sexta-feira, 8 de abril de 2022

Gol na rede " véu de noiva"

Enorme,  1,85, mal saído dos 15 anos, barba falhada e entrando nas peladas com os adultos. 

Chuteira Olé, a top daquele interior. Naquela pelada, domingueira, entrou de lateral direito, no gol do outro time, Geo, o melhor goleiro da década de 1960 em Bom Conselho. 

A pelada, como quase todas, começou organizada.  Cada jogador guardando a sua posição.  Na medida que foram cansando o lateral-direito foi ousando,  saindo da linha lateral, não sabe como o meio do campo se abriu, como se Moisés tivesse feito a sua mágica e bola caiu na sua frente... Empurrou a bola e saiu correndo...

Um dia, alguns anos antes, ganhou a primeira camisa oficial do Sport Recife, usou até furar, e aquela chuteira Olé, aquela da pelada, comprada à prestação em uma sapataria de Garanhuns, só parou de jogar com ela quando perdeu metade das travas.

Era a  tríade dos seus desejos de menino.  Bola de couro,  chuteira e não Kichute, Calção Adidas que começava  a aparecer por lá. 

Lembra a bola que caiu na sua frente,  no meio do campo arenoso, ele saiu acelerando as passadas, foi chegando na cara do gol e o goleiro Geo foi crescendo na sua frente,  ficando maior que seu 1,83.

Acelerado, o lateral fez o que um peladeiro tenta, chutar forte, mas a bola espirra, saiu meio de ponta de pé, fraca.

A bola escapuliu do seu pé sem querer chegar, passou a cinco dedos do pé esquerdo do goleiro e o rapaz virou o rosto para ver onde a bola ia e cinco metros depois ela quicou na linha do gol, mais alta que o nível do  campo, e subiu, subiu, subiu e foi se deitar na rede "véu de noiva", escorregando lentamente dentro do gol e lá rebolou, deu algumas voltas sobre o seu próprio eixo,  até cochilar.

Eu abri um sorriso imenso, só não gritei com esse gol por timidez, deveria ter feito. Nunca tinha feito um em uma barra com rede. 

Esse primeiro gol,  em um domingo de céu azul, com brisa suave que vinha da serra de Santa Teresinha lambendo o rosto, tudo aquilo me encantou. 

Passados 46 anos daquela pelada, me vejo tentando jogar algumas peladas e os joelhos reclamando muito.  "Calma amigo, eu vou de leve", é só o que posso dizer e continuar buscando no reforço muscular a satisfação de um passe bem feito e um chute bem colocado.

Estou em Balneário Camburiú, movido pelo presente, nos jogos de integração dos aposentados do Banco do Brasil.  

E não é algum gol magistral, algum craque da maturidade,  não é a organização, são as pessoas,  elas que fazem a festa. Que trazem força e calor, e animam a teimar até a próxima jornada esportiva. 

Abração, 
Marconi Urquiza 

sexta-feira, 1 de abril de 2022

Um menino de 28 anos e seu esporte fino

 


        Um amigo passou para mim uma ideia de uma crônica. Pensar, estudar e escrever sobre  mendigo de Brasília que levou uma surra do personal trainer e sua súbita condição de estrela das mídias em geral. Em poucos dias estava sendo "condenado" por suas palavras. Em um átimo de tempo deixou de ser vítima para virar algoz.

        Pode? Pode um negócios desses? Pode, o mundo é uma construção incessante de narrativas e não de verdades, de uma incessante organização mediática que busca convencer e de solidificar as suas "verdades" nas almas convertidas.

        Tudo isso é um fogo fátuo a queimar as pessoas e a fazer outras tantas pularem ao sabor dos aspectos ruins da vida humana. Notícia ruim dá mídia, é a que vende mais. Somos atraídos pela desgraça. 

       Mais que isso, não tenho como me aprofundar neste tema sem uma pesquisa cuidadosa e uma reflexão ponderada,  o que leva tempo. 

        Além disso, ando buscando, nessa quadra da vida, pensar em pontos mais amenos, embora isto revele a minha contradição após ter escritos romances, cujo enfoque das narrativas passe pelos aspectos ruins, regulares e recorrentes das pessoas: a maldade, a violência e a luta para não sucumbir.

        Pois bem, ontem viajei para participar,  no futebol, dos jogos de aposentados do Banco do Brasil, em Santa Catarina. A preparação me motivou a trazer algumas recordações.

         Dias desses cheguei em um treino e, naquele papo antes de iniciar, disse a alguns amigos que estava com vontade de jogar. Sabe quanto isto ocorreu? Tem mais de 15 anos. Fiquei sem jogar uma pelada mais de 10 anos. Depois desse tempo, como forma de me solicializar, tentei jogar, machuquei-me muitas vezes, aumentando a desmotivação e só insisti por que gosto de conversar com os amigos, daquele papo que torna leve a alma. Energisa.

        Nessa vibe, ontem acordei passeando pela minha meninice, sentindo aquela energia que me movia o dia inteiro para ir treinar à tarde. Era descobrindo o mundo e descobrindo o futebol, aprendendo como jogar e acertando na posição, na técnica e no modo de jogar. Isso tudo me fazia feliz. Leve.

        É essa leveza que tenho neste momento, ligando 40 anos de vida, nos quais 25 jogando futebol com gosto, com fome, fome que não saciava. De me enfeitar por que adorava jogar todo arrumado. Tenho até uma história que ilustra isso.

        Um dia estava em Manaus e vi uma camisa do São Paulo, Adidas, aquela branca, número 10 nas costas, na frente de uma loja de rua. Na época o time jogava o fino e nem tinha sido Campeão do Mundo. Jogava bonito, encantava. Aquela camisa me chamou, a comprei.

        Então aos sábados a vestia, colocava meião de marca, calção também, caneleira e tornozeleira, imitando Dr. Sócrates, por cima do meião. Nesse tempo inventei um uniforme para o São Paulo com ele jogava a minha pelada. A camisa branca, o calção e os meiões eram vermelhos. Camisa ensacada no calção, meião ia até perto do joelho. Chuteira, preta, engraxada. Pronto, lá ia eu brincar de jogador profissional. Me sentia feliz. Mas um dia, ao chegar na pelada, alguém me perguntou por que eu estava tão enfeitado, na verdade ele disse: Pra que isso? Não pensei estar chamando à atenção e estava. Não lembro se disse: Por que gosto ou Por que me sinto bonito.

        Era assim mesmo, eu me sentia bonito jogando todo arrumado, parecendo que iria para uma festa de formatura, pois é, pois é assim que me sinto nessa viagem, como aquele menino de 28 anos, todo enfeitado, vestindo um uniforme de futebol completo, como um traje de gala. O meu esporte fino. E viva o Grande Ariano Suassuna!


        Abraço, Marconi Urquiza

sexta-feira, 25 de março de 2022

A CHUVA, O MOTOQUEIRO E A ROUPA DE ANO NOVO

"Chove chuva, chove sem parar..." e a canção pedia a Deus parar de chover molhava o seu amor.

Esta é a frase de uma canção de Jorge Ben Jor e as chuvas torrenciais que caíram em Recife e João Pessoa nesta semana me lembraram da canção e de uma história. Essas duas recentes eu presenciei e me fizeram viajar no tempo.

É a chuva que ajuda, é a chuva que desgraça,  depende do volume.  Nesta semana ficou mais,  para uma população carente, para aquela que desgraça. Chuva torrencial que mais parecia uma cortina de água. 

Com essa imagem eu viajei para o dia 01 de janeiro de 1988. Era um primeiro de janeiro chuvoso, como sempre no Estado do Amazonas e entendiante, como quase todo primeiro dia do ano.

Depois do almoço,  eu, Cida e Victor fomos para a garagem e ficamos lá sentados.  Victor no meu colo, Cida ao lado proseando e vendo a chuva que caia. Até aquele momento,  com toda a manhã chuvosa,  ela vinha mansa.

Depois de meia-hora naquele banzo, o tempo rugiu, trovões pipocaram e a chuva mansa virou uma cortina de água.  Era tanta água que não dava para ver além de cinco metros de distância.  E assim ficou um tempo, mas passou. Estiou.

Foi estiar e as motos começaram a passar na frente da casa. Preciso descrever como era aquela avenida.

Ela vinha do aeroporto de Tabatinga, 5 quilômetros antes e com piso bom até chegar perto da nossa casa, que ficava em frente aos Correios. 

De um pouco antes de nossa casa até 100 metros à frente o asfalto era esburacado,  mas nesse trecho da frente de nossa casa, era um mar de lama.

Na medida que as motos foram chegando o tédio foi sumindo, pois a nossa curiosidade só crescia na aventura daqueles motoqueiros. 

Era uma dilema sem solução. Se o piloto vinha rápido,  ligeiro caia, se o piloto controlava a velocidade,  o pé no barro vinha em câmara lenta. 

Nessa altura o tédio tinha ido embora de vez e a gente estava no portão vendo os motoqueiros desafiando a lama escorregadia. 

Aí veio um piloto,  ele e a companheira vestidos de branco, só que ele se recusou colocar os pés no chão para se apoiar. Ele não queria sujar a calça branquinha.

Aí ele entrou,  veio  controlando a força da moto. Passou pelo trecho inicial ruim, foi chegando nos Correios e passou por esse pedaço. A moto deu uma balançada, o piloto controlou. Foi mais, uns dez metros, aí ele começou a balançar,  escorregou para um lado,  para o outro, equilibrou meio metro,  um metro,  cinco metros,  dez metros e teimoso não colocou os pés no chão,  a calça continuou imaculadamente branca. De repente a moto perdeu força, balançou toda, veio junto o piloto  e a carona também, na rapidez que meu piscar de olhos permitiu,  o branco daquela roupa de ano novo ficou da cor do barro avermelhado da frente da nossa casa.

Abração,
Marconi Urquiza 

sexta-feira, 18 de março de 2022

A raiva nas ondas do Whatsapp

 



        Eu não sei em que isso vai dar, mas é uma experiência, uma percepção da leitura de algumas frases que ecoaram como irritadas, enraivecidas.

        Primeiro vem a experiência, melhor, a vivência. A cliente, o cliente, entra em contato com a empresa através do Whatsapp. Eu, por crer que preciso oferecer uma resposta imediata, em respeito a quem nos procura, ajo no sentido de, no máximo, em 10 minutos lhe oferecer a atenção e a resposta ao que a pessoa quer: informações de algum serviço e o orçamento.

        Nesse ramo, o da limpeza de estofados, colchões, carpetes, etc. Como da impermeabilização de tecidos utilizados em movéis, tem todo tipo de empresa, tudo que é preço e qualidade dos serviços. Não deixa de ser uma comoditie, onde não há escassez.

        Os preços cobrados pela empresa que atuo como orçamentista em João Pessoa, a Safe Clean, nem é a mais barata e nem a mais cara. Na maior parte das vezes, o preço é médio.

        Muita gente, muitas pessoas no acionam e depois silenciam. Há uma ação chamada de Follow Up, eu a uso buscando achar algum indeciso, mas geralmente o resultado é pequeno, porque a maioria decide na hora. Faço o Follow Up de três modos. Algumas horas depois de ter passado o orçamento, no dia seguinte e uma semana depois. Neste caso tentando descobrir se o cliente fechou com outra empresa e o preço, o que é uma raridade informarem. Algumas respostas são simples, na maior parte ocorre o silêncio.

        Ontem, fiz esse contato após uma semana. Essa cliente respondeu dizendo já ter feito o serviço e que nosso preço é muito caro.

        Resposta objetiva, feedback perfeito. Pedi a ela que me dissesse o preço, veio o silêncio, comum nos contatos com Whatsapp. Mas naquela resposta veio algo mais forte, uma energia tremenda. Não sei por que, não é a primeira vez e fica no campo da intuição e da percepção. Bem, essa energia foi a raiva. Senti aquela mulher enraiveicida. Sensação que senti em outras oportunidades.

        Mais que palavras, é a energia que elas transportam. Talvez essa experiência pessoal venha como um alerta, para as pessoas que se importam com isso. Zelar a própria energia psíquica quanto tiver de responder a alguém. É fácil perder o controle e ser grosseiro.

        Fique ligado, para você continuar sendo dono da própria subjetividade, pois estamos entrando em nova ebulição da bestificação das nossas emoções. 


        Abraço,

        Marconi Urquiza

    

sexta-feira, 4 de março de 2022

É Guerra, e não é de videogame

    
Guernica - Quadro de Picasso

    Amados,  é guerra. E não é de videogame.

    Umas das frases que reverberou em minha adolescência vinha de longe. Eu lia nas carrocerias de caminhões e era de uma empresa que fabricava carrocerias ou era concessionária da Mercedes Benz, penso que no Rio Grande do Sul.

    A frase era essa: Guerra é paz nas estradas.  

    Quando criança me encantava com o primo Gervasinho desenhando navios de guerra. Alguns anos depois eu vi no Cine Brasília muitos filmes inspirados na Segunda Guerra Mundial. Muitos,  em que os heróis sempre levavam vantagem contra os inimigos.  (Quase todos nazistas).

    Mas a guerra para mim não causava impacto. Como alguém disse, mais 30 anos depois: Aquelas, eram guerras de videogame. As dos filmes.

    Entenderam a metáfora?

    Tais filmes nunca atrapalharam meu sono.  Mas algo mudou irremediavelmente. A violência,  qualquer tipo, qualquer grau, causa-me um tremendo desconforto.  Em todas as cenas de filmes mais pesadas eu mudo de canal.
    
    Essa realidade deixou de ser guerra de videogame para mim, para qual não me acostumo.

    Vivi uma angústia imensa quando assisti ao filme Até o Último Homem.  Nas cenas cruas eu virava o rosto. Pedaços de corpos voavam de um lado para o outro.

    Ali é tudo de uma ferocidade imensa. 

    Nessa reflexão lembrei de uma das aulas de filosofia no curso de Direito. Nela o professor falou do livro O Leviatã. O autor, Thomas Hobbes, declarou que "O homem é lobo do homem". Ao conhecer a afirmação, estávamos no final do anos 1990, então com 38 anos,  e eu não compreendi essa constatação.  Hoje está cristalino. Poder, estímulos,  doutrinação,  crença incubada, basta um clique,  tudo se precipita na violência.

    Poderia me resignar, mas não consigo. 

        Abraço,
        Marconi Urquiza 

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Futebol e praia com o sol a pino



        Em um dos últimos sábados de 2018 me encontrei com o amigo
Nelson Lins Jr. na entrada da AABB de Recife, ele saindo e eu chegando.

        Conversamos menos de um minuto e ele deu uma guinada no papo para observar que nem imaginava como uns peladeiros às 11:20h estavam jogando futebol no minicampo de grama sintética a uma temperatura perto dos 40 graus.  Sem nuvens, sem boné, sem sombra. Com o sol a pino. 

        Na hora veio-me a lembrança de correr ladeira abaixo, de correr ladeira acima, de mal almoçar e sair de casa para ir ligeiro ao campo de terra poeirenta ver os clássicos do futebol da minha terra.

        De pagar um ingresso e chegar aos estádios de Recife a uma da tarde para ver os jogos preliminares do futebol profissional do campeonato pernambucano na década de 1970.

        De, na secura, juntos com vários colegas na AABB de Afogados da Ingazeira jogar duas, três vezes no minicampo corrugado aos domingos pela manhã.  A vontade era tanta, que a primeira pelada começava às 8 da manhã e a uma hora da tarde a gente costumava voltar para a terceira.

        Tudo isso sem protetor solar e na energia dos 22 anos.

        Mas sol a pino enfrentou Cida, cuja secura por praia só não era maior que o próprio mar.

        Se bronzear era brinquedo, era para ficar na cor de jambo, coca-cola, colorau misturado, e muitos outros produtos, todos inadequados para se bronzear e proteger a pele.

        O sol a pino dela começava cedo e acabava no meio tarde. Todo dia, todo santo dia.

        Cabular aula, cabular o trabalho,  tudo para aproveitar o sol, rodeando a luz como um girassol, para que nenhuma marquinha não desejada ficasse na cor morena natural.

        Era sol a pino.

        Agora estamos mais cuidadosos, mas ser jovem, sem ter tido alguma aventura, é como chegar na velhice inventando história  do que nunca fez. 

    (2022 - Atualizando o pensamento: Bem há outra formas viver a vida e contar a própria história.)

      Abraço.
      Marconi Urquiza. 


sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

MONARK E O CÓDIGO DE UMA CRENÇA

 

Código de uma Crença

 



          Quando Monark fez as suas observações nazistas, inúmeras pessoas fizeram as suas críticas, todas procedentes. Mesmo quem não tem afinidade com a história, em algum momento o nazismo e suas consequências nefastas chegaram a essa pessoa. 

    O Nazismo não sai de moda, é ilegal no Brasil e em muitas partes do mundo, mas continua alimentando inúmeros espíritos com a tendência de serem maus.  Muitos, muitas pessoas, são pequenos ditadores e a filosofia nazista cai como uma luva para elas alimentarem os seus impulsos.

    Há alguns anos tomei um susto, não esperava ver o que vi. Era 2018 e nós fomos para Blumenau, Oktoberfest. Eu, Cida, Marcello e Zoraide. No domingo, Marcello nos levou para conhecer a Rua 15 de Novembro. Fomos andando e em certo momento subimos a escadaria da Catedral. Depois de alguns minutos, voltamos para a rua e assim que descemos a escadaria vi uma livraria, me aproximei e parei. Na sua parede, um cartaz que dava um endereço no Facebook, convidando pessoas para um grupo nazista. Até fotografei, depois apaguei, mas fiquei por meses pensando nisso. Por fim, entrou na ladeira do esquecimento, até esta semana.

    O texto abaixo foi escrito em junho do ano passado e não divulguei. Guardei aqui. É datado, tem um contexto histórico e tem também um contexto perene, pois o Nazismo está sempre rondando, é moda permanente.

------ TEXTO  ORIGINAL ------

       Quero dizer, antes de tudo, que você não precisa concordar com estas palavras. Fique à vontade para critica-las.

        Não sei quantos tiveram a vontade de ler sobre o nazismo. A minha lembrança mais longínqua desse regime político foi ao assistir a série Holocausto, de 1978. Naqueles episódios, o que mais me chamou a atenção foi uma aparência de passividade da população que foi dizimada.

        Depois, talvez em 1979 ou 1980, conheci uma professora, alemã, da Universidade Federal Rural de Pernambuco. Em uma das aulas, ela comentou que seu pai havia fugido dos russos durante muitos meses, após a derrota da Alemanha na Segunda Guerra Mundial. Caminhou pelas florestas do leste europeu até conseguir entrar no território ocupado, daquele país, pelos Estados Unidos.

         Vale a pena um adendo. Naquele período, todo soldado nazista que fosse encontrado pelo exército da União Soviética era fuzilado.

         Após esse testemunho, fiquei com um comichão, então certo dia me aproximei dela para fazer a pergunta que batia na cabeça.

         — Professora, por que seu pai foi nazista?

         Duas coisas não esqueci daquele momento. A primeira foi a sua expressão de constrangimento e, finalmente, a sua resposta:

         — Não havia como não ser nazista.

         Que situação é essa que não havia uma alternativa para se viver?

         Tal resposta, de modo inconsciente, foi o gatilho para o desejo de me aprofundar nesse fenômeno político-social, cujas implicações foram duradouras. Foram anos de interesse. Dezenas de documentários, artigos, reportagens, livros, filmes. Tudo visto e listo com avidez.

         Nessa trajetória esbarrei com um artigo da revista Veja que tratava de um ex-vice-presidente de uma grande empresa. Bem, esse homem era fã das técnicas, táticas e modos de gerir nazistas. Tal executivo foi demitido em algum escândalo envolvendo a privatização das telecomunicações no Brasil, na época de FHC. Para mim essa afinidade do executivo não é um fato fora da curva. Ouso dizer que as táticas nazistas, fascistas e totalitárias continuam tendo eco mundo afora desde então.

         Aí, vários anos atrás assisti ao filme-reportagem de nome “Caçando Eichmann”. Trata da captura do oficial da SS nazista, em Buenos Aires. Adolf Eichmann, coronel que liderou todo o transporte dos judeus húngaros para o Campo de Extermínio de Auschwitz.

        Depois do filme, li o livro correspondente e saí lendo outros livros. O curiosidade foi tanta busquei um escrito por Hanna Arendt: “As Origens do Totalitarismo: Antissemitismo, Imperialismo e Totalitarismo”. Neste livro, há na bibliografia a citação de outro de sua autoria. Foi assim que esbarrei no mais famoso livro dela: Eichmann em Jerusalém – um relato da banalidade do mal. Este livro marcou muito, deu-me um sentido de observação que propiciou ter percepções críticas para muita coisa.

        O meu momento de vida, tempos depois, era de questionamento de um certo “código de ética”. Assim, no minúsculo, porque embora torto, era um código de conduta, amplamente disseminado. Comecei a perceber que vivia em um ambiente em que as ultrapassagens ao Código de Ética ideal, às normas de conduta e as de negócios eram incentivadas. Até as leis eram banalizadas. O código real e influenciador era outro: Entregar o número de qualquer modo. Só entregue. O recado era um só: isto é o que vale, isto é o que é importante.

        Alguns anos depois, comprei o último livro a respeito do nazismo e com ele encerrei a minha leitura sobre o assunto.

        Pois bem, foi o estudo, intitulado de “Crer e Destruir – Os intelectuais na máquina de guerra da SS nazista”. Nele um pesquisador francês estudou com profundidade 99 oficiais nazistas.

        O primeiro ponto daquela leitura foi: A seleção dos oficiais pela SS. A maioria tinham curso superior, mestrado e até doutorado. Não eram incultos, como muitas narrativas que os apresentou após a guerra. Como se para se justificar a brutalidade dessas pessoas.

        O outro ponto, foi a Construção da Crença. Uma vez tudo assimilado que faziam a coisa mais certa do universo, fazer aquelas barbaridades não lhe infligia nenhuma dor, culpa ou remorso.

        Algum tempo depois, vi o filme que discorreu sobre a reunião que decidiu como executar mais rápido os judeus. O “convencimento” para a Solução Final. No filme, em certo momento um general do exército discordou. Ali haveria de haver unanimidade. O general que comandava a reunião, após as devidas regulagem intimidatórias, falando em nome de Hitler, obteve o voto do general “recalcitrante”.

        Cinco, seis anos atrás, apareceu no canal History Chanel um documentário, em vários episódios, intitulado de Códigos Nazistas. Deixei de lado qualquer resenha sobre tal documentário, são vários códigos. Mas vou colocar a minha interpretação. O Código Nazista, como qualquer código de uma sociedade, de um grupo de pessoas, mesmo distantes fisicamente, os faz sentirem-se pertencentes a um tipo de agrupamento. Grosso modo, seria como um agrupamento “espiritual”.

         Então, no código nazista, certas palavras de Hitler se transformavam em palavras-chave, em crença, ordem e execução, sem que se ouvisse um “faça” imperioso. A Solução Final foi uma dessas palavras-chave.

         Vamos para o presente. Nos tempos em que se filma tudo, o que ocorreu na semana passada em Recife (29.05.2021), em Trindade, Goiás. Das queixas-crime em razão de críticas postadas na mídia e nas redes sociais. Inquéritos abertos para intimidar, com base na Lei de Segurança Nacional.

         Em Goiás, um homem foi preso por um policial militar e levado à Polícia Federal para ser autuado com base na L.S.N. e depois liberado por que não havia crime. Em Recife, a Tropa de Choque da polícia atirou contra uma manifestação política ordeira, sem nenhum tipo de provocação, sem nenhum tipo de desobediência à ordem policial, sem nenhum tipo de desobediência a uma lei.

         Vou esticar a minha reflexão. Aquele soldado obedeceu ao quê e mais relevante: a quem?

         O comandante que autorizou a ação recebeu alguma ordem superior para reprimir? Ou há outros objetivos? Colocar medo? Provocar o refluxo de outras manifestações pacíficas? A quem ele servia?

         Nas duas situações. Agiram por conta própria ou há uma rede de comando? Ou há uma rede de comando mental motivada por uma crença que isso é o que deveria se fazer?  

         Assim foi no auge do nazismo, todos obedecendo ao mínimo desejo de Hitler, mesmo que não fosse manifesto. De uma dependência de agradar, acolhido pela crença comum que servia ao seu líder. É possível que esse seja o Código que esteja por trás das duas ocorrências aqui relatadas.

        Dezenas de manifestações pró, uma contra. Faço, como minhas, as palavras da repórter Bianka Carvalho, da TV Globo, ao perguntar a um importante dirigente do Governo de Pernambuco: Há uma polícia dentro da polícia?

        Bem, estas são as minhas ponderações, peço as suas.


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Bem, é isso por hora.

Marconi Urquiza 

Existimos: A que será que se destina?

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