sexta-feira, 26 de setembro de 2025

Miniditadura

 

        É assunto para um ensaio, vai uma crônica. Aos 5 anos, a ditatura de 1964 começou, zero de noção, lembro vagamente que estava na frente da casa do coronel José Abílio em Bom Conselho, brincando na calçada da Igreja Matriz quando aviões sobrevoaram a sua residência, e ele, já idoso, vestido com paleto preto, sentando em cadeira na varanda de sua casa também observou estes sobrevoos. Ele não tinha poder formal, mas era uma liderança política histórica na região. Mas os novos poderes estavam dando o aviso: temos armas. 

        Na eleição de 1964 venceu um candidato da Arena, na 1968, também, na 1972, mais um, na 1976, outro da Arena, na 1982, já era o PDS, partido dos militares que comandavam o Brasil, venceu também. "Estava tudo em casa em Bom Conselho". 

        O mais próximo da ação da ditatura que tivemos em nossa casa foi quando papai, vice-prefeito de Bom Conselho, em 1969 foi intimado para a ir ao Quartel do Exército em Garanhuns. Vários de Bom Conselho foram acusados de atividades subversivas. Felizmente foi comprovado que ele cuidadava dos seus negócios de comerciante.

        Mas tal ocorrência fez papai sempre nos alertar para os perigos de certos comentários e de assumir abertamente simpatia pela oposição à ditadura. 

        Ao chegar na universidade em 1979 estava cheio de avisos e não gostava de me envolver com a parte mais política dos estudantes. Sobre a ditatura naquela época, o mais próximo que tive foi o relato de outro sobre uma manifestação de um ano antes, talvez dois, na rua do Hospício. O caso ocorreu em Recife, ele narrou que a cavalaria entrou fechando a rua vindo da Avenida Conde da Boa Vista e outro grupo de políciais à cavalo vindo do rua Riachuelo. Não haveria saída. Como resposta os estudantes jogaram milhares de bola de gude no asfalto para que os cavalos escorregassem e caíssem. Na sua narrativa, ele disse que, com muitos outros colegas escapou pela Loja Americanas antes que a porta de ferro fosse fechada. 

        Depois de ouvir isto, o cuidado aumentou e tratei de conversar pouco e ter muita atenção no campus na Universidade Federal Rural de Pernambuco.

        Chegou 1982, início da jornada no Banco do Brasil, janeiro daquele ano começaram as primeiras noções de hierarquia, de competição entre as pessoas, colaboração interesseira, e das regras externalizadas e escritas e das regras não escritas. Sobre a cultura organizacional, a compreensão veio muitos anos depois. A hierarquia era rígida, pouco se falava em liderança. 

        A primeira experiência de liderança dessa época foi com Paulão, presidente de AABB de Afogados da Ingazeira. O que tornou a AABB um clube grande, com recursos para os associados. As pessoas estavam ajudando, ele conseguiu agregar muita gente com o propósito de construir à AABB. Dentro das agências, em todas do Banco do Brasil, o processo era quase militar tem termos de hierarquia.

        Vou dar um pinote no tempo, 1993, na Avaliação de Desempenho para os gestores a Liderança já era uma exigência institucional.  Foi uma ação, um conceito, uma nova atitude e principalmente, um aprendizado contínuo. Liderança, imagino, implica em atitude de busca mais consensual, quanto for possível, sem abandonar a hierarquia. Uma tal mistura que é de difícil aplicação no dia a dia, se aproxima de uma estado de arte.

        Mais outro saldo no tempo. Entre 2010 e 2015 veio uma experiência que pessoas que não leram os relatos sobre a ditadura e por isso não conseguiram imaginar os seus efeitos.  Em 2023 o "piquenique" foi feito na beira do abismo. Por muito pouco o Brasil não caiu no poço fundo e de águas poluídas de uma ditadura. A quem concorde, a quem discorde. É fundamental respeitar os pontos de vista.

        Em 2010 recebemos um novo gerente, daquelas pessoas de uma habilidade fenomenal de conduzir as pessoas, quase como se todos fossem um rebanho. É possível que essa pessoa pudesse se apresentar assim: Como é o seu nome? Ah! Meu nome é Liderança.

        De 2013 a 2014, apenas um ano, foi a vez do que chamo miniditadura. A pessoa usou todos os conceitos como destruir o que uma equipe construiu. Até chegar havia um sentimento de pertencimento e de colaboração enorme entre os funcionários da agência, depois abriu as portas da divisão, e tudo foi mudando, sendo destruído, as pessoas não se reconheciam mais naquelas medidas. A arbitrariedade era a medida para todas as coisas, o adoecimento das pessoas virou regra, o afastamento por causa do comprometimento da saúde se tornou comum. 

        Passados 11 anos do final daquele ano "sabático", trazendo como pano de fundo o julgamento que se desenrolou no STF, as lembranças começaram a querer sair. Violência física, não houve. Violência psicológica, muita. Experimentação psicológica, por exemplo, uma pessoa sozinha atender no dia mais de 50 clientes,  até tal pessoa se esgotar, sem mudar nada, mesmo com o adoecimento dela, com o esgotamento físico e mental severo. Sem querer ser duro, uma experimentação maldosa. 

        Ali naquele microcosmo, fiz essa projeção como viver em uma ditadura. Os humores do ditador atropela as regras, a hierarquia protege o executor de suas ordens maldosas, o sistema se protege, se apropria da vida dos atingidos. Quem se manifesta precisa ser tosado. Quem se rebelar já era. O silêncio é quase uma omertá mafiosa. Aí de quem reclamar, ganha uma alvo na testa.

        Não tem vida fácil na ditadura, seja ela gigante, seja mini.

        Enfim, era o que tinha a dizer da experiência minúscula em uma ditadura.

        

        Abração, Marconi Urquiza.

        

4 comentários:

  1. Belíssimo e leve relatório sobre assunto pesado. Entendo que a vigilância perene e o exercício pleno da cidadania são as melhores vacina contra o poder de ditadores.

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  2. O "sistema" é bruto Marconi.
    No ambiente corporativo, muitas vezes tem uma ditadura, onde as regras não convencionais atropelam os normativos e, em várias situações, o desrespeito é encoberto pela hierarquia que protege àqueles que executam as ordens cruéis. Isto causa esgotamento físico e mental grave.
    Sua crônica traz lembranças de momentos vivenciados no final da minha carreira e creio que de outros que ousaram bater de frente com o *sistema*. A opressão e perseguição limitava a verdadeira liberdade de expressão e deixou trauma profissional e pessoal em forma de pequenas cicatrizes que adoeceram a alma.
    Situações da espécie faz com que o silêncio se torne a norma e a verdadeira norma seja aplicada apenas quando convém aos detentores do poder.
    A opressão, independentemente da sua escala, é brutal e deve ser combatida para criar um ambiente saudável para todos, eliminando a "miniditadura" em suas diversas formas.
    E vamos que vamos, pois a vida é bela para ser vivida.

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  3. Belíssima comparação Marconi. São incontáveis as histórias de colegas com mesmo tema. Lembro de receber, entre os 50 para atender, inventariante queixando de colocação de produto na conta de seu pai após a morte. Fato efetivado por sub-miniditador e na época campeão na capital, um verdadeiro _"Tigre de Papel"_.

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  4. Felizmente, não vivenciei esse período que eu chamo de "Ditadura das Metas". Eu deixei o Banco, em 2007, usando a "Porta de Saida" do PAA.

    Mesmo assim, conheci histórias envolvendo o que Marconi chamou de "mini-ditadores". Não eram líderes. Eram meros "chefetes de plantão".

    Normalmente nomeados por seus "QI's" e "escudados" por seus "cargos", promoviam um esforço intenso para o cumprimento de metas e para colocar a Dependência/Órgão, em que atuavam, em "destaque", sem perceber (ou sem se importar) com os danos físicos (doenças), emocionas e mentais, que causavam aos seus "subordinados".

    Acredito também que não percebiam (e talvez ainda não percebam) que eram/são meros "seres humanos, como um outro qualquer", e que um dia terão que prestar contas de seus atos, seja na justiça dos homens, seja na justiça divina.

    Mudando de assunto, na leitura do livro "O último café do coronel", estou no meio do capítulo doze. E está sendo uma prazerosa "viagem". Mas, como já fiz na semana passada, recuso-me a dar "spoilers".

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