
Saí para pegar a assinatura em um contrato, em vez de ir na direção correta caminhei na outra, aí voltei, o ponto de referência, vizinho a um posto de gasolina e a clinica avançada do Hospital Português do Recife em Boa Viagem.
Cheguei lá, prédio baixo, fachada azul, três andares, com aparência de ser mais baixo que o real por ter sido construído quase um metro abaixo do nível da rua. É um anão.
Entrei. Limpo, bem cuidado, escada asseada, pilotis e paredes brancas, grade pintada de preto, pintura nova, doze apartamentos.
Subi a escada contente.
Quando cheguei, quando entrei naquele apartamento eu tive um choque. Se eu fosse o típico fofoqueiro, começaria esbugalhando os olhos, passaria a língua nos lábios, abriria a boca sem dizer nada e depois falaria com a entonação de que o que o sujeito tem a falar era a coisa mais fenomenal do mundo. Entorte o pescoço e comece dizendo: Rapaz! Rapaz!!! Foi um choque brutal. Olhe, imagine o que vi hoje?
Realmente foi um choque, tanto que me fez lembrar de Gente Humilde, de Chico e Vinicius de Morais.
Aquele apartamento está uma bagunça total, a filha e seu esposo, ambos desempregados, com seus dois filhos entraram naquele apartamento de 87 m². É apertado para quatro adultos e duas crianças e, se não tivesse tanto troço apinhado na sala poderia se viver melhor. É um ambiente estressante, as pessoas não conseguem se movimentar e ficam como dentro de uma solitária, porque os espaços estão repletos de coisas.
A senhora, corpulenta, perto de 1,80 m, com 71 anos, cuidando do marido, doente, sem energia. São humildes, não pobres, estão empobrecidos por terem que alimentar outra família. A filha esta tão magra, que suspeito que com seu quinhão de comida alimenta ao dois filhos. Uma palavra para descrever esse ambiente: um muquifo e, a situação: um sufoco!
Sentei-me na cadeira macia do marido e ele ficou sentado na dura cadeira de madeira para almoçar perto das três da tarde.
Ela disse que quer vender o apartamento para poder comprar uma casa maior para que as duas famílias possam viver melhor. Sonha alto, o mercado ruim vai dificultar a venda daquele apartamento, e, o mercado ainda está mais ruim porque se vender, a grana não compra uma casa razoável em um bairro de Recife.
No meio da conversa começou a falar dos filhos, sentindo uma falta enorme pelas ausências deles, pela falta de ajuda, no entanto, tenta seguir em frente "sem ter com quem contar". Não sei a história da família, mas parece que aqueles dois idosos estão sozinhos com três filhos adultos razoavelmente situados.
Foi em um desses "certos dias" que eu entrei naquele lar, uma dessas ocasiões que na vida nos ocorre um lento processo de reflexão, lento porque não para quando você vai embora, porque era um lar, mesmo sem placa, um lar, com suas impaciências, seus amores, um carinho entranhando na voz de um netinho.
Hoje voltei lá, vi uma agonia controlada, quase uma resignação absoluta pela situação crítica e, aquele muquifo já era familiar. Saí de lá, coloquei a placa de vende-se no melhor local que imaginei. Tive um distanciamento profissional, dado por todos os anos de cadeira no Banco do Brasil e que me ensinou a encarar a agonia do cliente com neutralidade, mas lá, ao contrário da situação atual, eu tinha muitos recursos para agir.
Não alimentei a esperança de uma venda rápida e voltei para o plantão.
Velhice: doença, falta de autonomia, familiares ausentes, geralmente com pouca grana, desemparo, solidão. O pensamento era este desde o começo: o que a gente está fazendo para a nossa velhice?
Bem, agora voltando para aquele lar, no momento em que escrevia esta crônica uma ideia me ocorreu para aliviar a agonia daquela casa atulhada: esvaziar, deixar só o essencial.
A questão vai ser se saberei como dizer ou se terei coragem para sugerir sem depois me maldizer.
Abraço,
Gente Humilde - Com Luiz Melodia
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