sexta-feira, 29 de maio de 2026

A sensação que desliguei

 A SENSAÇÃO QUE DESLIGUEI


    Fazia tempo que a sensação de desligar mentalmente não ocorria. Atualmente, em geral, estamos todos conectados ao Instagram, no Facebook, TikTok e outras redes sociais.  Elas são mestres em pequenas doses constantes do hormônio do prazer, a dopamina, o que provoca na maioria das pessoas a sensação de nunca desligar.

        Outro efeito colateral é a falta de foco. No nosso caso, isso atinge de modo grave o que, no passado, era motivo de prazer e ocorria espontaneamente: a leitura. Lia habitualmente, um livro após o outro. Hoje em dia, a tentativa de ler exige um esforço enorme, horário marcado, tempo marcado, tempo mínimo de leitura. Hoje vou ler 30 minutos, amanhã será uma hora e assim ocorre a tentativa de levar a leitura de um livro adiante. Se o livro exige mais concentração, ocorre o abandono. Nos últimos 15 dias, dois ficaram pelo caminho: Ave Palavra, de Guimarães Rosa, e Todos os Contos, de Clarice Lispector. 

        Já estou no terceiro livro nestes mesmos 15 dias. Agora é "O Nazista e o Psiquiatra", escrito por um jornalista. A leitura não é complexa, e por isso, já li 50 páginas desde a última sexta-feira, mesmo com toda a dificuldade de manter o foco na leitura.

        A maior oposição que sinto é o impulso de abrir o celular e cutucar o Instagram; a mente está naquele viés de vício. Ainda não, ainda posso evitar e evito muitas vezes, mas meu foco foi embora, a minha imaginação seguiu pelo mesmo caminho.

        Aquele sentimento que desliguei mentalmene tem tanto tempo que não recordo quando ocorreu. Com segurança, foi há mais de 15 anos; ainda trabalhava no Banco do Brasil. Foi tão estranho que sequer lembrava a senha de acesso ao sistema geral da empresa. Depois da aposentadoria, desenvolvi um modo de viver para não sentir o vazio da falta de uma rotina. Naquela vibração do ditado popular que diz: ' Cabeça vazia é oficina do diabo.' Até que, há quase cinco anos, comecei a cuidar de uma nanoempresa e que hoje posso afirmar ser uma microempresa. Assim, a rotina que era leve foi ficando agitada e longa.

        Saltando no tempo. Em abril, nós (eu e Cida) viajamos para participar do CINFABB (jogos de aposentados do Banco do Brasil) em Belo Horizonte. Ir, vir, participar, acompanhar, conhecer a cidade — viagem para uma das cidades históricas. Mesmo abrindo o sistema para passar os serviços para a equipe e atender online os clientes, a rotina foi leve. Leve. Doze dias de viagem.

        Quando chegamos, no dia 3 de maio, fui ao quarto que uso como escritório, sentei-me à cadeira e pus os braços sobre a mesa, olhando para o computador. Neste momento veio o sentimento e a sensação: "Eu desliguei". Sabe, me senti ótimo. Feliz, até.

        Bem, por enquanto, é só.

        Abração, Marconi.

        


        PS: ilustração gerada pelo Google Gemini

        

10 comentários:

  1. Desde minha aposentadoria em 2007 o acionador está nas mãos de Deus e nas minhas. Desligo geral de vez em quando. Vale muito está desconectado.

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    1. Amigo Ademar, aposentei mais tarde, em 2015, mas essa de não está desligado por causa das redes sociais começou em 2021, quando passei a acompanhar o Instagram da empresa que administro. Abração.

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  2. Mais do que nunca, desligar é tão necessário...fico feliz que tenha conseguido!

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  3. Grande Marconi, parabéns por conseguir entrar no modo off-line na sua última viagem a BH!
    A sua crônica e a do Hayton já viraram o meu shot oficial de dopamina da semana — com uma vantagem enorme: não me dão déficit de atenção. Fiquei pensando aqui que deveríamos adicionar um novo comando ao nosso hardware: esquecer a senha das redes sociais, entrar em off e viajar por aí. Isso, com certeza, fará maravilhas pela nossa saúde mental.Parabéns por vencer o algoritmo e conseguir ler 50 páginas de O Nazista e o Psiquiatra sem dar aquela espiadinha básica. Clarice Lispector e Guimarães Rosa que lutem para reconquistar a sua atenção na próxima viagem!
    Simbora, curta a vida, a vida curta!

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    1. Amigo, obrigado pelo comentário. Vamos enfrente na luta pela leitura. Abraço.

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  4. "O homem é um ser social" a evolução da citação Aristotélica _ "O homem é um ser político". Usam as "Redes Socias" como apropriação do termo antigo, mas atual.
    Somos sociais, porém não necessariamente virtuais. Parabéns pela experiência de retorno a rede social raiz.

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  5. Que coisa. Acho que estou sofrendo do mesmo mal.
    O que tenho de livro começado e não terminado não está no gibi. Será que esse mal tem cura?
    Na semana passada dei um "delay" de dois dias de espiada nas redes sociais e quando retornei tinha coisa para olhar que quase piro. Será que essa nova doença tem cura?
    Preciso segurar essa onda que quer me afogar.
    Parabéns pelo escrito.

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    1. Emídio, muito obrigado pelo comentário. Tem grupo que só deleto, não sai por ser um canal que eu possa em algum momento divulgar livros de minha autoria. Se tem cura? Penso que tem, escolher o que olhar, por quanto tempo. Sendo mais radical, dar um "detox" de tela. Abração.

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