sexta-feira, 10 de abril de 2026

Jovinho e seu bom humor

Gerada pela IA Gemini 


Há dias venho lembrando dessa pessoa,  daquelas expansivas, que exalam o bom humor como se fosse  um jasmim.

        Depois de mais de 20 anos sem saber seu destino,  se já foi ou estar espalhando seu Jovinho! Jovinho acompanhando pelo sorriso e um vozeirão forte e propositalmente alto para que todos os ouçam assim se apresentava.

        Não há uma explicação lógica para ele voltar às minhas recordações, esse viés de saudade. Uma carência de um tipo de bom humor espontâneo? Uma carência de uma pessoa que parecia carregar em si a alegria de ser ele mesmo?

        "Por que o Senhor tem esse nome?" A curiosidade havia chegado.  Eu era comerciante em Cianorte, comprovava e vendia mamona, então fiquei conhecido por Chico da Mamona, depois de muitos anos assim, ganhei esse sobrenome, hoje sou Chico Mamona.

        Ele tinha duas fazendas pequenas de soja, uma Araruna e outra em Tapejara, ambas no Paraná. 

        Um dia ele apareceu na agência do Banco do Brasil de Araruna (PR) e convidou um monte gente para um churrasco em Tapejara. Depois vim saber que ele dava essa festa anualmente após a colheita da soja. Se a lembrança estiver correta, era no dia do seu aniversário.

        Depois não o vi mais,  vez por lembrava dele por causa da insistência em que pagar o custeio agrícola em dinheiro vivo. "Não seu Chico, tem que depositar na sua conta." Jovinho, Jovinho, é, é, éeeeeee em dinheeeeeiro!

        Recordar isso nos divertia, depois a lembrança voltava para aquela parte da mente que só quando provocada, mas agora foi diferente,  veio espontânea. 

        Bem, seu Chico Mamona, um grande abraço onde quer que esteja. 

        Bom dia, Jovinho!
        "Bom dia, seu Chico Mamona! Sente aqui."

        Por hoje, é o que tenho.
        Abração,  Marconi. 

        
        PS: 
        Seu Chico Mamona se despediu em 2019. "Francisco Nizo".

sexta-feira, 3 de abril de 2026

O medo, uma música, um tareco, uma mariola




No meio do encontro semanal após a pelada desta quarta-feira, na conversa com Jeovane, cada um falando de suas experiências de vida acabei contando uma pequena história e ele me perguntou: "Você já contou isso para Patrúcio (Patrúcio Amorim - o poeta do forró)?" Nunca contei a ninguém, é a primeira vez que falo disso - foi a minha resposta. 

        Por causa desse papo resolvi escrever essa história. 

        O medo gravava na alma a insegurança de uma jornada de vida, 11 anos de dedicação, esforço, coragem, apoio e um tanto de doideira ao irmos para o desconhecido,  Tabatinga,  no Amazonas, depois a loucura dobrou, estávamos em Boca do Acre, também Amazonas, quase Acre, dado a proximidade de 256 quilômetros com Rio Branco. Amazonas era na prática uma referência meramente geográfica. Rio Branco foi até a capital de um chope, que para não pirar me levou a percorrer de 520 km, ida e volta de Boca do Acre a bordo de um Fusca azul.
         Mas aí errei, errei feio e fui para em Palmeirina (PE), uma minúscula agência e logo regrediu para posto e pelo ralo foi meu cargo de gerente geral, com todas as implicações emocionais, de renda e da carreira. 
        A água não subiu de uma vez, o desespero foi chegando aos poucos e foi apertando a vida, a perspectiva individual se reduzindo diante do aperto promovido pelo Banco do Brasil no Plano de Demissão Voluntária, em 1995.
        Nesse período fui a uma reunião em Caruaru (PE), entre os temas estava sobre as vagas restantes no Estado de Pernambuco, que havia perdido inúmeras. 
        Terminou a reunião e no corredor abordei o recém nomeado Superintende Regional, perguntei como me recoloceria, mais que a resposta, foi a empáfia que doeu. Deu-me raiva, silenciosa, não resignada e saí da cidade furando todos sinais vermelhos. Coisa que evitava fazer. 
        Aqueles 150 quilômetros até o lar foi com esse sentimento.  Nos dias seguintes o desespero me fez pedir transferência para 800 agências diferentes.
        Em um desses dias coloquei Barbosa Ferraz, no Paraná,  no outro estava transferido. Havíamos vindos de longe a coisa de um ano e já íamos para quase 3.000 km das nossas origens.  Apesar de tudo,  isto nos deu tranquilidade.
        Após essa notícia, em certo dia, perdemos o horário da remessa do malote para Garanhuns e tive que ir levá-lo em uma dependência de nome CESEC, naquela cidade. 
        Na volta para casa, na rua do Colégio Santa Sofia, ao me aproximar do esquina ouvi o som, alto, vigoroso, de uma música que não sei explicar como me tocou. Parei o carro, atravessei as duas ruas e entrei na discoteca,  sim, se vendiam CDs em lojas. 
        O dono já havia trocado de cantor, "Ei moço, quem era que tocava agora?" Coloquei vários nessa meia-hora.  "Não, foi agora, tem 5 minutos." O rapaz puxou um disco e disse: "Foi esse, tá um sucesso enorme." E em seguida colocou uma certa música. 
        Mais de 30 anos se passou, aquele som forte da discoteca, com a mensagem intrínseca da canção e a voz do cantor reverberou na minha mente, no meu coração e em nossas vidas. Sem saber, sem compreender,  ali nascia um novo rumo, uma vida de luta, em que matar um leão por dia era fichinha. Saí da loja renovado,  no carro ouvia o CD com um som menos potente, mas quem precisava! A potência estava na canção e naquele cantor que eu desconhecia.
        A conversa com o amigo Jeovane, na AABB Recife, me proporcionou a recordação dessa história, que me fez bem diferente ao chegar no Paraná, cheio de confiança e com uma disposição e criatividade poderosas, afloradas, nas dificuldades de Palmeirina, o que me fez superar as barreiras de ter outra origem.
        Bem, Tareco e Mariola, na voz de Flávio José,  foi minha iluminação e abertura para receber a força do Universo e vencer aqueles desafios postos pela vida e pela empresa naquele 1995.
        Torço que em suas vidas tenha lhe ocorrido algo assim, que a recordação ainda seja capaz de lhe energizar.

        Bem, por hora, é o que tenho. 

        Abração, Marconi Urquiza. 

sexta-feira, 27 de março de 2026

Boa tarde!


Boa tarde! 

Sentei-me na loja para esperar o conserto do celular e fiquei pensando: amanhã é dia de crônica,  faz duas semanas que não escrevo uma, aliás, não escrevo nada. Um tempo atrás ainda rascunhava um ajuntado de frases, mas vivo procurando um assunto e tudo que vêm à mente são as coisas críticas do nosso tempo.  Até parece que estou na armadilha do algoritmo das coisas ruins, dos pontos que deveriam exigir um mínimo de reflexão. 
     Nesta quinta-feira corri por alguns endereços: Hospital Português de Recife,  o apartamento de mamãe (em reforma), a clínica veterinária e aqui, agora, a oficina de celular. O celular do serviço anda tão parado, com uma folga perigosa por que os clientes não chegam e a empresa não fatura,  como os impostos, o faturamento é variável.  Vende mais, mais imposto é arrecadado.
     Depois da loja do celular corri para a Safe Clean de Recife,  empresa que nos ajuda imensamente, coletei tapetes limpos e pedi a um funcionário que nos ajudasse consertando um pulverizador de aço inox.
     Nesta sexta-feira estarei em JAMPA, João Pessoa,  devolvendo os tapetes para os clientes. É preciso um mínimo de pensamento de logística para não ficar dando voltas na cidade.
      Por uma falha nesse planejamento estou indo duas vezes à cidade na mesma semana. Não é uma lição nova, pois isto sei há muito tempo, é um lembrete que não se pode se descuidar e nem estar exausto ao trabalhar, pois a atenção nestas circunstâncias voa igual ao Condor.
      Há momentos em que olho para a tela do computador e vejo outras entranhas, a empresa que carece ser mais organizada para ser proativa nos momentos de diminuição da demanda e, que passa por nós mesmos.
      Nesta semana um amigo perguntou, esta escrevendo muito? Quase como um lamento respondi: nada, é que ao tomar conta da empresa toma todo o meu tempo fisico e mental. Este é que pega. O tempo mental. Pois há muito não consigo dividi-lo com a escrita. O escritor entrou em uma hibernação mais longa que as dos ursos.
      Depois de oito meses ensaiei jogar futebol ao ir ao treino na AABB, mas o joelho esquerdo falseou quatro vezes,  nas duas últimas a dor foi aguda e sobrou um joelho dolorido desde então. Isto indica que fazer reforço muscular frequente e mais forte é fundamental. 
     Nos últimos meses andei lendo mais, de dezembro para cá devo ter lido uns quatro livros, lembro de três: "Por que a esquerda morreu" - de Jesse de Souza, é  um livro análise desta ocorrência sobre a corrente política.  É um livro chato de ler. A leitura não flui. Antes havia lido o romance "Os espiões", de Luís Fernando Veríssimo. Dois terços do livro ele passou a impressão que o que passou na história era uma grande fofoca, na parte final se transformou em um livro de final comum. Com alguma atenção dá para perceber a técnica literário aflorando. 
      Depois li, melhor, descobri a escritora Maria Valéria Resende, com o romance "Outros cantos". Um história interessantíssima e que tem como pano de fundo a ditadura de 1964. Mas é sobretudo sobre a pobreza do interior nordestino,  sobre a falta de perspectiva no tempo narrado no romance.  Comecei até a viajar na memória da infância e adolescência,  naquela pobreza de muito amigos daquela época em Bom Conselho. Situação que me marcou a vida inteira. 
    Depois tentei ler o livro de Waldrido Warde e Lincoln Gakiya: "Segurança Pública: O Brasil livre das máfias."  Não consegui terminar.  Para mim faltou mesclar ao texto técnica de redação jornalística e até literária, para que tema tão recheado de citações legais sejam assimilavéis para o leitor fora do campo do direito penal. Então larguei para debaixo da mesa de centro e ele virou está lembrança. 
      Depois dele voltei para Maria Valéria Rezende, com o "O voo da guará vermelha". Guará é uma ave. É uma história interessantíssima,  que vem tratando das dores profundas dos dois personagens de maneira magistral,  que não afasta o leitor. Que mistura os espinhos das suas vidas e ao enredo das histórias contadas por Rosélio. 
     Bem, preciso terminar.  O dia está clareando que estou finalizando esta crônica. 

     Portanto!
     Bom dia, luminoso dia!

      Abração!
      Marconi. 

sexta-feira, 6 de março de 2026

Existimos: A que será que se destina?


Viktor Frankl
 

        Começou, começou, começou aquilo que muitos refugam, mas têm uma apaixonada, apaixonada reação ao ouvir opiniões contrárias.

        Às quartas-feiras a gente tem uma roda de conversa após o futebol, se fala sobre quase tudo, principalmente futebol, conversas avulsas, de tudo que era tipo, durante muito tempo, um certo tipo de assunto não chegou a aparecer. Aquela tema que separou muitos amigos e famílias, mas nesta última quarta-feira alguns minutos de conversa sobre política e políticos se insinuou. 

        Hoje lembrei-me de Jessé Souza: Será que há tantos ressentidos assim? Ou na vertente de Michel Alcoforado, em uma variante da cultura brasileira apresentado no livro Coisas de Rico, que cada brasileiro tem o seu rico de estimação.

        Será que cada brasileiro tem o seu político truculento, mentiroso, desonesto de estimação?

        E o papo começou a rolar na direção dos políticos e iria passar para o tema eleição presidencial, porém, em alguns minutos, chegou um amigo, super bem humorado, brincalhão como ninguém e sem perceber desviou o assunto.

        Creio, nas próximas semanas deverá voltar mais forte. Talvez, talvez venha tão radical quanto foram nas últimas duas eleições. Isto fez me lembrar da mente que vai sendo moldada pela repetição, pela expulsão das formas de refletir sobre as situações. Pelos algoritmos. A respeito destes programas, é vezeiro, que eles têm direção e intenções e; não é a democracia, a pluridade sadia de pensamentos e visões de mundo. Até compreender isto pensava que estes programas das redes sociais eram apenas um fator de negócios, de venda, de audiência; me fazendo recordar é que preciso saber qual é a intenção de quem pronuncia um pensamento ou age de certa forma, a tal ponto que recapitulei uma frase, que não recordo a autoria, e, em contexto, diz assim: Não tem ciência neutra, apesar dos métodos científicos, porque ainda perdura no pesquisador a sua subjetividade.

        Quando jovem ouvi um comentário sobre um certo candidato, político profissional, que teria dito sobre ele mesmo e sobre os eleitores: Quem tem que se apaixonar é o eleitor, político que se apaixona pela eleição perde. Creio que perde a perspectiva da batalha, que tem que começar bem antes, cega diante das evidências de uma campanha ou situação ao se portar como um apaixonado.

        Nesta quinta-feira, finalzinho da tarde, com as luzes sumindo na noite, comecei divagar diante do curto papo, de um indício ainda fraco, menos fraco que antes de 2018, e que me fez fazer uma analogia para a frase da canção Cajuína, de Caetano Veloso: Apenas a matéria vida era tão fina e peguei outra frase emprestada para trazer aqui nessa dúvida: Existimos: A que será que se destina?

        E será que vamos transformar a amizade, apenas a matéria vida - "amizade' - era tão fina. Tão fina, tão frágil, tão desprezível, tão desprezível em nome de uma convicção que vem sendo imposta sutilmente por um atributo mental regressivo externo.

        E vamos existir assim? Existimos: A que será que se destina? À briga, a perda desse bem, à solidão, a repulsa social. Ou algo tão humano quanto isto que escrevi, mas, mais grandioso, enaltecedor da vida em paz quando respeitamos a amizade e o convívio familiar. 

        Como se leciona na disciplina Inteligência Competitiva: Atenção para os sinais fracos, ele podem ser um prenúncio de uma perda. Esses são os sinais fracos que percebi no momento.


        Bem, por hora, é só.  

        Abração, Marconi Urquiza.

        

VIKTOR FRANKEL - Psiquiatra, neurologista. Sobrevivente de um campo de concentração nazista na segunda guerra mundial e ele escreveu sobre este período no livro: Em busca de Sentido

        Em resumo: Trata da busca por um sentido para a vida. Ter um sentido para a vida transforma a pessoa e salva de uma morte precoce.

        

        

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Uma frase que fez pensar

Extraída do Google.

            Até aqui nos ajudou o Senhor.
Esta uma frase bíblica. Samuel 7.12.

        Na versão católica a frase é assim: Até aqui nos socorreu o Senhor. 

        No primeiro momento que li esta frase me pus a pensar. Pensar como uma fé condicionada, com limite ou com um quê de conformismo. Nisso fui ler o restante do versículo para tentar compreender o contexto da mensagem ali inclusa. 

        ¹² Então tomou Samuel uma pedra, e a pôs entre Mizpá e Sem, e chamou o nome dela Ebenézer; e disse: Até aqui nos ajudou o Senhor.
        ¹³ Assim os filisteus foram abatidos, e nunca mais vieram aos termos de Israel, porquanto foi a mão do Senhor contra os filisteus todos os dias de Samuel. 

        1 Samuel 7:12,13

        Fiquei lendo, relendo, tentando compreender o contexto histórico e não alcancei a compreensão. 

        Depois li tudo o capítulo 7 e, nele traz a história de um ataque dos filisteus ao povo de Israel antigo e eles foram a Samuel para que pedisse ajuda ao Senhor, que ouviu Samuel e fez os filisteus fugirem. Este é um resumo da minha interpretação.

        Seria gratidão por ter tido os filisteus (um povo da antiguidade) afastados?

        Haveria uma mensagem subjacente?

        Nos dias atuais seria uma reforço ou a força da fé com a realística consciência que o Senhor pode parar de ajudar?

        Que esse apoio tem limites ou nem sempre está ele está para ajudar?

        Na semana passada acabei por recordar uma imensa dificuldade profissional e o medo avassalador que sentia naquele 1998. Me acabava na oração, lia e repetia o salmo que traz uma oração de fé: o senhor é meu pastor e nada me faltará. Foram meses nessa angústia e a situação não melhorava. Estava longe de mim compreender a complexidade daqueles tempos e parecia que vivia em um loop de problemas.

        Aquilo tudo precisava de uma solução e não estava exclusivamente na oração,  nem no medo, mas no primeiro passo libertador,  que levou ao segundo, ao terceiro e em alguns meses as dificuldades começaram a virar bons resultados e uma fé diferente foi ganhando corpo no meu espírito,  a fé da confiança, do acerto e do cuidado para não retroceder. 

        Passada está fase de luta, a vida prosseguiu e muito anos depois vejo a chamada e assisti duas vezes ao trailer do filme O Julgamento de Deus - Deus no Banco dos Réus e não tive coragem de assisti-lo. Mas a história contida naquele longa metragem traz o choque entre a fé dos Judeus e a realidade de estarem em um campo de concentração nazista. É um filme que suscita muita reflexão, não apenas pelo contexto daqueles fatos, como para a própria vida diante de situações extremas.

        Meses depois vi uma péssima cópia do filme no notebook, o que se salvou nela foi o som, bom e bem dublado. 

        Fui até o final, apesar do incômodo emocional. Em certo momento os judeus montaram um tribunal. Defesa, acusação, juiz, ministério público. Testemunhas.

        Uma frase, depois de tantos anos, se fixou em minha memória, não recordo com exatidão, um dos julgadores de Deus disse no filme, algo assim: Nós somos o povo escolhido por Deus e por que estamos aqui? Ali no campo de concentração para serem mortos. Um choque brutal.

        Agora chegamos ao presente,  parece que as guerras em que pessoas matam em nome da fé reduziram as suas eclosões, mas a semente continua adormecida a espera de um momento propício para fanatizar pessoas. Tem um ponto que despertei a observar nas pessoas após ler Pobre de Direita - a vingança dos bastardos, que é o ressentimento. Esse sentimento é poderoso para uma ação violenta.

        Mas ontem, quando li na logomarca de uma empresa, em um adesivo colado na porta de um caminhão a frase: Até aqui ajudou o Senhor, pude compreender que no Brasil, grande parte dos crentes de qualquer credo tem essa Fé no Senhor como indivíduo, às vezes ou muitas vezes é tão forte e viram alvo da manipulação dos falsos profetas. 

        Em tempo: a minha fé é na bondade das pessoas. Tem pessoas bondosas e poucos sabem, tem as maldosas e muitas sentem.

        Para finalizar, tenho uma profunda admiração pelas pessoa que têm fé,  elas são diferentes. 

        A esse respeito pude ser partícipe de um grupo de orações.  Lá por 2000 uma colega de faculdade foi acometida de câncer de mama. E, em certa noite, outra colega chamou quem queria orar para ela, fui, gosto de ser solidário e fui. Noite a noite rezamos o Pai Nosso de mãos dadas. Aquela roda de oração fez sua energia chegar àquela colega que estava distante de nós cerca de 450 quilômetros, tratando da doença. Após a cura, ocasionalmente revelei que nós fazíamos essa oração, se a memória não falha, ela comentou: Era por isso que eu me acalmava. 

        Foram atos de fé,  de abnegação e de despreendimento. Orar pelo outro nada mais é que isto, despreendimento. É dar de si sem buscar retorno. 

        Bem, por hora é só. 

        Abração, Marconi. 






sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Sem dominação simbólica não existe capitalismo,

 



        A primeira vez que me aprofundei neste ponto da "dominação simbólica" completou 15 anos. Estava enrolado na redação da dissertação e, pior, com as ideias confusas, sem clareza de qual tema desenvolver. O tempo corria rápido e olhava para a mesa daqui de casa, 1,80m de comprimento por 1,00 de largura, abarrotada de artigos, fotocópias de teses e desertação, fotocópia de trechos de livros e minhas anotações. Olhava aquilo tudo e não sabia como organizar o tempo e o texto da dissertação. Estava mais para o que o romano Cícero lecionou: "Para quem não sabe aonde vai, qualquer vento serve." Essa era a minha realidade naquele 2011.

         Tempos antes havia esbarrado em algum artigo sobre métodos de gestão de pessoas que falava do Toyotismo. Um método de produção just-in-time, entre outros pontos. Neste artigo o autor citou sobre a subjetividade do Toyotismo. 

         Naquela situação da organização da dissertação o orientador havia me emprestado um livro que aprofundava sobre a subjetividade no trabalho. O domínio simbólico da empresa sobre seus funcionários. 

        Nele, o autor não expressava claramente, mas em suas páginas sugeria sobre a Meritocracia, por exemplo. Método que estimula que, trabalhando duro, você alcança o que deseja. Nem é todo mentira, nem é todo verdade, mas está mais para ludribiar a maioria das pessoas que se guiam e se guiaram pela Meritocracia. Bem, para mim, só pude compreende-la bem depois como mais uma forma de dominar a subjetividade de uma pessoa, há várias.

        Tratei de ler o livro, com todo cuidado que um estudante deve ter ao se deparar uma obra que pode lhe abrir as portas para fazer um trabalho acadêmico de porte. E fui lendo e, fui me assustando, me vendo envolvido em cada estratégia daquelas mencionadas no livro. Fui me vendo naquele Banco do Brasil, de 2010 a 2015, onde tudo era feito para sequestrar a nossa subjetividade, de modo que qualquer meta, por mais pesada que fosse, a gente acharia um modo de entregar o "número" (como uma coisa menor, quase irrelevante, simples, etc) e acreditar que com isto conquistaria a meritocracia sugerida pela empresa.

        Lendo o livro O Poder das Orqanizações a minha vida ficou em revista durante muito tempo, muito. Por exemplo, neste livro o autor mostrava que uma empresa norte-americana fazia eventos que lembrava a um culto religioso, isto estava em suas páginas de modo explícito com o título: A religião.

        Comecei a correr a memória para um tempo mais próximo. A captura da camisa da seleção brasileira em prol de uma corrente política, o desvio dos ilícitos com as brigas constantes e acusações falsas reiteradas, capturando a atenção para olhar para o outro lado e não para o lado onde estes ilícitos estavam ocorrendo.

        Já havia lido o livro Pobre de Direita, onde Jessé Souza esmiuça a questão do ressentimento, como isto foi explorado politicamente, a ponto de que comecei observar com maior atenção este sentimento em pessoas com as quais convivo. Um negócio de muitos tentáculos, desde o âmbito pessoal, quanto na economia em geral, da falta de oportunidades e da negação em geral dos direitos, como educação, etc.

        Depois de muito relutar comprei outro livro: Por que a esquerda morreu? E o que devemos fazer para ressuscitá-la, também de Jessé Souza. A capa é vermelha com letras brancas, pretas e amarelas. Na contracapa vem a frase: Sem dominação simbólica não existe capitalismo. A cor de fundo é amarela. A frase com esta cor de fundo representa um forte aviso, um alerta vigoroso. É simbólico. 

        É um livro pequeno, com 138 páginas, mas que exige uma leitura lenta para que se capture e compreenda corretamento o que está lendo. Sobretudo, reflita sobre o que leu.

        Voltando ao início da crônica - A Meritocracia - foi mais uma estratégia que o capitalismo dominou o simbolismo do esforço, hercúleo, pessoal, de tal forma que a longo prazo criou uma ilusão. Não tinha vaga para todas as pessoas.

        O que o livro nos coloca é que o capitalismo é mutante, um camaleão enorme, que vai açambarcando todas as manifestações de repulsa, inconformismo, revolta da população e, vai a amansando para seus interesses.

        Para quem goste do assunto, sugiro a leitura deste livro e do livro Pobre de Direita. Duas leituras, independente da crença, ou descrença, da posição política ou da neutralidade, que podem ajudar na compreensão dos últimos 10 anos no Brasil.


        Por hora, é só.

        Marconi Urquiza



        

        

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

E se passou 50 anos

 

Foto captura no Facebook de Laércio Souza

         Por um motivo relevante, acabei indo a Bom Conselho, cidade onde nasci, 50 anos depois de ter saído dela para estudar em outra cidade.

        Naquele fevereiro de 1976 fui estudar no Colégio Santa Sofia, em Garanhuns (PE). Colégio que ainda mantém a sua missão de educar os jovens. Naquele ano, haviam três grandes colégios privados na cidade: o Colégio Diocesano, o Santa Sofia e o Colégio XV de Novembro (Presbiteriano). Em comum, foram todos eles criados por instituições religiosas.

        Mas, naquele início de 1976, quando saí, era tímido, inseguro e com uma enorme carência e deficiência nas matérias exatas (Física, Química e Matemática). Entre o Colégio de Bom Conselho, que era uma escola referenciada na época, e o Colégio Santa Sofia, havia um mundo de distância. Para mim, um enorme desvio a ser superado, um degrau absurdamente alto que não consegui transpor.  Deficiência nessas disciplinas que nunca supri.

        Alguns pontos, entre muitos, foram marcantes, destaco. Desapegar da casa e me adaptar a viver em uma pensão, apenas entre adultos. 

        Outro ponto: o deslocamento de Garanhuns para Bom Conselho e vice-versa era muito ruim. Aos sábados, havia poucos carros particulares de passageiros, e o ônibus era depois de 10 horas da manhã. No domingo era obrigado a sair cedo, havia um ônibus pela manhã e outro 10 horas da noite. Só depois de vários meses é que comecei a ter carona do gerente da Caixa Econômica Federal de Garanhuns, Álvaro Gomes, que saía de Bom Conselho às 5 horas da manhã a cada segunda-feira.

        O terceiro ponto da jornada em Garanhuns foi a experiência com a professora de Português do Colégio Santa Sofia.  Todos os dias, olhe! Todos os dias ela aplicava um ditado; treinamos essa forma de redação o ano inteiro, e eu gostava disso. Já tinha alguma habilidade para escrever, pois no Colégio Frei Caetano de Messina, em Bom Conselho, também tínhamos esse tipo de treinamento. Com o tempo, comecei a inventar alguns textos.

        E uma saudade cavalar que levei anos para superar. 

        A história correu e eis que estou novamente em Bom Conselho. No último sábado dei uma passeada rápida pela cidade; no centro e nas ruas adjacentes ela parece a mesma, mas não é. Não é a mesma cidade das minhas lembranças. As pessoas mudaram, novas pessoas chegaram ao mundo, sou um estranho para 99,9% delas. A maioria dos meus contemporâneos vivem longe da cidade. 

      As pessoas de hoje ignoram sobre a história ocorrida durante 1982. Não sabem que o pau cantou e que ocorreram mortes na disputa política em que papai acabou assassinado.

        Neste 07 de fevereiro de 2026, sábado, ao sair com meu cunhado Washington comentei para ele, faz 50 anos que saí daqui. "50 anos?" 50 anos. "Muito tempo." Fui estudar no Santa Sofia, depois fui estudar em Recife e, de lá, fui trabalhar no Banco do Brasil; e a conversa terminou.

        Até 1987 pensava muito em Bom Conselho. Depois, fomos para Tabatinga, no Amazonas, e essa lembrança foi diminuindo à medida que novos desafios surgiam, vencer as circunstâncias, superar a mim mesmo no caminho da sobrevivência física e no Banco do Brasil, que passava por intensa transformação corporativa.

        Posso até me lembrar como via a cidade, mais lenta, menos frenética, com os jovens reunidos na Praça Pedro II, para onde iam se encontrar com amigos e amigas, para paquerar, namorar e para alguns se exibirem com os carros dos pais. Haviam alguns carros com sons altos, mas ninguem imaginaria os paredões de hoje.

        Os bailes e carnavais no Clube dos 30 ainda existiam. A religiosidade católica era muito forte, o padre da Igreja Matriz tinha uma grande influência. Durante os anos 1970 foi uma moda da moças fugirem para casar. Mas há uma tradição que permanece até hoje, virou cultura na cidade, os desfiles de Sete de Setembro. Era e é o maior evento coletivo, social e "afetivo" da cidade.

        Vou repetir: o desfile do dia Sete de Setembro é "o maior evento coletivo, social e afetivo de Bom Conselho". Uma cidade inteira vai assisti-lo, os jovens vão participar, os colégios se enfeitam; e os professores parecem sentir-se mais importantes por coordenarem as equipes. As fanfarras são um mundo à parte.  50 anos depois, isso está bem mais forte.

        E eu nestes 50 anos? 

        Restam muitas lembranças até os 16 anos, outras até os 22 anos, quando fui trabalhar no sertão.

      Entre elas, algumas peculiares como a vigilância que fazia para pegar a primeira fornada de pão na padaria para leva-los em casa e comer um ou dois pães com manteiga, derretida pelo calor deles. Da doideira que era para estar pronto para ir jogar futebol nos treinos do antigo campo da ABA e no Clube dos 30. De contar uns trocados para ir tomar algumas cervejas no Bar do Géo ou no Restaurante Kennedy.

        De marcar o tempo para ir visitar a primeira namorada às 19 horas.  Chegava sempre antes e ficava na garagem escutando a família jantar. Tenho lembranças frequentes da temperatura amena da madrugada e do final da tarde, após escurecer. Em Bom Conselho, a partir das 17.30h começa correr um ventinho gostoso entre as serras e vai amenizando o calor do dia.

        E, fisicamente, fui de 68 para os atuais 104,5 quilos. Mentalmente, nem sei o que dizer. Bom! Aprendi a escrever.

        Saltando dos 16 para 66 anos, com um romance escrito cujo enredo foi inspirado na secular história da cidade, onde, especialmente, as lembranças de um período de 14 anos afloraram, de 1968 e 1982, que se juntaram às muitas leituras sobre o espírito nordestino, especialmente o espírito da disputa política. 

        Neste livro não entraram as minhas recordações do jovem que brincava com os amigos e amava jogar futebol na rua mesmo com as constantes reclamações do padre Carício. Também, que eu e os amigos, ficávamos admirando as lindas vizinhas que subiam e desciam a rua Conselheiro João Alfredo; que saia correndo para cobrir o almoço na farmácia de papai. Que que tinha fome por gibi e lia adoiado os livrinhos de bang-bang e por aí vai.

        Agora, em 2026, Bom Conselho é uma nova cidade, com outro dinamismo, com a beleza antiga e singular da Igreja Matriz e do colégio Nossa Senhora do Bom Conselho, e a beleza nova do Parque Feliciano, e a visão extraordinária de parte da cidade a partir do oitão da prefeitura, na praça Frei Caetano. A mesma foto que ilustra está crônica.

        Minha minúscula participação nesta história secular da cidade está nas páginas do romance O último café do Coronel, cujo personagem central me inspirei na importante figura histórica do Coronel Zé Abílio, em que ele é o condutor da narrativa. Neste livro temos um apanhado histórico, politico, social, das disputas, dos costumes, das amizades e inimizadas que ocorreram na cidade de 1911 até 1982. 

         E se passou 50 anos, com o coração rodando pelas ruas da infância e da juventude, das paqueras e dos jogos de futebol que enfeitaram meus sonhos juvenis.

         Por hoje, é só.

        

        Abração e ótimo Carnaval.


        Marconi Urquiza 

"A arte de viver é simplesmente a arte de conviver", Mário Quintana

                  O carro corria suave pela avenida, via de mão única com duas faixas,  o passageiro olhava placidamente as pess...