sexta-feira, 17 de junho de 2022

Minha vida no Amazonas

 

Platô do Piquiá - Boca do Acre (AM)

        Parafraseando Hannah Arendt, vivemos tempos sombrios (Homens em tempos sombrios), onde o poder se apresenta carregado de maldade. É incessante, o que exige um esforço contínuo em contrário e também para não sucumbir e se deixar levar por essa maldade, se transformando em uma vítima ou um agente dela.

        Esse episódio envolvendo o jornalista e o funcionário da FUNAI me fez viajar na memória, de algumas experiências que andavam totalmente esquecidas. Não que outros acontecimentos de violência não tivessem sidos noticiados. Violência policial no Rio, latrocínios, feminicídios, novo cangaço. São tantos os casos que, neste momento, às 4:31h desta sexta-feira, percebi como isto se naturalizou. Não é a repetição que se aprende, mas a repetição que vai se entranhando e deixando algo extremo ser "natural", naturalizado.

        Geograficamente os assassinatos ocorreram na região do rio Javari, na vasta área de Atalaia do Norte (AM). Em 1987 eu fui morar e trabalhar em Tabatinga (AM), cidade maior e próxima a Atalaia do Norte. Ao chegar na cidade, já de cara ouvi que era uma cidade onde narcotráfico era o fator de girava a economia da cidade. Que era preciso ter cuidado. Foi a época que violência na Colombia, com Pablo Escobar, estava no auge. 

        O aviso inicial me precaveu como deveria ser o comportamento naquela cidade. Discreto, olhos que não viam alguma coisa perigosa, boca fechada e sódar conta da própria vida.  Tinha, então, 27 anos ao começar tal experência.

        Alguns anos depois, volto ao Amazonas, fui trabalhar em Boca do Acre, cuja cidade tinha mais relação comercial e afetiva com Rio Branco, no Acre, do que com Manaus. Fui ser gerente do Banco do Brasil. Logo que cheguei rolava um caso de um furto de uma D10 Luxe de um médico, que diziam estar envolvido com drogas. 

        A D10 estava segurada pelo Banco do Brasil. Quando essa situação me foi inteiramente informada, com todos os detalhes, saí sondando internamente sobre o caso.  Primeiro se dizia que o médico facilitou o furto do carro e depois que foi indenizado, vários meses depois, ele apareceu rodando no carro pela cidade.

        Sabe, mesmo com todo aviso, pedi a um colega que conhecia bem o carro,  para fazer uma vistoria visual e verificar se era o mesmo carro que havia sido furtado. E a resposta, é que era.  Com esta informação veio o recado: "Não se meta, ele é perigoso, sintetizado na palavra bandido."

        Este caso ficou meio frio, até que o médico foi embora da cidade alguns meses depois, seu contrato com a prefeitura não foi renovado.

        O tempo correu em Boca do Acre, não é que certo dia, após a gente andar cobrando uns devedores, entra um cidadão, de sobrenome Pamplona, que havia feito financiamento para plantar seringueira, em cultivo com mudas. O empreendimento não deu certo, os seringais artificiais não produziram e ele faliu.

        Ao ter a dívida ajuizada, ele entregou ao Banco do Brasil, para a empresa ser fiel depositário, um barco de madeira grande e era dotado de um motor potente, caro. Valia um bom dinheiro.

        Ele chegou a mim e disse: Não tenho como pagar a dívida, o bem que servia de garantia eu entreguei ao banco.  Pegamos a pasta dele e lá estava o documento em que ele entregou a posse do barco ao Banco do Brasil.

        Beleza, tudo certo, o cidadão foi embora. Foi ele sair, eu pedi ao colega que atuava com Fiscal para verificar onde estava o barco, o que havia ocorrido com ele.

        Situação corriqueira, até aquele momento. No dia seguinte ele chegou, tenso: Olha só tem o barco. O motor Fulano levou, está com ele. Esse ele, era um funcionário que havia ido trabalhar em Rio Branco. Beleza, pensei, vamos ver com ele, disse ao fiscal. 

        Foi aí que a coisa virou.  Esse Fulano emprestava dinheiro para os colegas. Depois, tinha um pai com histórias cabeludas com coletores de borracha nos seringais que gerenciava.

        Arredondando. O funcionário se apropriou do valioso motor e tinha vendido o mesmo.

        Abri um processo disciplinar, não é que certo dia, o rapaz apareceu na agência e logo no início da conversa colocou uma bolsa com revólver sobre a mesa. Na hora não senti medo, os cuidados só vieram depois que avisei ao meu chefe em Manaus.

        Veio inspetor, entrou no apaziguamento os maçons da cidade, e a coisa acalmou um pouco. Mas o processo rolava em Brasília. De repente um funcionário do Banco do Brasil, do órgão que julgava tais processos, me ligou.

        — Olhe, sou Humberto e estou cuidando desse processo que você abriu. Pediu algumas explicações e fez uma observação. Quando comentei o que era me ordenou: Abra outro processo e mande para cá. Então eu disse:

        — Humberto, olhe, esse rapaz andou me mostrando arma, tá rolando o maior estresse e eu me sinto ameaçado.

        — Abra, abra, rapaz.

        — Humberto.

        — Abra. É uma abertura simples.

        Obedeci, fiz como ele determinou.  Fiz um relatório e mandei. O tempo passou, a coisa esfriou.  Muitos meses depois chegou um resultado do julgamento daquele processo, o rapaz foi inocentado e manteve-se empregado no Banco do Brasil.

        Escapei, escapei de uma represália por um detalhe. O complemento que Humberto pediu foi considerado sem base factual.  O primeiro caso, na decisão, nem se tocou no assunto.

        Hoje, passados quase 30 anos, penso que uma rede de proteção invisivel me ajudou a criar os filhos.


        Por hoje, é só.

        Abração, Marconi Urquiza.

        

sexta-feira, 27 de maio de 2022

A p..... tomou gosto por sangue


            Ontem, ao ler uma newslatters de Leandro Demori (jornalista), intitulada A Grande Guerra, passou por minha mente uma série de recordações, reflexões e pensamentos que haviam se repetido ao longo de muitos anos. 

        Quando Leandro Demori escreveu que certa corporação policial da União tomou gosto pelo sangue, eu pensei e fiz analogia com uma corrupção de valores, em que cumprir regras, ser honesto, tornou muitos conhecidos "não confiavéis". Onde ser confiável era fazer o jogo, aceitar as novas regras - não regras, atender aos interesses dos superiores, mesmo que se ferrasse, se fosse pego.

        Muitos anos se passaram de uma reportagem, onde cerca 0 de 15 funcionários públicos, que atuavam em Foz do Iguaçu, foram presos sob a acusação de corrupção. Tempos depois outros tantos servidores em Pernambuco foram acusados de cobrar "toco" de motoristas. 

        Estes dois casos ilustram circunstâncias aonde ações da organização, de certo modo, limpam uma entidade de maus funcionários.

        A entidade pode ser uma empresa, uma organização social, etc. De certo modo, ações assim, podem não ser fáceis, mas são muitos mais fáceis de serem feitas do que corrigir um modo de agir que se transformou em uma crença.

            Vou trazer dois conceitos de crença e que  para mim, eles se complementam no âmbito desta crônica. 

    Conceito 1:

        Aquilo sobre o que se considera verdadeiro: crenças ideológicas.

    Conceito 2:

        Convicção íntima; opinião que se adota com fé e convicção; certeza.

        Primeiro se acredita que a mensagem que recebe e ação que se desencadeará é útil, boa, depois intimamente, o pensamento se transforma para a certeza que o que se fará é fundamental para o êxito da corporação. Mesmo que o discurso ocorra que ela vai limpar a sociedade ou vai servir ao grupo, ela adquiri um caráter de auto justificativa para cometer abusos. 

        Muitas vezes a alma é corrompida inicialmente com vantagens, com a alimentação do ego, com a exaberbação da vaidade e muito mais, quando age para o indivíduo se sinta como partícipe importante do grupo. 

        O outro lado também é comum. Houve a recusa, passa a não ser confíavel, não por falta de honestidade, mas por que pode ser um elemento que venha a vazar os mal-feitos.

        Então, por que essa corporação tomou gosto pelo sangue? Não sei dizer exatamente, o que carece de um estudo para saber. Mas  se pode pensar que essa tomada de gosto pelo sangue venha da naturalização da violência, de certo do Estado que crer que isto é o melhor a fazer ou que o medo deve reger a vida das pessoas.

        De um conjunto de pensamento que vai afulinando, da seleção de pessoas que pensam igual. De um termo, que durante muito tempo foi a bala doce na boca de líderes: o alinhamento, o alinhamento institucional. 

        Que algo assim ocorra: Alguém na cúpula da organização tem um pensamento, não discute com ninguém, ou discute com um pequeno grupo que pensa igual, escolhido por ele, então solta ladeira abaixo a sua decisão com a intenção que se transforme em pensamento único e que vire uma crença. 

        Não pensou e nem agiu igual: elimina. Pronto.

        Durante muito tempo, antes de me aprofundar na origem do termo, eu usei a expressão Banalização do Mal meio a rodo. Qualquer coisa ruim, se repetindo sem reflexão, virou para mim banal. Então certo dia eu comecei a ler Hanna Arendt e li o livro que ela criou esse termo.

        Foi um choque, pois comecei a perceber padrões comportamentais em organizações que revelavam, para mim, essa banalização.

       Por exemplo: no meu celular colocaram seguro de vida sem eu autorizar; na oficina do carro me induziram a trocar o disco de freio, ainda bom, que o disco estava comprometendo a minha segurança e da família. O papel higiênico diminuiu de extensão, o litro virou 900 ml. São alguns exemplos.

        Aconteceu nos laboratórios ou em alguma clínica dobrar os exames sem que o usuário percebesse. Isto independia de quem atendesse, era da empresa. 

        Então vamos voltar ao ponto inicial, a corporação que tomou gosto por sangue. Vamos para a sociedade. Tem uma parte dela que sente tesão em se mostrar valente, em odiar, em maltratar. Desde que não seja vítima. Tal coisa é a naturização da violência, que não é apenas física. Em outras palavras, o que ocorre com tal corporação é a banalização do instituto da força bruta exclusiva do Estado.

        Os órgãos de controle são ineficazes, porque atuam no indivíduo, aquele que comete a infração, não tem eficácia sobre o modo de ação, sobre "concordância cultural", que muitas vezes independente da liderança, mas que sempre começa com uma, até adquirir vida própria.

        Os indícios é que estamos neste estágio, uma chaga difícil de alterar, porque quem chega ao poder dentro das organizações são pessoas levadas  por outras pessoas, que se cercam de quem tem a mesma crença ou têm espírito moldável.

        É assim, tudo vai ficando Banal e se Naturalizando na ruindade, se transformando no normal, se éque não já esteja neste estágio.

       Com um agravante, perdemos a capacidade de nos indignar e passamos ser insensíveis ou com um conformismo doentiu, enquanto a vida da maioria da população piora.

        Por hora,  é o que tenho. Abração. 

Marconi Urquiza 

        

sexta-feira, 13 de maio de 2022

Você sabe o que é ser microempreendedor?

 



    O que é uma empresa?

    O que é uma MEI?

    O que é uma microempresa?


    É fácil achar as respostas para estas perguntas, basta ir em algum livro, dicionário ou na internet. Coloco que há pelo menos três respostas, duas bem facéis de achar: a jurídica, a da ciência da administração. Há uma terceira, de quem faz parte de uma empresa.

    Empresa, já está estruturada, rodando e tendo seu mercado.  A MEI, em si é um desafio de por comida no prato. Para muitos microempreendedores individuais é vender o almoço para comprar o jantar, mas muitas dessas pessoas crescem, se transformam em microempresas e até em empresas. 

    A microempresa, é um pouco mais, tem um pouco mais de estrutura, algum empregado e os donos delas são trabalhadores ativos e não apenas gestores. Aqui eu entro. Estou nessa.

    Quem me conhece sabe a minha história de vida, para os que não me conhecem eu vou contar um pouco dessa história com o intuito de situar àquela experiência com a atual.

    Em certo momento da vida, com dez anos de empresa me tornei gerente geral. Então, alegria, me transformei no responsável por uma unidade da empresa. Alguns anos depois a empresa mudou, agora queriam um perfil de gestor empreendedor, um fazendor de negócios. 

    Na segunda unidade como gerente geral eu comecei a me transformar em um empreendedor, comecei a imaginar como poderia avançar nos negócios aproveitando aquilo que aquela cidade tinha de economia. 

    Na época a maior força econômica daquela cidade era a pecuária leiteira. Então eu imaginei que poderia obter uma acordo com o maior laticínio da região e financiar animais de alto rendimento leiteiro, intermediando passar por uma poupança um pequeno percentual daquelas vendas realizadas pelo produtor. Não foi avante, por que não consegui vender bem este projeto aos meus superiores.

    Tempos depois, junto com outros colegas, inventamos uma forma de gerar negócio utilizando um produto bancário chamado Vendor. Invertemos a lógica dele e passamos a atender as micro e médias empresas. Nesta altura da vida eu me sentia com o espírito de empresário, sendo gerente de uma empresa. 

    Aplicar tal perfil foi facilitado pela própria empresa. Ela tinha placa, tinha mercado, tinha produto, tinha estrutura, tinha verba e tinha um pequeno grupo que começou a acreditar que aquilo daria certo e deu. Houve, sim, uma ação empreendedora. Este espírito sobreviveu mais alguns anos, até que o espírito burocrático, no seu lado ruim, tomou conta das minha atitudes.

    Quase vinte anos depois dessa parte final da narrativa acima me vejo dentro de uma desafio de ser um empreendedor raiz, raiz. Sabe como é, no espírito do cara que bate o escanteio e corre para cabecear ou da pessoa que chupa, assovia e ainda joga o bagaço dd cana fora, tudo ao mesmo tempo.  Em resumo: um faz tudo.

    Eu tive durante vários anos o desejo de ser gerente instalador, imaginava que começando do zero eu teria maior compreensão da montagem, estruturação e progresso de uma empresa. Depois ouvi relatos de um amigo, do sufoco e da carga horária e pressões que suportou sem ter a estrutura necessária para que aquele unidade progredisse.

    Voltando ao momento, o que ter uma microempresa para mim, começada do zero. Tem palavras que têm o condão de comunicar tudo, esta é uma para mim: sobreviver. Pagar as contas mensais, de inicio empatar. Como se diz na gíria dos adminstradores, consegui o ponto de equilíbrio. De certo modo passamos dessa fase, estamos tendo um pequeno lucro, após ano e meio de atividade, mas estamos empacados, não conseguimos contratar o segundo funcionário. A demanda que recebemos só suporta o custo de um.

    Aqui em Recife a empresa dona da marca tem nome no mercado, roda ativa e organicamente, isto é: os cliente antigos a demandam quando precisam.

    Em João Pessoa, a luta por criar um conceito, um nome e um mercado. É um trabalho lento, teimoso, persistente, fazer que o nome da empresa vire referência de mercado em algum momento e que isto possa se reverter em mais negócios e seu crescimento.

    Mas no real, meu escritório é um quarto da minha morada. É cotidiano de um faz tudo imenso. Atende o cliente, vende o serviço, ariticula com o funcionário, corre atrás de alguma falha, vai até na casa do cliente recolher tapetes. 

    Faz também, aquela outra parte, que os espíritos daqueles que querem todo mundo fora da porta da empresa refuga: emitir nota fiscal, manda-las para os clientes, dialogar o tempo inteiro e reclamar com o pessoal do marketing digital, sugerir e reclamar do pessoal da TI, apelar para que criem soluções que nos ajude a gerenciar melhor, comprar nos fornecedores, administrar os humores do único funcionário.

    Ao comprar produtos, perguntar e sugerir se a empresa fabricante faz testes, experimentos com seus produtos. Se fazem, estes testes são guardados como segredo empresarial. Corre, pega o carro e leva para oficina quando precisa fazer revisão e por aí vai.

    E quando as dúvidas surgem? Pesquso na internet e quando na gigante internet não esclarece. Pergunto na empresa licenciadora da marca e quando a informação que escuto não atende? Vou ter que arriscar uma solução, torcendo que se não der certo o prejuízo seja suportado.

    Tem coisa que só aprende perguntando. Uma consultoria do SEBRAE-PB nos disse que João Pessoa é a cidade do indica. Passei a pedir que os clientes nos indique aos familiares, amigos e colegas. Não saberia desta característica se não soubesse por eles, levaria muito tempo para compreender esta particularidade.

    Então uma microempresa é fazer de quase tudo, ter atenção a tudo, conhecer de quase tudo, ser organizado com tudo. Aqui esbarro, não sou assim, mas estou apredendo. 

    Sabe, antes eu condenava certas empresas em que chegava e via um negócio bagunçado, hoje compreendo. Eles precisam sobreviver e ganhar o pão, pagar as contas, correm sempre atrás e vão atropelando as boas regras que a adminstração prega. Parte das dificuldades está nisso, o tempo para esses empreendedores, empregados de si mesmo, é quase sempre escasso.

    Ser microempresário é conviver diariamente com a escassez, sem esmorrer, sem desistir da luta e buscando sair do lugar comum, ir para o próximo andar.


    Por hora, é isto. Até a próxima.


    Abração, Marconi Urquiza


sexta-feira, 6 de maio de 2022

Crônicas - também me faz falta

Antônio Maria e Carmen Miranda

Amigas, amigos,

recebi um telefonema do amigo Djalma me perguntando como eu estava, pois passei duas sextas-feiras sem escrever. Estou bem, passei por uma Covid leve, viajei para Balneário Camburiú. 

Vou escrever aqui o que lhe disse. Já há muito tempo, muito, eu venho me perguntando o que os meus escritos contribuem,  se levam alguma coisa de útil.  Senti que não estava acrescentando nada.

Então resolvi pensar um pouco sobre isto, parando de escrever. 

Outro aspecto, é que a minha rotina se transformou de modo forte à partir de julho de 2021. Comecei a gerir a empresa do meu filho. Entrou uma rotina,  em que há dias de grande intensidade, muitas horas trabalhando,  até em horários fora do horário comercial. 

Junto a isso a necessidade de aprender sobre a gestão de microempresas,  marketing digital e todo relacionado a esse negócio. O uso de um tempo que extrapola ao real, vai na ocupação da mente, tomando o espaço de outros pensares. 

Isso parece simples,  mas sozinho é uma carga que tem exigido de mim uma organização que luto em ter, pois esta é uma enorme deficiência. 

Além destes aspectos, de fevereiro para cá tive que rever todo o livro Decisão de Matar, recebi feedbacks que era preciso corrigir falhas.

Agora o tempo mental anda ocupado demais com o romance O Último Café do Coronel, que não é uma biografia, não é autobiografia, mas se utiliza de eventos reais para criar livremente uma ficção. Talvez saía um ótimo,  talvez seja apenas um livro medíocre. 

Da escola do gigante da crônica, Antônio Maria, eu preciso readquirir a capacidade de transformar miudezas do cotidiano em pérolas, como esta parte de uma crônica dele:

O bom homem me chama para ver seu restaurante... Por que os garçons de bigode? Não me entende. Explico-lhe então que padre, garçom e índio não podem usar bigode. Fica pensando. Bota o dedo na boca e pensa mais. Não sabe se estou brincando ou falando sério. Pergunta-me porque não pode. Explico-lhe que é esquisito ,tanto quanto jogador de futebol de óculos, criança tomando café pequeno. Chama o maître e dá a ordem: “Ou tiram o bigode ou vão embora"

Assim, vamos tocando.

Abração a todxs.

Marconi Urquiza.
O antigo,  autodenominado, Filósofo do Agreste.


sexta-feira, 8 de abril de 2022

Gol na rede " véu de noiva"

Enorme,  1,85, mal saído dos 15 anos, barba falhada e entrando nas peladas com os adultos. 

Chuteira Olé, a top daquele interior. Naquela pelada, domingueira, entrou de lateral direito, no gol do outro time, Geo, o melhor goleiro da década de 1960 em Bom Conselho. 

A pelada, como quase todas, começou organizada.  Cada jogador guardando a sua posição.  Na medida que foram cansando o lateral-direito foi ousando,  saindo da linha lateral, não sabe como o meio do campo se abriu, como se Moisés tivesse feito a sua mágica e bola caiu na sua frente... Empurrou a bola e saiu correndo...

Um dia, alguns anos antes, ganhou a primeira camisa oficial do Sport Recife, usou até furar, e aquela chuteira Olé, aquela da pelada, comprada à prestação em uma sapataria de Garanhuns, só parou de jogar com ela quando perdeu metade das travas.

Era a  tríade dos seus desejos de menino.  Bola de couro,  chuteira e não Kichute, Calção Adidas que começava  a aparecer por lá. 

Lembra a bola que caiu na sua frente,  no meio do campo arenoso, ele saiu acelerando as passadas, foi chegando na cara do gol e o goleiro Geo foi crescendo na sua frente,  ficando maior que seu 1,83.

Acelerado, o lateral fez o que um peladeiro tenta, chutar forte, mas a bola espirra, saiu meio de ponta de pé, fraca.

A bola escapuliu do seu pé sem querer chegar, passou a cinco dedos do pé esquerdo do goleiro e o rapaz virou o rosto para ver onde a bola ia e cinco metros depois ela quicou na linha do gol, mais alta que o nível do  campo, e subiu, subiu, subiu e foi se deitar na rede "véu de noiva", escorregando lentamente dentro do gol e lá rebolou, deu algumas voltas sobre o seu próprio eixo,  até cochilar.

Eu abri um sorriso imenso, só não gritei com esse gol por timidez, deveria ter feito. Nunca tinha feito um em uma barra com rede. 

Esse primeiro gol,  em um domingo de céu azul, com brisa suave que vinha da serra de Santa Teresinha lambendo o rosto, tudo aquilo me encantou. 

Passados 46 anos daquela pelada, me vejo tentando jogar algumas peladas e os joelhos reclamando muito.  "Calma amigo, eu vou de leve", é só o que posso dizer e continuar buscando no reforço muscular a satisfação de um passe bem feito e um chute bem colocado.

Estou em Balneário Camburiú, movido pelo presente, nos jogos de integração dos aposentados do Banco do Brasil.  

E não é algum gol magistral, algum craque da maturidade,  não é a organização, são as pessoas,  elas que fazem a festa. Que trazem força e calor, e animam a teimar até a próxima jornada esportiva. 

Abração, 
Marconi Urquiza 

sexta-feira, 1 de abril de 2022

Um menino de 28 anos e seu esporte fino

 


        Um amigo passou para mim uma ideia de uma crônica. Pensar, estudar e escrever sobre  mendigo de Brasília que levou uma surra do personal trainer e sua súbita condição de estrela das mídias em geral. Em poucos dias estava sendo "condenado" por suas palavras. Em um átimo de tempo deixou de ser vítima para virar algoz.

        Pode? Pode um negócios desses? Pode, o mundo é uma construção incessante de narrativas e não de verdades, de uma incessante organização mediática que busca convencer e de solidificar as suas "verdades" nas almas convertidas.

        Tudo isso é um fogo fátuo a queimar as pessoas e a fazer outras tantas pularem ao sabor dos aspectos ruins da vida humana. Notícia ruim dá mídia, é a que vende mais. Somos atraídos pela desgraça. 

       Mais que isso, não tenho como me aprofundar neste tema sem uma pesquisa cuidadosa e uma reflexão ponderada,  o que leva tempo. 

        Além disso, ando buscando, nessa quadra da vida, pensar em pontos mais amenos, embora isto revele a minha contradição após ter escritos romances, cujo enfoque das narrativas passe pelos aspectos ruins, regulares e recorrentes das pessoas: a maldade, a violência e a luta para não sucumbir.

        Pois bem, ontem viajei para participar,  no futebol, dos jogos de aposentados do Banco do Brasil, em Santa Catarina. A preparação me motivou a trazer algumas recordações.

         Dias desses cheguei em um treino e, naquele papo antes de iniciar, disse a alguns amigos que estava com vontade de jogar. Sabe quanto isto ocorreu? Tem mais de 15 anos. Fiquei sem jogar uma pelada mais de 10 anos. Depois desse tempo, como forma de me solicializar, tentei jogar, machuquei-me muitas vezes, aumentando a desmotivação e só insisti por que gosto de conversar com os amigos, daquele papo que torna leve a alma. Energisa.

        Nessa vibe, ontem acordei passeando pela minha meninice, sentindo aquela energia que me movia o dia inteiro para ir treinar à tarde. Era descobrindo o mundo e descobrindo o futebol, aprendendo como jogar e acertando na posição, na técnica e no modo de jogar. Isso tudo me fazia feliz. Leve.

        É essa leveza que tenho neste momento, ligando 40 anos de vida, nos quais 25 jogando futebol com gosto, com fome, fome que não saciava. De me enfeitar por que adorava jogar todo arrumado. Tenho até uma história que ilustra isso.

        Um dia estava em Manaus e vi uma camisa do São Paulo, Adidas, aquela branca, número 10 nas costas, na frente de uma loja de rua. Na época o time jogava o fino e nem tinha sido Campeão do Mundo. Jogava bonito, encantava. Aquela camisa me chamou, a comprei.

        Então aos sábados a vestia, colocava meião de marca, calção também, caneleira e tornozeleira, imitando Dr. Sócrates, por cima do meião. Nesse tempo inventei um uniforme para o São Paulo com ele jogava a minha pelada. A camisa branca, o calção e os meiões eram vermelhos. Camisa ensacada no calção, meião ia até perto do joelho. Chuteira, preta, engraxada. Pronto, lá ia eu brincar de jogador profissional. Me sentia feliz. Mas um dia, ao chegar na pelada, alguém me perguntou por que eu estava tão enfeitado, na verdade ele disse: Pra que isso? Não pensei estar chamando à atenção e estava. Não lembro se disse: Por que gosto ou Por que me sinto bonito.

        Era assim mesmo, eu me sentia bonito jogando todo arrumado, parecendo que iria para uma festa de formatura, pois é, pois é assim que me sinto nessa viagem, como aquele menino de 28 anos, todo enfeitado, vestindo um uniforme de futebol completo, como um traje de gala. O meu esporte fino. E viva o Grande Ariano Suassuna!


        Abraço, Marconi Urquiza

sexta-feira, 25 de março de 2022

A CHUVA, O MOTOQUEIRO E A ROUPA DE ANO NOVO

"Chove chuva, chove sem parar..." e a canção pedia a Deus parar de chover molhava o seu amor.

Esta é a frase de uma canção de Jorge Ben Jor e as chuvas torrenciais que caíram em Recife e João Pessoa nesta semana me lembraram da canção e de uma história. Essas duas recentes eu presenciei e me fizeram viajar no tempo.

É a chuva que ajuda, é a chuva que desgraça,  depende do volume.  Nesta semana ficou mais,  para uma população carente, para aquela que desgraça. Chuva torrencial que mais parecia uma cortina de água. 

Com essa imagem eu viajei para o dia 01 de janeiro de 1988. Era um primeiro de janeiro chuvoso, como sempre no Estado do Amazonas e entendiante, como quase todo primeiro dia do ano.

Depois do almoço,  eu, Cida e Victor fomos para a garagem e ficamos lá sentados.  Victor no meu colo, Cida ao lado proseando e vendo a chuva que caia. Até aquele momento,  com toda a manhã chuvosa,  ela vinha mansa.

Depois de meia-hora naquele banzo, o tempo rugiu, trovões pipocaram e a chuva mansa virou uma cortina de água.  Era tanta água que não dava para ver além de cinco metros de distância.  E assim ficou um tempo, mas passou. Estiou.

Foi estiar e as motos começaram a passar na frente da casa. Preciso descrever como era aquela avenida.

Ela vinha do aeroporto de Tabatinga, 5 quilômetros antes e com piso bom até chegar perto da nossa casa, que ficava em frente aos Correios. 

De um pouco antes de nossa casa até 100 metros à frente o asfalto era esburacado,  mas nesse trecho da frente de nossa casa, era um mar de lama.

Na medida que as motos foram chegando o tédio foi sumindo, pois a nossa curiosidade só crescia na aventura daqueles motoqueiros. 

Era uma dilema sem solução. Se o piloto vinha rápido,  ligeiro caia, se o piloto controlava a velocidade,  o pé no barro vinha em câmara lenta. 

Nessa altura o tédio tinha ido embora de vez e a gente estava no portão vendo os motoqueiros desafiando a lama escorregadia. 

Aí veio um piloto,  ele e a companheira vestidos de branco, só que ele se recusou colocar os pés no chão para se apoiar. Ele não queria sujar a calça branquinha.

Aí ele entrou,  veio  controlando a força da moto. Passou pelo trecho inicial ruim, foi chegando nos Correios e passou por esse pedaço. A moto deu uma balançada, o piloto controlou. Foi mais, uns dez metros, aí ele começou a balançar,  escorregou para um lado,  para o outro, equilibrou meio metro,  um metro,  cinco metros,  dez metros e teimoso não colocou os pés no chão,  a calça continuou imaculadamente branca. De repente a moto perdeu força, balançou toda, veio junto o piloto  e a carona também, na rapidez que meu piscar de olhos permitiu,  o branco daquela roupa de ano novo ficou da cor do barro avermelhado da frente da nossa casa.

Abração,
Marconi Urquiza 

Existimos: A que será que se destina?

Viktor Frankl             Começou, começou, começou aquilo que muitos refugam, mas têm uma apaixonada, apaixonada reação ao ouvir opiniões c...