Uma réplica que me fez pensar, e ainda contínuo pensando.
Em dezembro surgiram algumas propostas de serviços extra-agenda. Não tínhamos braço para atender a 5 clientes, então falei com um trabalhador temporário, no jargão do nosso negócio: um extra.
Ao ligar para ele fechamos um acordo. Na primeira semana ele cumpriu o acordado e atendeu aos clientes com uma garra surpreendente. Tudo certo, com a sua anuência e a certeza que ele atenderia essa agenda extra, fechei mais serviços.
Quinta e sexta-feiras fechou um grande atendimento antes do previsto, no entento, logo na segunda-feira seguinte falhou e justificou. Veio a terça e a quarta-feira seguintes, tudo certo, cumpriu, recebeu elogio. Preocupado com o atraso que havia ocorrido na quarta-feira pedi para deixar os equipamentos no meu carro ao final do dia.
Acordei com ele que o pegaria na manhã seguinte. Sem nenhum sinal de embróglio voltei para o hotel. Antes das sete da manhã me dirigi à casa dele, na metade do percurso mandei uma mensagem e a resposta me quebrou: Não iria trabalhar naquele dia e o pior, silenciou. Ainda assim insisti e fui na sua casa, zero de êxito. Conversei com a esposa dele, até lhe disse que só havia fechado os serviços pela "certeza" que ele havia me dado.
Para não queimar com o cliente, agendado há mais de uma semana, fui atender junto com outro funcionário, ainda aprendiz.
Serviço concluído, sentei-me na frente do prédio em uma pequena praça e fiquei conversando um pouco com o funcionário em treinamento, de repente lembrei da quebra do acordo do trabalhador temporário e exclamei irritado: Fi de uma égua. Aí me espantei.
O funcionário olhou para mim, segurando o capacete da moto. Ele em pé, eu sentado em um banco de cimento sob a sombra de árvores, sem mudar o tom de voz, na maior calma, perguntou: O que a mãe dele tem haver com isso?
Vou repetir: O que a mãe dele tem haver com isso?
Qual não foi a minha surpresa. Tentei sair com uma resposta que justificasse meu xingamento, não achei, busquei jogar de volta a saia justa indagando como deveria xingar apenas o indivíduo e acanhado descobri que não sabia xingar a pessoa sem trazer a mãe, a mulher, o pai, etc. Um terceiro.
Vi ali um traço de uma visão diferente de mundo, uma consideração sutil do rapaz pelo trabalhador temporário e um respeito à sua própria mãe, já falecida.
O primeiro pensamento, na esteira de uma reflexão que se aprofundou, foi que, de novo, caiu sobre minha cabeça a exagerada mania de confiar e acreditar nas primeiras impressões sobre uma pessoa. Uma certeza incerta. Uma falha que me acompanha a vida inteira, colocar fé em pessoas que não se conhece adequadamente.
A intuição ajuda, e como ajuda, mas o viés da certeza que me tomou por aquele trabalhador embotou a percepção de qualquer sinal que algo podia dar errado. Outro ponto desse episódio, é que o senso de oportunidade deve estar escorado em uma retaguarda organizada, se não, vai queimar a melhor coisa que se conquistou até agora, a de uma empresa confiável.
Bem, voltando ao xingamento. Caí no Google e fui pesquisar outras formas de xingar apenas o indivíduo, vi poucas. Apesar desse impulso inicial, importante mesmo é a luta diária para não chamar alguém de Fi de uma égua quando essa pessoa merecer um xingamento, mesmo apenas mental.
Sabe de uma coisa, no final foi a memória que me socorreu com uns poucos xingamentos individuais. Agorinha mesmo lembrei de um jeito de xingar só o indivíduo, fui na juventude, lá em Bom Conselho de 50 anos atrás e achei isso aqui: Ele não vale um Cibazol. Ele não vale a banda de um conto. É um desqualificado, entre outros que a memória foi trazendo do dicionário de papai quando se irritava com alguém.
Ele não vale um Cibazol era do povão. Se você não sabe o que Cibazol vou explicar. Ele era um medicamento (comprimido) vendido antigamente nas farmácias e de tão barato, não era nada valorizado.
Pronto, agora posso extravasar.
Mas, e a resposta para a indagação "O que a mãe dele tem haver com isso?" Mesmo merecendo uma resposta sensata e educada, não achei, ainda estou a procura.
E você, como xinga?
Por hora é só.
Abração!
Marconi Urquiza
PS: A imagem que ilustra esta crônica foi criadapor mim pela IA no Bing.
Essa crônica deve chegar a Casa Branca, pois Joe Biden xingou seu homólogo russo anteontem e não sabe xingar.
ResponderExcluirUma delícia de conto, cibasol é um bom xingamento, a pergunta do pouca experiência vai ficar sem resposta, Deus abençoe às Mães.
ResponderExcluirCabra safado! O melhor é não xingar, mas se o "cabra" faz por merecer...
ResponderExcluirUm dia, meu neto deu de propósito à minha filha, um biscoito de arroz só que com sabor pimenta (não vou contar que foi a mando da avó). "Seu filho da mãe!", foi a xingada dela, num misto de surpresa, um pouco de indignação e um certo sorriso nos lábios, por perceber que tinha sido "trolada". "Não xinga a minha mãe!", foi a resposta firme e com um riso devidamente contido. Ele tinha 12 anos!
ResponderExcluirMinha filha, quando fica indignada comigo e quer me xingar, ela me manda a seguinte mensagem: "Também te amo...". Faço questão de receber esta "xingada" com frequência.
Marconi, felizmente não precisamos conter o sorriso com suas crônicas e muito menos "xingá-lo". Parabéns!
Marconi, sua crônica trouxe algumas indagações sobre os motivos de colocar a mãe do "infeliz, abestado, desnaturado, bocó, rprg de cego, ..." no meio do xingamento. Pensei, repensei e fui no Dr. Google pesquisar sobre os motivos pelos quais a sagrada mãe entra nos xingamentos:
ResponderExcluir"Antigamente este termo era utilizado exprimir "filho sem pai" , bastardo, sem procedencia. Era um titulo muito negativo que a pessoa carregava sobre seus ombros. O "filho da mãe" era uma pessoa excluída da sociedade por não possuir um pai, uma vez que a sua mãe era meretriz."
Bora simbora, contando até 10, 20, ... para evitar xingamentos pois as palavras ofendem e deixam marcas eternas.
Um "trabalhador" desses merece ser xingado seja lá do que for. Xingar é uma expressão de alívio pessoal. É terapêutico. Veja o estresse que lhe causou. (Lúcia Ribeiro)
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