quarta-feira, 10 de maio de 2017

GOD ON TRIAL - O Julgamento de Deus



O julgamento de Deus - Poster / Capa / Cartaz - Oficial 1         Há alguns anos eu vi o anúncio de um filme na Sky, mas nunca havia tido a coragem de assisti-lo, pois todas as vezes que iniciava me lembrava do Holocausto, das cenas de um documentário onde corpos magros eram levados nas costas de um nazista para uma fossa comum.

      Eram corpos tão depauperados, cuja magreza permitia o soldado nazista os transportar como se levasse um saco vazio.

      O Holocausto foi tão severo que praticamente fez sumir uma língua, o iídeche, mas o judeu tinha a partir da sua religião uma fé que era um povo escolhido por Deus. Eles haviam feito um pacto com Deus para os proteger.

       Mas a perseguição a eles era milenar e veio a Segunda Guerra Mundial e essa perseguição ganhou escala de produção industrial.

       Então três anos atrás consegui ver na internet o filme, cujo nome original é GOD ON TRIAL, às vezes eu ficava tentado parar o filme para que não avançasse e não visse a frustração imensa pela quebra do pacto com Deus, outras vezes queria parar para refletir sobre a sensação de traição que sentiam; queria parar, também, para me dar tempo para refletir de quando a fé é confrontada com uma realidade brutal, como a de um campo de concentração.

       Mas fui assistindo ao filme e os judeus do pavilhão montaram um tribunal e passaram a julgar Deus, enquanto listas de quem iria para câmara de gás no dia seguinte eram anunciadas. 

       Tem uma parte do filme onde um dos condenados à morte diz que se achava invulnerável, não ligava nada para o destino dos judeus, pois se achava alemão, até que na noite anterior o pegaram sem que ele soubesse ter qualquer traço de sangue judeu.

       É uma história repleta de significados, muito boa para avaliarmos se, certas certezas, são de fatos certas.

       Deixei dois links se você quiser assistir.

       Grande abraço, Marconi

http://www.dailymotion.com/video/xlb6u2_o-julgamento-de-deus-parte-1-de-2_shortfilms

http://www.dailymotion.com/video/xlb736_o-julgamento-de-deus-parte-2-de-2_shortfilms

     



     

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Meu encontro com Belchior

       


      Eu me encontrei pela primeira vez com Belchior em 1976 quando cantou "Sou apenas um rapaz latino-americano". Cantava diferente, quase declamava, como​ em uma poesia, o modo diferente causou uma estranheza imensa, mas as suas letras tocaram meu coração, eram músicas que diziam algo para meu espírito.

        E esses encontros se sucederam porque virei fã, comecei com a mesada comprar seus discos.

        Quando vim morar em Recife, vindo do interior, de Bom Conselho, aqui no Pernambuco, os poucos happy hour eram cult, pois eram regados com as canções de Belchior, sentávamos na frente do prédio, com aqueles tira-gostos poucos e simples que a grana de estudante podia pagar, regada pela mesma falta do money que fazia com que cada copo de cerveja fosse muito devagarinho bebido para a festa não acabar cedo. 

       A partir de 1980, 1981 pareceu que ele sumiu do radar e não acompanhei mais seus lançamentos. Aí em meados de 1997 eu vi um lançamento dele, já em CD, aqueles sucessos com novos arranjos, que me deu um certo desgosto, ele havia acelerado o ritmo das canções, algumas ficaram boas, outras me soaram ruim. Mas guardei, tenho até hoje o CD.

         Não lembro qual ano, se 1998, se 2000, não lembro. Estava em São Paulo, aguardando um voo para Belo Horizonte ou para Brasília, mas é detalhe menor. Estou zanzando pelo Aeroporto de Congonhas, depois de passar pelo paraíso, a Livraria Laselva, me impaciento e saí andando de novo, aí vejo Belchior, sem fãs por perto, indo em um guichê, depois noutro, aí ele caminha em minha direção, eu reduzi a passada, até pensei: como ele é baixinho, sabe, me deu aquele nervoso e quis dizer:
      "Ei Belchior, como ouvi suas músicas, como eles me encantaram, como elas foram importantes na minha vida".

       Não disse, a timidez foi maior.


       Mas agora eu vou dizer e peço uma brecha no universo que leve para sua alma:
      "Ei, Belchior, rapaz! Você não sabe como fui feliz ouvindo suas canções. Tu sabe que eu ainda tenho uns disquinhos lá em casa? Sabe não! Pois eu tenho e faz 40 anos."


        Vai com Deus macho!
Marconi Urquiza.
       

terça-feira, 18 de abril de 2017

Captura da Decência

O mundo é um lugar perigoso de se viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas sim por causa daqueles que observam e deixam o mal acontecer.... Frase de Albert Einstein.


Eu alimento o monstro e o monstro me alimenta.

(Sobre o ciclo "produtivo" da corrupção).

Uma rede, uma cadeia, um enraizamento. Uma gramínea que corre silenciosa capturando a decência.
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À guiza dos depoimentos de Emílio e Marcelo Odebrecht.


quarta-feira, 29 de março de 2017

O SILÊNCIO DE UMA DOENÇA

Nunca despreze as pessoas deprimidas. A depressão é o último estágio da dor humana.... Frase de Augusto Cury.

      A morte por suicídio do colega Flaviano do Banco do Brasil trouxe para todos os seus amigos e conhecidos uma surpresa ruim, depressão, imagino que tenha sido esse o seu mal.
     
     A atenção a esse mal depende tanto da pessoa, quanto das pessoas próximas, da família, de quem ama o doente e, talvez, também da empresa.

       Ao contrário do pensamento de alguns, a depressão não é coisa de gente fraca, ela pode ser orgânica ou psicológica, de toda forma ela depende de bons profissionais para a sua cura, depende do doente, depende da sua esperança, de seu propósito de vida, depende da família, depende dos amigos, depende dos colegas. Enfim, muitos podem ajudar.

       Mas o silêncio que ela acompanha vem da vergonha da pessoa dizer que a tem, vem, muitas vezes, da frieza como a pessoa é recebida e seu mal é encarado.

       No meio corporativo se alguém revelar isso é visto, quase sempre, como fraco. Diante dessa realidade quase todos se calam e aprofundam a sua angústia, pois....

     É preciso ser macho, é fundamental mostrar-se uma fortaleza, é preciso esconder o choro, é preciso ser o super-herói, pois desejar alguma compreensão de seus companheiros de trabalho é uma heresia, ter um mínimo de compreensão dos chefes é um sonho, apenas uma fantasia.

       Assim o silêncio, tão útil para acalmar a mente vira uma arma terrível, um canhão apontado para o próprio peito.

       Sabe como compreendi isso?

     Quando pressionei um colega sem trégua, não consegui extrair nada de útil dele, o afundei ainda mais e comecei a achar ele fraco, incompetente, mas o pior, eu estava no mesmo processo e findou que eu é que fui "punido", rebaixado, quando eu deseja uma nova oportunidade para recomeçar.

      Mas o trabalho não é coisa para gente que precise de ajuda, ali é matar ou matar, se fraquejar... Mas era preciso  prosseguir com a vida.

   No entanto, eu não sabia que estava com esse mal, eu não tinha compreendido que tinha feito mal àquele Zé, até que fora do circuito de gerentes eu tive tempo para entender que eu estava muito doente e não era só dela, o corpo estava muito adoentado.

     Restou buscar ajuda, combater o medo, trazer a raiva de volta e alterar a perspectiva da vida, que eu também era importante.

    Mas a maior lição de tudo isso é que comecei a olhar a alma dos meus amados colegas, até mesmo de muitos que não gostava, para ver se havia algo secreto afetando seu espírito, virei, sem dizer a ninguém um combatente tenaz para não deixar que esse silêncio aterrador fizesse mais uma vítima.

Abraço a todos.
Marconi​ Urquiza.

quarta-feira, 8 de março de 2017

O assalto e o esconderijo

Você só sabe até onde pode ir quando já foi.... Frase de Luis fernando verissimo.

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Por causa do assalto ao BB Agamenon em Recife ontem.
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Nesse mesmo assalto ou em outro, nem dei, foram tantos:
Gritaram subindo as escadas: É um assalto!!!! É um assalto!!!!
Muita gente correu para a copa e para o banheiro.
 
Marconi! Nosso amigo Marconi! Inventou de verificar o acontecimento com os próprios olhos.
São Tomé.
Viu e voltou.
Tarde de mais.

Dona Bela fechou a copa. Alguém fechou o banheiro feminino.
Fred passou a chave no banheiro masculino.
Marconi ficou subindo e descendo o degrau onde fica a geladeira.

Até que!!!
"Todo bom filho tem sorte, todo bom marido, não"
Surgiu uma caixa de papelão, dessas de fogão.
Ele colocou-a até a cintura e ficou ao lado da geladeira.

Dizem!!! Dizem!!!
"não posso afirmar porque não estava presente"
Que um ladrão no momento que estava entrando no suporte bateu na caixa duas vezes " toc, toc" e perguntou: o que é isso.
Daí surgiu aquela voz forte, destemida:   "é        u m a       c  a i x a"
Por Euler Araújo de Souza.
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Bem, foi quase assim!
Abraço, Marconi Urquiza.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Você é banal?

Nada é mais prejudicial ao pensamento próprio do que uma influência muito forte de pensamentos alheios.... Frase de Arthur Schopenhauer.

Você já parou para refletir como as atitudes não éticas, como sonegar informações ao cliente ou o induzir a comprar um produto ou serviço para cumprir uma meta ser tão comum que parecem normais a muitos profissionais?

Hannah Arendt ao analisar o nazista Adolf Eichmann disse que em sua defesa que "estava apenas cumprindo ordens", semelhante as declarações de outros líderes nazistas no Julgamento de Nüremberg.

Ele "se lembrava perfeitamente de que só ficava com a consciência pesada quando não fazia aquilo que lhe ordenavam - mandar milhões de homens, mulheres e crianças a morte, com aplicação e o mais meticuloso cuidado (p.37)".

Você conhece alguém com esse perfil?

Segundo Phil Zimbardo (p. 404) Arendt se surpreendeu integralmente ao dizer que Eichmann parecia absolutamente comum:


"Meia dúzia de psiquiatras havia atestado a sua 'normalidade' - 'Ele é, pelo menos, mais normal do que eu fiquei depois de examiná-lo', teria exclamado um deles, enquanto outros consideraram seu perfil psicológico, sua atitude quanto à esposa e aos filhos, mãe e pai, irmãs e amigos, 'não apenas normal, mas inteiramente desejável (p.37)".

Você já conviveu com alguém assim, ser um amor de pessoa até receber ordens e se transformar em um dedicado e maldoso cumpridor das metas?

Então Arendt nos trouxe uma grande lição:


O problema com Eichmann era exatamente que muitos eram como ele, e muitos não eram pervertidos, nem sádicos, mas eram e ainda são terrível e assustadoramente normais. Do ponto de vista de nossas instituições legais e nossos padrões morais de julgamento, essa normalidade era muito mais apavorante do que todas as atrocidades juntas, pois implicava que [...] esse era um tipo de novo criminoso [...] que comete seus crimes em circunstâncias que tornam praticamente impossível para ele saber ou sentir que está agindo de modo errado (p.299). Foi como se naqueles últimos minutos [da vida de Eichmann] estivesse resumindo a lição que este curso da maldade humana nos ensinou - a lição da terrível banalidade do mal, que desafia as palavras e os pensamentos (p.274).


Para Phil Zimbardo, Arendt foi a primeira a negar a orientação que a maldade vem dos traços de loucura dos malfeitores e a violência despropositada dos tiranos como traços constitutivos de seu modo de ser pessoal. Ela observou que isso muitas vezes decorre da fluidez com a qual as forças sociais podem levar pessoas normais a realizarem atos terríveis (p. 405) e menos terríveis, mas atos no mínimo não éticos.

Aqui fica um alerta, dita por C. S. Lewis:


[...] que uma poderosa força de transformar o comportamento humano, empurrando pessoas para além dos limites entre o bem e o mal, advém do desejo básico de estar 'dentro' e não 'fora" e segundo isso nos arma uma armadilha que quebra os freios da moralidade e da ética para ser aceitos em um 'Círculo Interno', pois segundo ele 'um palpite virá. [...] Será o palpite de algo, que não está bem de acordo com as regras técnicas do jogo honesto, algo que o público, o ignorante e romântico público, jamais compreenderia. Algo ante o qual até os de fora da própria profissão estariam propensos a fazer um rebuliço, mas é algo, diz seu novo amigo, que 'nós' - e com a palavra 'nós' você tenta não corar de puro prazer -, algo que sempre fazemos. (Zimbardo, 2007, p. 365)

Aqui fica o meu próprio alerta: esteja sempre, sempre, sempre atenta, sempre atento ao canto da sereia.

Abraço e ótimo final de semana,
Marconi Urquiza

Referências:
    

Links:
http://www.prisonexp.org/book/
http://www.socialpsychology.org/




sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

O chiado da rede. Uma história de futebol.

Não sei, só sei que foi assim! (Em: O Auto da Compadecida)... Frase de Ariano Suassuna.

Quem jogou pelada já pegou cada tipo de campo, essa é uma dessas histórias!

Quando tínhamos em torno de 17 anos a turma da rua e do Colégio Frei Caetano montou um time para jogar peladas.

Certa vez Adeildo, penso que foi ele, marcou conosco um jogo na Barra do Brejo.

A Barra é um povoado que fica na beira de um rio, cujas margens são escarpadas na rocha, a sua faixa de terra mais plana e estreita é toda ocupada com a praça, a igreja e o pequeno comércio, mais casas. O resto sobe a ladeira.

Aí nosso time chegou e foi procurar Adeildo e a gente sequer cogitou saber qual o local do campo.

Não lembro que hora começou o jogo, mas foi cedo, só na luz natural.

Depois de uns minutos ele saiu com seu Fusca, zero, 77, com um som roadstar, fitas cassetes da melhor qualidade, a TDK, e  um dos sucessos do momento: Agepê.

Era o homem subindo a ladeira na primeira e nós atrás nos carros dos nossos pais.

Com os motores fracos daquela época era um piado só subindo a ladeira íngreme.

Acho que após, sei lá, 10 minutos, ele dirigiu o carro para debaixo de uma árvore e elevou  o som do Fusca.

Nós estacionamos por perto e fomos fazer o "reconhecimento do capim". Literalmente era um cercado formado de um capim baixo para gado. 

Eu lembro que cheguei perto do gol, pequeno, para um campo que pretendia ser do tamanho "oficial".A gente começou caminhar nele, era tão plano que parecia um tobogã.

Andamos alguns metros, ficamos observando o campo no que parecia ser o grande círculo. Visualizamos o gol do lado de baixo e logo fomos chamados para nos arrumar.

O outro time já tinha subido a ladeira pronto.

Não recordo a cor da camisa do time da Barra, não sei se era tricolor, rubro-negra, eu sei que a nossa era uma camisa Hering branca, improvisada de padrão de time de futebol, com os números pintados nas costas por serigrafista. É tudo que eu lembro.

Começamos o jogo defendendo a barra de cima.

Aí começou o segundo tempo, em uma espirrada de um zagueiro do glorioso Barra do Brejo, nós achamos um gol em um escanteio.

Atacar ladeira acima era muito melhor, a bola ficava quase colada nos pés, mas defender ladeira abaixo era uma desgraça, a bola teimava em não ir para o ataque. E o jogo correu assim por muito tempo. Só para vocês terem uma ideia.

Da barra de cima para a de baixo devia ter um declive de 30°. Mas no meio do campo tinha muitas barrocas, fruto das destocas. O cara vinha correndo e de repente faltava chão, a perna dobrava, ou a gente rolava ou caia de joelhos.

Bem, o campo vinha descendo e quando chegava perto do gol do lado de baixo ele subia como em uma lombada, depois, ainda mais abaixo ficava a barra.

O nosso goleiro era o Arthur, que costumava jogar bem. Mas o jogo era tão ruim, se não fosse o gol achado, os times iriam jogar cem anos sem nem chutar direito.

Mas de repente um cara do Barra do Brejo saiu correndo sozinho no meio campo e sobe aquele morrinho e chuta.

Mas a bola subiu, subiuuu, subiuuuu, ganhou altura e nós da defesa paramos, já esperando os meninos que estavam atrás do gol irem pegar a bola.

Nesse ínterim Arthur deu alguns passos e parou e ficou quieto, com a mesma confiança que nós: tiro de meta.

Mas de repente ele se virou para trás, colocou a mão no queixo e disse: foi gol!
Gol como Arthur? Não sei, foi gol. Gol!

Ali mesmo fizemos uma conferência: E como você descobriu que foi gol? Como eu descobri? Eu ouvi o chiado da rede. Chiado da rede? Sim, eu ouvi o som chiiiiiii, aí me virei.

Mas não era para ser gol Arthur, uma bola dessas! Mas foi. 

Aí alguém gritou, olhem a barra! Nós olhamos e balançamos os ombros, como se dissesse e daí? Olhem a barra, a pessoa insistiu e aí nós vimos.

Primeiro ela ficava mais abaixo do morrão artilheiro e depois ela parecia um cesto, um jacaré em pé com a boca aberta.

A barra tinha uma inclinação para trás que aumentava o ângulo quando a bola vinha do alto e quando o cara chutou ela disse para a bola venha cá minha menina e a abraçou.

Pronto! 1 x 1.

Aí me lembrei de Jackson do Pandeiro: Esse jogo não pode ser um a um .... Era para ser mesmo zero a zero.

Abraço e ótimo carnaval.
Marconi Urquiza

Existimos: A que será que se destina?

Viktor Frankl             Começou, começou, começou aquilo que muitos refugam, mas têm uma apaixonada, apaixonada reação ao ouvir opiniões c...