sexta-feira, 20 de junho de 2025

Jogou por uma bola

 




        Jogou por uma bola. Quantas vezes ouvi isso com um tom discriminatório, de menosprezo, de quem foi competente em uma proposta de jogo? 

        Mas ontem tive que mudar de opinião ao assistir a todo o jogo do PSG e Botafogo. Quantas chances de gol teve o Botafogo, a do gol, mais uma, duas a mais?

        Quantas chances o PSG teve? Perigo de gol? Várias, mas apertadas pela marcação.

        Há muitos anos, Magrão, o então goleiro do Sport Recife, ao ser entrevistado sobre a derrota do time, respondeu sem subterfúgios: Eles jogaram melhor que nós. O Botafogo teve a entrega dos jogadores, a inteligência e a competência de fazer uma forma de jogo que lhe rendeu uma vitória fenomenal.   

        O treinador do Botafogo estudou bem o modo do time do PSG jogar, e com os jogadores para não deixar espaço ao excelente toque de bola do time francês. Uma das coisas mais interessantes, apesar do amplo domínio do PSG, o time evitou dar chutões a esmo.

        Ainda mais forte, forte, a equipe do Botafogo não mudou uma vírgula do que foi combinado entre o treinador e os jogadores. Outro ponto que merece atenção, foi o respeito e não o temor, pelo adversário. Por causa disso, lembrei-me até de Sun Tzu, autor do famoso livro: A arte da guerra. Que, sem a precisão do que está no livro, leciona: quando se conhece a si mesmo e ao adversário, a vitória se desenha favoravelmente. 

        O que eu vi no jogo foi exatamente isso: o Botafogo estudou a fundo o PSG, teve a sabedoria de mudar o seu jogo e, para mim, jogou e ganhou por uma bola. Foi menor isso? De jeito nenhum.

        Em poucos momentos durante o jogo, mesmo com as substituições, o time foi organizado para cumprir o  que se propôs a fazer no jogo. Em poucos momentos, o PSG conseguiu desorganizar o Botafogo, mas o time rápido voltou a se posicionar de forma a impedir que o PSG marcasse o gol.

        Vários treinadores e comentaristas disseram como é difícil e cansativo jogar sem bola. Como peladeiro, digo que é extenuante e frustrante em muitos momentos. Sobre esse aspecto, há mais um ponto que o Botafogo se preparou muito bem: o preparo mental para jogar como jogou, mantendo a concentração e evitando a frustração ao ver a bola quase sempre com o adversário.

        Enfim, do jogo de ontem, se tivermos acesso ao preparo para da equipe para ele, teremos uma aula de como jogar contra um adversário com um nível técnico e sistema de jogo que detém 80% da posse de bola. 

        Espero que surjam análises do jogo de forma didática, para amadores como eu, possa se espelhar.


        Por hora, é só.

        Abração, Marconi Urquiza

        

        

        

sexta-feira, 13 de junho de 2025

Basto, o amigo que se encantou

           


        Ontem à noite passei um bom tempo escutando forró e o You Tube foi me passando uma enormidade de canções, especialmente de Luiz Gonzaga. Dentre as músicas a do disco Luiz Gonzaga Sertão 70 de Gonzaga, nós tínhamos em nossa casa e fazia muito tempo que não ouvia. Boca de Forno, Já vou mãe e vários outras com tons tristes. E aí pensei, Gonzagão estava em uma fase da vida triste. De minha parte lembro que 1970, das que lembro foi uma das maiores secas que puder presenciar e por causa dessa seca eu tenho uma recordação recorrente. Várias vezes lembro e lembrei-me deste episódio. A alegria de um e a inveja de outro.

            Eu fui o invejoso e um amigo da escola o invejado.  Era metade de 1970, a seca queimava tudo, as frentes de trabalho espalhadas por todo canto e lá na região tinha uma na Serra de São Pedro, município de Bom Conselho.  Naquela tarde, finalzinho, já escuro, eu passava no calçadão da Praça Pedro II e na altura da loja A Princesa e dei de cara com o colega, todo empoeirado, dos pés a cabeça, rosto enegrecido pelo suor, pela poeira que tornava aquela parte da estrada, onde faziam melhorias, cinzenta todo o dia.

            Quando ele me viu disse:

            - Marconi, olha Marconi, olha! - e mostrou várias cédulas de 1 cruzeiro, verdes. Naquele instante eu senti inveja. Hoje e quando lembro do episódio e faço uma comparação relativa da vida dele e da minha na época, sinto que exagerei. 

            Muito anos se passou e eu e nossa família fomos cair em Barbosa Ferraz, noroeste do Paraná. Cheguei lá como gerente do Banco do Brasil.  A cidade tinha uma AABB simples. Um belo minicampo gramado, um salão aberto com churrasqueira, no qual no final dos sábados ficávamos conversando após a pelada. 

            Quem tomava conta era Basto, voz mansa, jeito calmo, e um coração bondoso.  Ele e Zefinha formavam um casal tão parecido. Calmos, bondosos. Moravam em uma casa simples, parte de madeira, parte de alvenaria. A casa dele era vizinho à AABB.

            Conversa vai, conversa vem, aí ele conta a sua história. Menino havia chegado a Barbosa Ferraz com os país para trabalhar no plantio de hortelã, então o "ouro verde" daqueles tempos. 1959 e parte dos anos 1960. Ele disse que era tanta grana que não sabia com o que gastar. Que o pagamento era feito por aviões que jogava os malotes de dinheiro para pagar pelo produto.

            Basto deu a entender que poderiam ter ficado aricos, mas eram pobres. Em outro momento, ele disse que havia nascido em Palmeiras dos Índios, Alagoas. Não sei se já havia dito, mas lhe informei que era de Bom Conselho, Pernambuco. Entre uma e outra, são apenas 28 quilômetros. Entre ele e eu, um mundo de diferenças de vida e que se encontraram em diáspora que a gente enfrentou em 1995. Quando no desespero, saímos procurando onde trabalhar e não ter que jogar fora 10 anos de empenho e desempenho profissional.

            Estávamos com três crianças. Com 9, 6 e 3 anos.  Victor, Raphael e Philip. Cida, ótima de papo e de relacionamento, fez amizade com Zefinha, amizade que perdura até hoje. Não sei precisar quando, Basto e Zefinha começaram a tomar conta dos nossos filhos. Eles ficavam na casa deles, ora em nossa casa, quando, pelos compromissos profissionais eu e Cida tínhamos que nos ausentar por algumas horas. A afeição era tanta que um dos filhos a tinha como segunda mãe.

            Chegou a hora de ir embora. A empresa exigia que gerentes tivessem curso superior, e tive que retomar os estudos em uma faculdade de Cianorte, e fui gerenciar a agência de Terra Boa e saí de Barbosa Ferraz. Sabe aquela sensação de luto, que havia deixado para trás pessoas muito queridas. Foi o que me acompanhou durante  muito tempo. 

            O tempo passou, voltamos para o Nordeste, e em 2019, 16 anos após a nossa saída do Paraná, fomos ao casamento da filha de outro casal amigo. Sérgio e Maris. E em uma tarde fomos visitar Basto e Zefinha. Quando chegamos ele estava só, Zefinha tinha ido ao cemitério cuidar do túmulo de familiares. Conversamos um pouco, tomei um cafezinho, o que ele sempre oferecia. Disse-me  que estava muito doente, e seu semblante era de tristeza. Logo depois, Cida chegou, pois tínhamos que voltar para Araruna, era final da tarde, e havia outra uma visita, a  Madalena, também de Barbosa Ferraz, que estava convalescendo de uma cirurgia na casa da mãe em Quinta do Sol. Tudo muito rápido.

        Basto e Zefinha, Adão e Madadela, eram nossos amigos, um convívio leve e que fazíamos nos sentir em casa naquelas paragem distante de nossa  família.

        Tempo depois, prometi a mim mesmo que voltaria para fazer uma visita demorada a Barbosa Ferraz, já foram 6 anos e Basto já se encantou. Ficou a lembrança daquele sorriso doce, tranquilo e de uma enorme boa vontade conosco. Um enorme coração bondoso.

        Bem, por hora é só.

        Abração, Marconi.

        

sexta-feira, 6 de junho de 2025

Leitura do jogo - da vida também.



 Com a vinda de Carlo Ancelotti para treinar a seleção brasileira, o astral do futebol, na mídia, no time e nos torcedores, se encheram de otimismo. "Mudou o astral", foi a afirmação mais comum ouvida ao longo da semana. Fui um daqueles que arriscaram minhas palavras "abalizadas", como um antigo comentarista, Luis Cavalcante, de voz impostada, era chamado a opinar na Rádio Jornal do Comércio, do Recife. Pois bem, começando pelos jogadores, que, creio, os veem com mais respeito que os treinadores brasileiros, e sem a vivência e histórico de títulos que possui Carlo Ancelotti.

        Mas, até quando vai a boa vontade e esse otimismo com o novo treinador da Seleção Brasileira? Nesse oceano que se vive no Brasil, só se veem coisas negativas e críticas para desacreditar as pessoas, neste "inferno astral" que só enxerga as coisas ruins, mesmo que não sejam de fato.

        Lembrei-me da onda otimista que encheu Recife e Pernambuco com o Recife Alto Astral nos anos 1990. Foi uma ação do prefeito e depois governador Jarbas Vasconcelos. Um chamado à população que despertou nos espíritos uma enorme vontade de ser feliz. Bem que poderíamos ser como Ariano Suassuna: realista esperançoso. Trazendo na alma a esperança ativa que Paulo Freire, a esperança do verbo esperançar para construir, ir atrás, juntar-se aos outros para fazer de outro modo.

        Quando é para insuflar o lado do ego negativo, temos centenas de líderes e influenciadores; quando é para mover as pessoas para o bem, são raros. As suas vozes se perdem no meio da multidão que planta, aduba, aduba, aduba e rega o pessimismo e as coisas negativas.

        Torço que Carlo Ancelotti resista aos dois primeiros jogos da Seleção Brasileira sem que surja um tsunami de críticas e desconstrução de sua história de sucesso, de sua biografia, que tende a usar a incapacidade de refletir por si, que muitos têm por falta de informação, por não ter acesso a ela, por não ter hábito, por ter a mente embotada por vozes que robotizam os nossos corações.

        Bem, queria escrever sobre uma nova percepção, experiência, um novo aprendizado. Vou falar de dois: um que vem sendo intenso, mas que começou há pelo menos 3 anos, e o outro, de uma vida inteira, especialmente nos últimos 20 anos.

        Primeiro, quero trazer um contexto. Quanto criança e adolescente fui sempre muito curioso,  ainda criança vivia a perguntar coisas que adultos não gostam de falar; quando adolescente fui nos livros buscar algumas respostas. Me ocorreu agora lembrar que eu tinha uma enorme curiosidade pelas meninas da minha rua; os livros me diziam como eram corpos femininos, mas não suas almas, e eu tinha uma enorme curiosidade de saber sobre o que elas conversavam. Sem esse acesso, comecei a ler matérias escritas por jornalistas femininas. Não vou dizer que adquiri uma compreensão plena, mas arranhei a minha curiosidade.

        O contexto é que essa curiosidade em geral, que me acompanha desde então, em que fico observando, observando, interpretando e guardando o que penso e o que acho que compreendi na maior parte do tempo.

        Há alguns anos, por necessidade, comecei a interessar-me pelo marketing digital, um mutante que altera a forma a cada dia. Todo dia são testados elementos de divulgação: memes, fakes, vídeos, falas, demonstrações professorais, piadas, notícias sérias e por aí vai.

        Em uma dessas tentativas de divulgar o romance Decisão de Matar fui mexer no aplicativo Canva. De tanto mexer, desisti. A divulgação deste romance foi ínfima e a sua leitura um fracasso. Mas disso, aprendi noções. 

        Nas últimas três semanas, encontrei uma forma de trabalhar a divulgação do próximo lançamento, O último café do Coronel. Depois de desembolsar muita grana na produção do livro, desisti de gastar e fui fazer o básico de um autodidata: a imitação. Resgatei partes de aulas sobre planejamento geral e comecei a tentar criar peças publicitárias, com base no que fazem duas grandes editoras. Algumas já estão prontas, carecem de revisão e opinião para saber se serão atrativas e não estragam o livro levando spoilers. 

        Vamos retomar ao futebol. Um aprendizado de uma vida inteira. Primeiro, aprendi a jogar futebol; eu era um grosso imenso, tanto em tamanho quanto em ruindade. Fui observando jogadores profissionais, treinando e jogando peladas até aprender a dominar a bola e me posicionar em campo. Com este básico, com o fôlego em dia, não faço feio.

        A partir de 2003, por cerca de dois anos, comecei a estudar futebol; comprei e li pelo menos uns dez livros e dois blogs que forneciam informações sobre táticas e treinamentos de futebol. Nessa época, aprendi a observar jogos de futebol e, ao mesmo tempo, atuei como comentarista na Rádio Integração de Surubim, o que me permitiu aprofundar minhas observações. Engraçado e ruim para mim, que gosto muito de futebol, é que perdi aquele gosto de ver jogos, especialmente quando estão ruins, e mudo logo de canal.

        Digamos que consegui perceber nuances de uma partida de futebol, que é feito por pessoas e suas emoções. Veja o que está acontecendo no momento com o Sport Recife. Não é qualidade técnica que falta àqueles atletas; falta-lhes um ambiente emocionalmente sadio.

        Vamos ao futebol amador. Nas últimas três jornadas de futebol dos jogos dos aposentados do Banco do Brasil, estive na reserva. Nas nove partidas em que participei, joguei apenas 10 minutos, então passei muito tempo observando, ou seja, olhando, só assistindo aos amigos jogando. Mas algo me ocorreu neste ano: comecei a ter uma percepção, percepção que veio naturalmente, por um espírito observador. Comecei a fazer uma leitura do jogo à beira do campo.

        Mas foi agora em São Luís (MA) que me dei conta da enormidadade que é perceber o jogo enquanto ele se desenrola, quando ele é jogado, quando o time se desequilibra e quando e como o adversário está jogando. Isto veio naturalmente; se estivesse em campo, teria sido muito difícil perceber isso. Talvez por esta razão, alguns cronistas comentam que há treinadores excelentes nos treinos e sofríveis no jogo. Existem outros que são ótimos durante o jogo, mas não tão bons nos treinos. Mas tudo isso passa lá pelo começo desta crônica: o jogador acredita nas palavras do técnico? Isso é crucial. Aliás, para qualquer liderança.

        É esta a força do Carlo Ancelotti. Segundo as minhas leituras, dizem que ele é bom de vestiário. Isto pode indicar que ele sabe conversar com seus atletas.

        Por hoje é encerro estas digressões.

        Abração, Marconi Urquiza.


OS LIVROS:

    Caso a curiosidade aumente, estes são dois livros que mas me encantaram na fase de estudo sobre o futebol:


Ciência do futebol


Universo Tático do Futebol - escola brasileira

sexta-feira, 30 de maio de 2025

Corrida - O esporte da alegria

            



          Há poucos anos, venho acompanhando à distância a corrida. Cida vem participando ativamente deste esporte.

          No início, eu apenas observava ela se arrumar e só estive presente nas corridas do evento CINFAABB.

          Estivemos em Balneário Camburiú, Palmas, Maceió, Fortaleza,  São Luís; duas vezes.

          No último sábado saímos do hotel às seis horas para o ponto de partida/chegada, a AABB São Luís. 

          Ela, ao chegar, como os demais corredores foram se confraternizando, tirando muitas fotografias, depois veio o alongamento coletivo.

          Tudo feito com uma alegria imensa; até mesmo aquelas pessoas com perfil hipercompetitivo entraram nesse espírito alegre.

          Aí chegou a hora da largada. Primeiro, os homens; depois, as mulheres; e, por último,l último os corredores 80+.

          Saí da retaguarda e me coloquei no trajeto de saída da corrida. 

          Um pouco antes de começar a contagem regressiva, observei os corredores concentrados, e então a contagem para a largada começou, a voz do locutor sendo acompanhada pelo coral das atletas.  

          Ao mesmo tempo em que as vozes cantavam os números, o balé das mãos erguidas enfeitava aquela manhã.

          Soou o som da largada, mais duas se seguiram.

          Vamos saltar desse make-off para a chegada. Fiquei observando os corredores e as corredoras chegando, muitos, cansado; outros, extenuados, mas, à medida que foram recuperando o fôlego, a alegria foi voltando.

          Talvez, com raras exceções, poucas pessoas que estavam ali poderiam ter ficado tristes com o próprio desempenho.  A maioria se sente vitoriosa por correr e por superar a distância da corrida. 

          Não conheço esporte que proporcione  essa elevação da autoestima aos seus participantes. E não é um fenômeno particular,  é geral.

         De minha parte, parabéns aos que superam a si mesmos ao se transformarem em corredoras e corredores.

         Hora do vídeo:

         




           Abração,  Marconi Urquiza. 


sexta-feira, 16 de maio de 2025

Pepe Mujica, Dominguinhos - O que têm em comum?

 


            Pepe Mujica se encantou. A sua vida longa nos deu a certeza que ele foi uma pessoa excepcional, daquelas capazes de iluminar os interlocutores e quem os escutava, não apenas um idoso boa praça, com um semblante tranquilo, com uma voz  que exalava paz. Uma coisa sinto que posso afirmar, ele não era egoísta.

            Não tenho como tecer mais comentários sobre ele, pois tudo que tenho comigo são fragmentos. E o que escrevi acima vem na intuição. E como sinto falta dela. Faz tempo que se foi.

            Ontem fiquei passeando pelas lembranças em busca de uma pessoa que também tivesse uma constância de apresentar um semblante quase sempre de paz, contentamento e parecia feliz em ser o que era e como era.

            Cheguei um ou dois que pareciam ser um espelho da paz que Pepe Mujica passava, mas tinham e têm um ar professoral, quase natural, mas, mais para impostado. 

            O Papa Francisco, enquanto a saúde permitiu, em quase todas as fotos ele estava sorrindo. Não tinha expressão dura, carrancuda, o rosto dele espelhava o branco das suas vestes habituais. Mas eu continuei a buscar uma pessoa que também tivessse uma expressão serena e que fosse de fato sereno, cordial, acessível a que lhe buscava e uma pessoa que espelhava generosidade.

            Disse que continuei a buscar, mas não fui bem assim, vez por outra tomava consciência que a mente andava cutucando as lembranças. Acontece com você?

            Aí nessa madrugada achei. Não conhecia essa pessoa com profundidade. Mas quando faleceu comecei a escutar as suas canções e ver inúmeros vídeos. Tem um que é basilar, já bem doente, ele tocava em show em homenagem a Luiz Gonzaga as suas músicas instrumentais.  No rosto já se via o sofrimento que a doença lhe causava. Semblante sério, sem o sorriso doce que invariavelmente mostrava, rosto com a pela escurecida e sem a energia que demonstrava ao tocar. Mas estava super concentrado. 

            Os anos foram passando e fui assistindo muitos vídeos dele, excluindo este da doença, todos os demais que pude assistir, Dominguinhos estava com um sorriso suave no rosto. A sua voz ao responder também era suave, natural, com quem que fosse que ele falasse a suavidade era espantosa, com uma humildade imensa. Já com o status de Mestre, ele respondeu a uma pergunta sobre a sua participação em gravações de outros artistas e a resposta veio sem qualquer traço de arrogância: gravei com 200 artistas. Não se via nada naquela resposta, uma coisa assim: "Eu sou o cara". Ela fazia por que amava ajudar.     

            Em desses vídeos, um outro artista comentou que em certo show contrataram um zabumbeiro e ele desafinava, aí essa pessoa afirmou a Dominguinhos. Dominguinhos ele desafina, eu vi, mas ele tá precisando. E o rapaz acompanhou Dominguinhos por aquela semana de shows. Generosidade.

            Encerro aqui com a lembrança do sorriso de Dominguinhos, que ainda transmite paz e contentamento.


            Por hoje é só. Abração.


            Marconi Urquiza

            

            

            

sexta-feira, 9 de maio de 2025

A bola e os amigos.

             Cada um de nós temos seu ponto de acionar a motivação e as manter ou não. Quantas vezes se entra motivado em uma atividade e nela diversos fatores vão desmotivando a pessoa. Não sou filósofo, nem psicólogo, mas tenho algumas ideias sobre a motivação. Um bom ambiente motiva, um mal, desmotiva, uma meta bem ajustada motiva, uma desajustada mata a vontade. A amizade motiva, as arengas, para a maioria desmotiva. Uma boa oração motiva, a falta dela pode provocar apatia. A família unida motiva, a desunida provoca enorme dor. Tal lista não tem fim.

        Na semana passada chegamos ao Colégio Marista São Luís do Recife para treinar futebol no seu campo. Era 8 da matina. O sol já estava ardido, forte. E parece que apesar do amplo espaço, naquele local o calor é maior. Como se diz, é a sensação térmica. Enquanto a gente se cumprimentava um dos amigos soltou algo assim: A essa hora, esse calor está uma loucura. Nãoo recordo bem a frase, mas Nildo ao ouvi-la disse sorrindo e que provocou sorrisos de quem estava ao seu redor: Loucura somos nós estarmos aqui para jogar (futebol).  Entendi e ri também, solto, contente, pois quase que estava no campo tinha mais de 60 anos. Vou enfatisar, mais de 60 anos, muitos com mais de 70 anos e nenhum jovem com menos de 50 anos.

        Por causa da manifestação de Nildo passei a semana pensando nela, no contexto e nas razões de estarmos ali, treinando. Treinos que se repetem há várias semanas visando os jogos do Campeonato de Integração do Aposentados do Banco do Brasil, o CINFABB, no final do mês em São Luis (MA). Nossa AABB (Recife) e várias outras Brasil afora que estão se preparando para competir.

        Competir é o fator fundamental para estarmos motivados. Lembro que a frustração dos jogos em Fortaleza para a maioria de nós foi forte, perdemos quase todas as competições de futebol. Mas creio que não seja só para sermos vitoriosos, estarmos treinando constantemente, mas também para rever muitos amigos, pelo menos uma vez por semana. Creio ser este um fator subjacente ao nos motivar estarmos ali. E a loucura que citou Nildo vai fazer sentido também por isso. A amizade. 

        Alguém se lembra da frase do Faustão: "Ôh, louco!"?  Pois é, somos todos loucos por bola!


            Abração, Marconi Urquiza.

            

            

sexta-feira, 2 de maio de 2025

Passagens

 



          Nesta semana vi o vídeo (reels) no Intagram do Pedro Pacífico (@bookster). Ele fez uma analise dos comentários da Amazon sobre cinco livros que ele considera entre os melhores que leu. Aí foi comentando cada ponto das opiniões inseridas pelos leitores.

        Tempos atrás li, não sei onde vi, pois faço leituras aleatórias de observações, comentários, notícias (a maior parte), resenhas de futebol (algumas), algumas notícias que envolvem a política brasileira (já li muito este ponto. Muito.) Não leio tudo que me chama atenção, mas entre as leituras majoritárias, estão as manchetes que me atraem.  Este é um "segredo" para capturar a nossa atenção. O título. Ou nos dias hoje, o tema mais polêmico, a maior baixaria ou o mais negativo, entre outros pontos.

        A leitura antiga dizia, mais ou menos assim: Quais livros você leu que foram importantes para você? Quero ampliar de livros, para quaisquer outras leituras. Comecei a lembrar de algumas enquanto estava escrevendo.

        Em 1995 fui transferido de Palmeirina (PE) para Barboza Ferraz no Paraná. Antes dela ocorrer eu havia passado quase seis meses lendo as famosas CICs, em resumo, as instruções normativas que o Banco do Brasil determinava e orientava as condutas dos funcionários, dos processos e dos negócios.  Comecei pela CIC Administração e finalizei com a CIC Crédito. Por que li? Por que sentia uma carência de conhecimento dos elementos normativos para eu ter uma gerência correta.

        Calhou ter sido transferido quando a leitura ainda estava, na maior parte atualizada. Então esses conhecimentos estavam fresquinhos na cabeça. Mas eis que viajei. Pela primeira vez na vida viajei para São Paulo e de lá para Curitiba. Teve um momento que o avião baixou, perto do aeroporto de Guarulhos e vi as edificações se perderem no horizonte. O gigantismo de São Paulo passeou pelos olhos naqueles poucos minutos.

        Enfim, cheguei a Curitiba para pegar o voo para Maringá. Era agosto de 1995, mas a cidade não estava muito fria, Maringá estava quente, entre 32 e 35 graus.  Um calor pesado e abafado. Esses períodos em pleno inverno tem nome: veranico. Veranico, pois duram poucos dias e logo vem uma frente fria a exigir que vistamos as roupas de frio.

        Estava passeando pelo Aeroporto Afonso Pena e me aproximei de uma banca de revistas, nela vi vários textos curtos sobre Administração de Empresas. Comprei dois, por serem com poucas páginas os li enquanto não ocorria a chamada para ir a Maringá.  Tais publicações, de quatro páginas, me serviram de guias para o mundo novo que seria trabalhar em um estado com a fama de desenvolvido, com uma economia forte e com gente com pensamentos diferentes dos nossos, no contexto daquela época. 

        Foram estas publicações, curtas, que me deram um norte para gerir melhor, agregando uma intuição forte com conhecimentos técnicos. 

        Nesta época eu era 90% intuição. Uma sensibilidade enorme para ver as pessoas, os contextos e criar soluções a partir disso. Funcionou bem durante muito tempo.

        Vou dar um pulo gigante no meu tempo de vida. Vinte anos, aproxidamente, após o nosso retorno do Paraná para Pernambuco, que ocorreu em 2003, fui deixar Cida na Igreja Nossa Senhora do Carmo. No seu dia é feriado em Recife. Na ida vi na Avenida Guararapes vários sebos ambulantes embaixo das marquises dos prédios, então voltei e estacionei o carro ao lado dos Correios. Segui para lá e fui passear por aquele enorme "saguão" com os livros expostos no chão.

        Nesse passeio vi vários livros, de tudo que é tipo. Queria e não queria comprar, tenho a mania de comprar livros novos para que o autor ganhe uma laminha com minha compra. E fui passeando. Interessante, havia algumas pessoas também olhando e todas silenciosas. Ali não tinha papo e quando tinha, era em voz baixa. E fui passeando, parava, olhava, seguia em frente, quase no final daquele trecho de exposição dos livros vi um título, parei, fiquei olhando para ver detalhes, me agachei e o peguei. O livro estava com a capa se rasgando, detonado. Folhei um pouco e o coração exigiu que comprasse. 

        — Moço, quanto é este livro?

        — Cinco reais.

        — Cinco reais?

        — Cinco reais - paguei e ele me deu uma sacola plástica para levar o livro.

        Naquele mesmo dia comecei a ler. E fui lendo cada vez com maior interesse, pois o livro me ajudava a entender tanto o momento em que vivia quando as crises que passei alguns anos antes.

        Na minha infância e adolescência ouvi muitas vezes lá em casa, Fulano está em crise da meia idade. Não compreendia o quer era tal coisa, carecia de explicação e contextoNão tive, só a informação; Fulano tá em crise braba e é da meia-idade. O tempo passou eu esqueci da tal crise da meia idade, nem quando aos 38 anos entrei em uma crise pesada sem entender o problema, pois parecia não ter causa externa.

        Depois tive outra aos 48 anos, nessa já estava fazendo psicoterapia, que ajudava, mas não resolvia. 

        Foi nesse contexto que o livro que achei no sebo entrou como uma leitura importante para mim, quase salvadora. Era lendo e a mente se abrindo para a compreensão do ocorreu e ocorria. Então é isso? É isso? E fui me aprofundando na leitura, cada vez mais esclaredora das dores que tive e ainda dava seus cutucões.

        Quando cheguei ao fim da leitura, pensei em duas coisas: aqueles foram os cinco reais mais bem usados na vida e o senhor que me vendeu o livro, tinha um tesouro em mãos e não sabia. Agora estou com ele aqui comigo enquanto escrevo esta crônica. Folhas se soltando, capa rasgada, lombada em parte solta, mostrando os caderninhos colados. Mas isto não muda, ele é um tesouro que a autora nos deu para compreender parte da vida.

        Gail Sheeny, é a autora dessa preciosidade: Passagens - Crises previsíveis da vida adulta.

        Bem, como o vi nesta semana, cutucando o meu acervo desorganizado, lembrei do bem que me fez.

        Abração, Marconi.





        

    

Existimos: A que será que se destina?

Viktor Frankl             Começou, começou, começou aquilo que muitos refugam, mas têm uma apaixonada, apaixonada reação ao ouvir opiniões c...