quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Votos sob objetivos


 


É hora de falar sobre política sem arengar. Pode discordar, fique à vontade. 


        Um amigo em 29 de maio deste ano me enviou um vídeo de 4,54 minutos, uma síntese extraordinária de uma situação de comportamentos de pessoas no século passado. Uma síntese de um dos regimes que mais dizimou pessoas. 

        O assisti com atenção, muita atenção, ainda mais pelo fato desse amigo ter aderido em 2018 ao bolsonarismo, na versão mais briguenta da direita, extrema direita.  Foram tempos de nenhum diálogo, ouvidos trancados e veneno na alma. Circunstância que ensejou outras reflexões minhas.

        Ao ver o vídeo informei a ele que assisti, então me sugeriu escrever uma crônica a respeito. Não escrevi. Me acautelei, os pruridos, os freios morais e psicológicos já estavam frouxos de parte do segmento da população que apoiava o candidato da direita.

        No sentido de demonstrar a intolerância, ilustro está crônica com um papo rápido com uma pessoa próxima, ainda em estávamos fevereiro deste ano.

        A gente viajava no mesmo carro e em certo momento da conversa alguns fatos foram apresentados por ele e eu constrapus com informações que mostravam a outra face da realidade sobre os  seus argumentos. Bastou cinco minutos dessa conversa e ele se enervou, se tornou quase agressivo, a ponto de eu lhe dizer assim: "Não precisa ficar nervoso". E o papo parou de vez.

        Esse epísódio é uma ilustração simples de centenas, milhares e até milhões de atritos quando certas "convicções" se chocam com os fatos e eclode dentro dessas pessoas, que se contrariam ao se defrontar com as suas "certezas" uma violenta raiva. O perfil é que não pode ser "contrariado" em suas opiniões ou "alheias", quem sabe, opiniões assimiladas pelo sequestro da subjetividade.

        Aí veio a eleição de Lula, no outro dia pipocaram vídeos e postagens para demitir funcionário que votou em Lula, nem precisa ter certeza, bastou se suspeitar. Gilhotina no "infiel". Também apareceu dono de pizzaria em João Pessoa com cartaz dizendo, raivoso, que não atenderia esquerdista ou vulgo petista. 

        Alguém mencionou boicotar comércio de petista. Não foi difícil uma comparação com o Nazismo. Vou colocar alguns verbos que me vieram à mente. Segregar, punir (com a morte simbólica: demissão), proibir o acesso de cidadões a espaços comerciais (proibir de entrar), expulsar (de escolas), ameaçar (e dar surras efetivamente), impor medo.

        Desde a juventude eu tive a maior curiosidade sobre como o alemão, povo desenvolvido no início do século passado havia aderido ao Nazismo.  Não compreendia. Só vim compreender muito depois e após muita leitura, entre elas a que mas me impactou foi Adolf Eichmann em Jerusálem - um relato da banalidade do mal, de Hannah Arendt.

        Aí vi também outra análise e foi o que me motivou a escrever esta crônica. Não fixei o início da frase, mas foi algo assim: Isso não é ideologia, é método. É método. Comecei a me indagar e tentar entender o âmago do argumento daquela pessoa.

        Método de que? Pois o vídeo logo se encerrou. Depois de algum tempo pensando consegui juntar, o contexto eleitoral com as perspectivas colocadas no parágrafo 5 desta crônica e o método.

        Qual método?

        O método fascista. 

        É um método que quer dominar pela violência dirigida aos mais fracos; de angariar o apoio dos mais ricos; do estado a serviço do interesses da elite; da violência dirigida aos opositores. Do verbo absoluto tomando a subjetividade (colocando a pessoa na bolha - incapaz de ter uma visão crítica).

        Aí, hoje, vi o filósofo Vladmir Safatle informar que o Brasil teve o maior partido fascista fora da Europa, com 1.200.000 filiados na década de 1930. Então não é de hoje, isto vinha sendo alimentado discretamente até explodir em 2018, após ficar em ebulição durante quatro anos, a partir da Lava Jato, em 2014.

        Como Vladmir Safatle disse, esse fascismo atual não veio do nada. As suas sementes estavam hibernando, esperando chuvas boas, tempo quente e gente a dizer: eu sou como você, pode aparecer. E foi o que ocorreu.

        O que se passou este ano não foi um gamer, em que se morre e revive na próxima tentativa do jogo. Foi um risco real de um regime com o monopólio da violência do Estado sob seu domínio. Este risco por hora está conjurado a espera da próxima eleição para presidente. 

        Esta é a minha visão e minhas reflexões sobre a campanha presidencial deste ano. 

        Há muito o que pensar, muito a dizer, muito a cuidar. Enfim,  o preço da liberdade é a eterna vigilância (Atribuída a Thomas Jefferson)

        Bem, por hora é só.

        Marconi Urquiza


Assista ao vídeo:




        

6 comentários:

  1. Bom dia compadre. Gostei e concordo contigo. Essa gente em muitas vezes são próximas, familiares, amigas; em nossos conceitos pessoas íntegras, boas e se comportam estranhamente nazifascistas. Não entendo, tem sido um conflito, aceitar que fulano de tal é bolsominio. Lamentável este comportamento de retaliação, caça às bruxas. Abraços

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    1. Ari, muito obrigado pelo seu comentário. É uma situação crítica essa.

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  2. Excelente crônica para nossa reflexão, parabéns!
    Precisamos de vigilância e atenção aos sinais, pois a democracia não tira férias!
    As sementes estavam lá, esperando o clima favorável, até que um iluminado autodenominado "O Messias" chamou: "Pode vir, aqui é dos seus". E começou a massificação da frase bíblica: "E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará" (João 8:32).
    Espero que a verdade tenha efetivamente aparecido para iluminar as mentes, pois o extremismo não é videogame e não tem o botão Ctrl+Alt+Del para reiniciar a democracia depois do estrago.
    Simbora viver sem medo de ser feliz e desfrutar plenamente de um país democrático. E que venha 2030!

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    1. Oceano, muito obrigado pelo comentário e pelo enriquecimento da crônica.

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  3. Ótima crônica, amigo Marconi. "Ha tempo pra tudo debaixo do sol: " Tempo de plantar e tempo de colher, tempo de calar e tempo de falar..." A batalha foi vencida, a democracia fez valer sua força, agora vamos dar um tempo para os vencidos... Estou mantendo distancia segura de pessoas que estão passando pelas fases do "luto": Negação, raiva, barganha e resignação. Quando o tempo passar, e vai passar, será tempo de todo brasileiro praticar, no dia a dia e em todas as redes sociais, o ensinamento de São Francisco: "Onde houver ódio, que eu leve o amor.
    Onde houver ofensa, que eu leve o perdão.
    Onde houver discórdia, que eu leve a união."

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  4. Parabéns pela excelente crônica e pelo vídeo que foram extremamente esclarecedores para se compreender o incompreensível Marconi.
    Estamos vivendo tempos difíceis que exige um posicionamento em defesa da nossa Democracia.

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