sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Tchau querido, cheguei na obra

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Peguei o carro no lava-jato e decidi levar o laudo médico na AABB Recife, laudo que me permite praticar futebol sem riscos cardíacos.  Pois bem, desci a Avenida Rosa e Silva entrei na Rua do Futuro e nem nela, nem nas imediações da AABB eu encontrei vaga para estacionar.

Segui para a Avenida Rui Barbosa e fiz a volta pela Rua Santos Dumont. Foi aqui que encontrei a minha companheira de viagem. 

Na calçada, ela andava devagar e me chamou a atenção por causa da sua estatura. A jovem era alta para os padrões daqui.

     Com o trânsito bem devagar, passei por ela e parei mais um pouco à frente. Andei mais alguns metros e o sinal fechou. Ela se aproximou e passou pelo carro. Prestei atenção pela segunda vez.

Camisa azul, calça jeans, bota de quem trabalha na construção civil, cabelo preso com um coque. Um pouco mais adiante passei por ela de novo e a vi pela terceira vez. Parecia cansada, mais para uma tensão contida. O rosto emoldurado pelos óculos estava sério. O pensamento parecia bloquear a percepção do que havia ao redor.

Quando dobrei  na esquina da Rosa e Silva a perdi de vista e só vim encontrar com ela na manhã de ontem, ao imaginar qual teria sido a causa da sua tensão. 

Por uma daquelas cargas da mente, um quadro se formou em minha mente.

* * *

Pois bem. Dali, da Rua do Futuro, ela chegou em casa. Havia saído antes do marido para ir ao trabalho. Os utensílios que ela utilizou pela manhã estavam lavados e secos. Mas ela passou direto para o banheiro do seu quarto. Iria recolher a rua suja para lavar. Ao passar pelo quarto viu a toalha molhada jogada sobre a cama de casal, roupas largadas no chão, mal acomodadas na gaveta, fruto da indecisão do seu marido, de três anos, na escolha da roupa que levaria para jogar futebol.

Era quarta, dia da pelada dele. Só chegaria em casa depois das nove horas da noite.

        Ela recolheu a roupa suja, pegou a toalha e estendeu sobre o box. "Ele que busque uma toalha enxuta." Com contrariedade viu o lençol que ele deixou de qualquer modo. Irritada o cheirou, suado, recolheu também para lavar. Passou uma mão sobre a cama, espalhou a coberta e voltou a pegar a roupa para lavar.

Quando chegou na cozinha, estavam espalhados, sujos, os utensílios que ele utilizou para comer. "Nem coloca na pia. Nem molha para facilitar a lavagem." Deixou assim mesmo. Tomou um copo d`água. Levou as roupas, olhou o restante das roupas sujas. No sapateiro viu tudo deslocado. A procura pela chuteira não importava se os outros sapatos se esparramassem no chão.

Algo foi enchendo dentro dela. Um calor foi chegando no rosto. Separou as roupas do cesto, as que havia trazido, largou a roupa dele, pegou as suas. Deu fome. Entrou na cozinha, fez um sanduíche, comeu com uma xícara de café solúvel. Lavou estes utensílios e voltou para perto da lavadora de roupas. Ao chegar perto dela seu calor aumentou e a fúria se revelou. Tirou a roupa suada, embolou e as jogou dentro da lavadora. Tirou o sutiã e  a calcinha, também jogou dentro da máquina de lavar. Não se importou que a sua nudez fosse vista por vizinhos. Na mesma hora mudou de ideia, retirou a camisa e a calça suadas e cheias de poeira e saiu andando nua para o banheiro. Se banhou do pescoço para baixo, não colocou desodorante, voltou a vestir a camisa e a calça utilizadas todo o dia no trabalho. Dia que andou sob um sol forte, vistoriando a obra na qual trabalhava.

        Deitou com a roupa suja. A raiva cedeu, a adrenalina baixou e ela dormiu como se estivesse dopada.

- * -

Ele chegou, disse "Querida", foi logo na cozinha, na certeza de que seu lanche estivesse pronto sobre a mesa. Nada. Teve que fazer. Foi na área de serviço e jogou a roupa suada no cesto. A sua ainda estava lá. Levantou a cabeça e viu no varal, secando, apenas as roupas dela. Se irritou. Saiu dali e foi no quarto, sentiu o cheiro de suor e a viu vestida com a roupa do trabalho.

Seu nariz sensível não gostou, voltou para o armário, pegou outra toalha e tomou banho no banheiro social e foi dormir no outro quarto. No dia seguinte, ela saiu às cinco horas da manhã e fez apenas a sua comida.


- * -

        Uma hora depois recebeu uma mensagem:
- Meu café?
- Faz aí
- Pq
- Acordei atrasada
- Vc nunca acorda
- Hj acordei
- Minha roupa não tá lavada
- Lava aí
- Pq
- Tava com muito sono e minha roupa não pode se misturar com a sua
- O guarda roupa tá uma bagunça
- Arruma aí
- Não tenho tempo
- Nem eu. Tchau querido cheguei na obra

* * *

Bom final de semana,
Marconi Urquiza

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