sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Invisibilidade - Homem Invísivel

 

O desespero
No olhar de uma criança
A humanidade
Fecha os olhos pra não ver

Televisão: fantasia e violência
aumenta o crime e cresce a fome do poder
Da canção Filho do Dono - Petrúcio Amorim.




"Não é no silêncio que os homens e mulheres se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão." 
Paulo Freire.

        

        Na minha infância apareceu um herói chamado Homem Invísivel, nessas lembranças ele era do bem. Ajudava as pessoas contra os bandidos da série.

        Nesta quinta-feira, um do milhões de vídeos do Instagram, aquela mulher que nem conhecia, que filmava em uma praia, uma orla de prédios altos. O que é relevante para mim foi no decorrer do vídeo ela demonstrar a  razão de votar em candidato e a sua decisão envolve a palavra invisibilidade. A invisíbilidade social.

        Tal palavra fez correr o tempo para trás. Caí na minha infância de comida farta, lar organizado, escola disponível, farda e cadernos novos todos os anos. Bola de plástico para correr na rua jogando futebol descalço, mas o sapatinho estava guardado para ir ao coégio.  Contexto dos anos 1970.

        Aqui e ali, vinha à nossa casa camigos magrinhos, com as suas roupas puídas, alguns já desdentados, com uma dificuldade enorme para estudar. Mas eu não compreendia essa pobreza, não sabia de tal diferença gritante de renda e oportunidade.  

        Essa realidade e à medida que amadurecia fui tendo consciência de uma comparação entre o que tínhamos e o que muitos meninos, com os quais convivia, tinha e e eu sentia uma espécie de vergonha, acanhamento por ter mais. Não sei traduzir que sentimento era aquele.

        Mas essa pobreza ficou meio invísivel para mim com o passar dos anos. Via que não via, via e não sabia o que fazer e como ajudar. O tempo correu e caímos em 1982, ano de seca feroz no Nordeste, o estado ausente, eram muitas famílias ajudando centenas, milhares de outras famílias. Nesse mesmo 1982 acabara de iniciar a vida como profissional do Banco do Brasil e em certo final de semana, que não pude ir a Recife, o colega Erickson Torres liderou uma ação de cestas básicas que lotou um caminhão e as trouxe para Afogados da Ingazeira (PE). Então me chamou para o ajudar a entregar as cestas às famílias cadastradas.

        Imagino que cada cesta pesava 20 quilos, nosso trabalho era levar do caminhão até a casa de uma família. Eu tive um choque, um choque enorme, aquela invisibilidade caiu como uma cortina que se desprega da parede e eu vi a pobreza forte em várias casas. A maioria das casas só havia a mãe e as crianças.

        Agora vou dar um salto, o tempo correu por muitos lugares e eu estava nesse avião que só ver as coisas do alto. Havia visto a pobreza nos quase 3 anos no interior do Rio Grande do Norte, nos 4 anos no interior do Amazonas e nos 5 anos de Afogados da Ingazeira. E esse avião da vida nos levou até o Paraná. Quem está de lá não sabe direito o que se passa aqui, nem antes e muito pouco agora.  De minha parte eu pensei: Vou para um estado rico, era e ainda é um estado rico. 

        Já com três anos no estado, havia chegado em 1995 e lidava no Banco do Brasil com diversos tipos de clientes. Havia rico, o remediado de classe média e o pobre remediado. Quero dizer, o pobre que não tinha problema para alimentar a sua família. Pobre de Jó, como se dizia na minha infância e não tinha visto. A vida em Terra Boa  (PR) parecia conspirar pela invisibilidade dos mais pobres.

        Chega o ano de 1998, estava efervescente a Ação da Cidadania contra a Fome (criada por Betinho - in memoriam), juntamos a contribuição dos colegas da agência do Banco do Brasil e de clientes e fomos fazer um dia das crianças. Cachorro quente, refrigerante e briquedos simples. Esse dia foi feito em uma escola municipal. Cida, minha esposa, com as esposas dos outros colegas organizam toda a pequena festa e apareceram dezenas de crianças. Fiquei em um canto daquele salão observando o desenrolar dela. Eram todas de famílias pobres, mas até aquele instante invisíveis para mim. 

        Nos dias seguintes fiquei com uma frase na mente e cheguei a dizer a alguém: A pobreza do Paraná é envergonhada. Tem vergonha de aparecer. Se esconde (Terra Boa).

        Quanto a mulher falou no post (vídeo) no Instagram da Invisilidade Social, como a sociedade torna invísiveis essa massa, como forma um gueto visivel das favelas e invisiveis na falta de oportunidade de melhoria de vida, a reflexão voltou e foi sobretudo uma viagem às nossas pequenas conquistas e à lembrança de que muitos meninos, com os quais brinquei na infância, tenha ou tiveram uma vida de quase esmoleres, enquanto meus pais nos proporcionaram um futuro melhor, fruto também das oportunidades que nossos avós tiveram.

        Papai tinha uma obsessão, a de que nós estudássemos e nos formasse em curso superior. Estudo que até hoje ajuda a viver, aos 67 anos. Ele valorizava todo mundo que estudava e se tivesse sido prefeito de Bom Conselho, teria impulsionado como nenhum outro a educação na cidade.

        Graças a isso e em muitas famílias que conheço, a educação não nos fez invísiveis.

                Bem, por hora é só.

        Abração, Marconi Urquiza

        



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