A SENSAÇÃO QUE DESLIGUEI
Fazia tempo que a sensação de desligar mentalmente não ocorria. Atualmente, em geral, estamos todos conectados ao Instagram, no Facebook, TikTok e outras redes sociais. Elas são mestres em pequenas doses constantes do hormônio do prazer, a dopamina, o que provoca na maioria das pessoas a sensação de nunca desligar.
Outro efeito colateral é a falta de foco. No nosso caso, isso atinge de modo grave o que, no passado, era motivo de prazer e ocorria espontaneamente: a leitura. Lia habitualmente, um livro após o outro. Hoje em dia, a tentativa de ler exige um esforço enorme, horário marcado, tempo marcado, tempo mínimo de leitura. Hoje vou ler 30 minutos, amanhã será uma hora e assim ocorre a tentativa de levar a leitura de um livro adiante. Se o livro exige mais concentração, ocorre o abandono. Nos últimos 15 dias, dois ficaram pelo caminho: Ave Palavra, de Guimarães Rosa, e Todos os Contos, de Clarice Lispector.
Já estou no terceiro livro nestes mesmos 15 dias. Agora é "O Nazista e o Psiquiatra", escrito por um jornalista. A leitura não é complexa, e por isso, já li 50 páginas desde a última sexta-feira, mesmo com toda a dificuldade de manter o foco na leitura.
A maior oposição que sinto é o impulso de abrir o celular e cutucar o Instagram; a mente está naquele viés de vício. Ainda não, ainda posso evitar e evito muitas vezes, mas meu foco foi embora, a minha imaginação seguiu pelo mesmo caminho.
Aquele sentimento que desliguei mentalmene tem tanto tempo que não recordo quando ocorreu. Com segurança, foi há mais de 15 anos; ainda trabalhava no Banco do Brasil. Foi tão estranho que sequer lembrava a senha de acesso ao sistema geral da empresa. Depois da aposentadoria, desenvolvi um modo de viver para não sentir o vazio da falta de uma rotina. Naquela vibração do ditado popular que diz: ' Cabeça vazia é oficina do diabo.' Até que, há quase cinco anos, comecei a cuidar de uma nanoempresa e que hoje posso afirmar ser uma microempresa. Assim, a rotina que era leve foi ficando agitada e longa.
Saltando no tempo. Em abril, nós (eu e Cida) viajamos para participar do CINFABB (jogos de aposentados do Banco do Brasil) em Belo Horizonte. Ir, vir, participar, acompanhar, conhecer a cidade — viagem para uma das cidades históricas. Mesmo abrindo o sistema para passar os serviços para a equipe e atender online os clientes, a rotina foi leve. Leve. Doze dias de viagem.
Quando chegamos, no dia 3 de maio, fui ao quarto que uso como escritório, sentei-me à cadeira e pus os braços sobre a mesa, olhando para o computador. Neste momento veio o sentimento e a sensação: "Eu desliguei". Sabe, me senti ótimo. Feliz, até.
Bem, por enquanto, é só.
Abração, Marconi.
PS: ilustração gerada pelo Google Gemini
