadamente branca. De repente a moto perdeu força, balançou toda, veio junto o piloto  e a carona também, na rapidez que meu piscar de olhos permitiu,  o branco daquela roupa de ano novo ficou da cor do barro avermelhado da frente da nossa casa.

Abração,
Marconi Urquiza 

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