Foto captura no Facebook de Laércio Souza
Por um motivo relevante, acabei indo a Bom Conselho, cidade onde nasci, 50 anos depois de ter saído dela para estudar em outra cidade.
Naquele fevereiro de 1976 fui estudar no Colégio Santa Sofia, em Garanhuns (PE). Colégio que ainda mantém a sua missão de educar os jovens. Naquele ano, haviam três grandes colégios privados na cidade: o Colégio Diocesano, o Santa Sofia e o Colégio XV de Novembro (Presbiteriano). Em comum, foram todos eles criados por instituições religiosas.
Mas, naquele início de 1976, quando saí, era tímido, inseguro e com uma enorme carência e deficiência nas matérias exatas (Física, Química e Matemática). Entre o Colégio de Bom Conselho, que era uma escola referenciada na época, e o Colégio Santa Sofia, havia um mundo de distância. Para mim, um enorme desvio a ser superado, um degrau absurdamente alto que não consegui transpor. Deficiência nessas disciplinas que nunca supri.
Alguns pontos, entre muitos, foram marcantes, destaco. Desapegar da casa e me adaptar a viver em uma pensão, apenas entre adultos.
Outro ponto: o deslocamento de Garanhuns para Bom Conselho e vice-versa era muito ruim. Aos sábados, havia poucos carros particulares de passageiros, e o ônibus era depois de 10 horas da manhã. No domingo era obrigado a sair cedo, havia um ônibus pela manhã e outro 10 horas da noite. Só depois de vários meses é que comecei a ter carona do gerente da Caixa Econômica Federal de Garanhuns, Álvaro Gomes, que saía de Bom Conselho às 5 horas da manhã a cada segunda-feira.
O terceiro ponto da jornada em Garanhuns foi a experiência com a professora de Português do Colégio Santa Sofia. Todos os dias, olhe! Todos os dias ela aplicava um ditado; treinamos essa forma de redação o ano inteiro, e eu gostava disso. Já tinha alguma habilidade para escrever, pois no Colégio Frei Caetano de Messina, em Bom Conselho, também tínhamos esse tipo de treinamento. Com o tempo, comecei a inventar alguns textos.
E uma saudade cavalar que levei anos para superar.
A história correu e eis que estou novamente em Bom Conselho. No último sábado dei uma passeada rápida pela cidade; no centro e nas ruas adjacentes ela parece a mesma, mas não é. Não é a mesma cidade das minhas lembranças. As pessoas mudaram, novas pessoas chegaram ao mundo, sou um estranho para 99,9% delas. A maioria dos meus contemporâneos vivem longe da cidade.
As pessoas de hoje ignoram sobre a história ocorrida durante 1982. Não sabem que o pau cantou e que ocorreram mortes na disputa política em que papai acabou assassinado.
Neste 07 de fevereiro de 2026, sábado, ao sair com meu cunhado Washington comentei para ele, faz 50 anos que saí daqui. "50 anos?" 50 anos. "Muito tempo." Fui estudar no Santa Sofia, depois fui estudar em Recife e, de lá, fui trabalhar no Banco do Brasil; e a conversa terminou.
Até 1987 pensava muito em Bom Conselho. Depois, fomos para Tabatinga, no Amazonas, e essa lembrança foi diminuindo à medida que novos desafios surgiam, vencer as circunstâncias, superar a mim mesmo no caminho da sobrevivência física e no Banco do Brasil, que passava por intensa transformação corporativa.
Posso até me lembrar como via a cidade, mais lenta, menos frenética, com os jovens reunidos na Praça Pedro II, para onde iam se encontrar com amigos e amigas, para paquerar, namorar e para alguns se exibirem com os carros dos pais. Haviam alguns carros com sons altos, mas ninguem imaginaria os paredões de hoje.
Os bailes e carnavais no Clube dos 30 ainda existiam. A religiosidade católica era muito forte, o padre da Igreja Matriz tinha uma grande influência. Durante os anos 1970 foi uma moda da moças fugirem para casar. Mas há uma tradição que permanece até hoje, virou cultura na cidade, os desfiles de Sete de Setembro. Era e é o maior evento coletivo, social e "afetivo" da cidade.
Vou repetir: o desfile do dia Sete de Setembro é "o maior evento coletivo, social e afetivo de Bom Conselho". Uma cidade inteira vai assisti-lo, os jovens vão participar, os colégios se enfeitam; e os professores parecem sentir-se mais importantes por coordenarem as equipes. As fanfarras são um mundo à parte. 50 anos depois, isso está bem mais forte.
E eu nestes 50 anos?
Restam muitas lembranças até os 16 anos, outras até os 22 anos, quando fui trabalhar no sertão.
Entre elas, algumas peculiares como a vigilância que fazia para pegar a primeira fornada de pão na padaria para leva-los em casa e comer um ou dois pães com manteiga, derretida pelo calor deles. Da doideira que era para estar pronto para ir jogar futebol nos treinos do antigo campo da ABA e no Clube dos 30. De contar uns trocados para ir tomar algumas cervejas no Bar do Géo ou no Restaurante Kennedy.
De marcar o tempo para ir visitar a primeira namorada às 19 horas. Chegava sempre antes e ficava na garagem escutando a família jantar. Tenho lembranças frequentes da temperatura amena da madrugada e do final da tarde, após escurecer. Em Bom Conselho, a partir das 17.30h começa correr um ventinho gostoso entre as serras e vai amenizando o calor do dia.
E, fisicamente, fui de 68 para os atuais 104,5 quilos. Mentalmente, nem sei o que dizer. Bom! Aprendi a escrever.
Saltando dos 16 para 66 anos, com um romance escrito cujo enredo foi inspirado na secular história da cidade, onde, especialmente, as lembranças de um período de 14 anos afloraram, de 1968 e 1982, que se juntaram às muitas leituras sobre o espírito nordestino, especialmente o espírito da disputa política.
Neste livro não entraram as minhas recordações do jovem que brincava com os amigos e amava jogar futebol na rua mesmo com as constantes reclamações do padre Carício. Também, que eu e os amigos, ficávamos admirando as lindas vizinhas que subiam e desciam a rua Conselheiro João Alfredo; que saia correndo para cobrir o almoço na farmácia de papai. Que que tinha fome por gibi e lia adoiado os livrinhos de bang-bang e por aí vai.
Agora, em 2026, Bom Conselho é uma nova cidade, com outro dinamismo, com a beleza antiga e singular da Igreja Matriz e do colégio Nossa Senhora do Bom Conselho, e a beleza nova do Parque Feliciano, e a visão extraordinária de parte da cidade a partir do oitão da prefeitura, na praça Frei Caetano. A mesma foto que ilustra está crônica.
Minha minúscula participação nesta história secular da cidade está nas páginas do romance O último café do Coronel, cujo personagem central me inspirei na importante figura histórica do Coronel Zé Abílio, em que ele é o condutor da narrativa. Neste livro temos um apanhado histórico, politico, social, das disputas, dos costumes, das amizades e inimizadas que ocorreram na cidade de 1911 até 1982.
E se passou 50 anos, com o coração rodando pelas ruas da infância e da juventude, das paqueras e dos jogos de futebol que enfeitaram meus sonhos juvenis.
Por hoje, é só.
Abração e ótimo Carnaval.
Marconi Urquiza
Crônica do túnel no tempo, Marconi. Sua trajetória dos 16 aos 66 anos trouxe grande amadurecimento pessoal, profissional e espiritual, com memórias vibrantes da juventude, como brincadeiras de rua e leituras.
ResponderExcluirA nova dinâmica de Bom Conselho não apagou as lembranças que resistem ao tempo, principalmente a trágica partida do seu genitor.
Simbora, seguir em frente com paz, amor e com vivências dos bons momentos que nos restam.
Abraço fraterno.
Um grande abraço, amigo Oceano. Ainda em Arcoverde? Acho que é a sua cidade!
ExcluirAmigo Oceano, muito obrigado pelo comentário. Abração.
ExcluirParabéns colega, Tenho esse hábito de pisar onde dei as primeiras passadas a energia extraída é ilimitada. Viva nossas raízes. Bom Carnaval.
ResponderExcluirAdemar, muito obrigado pelo comentário. Abração.
ExcluirParabéns pela bela crônica, amigo Marconi! Parafraseando Belchior: "... Mas também sei que qualquer CRÔNICA é menor do que a vida de qualquer pessoa!" , Entretanto você conseguiu condensar 50 anos, quase a história de uma vida, em palavras, linhas e parágrafos cheios de emoção! Li, reli e fui lembrando de minha própria história. Emocionante!
ResponderExcluirAmigo Djalma, sabe! Quando a ideia e as primeiras palavras vieram eu não refrei o impulso. Deixei ele fazer o seu caminho para esta crônica. Abração,.
ExcluirOh confrade, tua crônica remonta também um pouco da minha no torrão onde nasci: a pequena Lagoa dos Gatos. Apesar de sermos diferentes, as cidades do interior todas têm algo em comum, o padre, a praça, a igreja, os desfile s de sete de setembro, e meu pensamento viaja pela infância todas as vezes que a visito.
ResponderExcluirMazé, muito obrigado. É verdade, de alguma forma todas as cidades do interior se parecem.
ExcluirEm cada ser humano há um escritor adormecido. Ele se revela ao ouvir, falar, ler e escrever.
ResponderExcluirEscrever é falar sem interrupções. Marconi sabe disso — e escreve com o coração, não apenas com a mão.
Hayton, obrigado pelo comentário. Enriqueceu a crônica. Abração,
Excluir66 anos de vida e de história, resumido numa crônica. Coisas de um bom escritor.
ResponderExcluirParabéns, Marconi, por nos presentear com tão bela história.
E o Cel. José Abílio, levou ou não levou Lampião para fazer exame de vista, na capital pernambucana? Levou.
Edivaldo, obrigado pelo comentário. Rapaz, num sei se o cel. Zé Abílio fez isto. Carece de confirmação.
ExcluirAbração.
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirMuito bom Marconi.👏👏👏
ResponderExcluirAmaury, muito obrigado pelo elogio,. Abração,.
ExcluirMuito bom ver que você está bem e com boa memória. Tenho 4 anos há mais que você, mas, me vi incluso em muitas partes da sua história. Também passei pelo Banco do Brasil, hoje na iniciativa privada, mas tenho saudades dos bons ex-colegas. Um abração para o Oceano que no inicio dos comentários fez suas observações. Saudades da Bom conselho daqueles tempos com autêntica praça das palmeiras que nunca saiu da minha momoria. Que Deus nos abençoe com saúde e paz, aliada a vidas longas, por merecimento. Até algum momento! Givaldo (Tim maia).
ResponderExcluirAmigo Givaldo, aquele praça era linda. Passei muitas vezes no meio dela para ir ao Estadual. Abração.
ExcluirAmigo Marconi, ao ler sua crônica, senti como se estivesse lendo um novo capítulo de "O Último Café do Coronel", só que agora percebendo você como um dos personagens. Sua trajetória. Sua história durante cinquenta anos. Suas dificuldades, seus desencantos, suas dores, mas também sua vontade de superar e seguir em frente.
ResponderExcluirSiga assim, meu amigo! Siga, sim! 🙌
Amigo Brandão, muito obrigado pelo comentário. De certo modo todo escritor está em algum personagem de um livro que escreveu. Abração.
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