sexta-feira, 14 de maio de 2021

MIND

 

Cena do filme Ensaio sobre a cegueira

        Ontem vi um gesto que cutucou a mente. Seria voluntário? Simples ato de uma vaidade latente? Seria apenas um gesto corriqueiro? Ou então, um aceno de um flerte inconsciente? Ou aquele gestual de tirar os cabelos de trás das orelhas foi consciente de quem desejava se mostrar mais bonita.

       Tal sutileza me fez lembrar de dois escritores brasileiros e as suas artes de mostrar tais nuances em seus contos.

         O primeiro deles é o conto Missa do Galo. Nele, Machado de Assis apresenta o sutil flerte de uma mulher casada para o sobrinho do seu marido, que estava hospedado em sua casa. Pequenos sinais, palavras que soam como avisos, mas que eram uma abertura para o rapaz, desde que ele se ligasse nela.

      O outro conto, também de Machado, do qual não recordo o título, vem da inteligência do escritor e do seu personagem central em atrair o amante de sua esposa para um encontro furtivo em nome dela, onde a morte o espera.

       O terceiro conto, tal qual o segundo, é o ódio que move o personagem, masculino, a atrair o feminino em Venha ver o pôr do sol. Aqui Lígia Fagundes Telles usa de uma maestria que ocorre em muita gente: a dissimulação. O rapaz dissimula até o final a sua real intenção.

      Flerte, ódio, traição, dissimulação, frustração, ingenuidade. Vida e morte.

     Tais contos são da era em que o comportamento humano era influenciado pela comunidade, pelos jornais, pelo rádio, pela tevê, pelas fofocas e pelos sentimentos naturais, educacionais e culturais de um povo. De construção mais lenta, por meio da população de uma região, bairro, grupos de convívio.

       Agora vamos sair da era analógica para a digital.

      A psicologia, a psicologia social, sociologia, psicanálise, psiquiatria, as religiões, enfim, todas as ciências, entidades ou estudiosos que se aprofundaram nos comportamentos humanos. Todo o saber a esse respeito estão interligados para influenciar as pessoas nas redes sociais.

      Recentemente li um artigo no Estadão intitulado: O pertencimento é mais importante do que a verdade: a era da desinformação. Pode-se traduzir desinformação como Fake News e a causa desse padrão comportamental se reflete na demonstração de aprovação ao que se recebe, onde “a verdade de um post ou a autenticidade não foram identificadas como motivo para retuitar”.

       Esse pertencimento é o básico pelo qual as pessoas se juntam em grupos. Para se sentirem participantes, de dentro de algo que lhe parece valioso: ser aceito. Tal contexto preenche uma parte de suas vidas. Tal percepção é muito importante para uma interpretação adequada e até possibilitar uma conversa sem agressões.

       Agora volto a matutar sobre aquele gesto de soltar o cabelo de trás das orelhas e embelezar o rosto, dele é que veio as ideias abaixo.

       Imagine uma pessoa com 61 anos, lá pelo ano de 2082. Que teve acesso e viveu todo o tempo com um celular na mão, participando de grupos, dando likes e cliques negativos e positivos. Lendo e absorvendo aviões diários de notícias, mensagens, imagens, opiniões. Ela sente pertencer ao mundo, pois o mundo é o digital.

        As relações sociais foram todas intermediadas pelas redes digitais, pela internet. Ela conhece pessoas distantes, sem nunca ter convivido ou conservado longamente. As ama ou odeia, muitas vezes são indiferentes. O que se tornou raro. Os seus sentimentos são intermediados pelos algoritmos, incessantemente.

        Como seremos em 2082?

       Como estaremos? Ricos em nossa cultura e diversos ou apenas na medida da cultura permitida pelos donos dos algoritmos,?

 

          Abração e ótimo final de semana.

          Marconi Urquiza


Tradução: Mind = Mente.


Link da imagem de abertura:

Link da matéria citada:

        


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