sexta-feira, 18 de março de 2022

A raiva nas ondas do Whatsapp

 



        Eu não sei em que isso vai dar, mas é uma experiência, uma percepção da leitura de algumas frases que ecoaram como irritadas, enraivecidas.

        Primeiro vem a experiência, melhor, a vivência. A cliente, o cliente, entra em contato com a empresa através do Whatsapp. Eu, por crer que preciso oferecer uma resposta imediata, em respeito a quem nos procura, ajo no sentido de, no máximo, em 10 minutos lhe oferecer a atenção e a resposta ao que a pessoa quer: informações de algum serviço e o orçamento.

        Nesse ramo, o da limpeza de estofados, colchões, carpetes, etc. Como da impermeabilização de tecidos utilizados em movéis, tem todo tipo de empresa, tudo que é preço e qualidade dos serviços. Não deixa de ser uma comoditie, onde não há escassez.

        Os preços cobrados pela empresa que atuo como orçamentista em João Pessoa, a Safe Clean, nem é a mais barata e nem a mais cara. Na maior parte das vezes, o preço é médio.

        Muita gente, muitas pessoas no acionam e depois silenciam. Há uma ação chamada de Follow Up, eu a uso buscando achar algum indeciso, mas geralmente o resultado é pequeno, porque a maioria decide na hora. Faço o Follow Up de três modos. Algumas horas depois de ter passado o orçamento, no dia seguinte e uma semana depois. Neste caso tentando descobrir se o cliente fechou com outra empresa e o preço, o que é uma raridade informarem. Algumas respostas são simples, na maior parte ocorre o silêncio.

        Ontem, fiz esse contato após uma semana. Essa cliente respondeu dizendo já ter feito o serviço e que nosso preço é muito caro.

        Resposta objetiva, feedback perfeito. Pedi a ela que me dissesse o preço, veio o silêncio, comum nos contatos com Whatsapp. Mas naquela resposta veio algo mais forte, uma energia tremenda. Não sei por que, não é a primeira vez e fica no campo da intuição e da percepção. Bem, essa energia foi a raiva. Senti aquela mulher enraiveicida. Sensação que senti em outras oportunidades.

        Mais que palavras, é a energia que elas transportam. Talvez essa experiência pessoal venha como um alerta, para as pessoas que se importam com isso. Zelar a própria energia psíquica quanto tiver de responder a alguém. É fácil perder o controle e ser grosseiro.

        Fique ligado, para você continuar sendo dono da própria subjetividade, pois estamos entrando em nova ebulição da bestificação das nossas emoções. 


        Abraço,

        Marconi Urquiza

    

sexta-feira, 4 de março de 2022

É Guerra, e não é de videogame

    
Guernica - Quadro de Picasso

    Amados,  é guerra. E não é de videogame.

    Umas das frases que reverberou em minha adolescência vinha de longe. Eu lia nas carrocerias de caminhões e era de uma empresa que fabricava carrocerias ou era concessionária da Mercedes Benz, penso que no Rio Grande do Sul.

    A frase era essa: Guerra é paz nas estradas.  

    Quando criança me encantava com o primo Gervasinho desenhando navios de guerra. Alguns anos depois eu vi no Cine Brasília muitos filmes inspirados na Segunda Guerra Mundial. Muitos,  em que os heróis sempre levavam vantagem contra os inimigos.  (Quase todos nazistas).

    Mas a guerra para mim não causava impacto. Como alguém disse, mais 30 anos depois: Aquelas, eram guerras de videogame. As dos filmes.

    Entenderam a metáfora?

    Tais filmes nunca atrapalharam meu sono.  Mas algo mudou irremediavelmente. A violência,  qualquer tipo, qualquer grau, causa-me um tremendo desconforto.  Em todas as cenas de filmes mais pesadas eu mudo de canal.
    
    Essa realidade deixou de ser guerra de videogame para mim, para qual não me acostumo.

    Vivi uma angústia imensa quando assisti ao filme Até o Último Homem.  Nas cenas cruas eu virava o rosto. Pedaços de corpos voavam de um lado para o outro.

    Ali é tudo de uma ferocidade imensa. 

    Nessa reflexão lembrei de uma das aulas de filosofia no curso de Direito. Nela o professor falou do livro O Leviatã. O autor, Thomas Hobbes, declarou que "O homem é lobo do homem". Ao conhecer a afirmação, estávamos no final do anos 1990, então com 38 anos,  e eu não compreendi essa constatação.  Hoje está cristalino. Poder, estímulos,  doutrinação,  crença incubada, basta um clique,  tudo se precipita na violência.

    Poderia me resignar, mas não consigo. 

        Abraço,
        Marconi Urquiza 

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Futebol e praia com o sol a pino



        Em um dos últimos sábados de 2018 me encontrei com o amigo
Nelson Lins Jr. na entrada da AABB de Recife, ele saindo e eu chegando.

        Conversamos menos de um minuto e ele deu uma guinada no papo para observar que nem imaginava como uns peladeiros às 11:20h estavam jogando futebol no minicampo de grama sintética a uma temperatura perto dos 40 graus.  Sem nuvens, sem boné, sem sombra. Com o sol a pino. 

        Na hora veio-me a lembrança de correr ladeira abaixo, de correr ladeira acima, de mal almoçar e sair de casa para ir ligeiro ao campo de terra poeirenta ver os clássicos do futebol da minha terra.

        De pagar um ingresso e chegar aos estádios de Recife a uma da tarde para ver os jogos preliminares do futebol profissional do campeonato pernambucano na década de 1970.

        De, na secura, juntos com vários colegas na AABB de Afogados da Ingazeira jogar duas, três vezes no minicampo corrugado aos domingos pela manhã.  A vontade era tanta, que a primeira pelada começava às 8 da manhã e a uma hora da tarde a gente costumava voltar para a terceira.

        Tudo isso sem protetor solar e na energia dos 22 anos.

        Mas sol a pino enfrentou Cida, cuja secura por praia só não era maior que o próprio mar.

        Se bronzear era brinquedo, era para ficar na cor de jambo, coca-cola, colorau misturado, e muitos outros produtos, todos inadequados para se bronzear e proteger a pele.

        O sol a pino dela começava cedo e acabava no meio tarde. Todo dia, todo santo dia.

        Cabular aula, cabular o trabalho,  tudo para aproveitar o sol, rodeando a luz como um girassol, para que nenhuma marquinha não desejada ficasse na cor morena natural.

        Era sol a pino.

        Agora estamos mais cuidadosos, mas ser jovem, sem ter tido alguma aventura, é como chegar na velhice inventando história  do que nunca fez. 

    (2022 - Atualizando o pensamento: Bem há outra formas viver a vida e contar a própria história.)

      Abraço.
      Marconi Urquiza. 


sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

MONARK E O CÓDIGO DE UMA CRENÇA

 

Código de uma Crença

 



          Quando Monark fez as suas observações nazistas, inúmeras pessoas fizeram as suas críticas, todas procedentes. Mesmo quem não tem afinidade com a história, em algum momento o nazismo e suas consequências nefastas chegaram a essa pessoa. 

    O Nazismo não sai de moda, é ilegal no Brasil e em muitas partes do mundo, mas continua alimentando inúmeros espíritos com a tendência de serem maus.  Muitos, muitas pessoas, são pequenos ditadores e a filosofia nazista cai como uma luva para elas alimentarem os seus impulsos.

    Há alguns anos tomei um susto, não esperava ver o que vi. Era 2018 e nós fomos para Blumenau, Oktoberfest. Eu, Cida, Marcello e Zoraide. No domingo, Marcello nos levou para conhecer a Rua 15 de Novembro. Fomos andando e em certo momento subimos a escadaria da Catedral. Depois de alguns minutos, voltamos para a rua e assim que descemos a escadaria vi uma livraria, me aproximei e parei. Na sua parede, um cartaz que dava um endereço no Facebook, convidando pessoas para um grupo nazista. Até fotografei, depois apaguei, mas fiquei por meses pensando nisso. Por fim, entrou na ladeira do esquecimento, até esta semana.

    O texto abaixo foi escrito em junho do ano passado e não divulguei. Guardei aqui. É datado, tem um contexto histórico e tem também um contexto perene, pois o Nazismo está sempre rondando, é moda permanente.

------ TEXTO  ORIGINAL ------

       Quero dizer, antes de tudo, que você não precisa concordar com estas palavras. Fique à vontade para critica-las.

        Não sei quantos tiveram a vontade de ler sobre o nazismo. A minha lembrança mais longínqua desse regime político foi ao assistir a série Holocausto, de 1978. Naqueles episódios, o que mais me chamou a atenção foi uma aparência de passividade da população que foi dizimada.

        Depois, talvez em 1979 ou 1980, conheci uma professora, alemã, da Universidade Federal Rural de Pernambuco. Em uma das aulas, ela comentou que seu pai havia fugido dos russos durante muitos meses, após a derrota da Alemanha na Segunda Guerra Mundial. Caminhou pelas florestas do leste europeu até conseguir entrar no território ocupado, daquele país, pelos Estados Unidos.

         Vale a pena um adendo. Naquele período, todo soldado nazista que fosse encontrado pelo exército da União Soviética era fuzilado.

         Após esse testemunho, fiquei com um comichão, então certo dia me aproximei dela para fazer a pergunta que batia na cabeça.

         — Professora, por que seu pai foi nazista?

         Duas coisas não esqueci daquele momento. A primeira foi a sua expressão de constrangimento e, finalmente, a sua resposta:

         — Não havia como não ser nazista.

         Que situação é essa que não havia uma alternativa para se viver?

         Tal resposta, de modo inconsciente, foi o gatilho para o desejo de me aprofundar nesse fenômeno político-social, cujas implicações foram duradouras. Foram anos de interesse. Dezenas de documentários, artigos, reportagens, livros, filmes. Tudo visto e listo com avidez.

         Nessa trajetória esbarrei com um artigo da revista Veja que tratava de um ex-vice-presidente de uma grande empresa. Bem, esse homem era fã das técnicas, táticas e modos de gerir nazistas. Tal executivo foi demitido em algum escândalo envolvendo a privatização das telecomunicações no Brasil, na época de FHC. Para mim essa afinidade do executivo não é um fato fora da curva. Ouso dizer que as táticas nazistas, fascistas e totalitárias continuam tendo eco mundo afora desde então.

         Aí, vários anos atrás assisti ao filme-reportagem de nome “Caçando Eichmann”. Trata da captura do oficial da SS nazista, em Buenos Aires. Adolf Eichmann, coronel que liderou todo o transporte dos judeus húngaros para o Campo de Extermínio de Auschwitz.

        Depois do filme, li o livro correspondente e saí lendo outros livros. O curiosidade foi tanta busquei um escrito por Hanna Arendt: “As Origens do Totalitarismo: Antissemitismo, Imperialismo e Totalitarismo”. Neste livro, há na bibliografia a citação de outro de sua autoria. Foi assim que esbarrei no mais famoso livro dela: Eichmann em Jerusalém – um relato da banalidade do mal. Este livro marcou muito, deu-me um sentido de observação que propiciou ter percepções críticas para muita coisa.

        O meu momento de vida, tempos depois, era de questionamento de um certo “código de ética”. Assim, no minúsculo, porque embora torto, era um código de conduta, amplamente disseminado. Comecei a perceber que vivia em um ambiente em que as ultrapassagens ao Código de Ética ideal, às normas de conduta e as de negócios eram incentivadas. Até as leis eram banalizadas. O código real e influenciador era outro: Entregar o número de qualquer modo. Só entregue. O recado era um só: isto é o que vale, isto é o que é importante.

        Alguns anos depois, comprei o último livro a respeito do nazismo e com ele encerrei a minha leitura sobre o assunto.

        Pois bem, foi o estudo, intitulado de “Crer e Destruir – Os intelectuais na máquina de guerra da SS nazista”. Nele um pesquisador francês estudou com profundidade 99 oficiais nazistas.

        O primeiro ponto daquela leitura foi: A seleção dos oficiais pela SS. A maioria tinham curso superior, mestrado e até doutorado. Não eram incultos, como muitas narrativas que os apresentou após a guerra. Como se para se justificar a brutalidade dessas pessoas.

        O outro ponto, foi a Construção da Crença. Uma vez tudo assimilado que faziam a coisa mais certa do universo, fazer aquelas barbaridades não lhe infligia nenhuma dor, culpa ou remorso.

        Algum tempo depois, vi o filme que discorreu sobre a reunião que decidiu como executar mais rápido os judeus. O “convencimento” para a Solução Final. No filme, em certo momento um general do exército discordou. Ali haveria de haver unanimidade. O general que comandava a reunião, após as devidas regulagem intimidatórias, falando em nome de Hitler, obteve o voto do general “recalcitrante”.

        Cinco, seis anos atrás, apareceu no canal History Chanel um documentário, em vários episódios, intitulado de Códigos Nazistas. Deixei de lado qualquer resenha sobre tal documentário, são vários códigos. Mas vou colocar a minha interpretação. O Código Nazista, como qualquer código de uma sociedade, de um grupo de pessoas, mesmo distantes fisicamente, os faz sentirem-se pertencentes a um tipo de agrupamento. Grosso modo, seria como um agrupamento “espiritual”.

         Então, no código nazista, certas palavras de Hitler se transformavam em palavras-chave, em crença, ordem e execução, sem que se ouvisse um “faça” imperioso. A Solução Final foi uma dessas palavras-chave.

         Vamos para o presente. Nos tempos em que se filma tudo, o que ocorreu na semana passada em Recife (29.05.2021), em Trindade, Goiás. Das queixas-crime em razão de críticas postadas na mídia e nas redes sociais. Inquéritos abertos para intimidar, com base na Lei de Segurança Nacional.

         Em Goiás, um homem foi preso por um policial militar e levado à Polícia Federal para ser autuado com base na L.S.N. e depois liberado por que não havia crime. Em Recife, a Tropa de Choque da polícia atirou contra uma manifestação política ordeira, sem nenhum tipo de provocação, sem nenhum tipo de desobediência à ordem policial, sem nenhum tipo de desobediência a uma lei.

         Vou esticar a minha reflexão. Aquele soldado obedeceu ao quê e mais relevante: a quem?

         O comandante que autorizou a ação recebeu alguma ordem superior para reprimir? Ou há outros objetivos? Colocar medo? Provocar o refluxo de outras manifestações pacíficas? A quem ele servia?

         Nas duas situações. Agiram por conta própria ou há uma rede de comando? Ou há uma rede de comando mental motivada por uma crença que isso é o que deveria se fazer?  

         Assim foi no auge do nazismo, todos obedecendo ao mínimo desejo de Hitler, mesmo que não fosse manifesto. De uma dependência de agradar, acolhido pela crença comum que servia ao seu líder. É possível que esse seja o Código que esteja por trás das duas ocorrências aqui relatadas.

        Dezenas de manifestações pró, uma contra. Faço, como minhas, as palavras da repórter Bianka Carvalho, da TV Globo, ao perguntar a um importante dirigente do Governo de Pernambuco: Há uma polícia dentro da polícia?

        Bem, estas são as minhas ponderações, peço as suas.


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Bem, é isso por hora.

Marconi Urquiza 

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Como se fosse o dono do tempo

 



        Tempos atrás eu escrevi a crônica Escritório de Conversas Avulsas, que era na farmácia de papai em Bom Conselho.  Hoje imagino que aquele comércio era muito mais que atender os clientes, lhes vender medicamentos, fazer curativos, aplicar injeções, orienta-los em alguma dúvida, poderia se dizer que praticava o que hoje se diz como marketing de relacionamento. Mas isso é resumir a dimensão de tudo que ali ocorreu anos a fio.

        Veja, há uns quatro anos eu fui para uma festa popular que é o Carnaval de Zé Puluca. Evento que ocorre em Bom Conselho no domingo anterior ao carnaval oficial. No sábado, daquele ano, se organizou a saída de um antigo bloco de carnaval da cidade, coisa da saudade, o Xipê. O nosso esquenta ocorreu na casa da viúva de Arcôncio Camboim, dona Socorrinho Guerra. No meio da conversa veio um dos filhos do casal, não lembro o nome, e me disse mais ou menos assim: 

        — Papai só chegava da fazenda, almoçava e já ia para a farmácia do seu pai. Como ele gostava de ir lá.  

        Eu fiquei contente, a minha reação foi tímida e a surpresa sincera. Na semana passada eu recebi um áudio de Luiz Clério, o editor do jornal A Gazeta, de Bom Conselho, noticiando, quase de imediato, uma situaçao que tinha ocorrido minutos antes. 

        A notícia me fez viajar para a adolescência, as lembranças chegaram como estivesse vivendo aqueles momentos. 

        Era quase sempre uma hora da tarde. Melhor é dizer, depois do almoço. Era frequente eu vir cobrir papai na farmácia após o meio-dia. Papai que tinha o hábito de cochilar à tarde, saia do comércio e nos colocava para ficar tomando conta dele até perto das três da tarde.

        Quase todas as vezes, ao chegar ele já estava sentado, na cadeira vizinha ao balcão em L da farmácia. Já estava com o primeiro caderno do jornal aberto e os outros protegidos sob a sua perna.

        Quando eu lia aquele jornal, li saltando as notícias, apenas as que me interessava mais, um pouco mais demorado no caderno Viver. Ele, não, lia metodicamente tudo, tudo. Cada linha, cada palavra.  Quase sempre sem conversar, poucas palavras. Respondia aos cumprimentos e voltava à leitura.

        Duas horas depois dobrava o Diario de Pernambuco e o devolvia. Se levantava, ia até a entrada da farmácia e ficava por lá alguns minutos observando o que se passava na rua. Depois devagar ia para a calçada, atravessava a rua e subia a praça como se fosse dono do tempo.

        De fato foi, viveu lúcido e bem até os 95 anos.

        Esse leitor foi o Naduca, Arnaldo Cavalcante de Miranda.



sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

O tempo faz refletir



        Há 9 anos começava a maior doutrinação do pensamento do brasileiro.  Era um alinhamento quase universal. Revistas, jornais, rádios,  internet, judiciário,  ministério público.  

        Foi tempo de uma desconstrução que dava para sentir saudade de Toninho Malvadeza, o Antônio Carlos Magalhães,  famoso por utilizar a desconstrução fascistoide de seu alvos. Tudo feito metodicamente, palavras bem colocadas, ações realizadas com rigor científico para manter a população alimentada pelo grotesco, pelo fuzilamento moral, desencadeadas em períodos regulares. Tudo parecia tão verdadeiro, tão cheio de certezas, tudo tão cheio de virtude que acendeu a paixão do brasileiro, com maior ênfase pelos que tinham o poder de fazer justiça, o desejo de justiçamento. 

        E tudo era acompanhando com avidez todas as noites. Nem a mais foda das novelas teve tanta audiência e tanta expectativa. Muitos se sentavam no sofá para receber a sua dose de diária de informação desinformante. E muitos brasileiros ficaram ávidos, não queriam mais justiça, queriam sangue, vingança e ódio e isso foi crescendo e se tornando o Novo Normal. Odiar era chique, era verdadeiro, parecia expressão de um pensamento livre, mas não era. O pensamento já estava doutrinado. 

        Há quatro anos o vulcão começou a fumegar, o alinhamento se formava em um subconsciente da unidade de um pensamento que o pais precisava mudar, que o novo seria a redenção. Era tanta gente cheia de certeza que ficou que ouvir com bom senso era impossível. Mas para que bom senso? Para que? Se a certeza já existia. Quando estamos certos não precisamos pensar só agir. Impenetrável aos fatos que começavam a mostrar um horizonte difícil. 

        O vulcão explodiu e soltou para todos os lados a sua lava. Não sei se o desejo ou esperança continuou a mover a maioria. Moveu e remexeu em tudo. A certeza, capitaneada pela doutrinação do pensamento, manteve-se firme no domínio.

        Aí ocorreu um dilúvio com nome e sobrenome, a arca estava maior e sem Noé para conduzir até que água baixasse.

        Pois bem, é preciso pensar nessa coisa difícil chamada política, um angu que tem todos os matizes e em todos os agrupamentos humanos.

Política é parte
integrante
Das ações do dia a dia
É muito mais que
debate
As vezes é 
escorregadia
Não é de esquerda,
de direita,
Centro nem ideologia.
(Ademar Ferreira)
    

Abração,  Marconi Urquiza 

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Francisco

 

        O nome dele é Francisco, um dos milhões de Francisco do Brasil. Um dos tantos que sente que a cor da sua pele o pega e o faz sofrer

        Mais de um ano já se passou quando ele escreveu em grupo do Whatsapp: Naquele tempo não tinha nada disso. Era início dos anos 1970, onde ele não sentia o racismo.

        Eu também não, menino branco, conversava com os amigos e os tratava pelo nome ou pelo apelido sem nenhuma outra conotação. Mais que isso, só as briguinhas de criança e jovens.

        Francisco era Francisco, Marconi era Marconi, Everaldo, era o Vevé, Manoel, o Mané. Até ganhei um apelido de um desses amigos que tinha dificuldade em falar meu nome e inventou um nome bem mais difícil e estranho: Malincônico. Já visse uma coisas dessas?

        A reclamação em 2020 tocou em mim de modo diferente, tocou no sentido de pensar cada palavra, cada expressão, cada ponto e cada vírgula. Zerou a espontaneidade. É tanta vigilância, que em vez de falar, prefiro ouvir, pois é preciso cuidar para que as ideias preconceituosas que os anos de vida possam ter incutido em minha mente não magoem as pessoas.

        Quando Francisco disse: Naquele tempo não tinha isso, senti a sua tristeza, a dor por um negócio que nem sequer poderia existir, sei que existe e é mal, maltrata, mata, exclui, acaba com as oportunidades.

        Pois bem, Francisco, somos agora sessentões. Vai meu abraço, vai meu apreço. Estamos juntos.


        Marconi Urquiza

Existimos: A que será que se destina?

Viktor Frankl             Começou, começou, começou aquilo que muitos refugam, mas têm uma apaixonada, apaixonada reação ao ouvir opiniões c...