sexta-feira, 6 de junho de 2025

Leitura do jogo - da vida também.



 Com a vinda de Carlo Ancelotti para treinar a seleção brasileira, o astral do futebol, na mídia, no time e nos torcedores, se encheram de otimismo. "Mudou o astral", foi a afirmação mais comum ouvida ao longo da semana. Fui um daqueles que arriscaram minhas palavras "abalizadas", como um antigo comentarista, Luis Cavalcante, de voz impostada, era chamado a opinar na Rádio Jornal do Comércio, do Recife. Pois bem, começando pelos jogadores, que, creio, os veem com mais respeito que os treinadores brasileiros, e sem a vivência e histórico de títulos que possui Carlo Ancelotti.

        Mas, até quando vai a boa vontade e esse otimismo com o novo treinador da Seleção Brasileira? Nesse oceano que se vive no Brasil, só se veem coisas negativas e críticas para desacreditar as pessoas, neste "inferno astral" que só enxerga as coisas ruins, mesmo que não sejam de fato.

        Lembrei-me da onda otimista que encheu Recife e Pernambuco com o Recife Alto Astral nos anos 1990. Foi uma ação do prefeito e depois governador Jarbas Vasconcelos. Um chamado à população que despertou nos espíritos uma enorme vontade de ser feliz. Bem que poderíamos ser como Ariano Suassuna: realista esperançoso. Trazendo na alma a esperança ativa que Paulo Freire, a esperança do verbo esperançar para construir, ir atrás, juntar-se aos outros para fazer de outro modo.

        Quando é para insuflar o lado do ego negativo, temos centenas de líderes e influenciadores; quando é para mover as pessoas para o bem, são raros. As suas vozes se perdem no meio da multidão que planta, aduba, aduba, aduba e rega o pessimismo e as coisas negativas.

        Torço que Carlo Ancelotti resista aos dois primeiros jogos da Seleção Brasileira sem que surja um tsunami de críticas e desconstrução de sua história de sucesso, de sua biografia, que tende a usar a incapacidade de refletir por si, que muitos têm por falta de informação, por não ter acesso a ela, por não ter hábito, por ter a mente embotada por vozes que robotizam os nossos corações.

        Bem, queria escrever sobre uma nova percepção, experiência, um novo aprendizado. Vou falar de dois: um que vem sendo intenso, mas que começou há pelo menos 3 anos, e o outro, de uma vida inteira, especialmente nos últimos 20 anos.

        Primeiro, quero trazer um contexto. Quanto criança e adolescente fui sempre muito curioso,  ainda criança vivia a perguntar coisas que adultos não gostam de falar; quando adolescente fui nos livros buscar algumas respostas. Me ocorreu agora lembrar que eu tinha uma enorme curiosidade pelas meninas da minha rua; os livros me diziam como eram corpos femininos, mas não suas almas, e eu tinha uma enorme curiosidade de saber sobre o que elas conversavam. Sem esse acesso, comecei a ler matérias escritas por jornalistas femininas. Não vou dizer que adquiri uma compreensão plena, mas arranhei a minha curiosidade.

        O contexto é que essa curiosidade em geral, que me acompanha desde então, em que fico observando, observando, interpretando e guardando o que penso e o que acho que compreendi na maior parte do tempo.

        Há alguns anos, por necessidade, comecei a interessar-me pelo marketing digital, um mutante que altera a forma a cada dia. Todo dia são testados elementos de divulgação: memes, fakes, vídeos, falas, demonstrações professorais, piadas, notícias sérias e por aí vai.

        Em uma dessas tentativas de divulgar o romance Decisão de Matar fui mexer no aplicativo Canva. De tanto mexer, desisti. A divulgação deste romance foi ínfima e a sua leitura um fracasso. Mas disso, aprendi noções. 

        Nas últimas três semanas, encontrei uma forma de trabalhar a divulgação do próximo lançamento, O último café do Coronel. Depois de desembolsar muita grana na produção do livro, desisti de gastar e fui fazer o básico de um autodidata: a imitação. Resgatei partes de aulas sobre planejamento geral e comecei a tentar criar peças publicitárias, com base no que fazem duas grandes editoras. Algumas já estão prontas, carecem de revisão e opinião para saber se serão atrativas e não estragam o livro levando spoilers. 

        Vamos retomar ao futebol. Um aprendizado de uma vida inteira. Primeiro, aprendi a jogar futebol; eu era um grosso imenso, tanto em tamanho quanto em ruindade. Fui observando jogadores profissionais, treinando e jogando peladas até aprender a dominar a bola e me posicionar em campo. Com este básico, com o fôlego em dia, não faço feio.

        A partir de 2003, por cerca de dois anos, comecei a estudar futebol; comprei e li pelo menos uns dez livros e dois blogs que forneciam informações sobre táticas e treinamentos de futebol. Nessa época, aprendi a observar jogos de futebol e, ao mesmo tempo, atuei como comentarista na Rádio Integração de Surubim, o que me permitiu aprofundar minhas observações. Engraçado e ruim para mim, que gosto muito de futebol, é que perdi aquele gosto de ver jogos, especialmente quando estão ruins, e mudo logo de canal.

        Digamos que consegui perceber nuances de uma partida de futebol, que é feito por pessoas e suas emoções. Veja o que está acontecendo no momento com o Sport Recife. Não é qualidade técnica que falta àqueles atletas; falta-lhes um ambiente emocionalmente sadio.

        Vamos ao futebol amador. Nas últimas três jornadas de futebol dos jogos dos aposentados do Banco do Brasil, estive na reserva. Nas nove partidas em que participei, joguei apenas 10 minutos, então passei muito tempo observando, ou seja, olhando, só assistindo aos amigos jogando. Mas algo me ocorreu neste ano: comecei a ter uma percepção, percepção que veio naturalmente, por um espírito observador. Comecei a fazer uma leitura do jogo à beira do campo.

        Mas foi agora em São Luís (MA) que me dei conta da enormidadade que é perceber o jogo enquanto ele se desenrola, quando ele é jogado, quando o time se desequilibra e quando e como o adversário está jogando. Isto veio naturalmente; se estivesse em campo, teria sido muito difícil perceber isso. Talvez por esta razão, alguns cronistas comentam que há treinadores excelentes nos treinos e sofríveis no jogo. Existem outros que são ótimos durante o jogo, mas não tão bons nos treinos. Mas tudo isso passa lá pelo começo desta crônica: o jogador acredita nas palavras do técnico? Isso é crucial. Aliás, para qualquer liderança.

        É esta a força do Carlo Ancelotti. Segundo as minhas leituras, dizem que ele é bom de vestiário. Isto pode indicar que ele sabe conversar com seus atletas.

        Por hoje é encerro estas digressões.

        Abração, Marconi Urquiza.


OS LIVROS:

    Caso a curiosidade aumente, estes são dois livros que mas me encantaram na fase de estudo sobre o futebol:


Ciência do futebol


Universo Tático do Futebol - escola brasileira

3 comentários:

  1. Os jogadores acreditam nas palavras do técnico quando eles, a comissão técnica, seus clubes e as federações tem o mesmo objetivo.

    O que vejo na seleção de futebol é também vejo em outra seleção com a qual me importo muito é que, não há um objetivo comum. Não há um propósito verdadeiramente sedimentado na crença e na prática de todos os envolvidos.

    O que vejo, ao invés disso, é uma colcha de retalhos onde se tenta costurar um conjunto heterogêneo de objetivos pessoais que por vezes convergem por vezes não.

    Manter um tecido social assim, coeso, é um trabalho hercúleo… e com prognóstico de resultado positivo muito improvável.

    Torço pra mais uma vez estar errado. Prefiro sempre ser feliz a estar certo.

    Um forte abraço amigo Marconi. É sempre bom ler seus textos.

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  2. É isto caro amigo. Futebol tem fundamentos que a literatura aprofunda nos conteúdos, mas, sua aplicação depende de talento nato ou aperfeiçoado. A seleção segue o país rumo ao fundo do poço. Um grande abraço.

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  3. Amigo Marconi, fiquei muito contente em saber que você está persistindo no Projeto de lançar o seu Livro "O Último Café do Coronel". Você relatou, em meados do ano passado, que estava tendo dificuldades. Mas, felizmente, agora está encontrando soluções. Vamos aguardar, então!

    Sobre o assunto principal de sua crônica - futebol - confesso minha falta de afinidade e o meu atual desinteresse total pelo "esporte bretão". Mas me chamou a atenção sua observação de que, de fora, você conseguiu observar mais detalhes, do que quando estava jogando. Eu concordo plenamente com essa sua afirmação. Também entendo que, quem não está vivenciando diretamente uma situação, consegue ter uma visão mais completa do que quem está diretamente envolvido. Minha experiência nesse sentido, foi quando tive a oportunidade de atuar como Analista do CONOI. Cada Dependência visitada, proporcionava uma nova experiência, sem estar diretamente envolvido com os problemas.

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