sexta-feira, 3 de julho de 2020

Oração para um amigo


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Ronaldo Tenório - 54 anos.

"O meu time de amigos
A COVID desfalcou.
Se foi Ronaldo Tenório
Um amigo que marcou
Pelo tanto de
sementes 
Que em vida semeou."

Poema do amigo Ademar Rafael



O poeta Mário Quintana lecionou:

Esta vida é uma estranha
hospedaria,
De onde se parte quase
sempre às tontas,
Pois nunca as nossas malas
estão prontas,
E  a nossa conta nunca está
em dia.

Desta uma estranha hospedaria, o amigo Ronaldo se foi. 

"Bom dia primo!" ou "Bom dia primo, que Deus te ilumine!"

Em algum momento a sua verve cativante nos aproximou. Lá de longe, dos ancestrais o sobrenome Tenório nos tocou, ele com o sobrenome de batismo, eu pela derivações da família. 

É fácil elogiar um morto e criticar um vivo. Era um bom homem e coisa e tal. Era um pai valoroso e coisa e tal. Mas o que dizer de uma pessoa que ano após ano, mês após mês, dia após dia te desejou Bom Dia. BOM DIA!!!!!

Sabe, na semana que deixou de desejar bom dia eu pensei: Se abusou da minha frieza. Como me enganei!

Gostaria, antes de me despedir, de me lembrar dele pelo seu jeito alegre de ser e de tanto cutucar, eu achei: (Clique em) Linguajar obsceno, com Ariano Suassuna 

"Bom dia primo", que Deus de te conceda conforto, carinho e atenção tanto quanto não medisse em vida.


Abração, Semana Iluminada.

Marconi Urquiza

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Foi tudo tão muito, e imensamente, tão pouco.

Mensagem em Homenagem Dia do Amigo, a vida é só alegria para quem ...

Foi tudo tão muito, e imensamente, tão pouco. 

Por muito pouco eu não iria para um reencontro com amigos. A pandemia já dava as suas caras e eu pensei, no duro, eu pensei: "E se não eu não tiver outra chance?" Por causa dessa pergunta, ganhava em mim uma dimensão, que sempre esteve por aí na vida: a da urgência, do querer fazer tudo que fosse possível. 

Pois bem, só fechei a viagem quatro dias antes da data. Mandei revisar o carro e nos preparamos para viajar. Eu e Nega.

Então dois dias antes, pegamos a estrada para o Primeiro Encontro dos Ex-Funcionários do Banco do Brasil em Afogados da Ingazeira. A viagem, com estrada conhecida, muito conhecida por mim até São Caetano. Não sei contabilizar quantas vezes passei por este trecho. Cem vezes, é bem provável. Então foram cerca de 150 quilômetros só olhando para a rodovia da BR 232. O túnel da Serra das Russas já havia ficado para trás.

Caruaru nem via mais no horizonte, quando passamos de São Caetano,  a viagem se transformou para mim. A memória começou a comparar o presente com as minhas lembranças e eu comecei a narrar para minha esposa a primeira viagem para Afogados da Ingazeira em janeiro 1982. Naquela tarde de sábado, eu ofereci  a um policial militar uma carona, minha companhia até Sanharó, naquela primeira ida, trinta e oito anos antes. Era um jovem de 22 anos.

Uns quilômetros à frente, chegamos em Belo Jardim. Do lado cá, meu sogro teria dito, se referindo do lado direito da rodovia, estava tudo quase do mesmo jeito, mas do lado de lá, esquerdo, muito havia mudado.

Lá na frente, eu me lembrei:
- Você se lembra quando viajamos com três grávidas para Recife? 
- Lembro, - foi a resposta de Nega. 

Eram as esposas de dois outros colegas. Um dos casais, da Bahia, colocou o nome do seu primogênito de Marconi. Uma honra nunca agradecida. Não lembro do nome desse colega, nem sei onde moram e como está o filho.

Ainda mais à frente, em Pesqueira, fiquei em dúvida e comentei:
- Nega, tem um hotel por aqui, - mas não lembrava de qual lado. Era do lado direito, indo para Afogados. Quando eu vi, exclamei: "Olha, é esse!" Menos de um quilômetro, viramos à esquerda, descemos a ladeira e cinco quilômetros depois a estrada estava na mesma. 

Chegamos em Arcoverde, visualizei a Chevrolet Tamboril do lado esquerdo, busquei com os olhos um antigo arquivo geral do Banco do Brasil, do lado direito, até lembrei do dia em que a cruzei o centro da cidade, chovia forte e o velho Chevette jogava água  para dentro, por um buraco aberto do canto do para-brisa, pela ferrugem.

Deixamos Arcoverde para trás e vimos Cruzeiro do Nordeste. Aquela vila em que foi rodado parte do filme Central do Brasil. Na frente de Polícia Rodoviária Federal, pegamos a direita e seguimos para Sertânia. Qual não foi o desapontamento, aquele pedaço de rodovia estava congelado no tempo. Asfalto remendado, pintura apagada, beirada da pista comida pelo trafego, acostamento de terra. Tudo bem semelhante a 1994, a última vez que havia passado por ela. 

Alguns quilômetros depois de Sertânia, seguimos para Albuquerque Né. Depois do trevo, aquele pedaço rodovia também estava ruim, quase igual a rodovia que a gente passava em 1987. O piso permanecia todo carcomido. Quando a vila apareceu, diminui a velocidade e fui procurando com avidez a bodega, onde perdido em 1982, parei para perguntar como faria que para chegar em Afogados da Ingazeira. Até disse a Nega que pedi uma Coca-Cola antes de perguntar. Naquele nove de janeiro, a noite já havia nos abraçado.

Me lembrei que segui tateando a estrada e vi um povoado, mas ele estava distante da dela. Ao olhar para a esquerda eu vi uma casa grande, fui até lá e gritei uns três boas-noites. Já estava desistindo, quando sorrateiro, um homem alto, magro, apareceu, deu a informação  que eu precisava, mas quando vi o enorme revólver encostado na sua perna, agradeci e quase correndo, entrei no carro.

Nessa ida agora, a casa estava pintada, recuperada, até corrimão havia sido colocado. 

Depois de Irajai, meia hora mais tarde a gente já tinha passado por Iguaraci e entrava em Afogados da Ingazeira, mais um dia e uma noite, rolaria a festa.

Após o check-in no hotel, nós descemos para o centro da cidade. Irremediavelmente a minha lembrança me levou àquela antiga praça, cheia de areia nos canteiros, passeio arenoso. Estava em janeiro de 2020 arrumada, cuidada, arborizada. Mais um pouco eu ouvi uma voz conhecida e comecei a me sentir energizado, como nos diz o poema de Ademar Rafael:

"Sinto-me energizado
  No  dia que eu consigo
  Reencontrar um amigo
  Que me apoiou no
  passado.
  Recarrego a bateria.
  Na troca de energia,
  Gerada em cada 
  abraço."

Na festa nos reunimos com Alcyr, Jéferson, Tarciso, chegou Ivanílson, Belo chegou depois, cumprimentamos tanta gente. Jéferson comentou sobre uma crônica que escrevi, depois Alcyr começou a falar, vinte anos da sua vida, contada em vinte minutos. Sabe, como faltou conversa! Ficou incompleta, quase nada falei da nossa vida. 

Então a música entrou, alta, a conversa foi minguando e a saudade nascendo, dos amigos que vi por lá. 

Na troca de energia gerada em cada abraço, foi tudo tão muito, e imensamente, tão pouco. 

Foi tudo tão muito, e imensamente, tão pouco.



Abração. Semana iluminada.
Marconi Urquiza



sexta-feira, 19 de junho de 2020

Taquicardia a dois.



clarice-lispector

Amiga leitora, amigo leitor. Eu tive várias ideias na semana, mas ao escrever, em todas elas, a alma ficou devendo. Assim me socorri de Clarice Lispector. Vá no link, ouça e leia ou leia e ouça esta linda crônica.

Uma crônica de uma suavidade imensa, lírica, amorosa, como neste trechinho:
"E lá ficou com o sabiá na mão. O coraçãozinho do sabiá batia em louca taquicardia. E o pior é que minha amiga estava toda taquicárdica. ..."

Clique neste link:


Semana iluminada.
Abração, Marconi Urquiza


sexta-feira, 12 de junho de 2020

Passarinho tomando banho de sol

Canto do Rouxinol para Android - APK Baixar


O amanhecer do sertão
Sempre teve seus encantos
Aves através dos cantos
Nos dão a exatidão
Dessa belíssima canção
Nascida no arrebol
O minúsculo rouxinol
Arrodeia nossas casas
Cantando, batendo asas
Tomando banho de sol.

Ademar Rafael (João Pessoa, 11.06.2020)


Poderia ser uma metáfora, mas não é.

Sábado fez um lindo sol, eu acordei cedo e seis da manhã estava pegando os raiozinhos na varanda, de um sol gostoso, que acaricia a pele. O forró abanava macio os meus ouvidos, me encostei na mureta, olhando por olhar.  Aqui e acolá passava um  carro na rua. Da varanda eu via a Rosa e Silva e suas amigas vizinhas. De onde a vista alcança, aparecem as folhas das árvores. São tantas que convidam os passarinhos para visitarem e eles vão e vêm, chegam de mansinho ou em voos rasantes. 

Na rua quase ninguém, passou uma funcionária da padaria da frente. Desceu um vivente correndo de máscara, outro passou de bicicleta, meia duzia de carro já tinha passado. O forró tocava gostoso, alteei o som, um som diferente vinha da frente, baixei. Já fazia alguns alguns minutos que os passarinhos voavam, revoavam, piavam e cantavam na sede e árvores do Náutico. 

Nas suas evoluções, que dão inveja a qualquer Esquadrilha da Fumaça, paravam em um canto, noutro e aí eu fixei olhar em ponto e pensei, o passarinho está tomando banho de sol.  Pois bem, o sol bonito, o vento fresco, levemente úmido, a temperatura agradável. Nestes minutos foram aparecendo outros passarinhos.

Um Bem-ti-vi cantou, outro acompanhou, dois pássaros maiores se separaram e um deles voou veloz pela Rua Barão de Contendas. Mal comparando, parecia um pequeno jato em voo supersônico.

Três pássaros verdes voaram de longe juntos e pousaram na placa em frente à entrada do estacionamento do Náutico e nisso eu olhei, junto aos três, havia outro passarinho tomando banho de sol. Paciente, quieto, parecia de barriga cheia e só queria garantir a sua dose solar de vitamina D.

Como meninos buliçosos, os três passarinhos verdes pularam para o muro, do muro para os fios de alta tensão no meio da avenida. Nele ficaram alguns segundos, confabularam alguma coisa e bailaram, lá no solo as espigas da grama, apetitosas os chamavam. Comiam e piavam, era tanto piado que pareciam três amigos contando piadas.

De repente, a minha atenção foi desviada, uma Rolinha cantou, repetiu, sumiu rua acima, passou pela árvores da Rua da Angustura e lá despejou o seu canto junto com os dos Bem-ti-vis, nossos vizinhos do Country Club.

Alguns Canários da Terra chegaram e ficaram revoando de uma árvore para outra, aí eu me lembrei do passarinho tomando banho de sol. Estava impávido, solene, sereno. Olhei admirado e pensei: "Esse Galo de Campina é fera."

De repente a orquestra da vizinhança se reuniu e sem ensaios começou  a tocar, como? Tocava não, cantava. Um coral?  Em alguma árvore perto da Matriz do Espinheiro o som migrava de um lado para o outro e os passarinhos realizavam um conclave musical.

O Galo de Campina lá embaixo nem se mexia, pelo tempo eu fiquei desconfiado. Agucei o olhar, dei uma vaga nos passarinhos e disse: "Ôxe?"

Deixei o sol esquentando a parede e fui no quarto, troquei de óculos e voltei para a varanda. Meu Galo de Campina continuava impávido, sereno, solene, mas não estava lá, nem esteve, devia ter embelezado outras paisagens, pois quem estava lá parado, era um toco de ferro, que misturava a cor da ferrugem com pontos de vermelho e branco. 

Ainda bem que eu coloquei os óculos novos, mas que eu vi, vi, não era um "rouxinol", era outro passarinho, tomando banho de sol. 

(Recife, 06.06.2020 - Entre seis e seis e mais da manhã)


Abração, semana iluminada.
Marconi Urquiza


Conclave musical dos passarinhos: AUMENTE O SOM  NO MÁXIMO.


sexta-feira, 5 de junho de 2020

Perto da alegria

Um casal de ferias

O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar. 
O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. 
O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar. 
                                                            Carlos Drummond de Andrade


Aqui da varanda de casa olho o mundo, o mundo empatado pelos prédios que cercam o meu apartamento. As janelas estão vazias, um, outro, raros moradores chegam e também olham o mundo, apenas alguns segundos, logo voltam. Vêem menos do que eu, não contemplam o que enxergam.

Ouço no streaming uma canção de Chico Buarque, agora um clássico cubano embala os meus ouvidos, não gostei, apertei uma tecla e entrou outra música. Deixei ela embalar até a metade, busquei uma canção que o meu espírito aprove e me deixe contente, perto da alegria e longe da tristeza.

Oitenta dias de quarentena. Levanto a cabeça e fico olhando ao redor, sem procurar nada e tudo, desejando não me entediar, por isso passeio com olhar. O sol a pino deixa as cores vivas, bonitas, não faz calor na varanda. O sol está nas costas do prédio. Olho a taça de cerveja, está quase no final, daqui a pouco irei abrir outra minicerveja.

Os meus olhos voltam a passear de novo pelos prédios, esbarro durante poucos segundos, vejo uma pessoa, em um apartamento alto, bater um tecido na janela, jogando pó ao vento, que irá longe, o vento sopra suave.

Continuei sentado e passeando pela vizinhança, com aquela preguiça de quem vê a mesma coisa toda vez que olha no horizonte, aí o meu olhar esbarrou em uma janela, vi alguém como se estivesse bailando, agucei o olhar e vi uma mamãe embalando o seu bebê ao som daquela música, que só está no seu coração.

                                           O amor é grande e cabe no bailar de um ninar
هو هبه بين يدي (com imagens) | Arte de mãe, Pintura bebê, Mãe e ...
(Recife, domingo. 31 de maio de 2020. Entre às onze horas e o meio-dia)


Abração, semana iluminada.

Marconi Urquiza

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Distopia - por aqui

Black Mirror no blockchain - A distopia virando realidade | Cointimes

ROSA DO TEMPOS

O calendário informa,
quem será que 
passará o umbral?

O registro dos
tempos, que de
tempos da rosa 
dos ventos
vem comunicar.

Quem passará o
portal?

Deus não é maldoso,
muito menos
manhoso.

Mas a dor não
pode evitar.

É construção do
mundo,
Que no fundo
harmoniza,
avisa
que a rosa dos
ventos de tempos
em tempos rodará.

(Araruna-PR, 19.8.2000)

N
ão precisa concordar ...

    Eu não saberia explicar a distopia brasileira se não recorresse a um exemplo que convivi durante muitos anos. Na época dos acontecimentos eu começava a planejar a minha dissertação: Evidências de Tensão Ética em uma Instituição Financeira. Por ter me chamado a atenção, eu fui guardando as comunicações, da então, diretoria de distribuição, sobre desvios éticos que estavam ocorrendo na empresa.

A partir do episódio da denúncia de um ex-funcionário, que disse a um canal de televisão problemas internos da empresa. Problemas relacionados ao uso de robôs de informática para implantar pacotes de tarifas. Por causa disso, o diretor estampou na mídia interna a sua preocupação e começou a exigir que todos os funcionários lessem o código de ética, fizessem seis cursos relacionados à ética empresarial e respeito ao Código de Defesa do Consumidor. De um ponto de vista formal, a empresa seria a mais ética no Brasil.

    Eu continuei imprimindo e anotado as comunicações que tinha a ver com ética, quaisquer que fosse a temática subjacente. Guardei 30 dessas mensagens, separei 19 para estudar com a metodologia da Análise de Conteúdo. Quando o trabalho estava sendo finalizado, chegou uma mensagem proibindo se vender capitalização para pequeno produtor rural, o que era legalmente proibido. As comunicações iniciais traziam a mensagem de conscientização. 

A questão ética continuou forte, as metas a cumprir, com uma cobrança intensa, incessante, ainda mais forte e com exemplos abundantes de rebaixamento de gerentes gerais de agências, por não entregarem "os números". Mensagem que dizia o que de fato  era importante, e mais enfática, impossível. 

     O down grade era a ferramenta mais utilizada para convencer a se entregar a meta. Os meios legais, regulamentares e não regulamentares, mas aceitos, todos eram utilizados, desde que não vazasse.

Não é que um dia desses. Já após a deflagração do distanciamento social. Eu estava  expurgando meus arquivos físicos inúteis e achei uma mensagem que dizia, em resumo: Todos as vendas de capitalização para os micro e pequenos produtores rurais, beneficiado pelo programa de agricultura familiar, não somariam para o cumprimento das metas específicas deste produto. 

     Ao reler, eu recordei do meu pensamento ao ver pela primeira vez essa mensagem: "Não adiantou conscientizar" (A força do medo de perder o salário de gerente foi maior); "não adiantou as punições seletivas" (Os substitutos, impregnados pela cultura de resultados - por qualquer método - repetiram a venda proibida). Restou quebrar tudo, retirar o número do número. Os corpos foram indóceis.  

Essa foi a primeira distopia que tive consciência. Todo o paradigma ético, normativo, punitivo, do medo de perder algo valorizado, havia sido quebrado. Era a empresa reconhecendo que os parâmetros de controle e domínio das pessoas havia falhado, vencido por uma cultura empresarial muito poderosa. 

    Segundo a historiadora Lilia Moritz Schwarcz, o Brasil vive uma dupla distopia. A saúde, agravada por causa da pandemia e o outro, por causa da política. É o caos que se vive no país, e quando, muitos de nós, desejávamos que a liderança se espraiasse, pelo que imaginamos, de bom senso, e a pandemia fosse gerenciada a partir de uma coordenação consensual. 

Na última terça-feira, eu vi uma live (gravada) da historiadora Lilia, ela discutia com o mediador, o livro 1984, de George Orwell. Citou sobre a opressão, o caos, citou corpos dóceis, de Michel Foucault. 

A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, corpos ‘dóceis’. A disciplina aumenta as forças dos corpo (em termos econômicos de utilidade) e diminui essas mesmas forças (em termos políticos de obediência) […] a coerção disciplinar estabelece no corpo o elo coercitivo entre uma aptidão aumentada e a dominação acentuada. Foucault - Vigiar e Punir

Ao apresentar tais termos, ela acrescentou, palavras interpretadas por mim:
- Já vivemos o Caos (Confusão todo dia, confusão todo dia com método e propósito); 
- Já vivemos a opressão (A imprensa, as pessoas que manifestam a sua opinião contra esse caos são combatidos pelas ferramentas da informática e apontadas aos "corações" dos combatentes desse Caos para serem agredidas no verbo, a fronteira do físico já passou a tempos); 
- Corpos dóceis (As pessoas se auto impõem as restrições imaginadas pelo Grande Irmão, o Grande Caos, também já vem ocorrendo em larga escala.).

    Depois de muito tempo voltei a ler opiniões sobre o momento brasileiro. Há uma projeção que em agosto teremos 100 mil mortos de Covid-19. Há outra, que o Brasil poderá ser o país com maior número de mortos pela pandemia no mundo. 

E só não há maior resignação diante de tantas mortes e desse Caos todo, com desvio de foco da mazelas para outros assuntos, por que um um  grupo de brasileiros criou um site. Site onde os nomes dos brasileiros mortos pela Covid-19 e suas histórias são escritas em um memorial, o Memorial Inumeráveis. Para estes mortos não serão apenas um número, uma estatística. São gente, com nome, sobrenome, onde nasceram, as suas famílias, onde morreram. Gente! Gente!

     Retornando a questão das novas leituras. Nesta quarta esbarrei com um artigo individual que citava que no Brasil estava sendo utilizado pelo Caos os métodos nazistas. Os métodos nazistas consagraram o caos como método de dominação inicial da população. Primeiro vem o ódio, lá no passado foi fácil unir contra uma minoria, que já carregava um estigma de pelo menos 500 anos. Concomitante foi se criando o medo, mantendo o medo em alta, entre outros, daí vem aspectos do estado totalitário. Vigilância interrupta, punições rápidas e sem os ritos do judiciário, uma milícia forte e onipresente. 

Um dos métodos comentados pelos historiadores do nazismo é a comunicação transversal. Alguém vai dizer assim: "Olhe fulano, me deixe em paz." Um monte de sicranos, conhecendo o código, começa a agir e a perturbar, incomodar o fulano apontado no recado. Isto no mínimo.

     No nazismo havia muito esta atitude a partir do seu líder, o que era subentendido para a maioria das pessoas, para as tropas da SS (Schutzstaffel, em português, Tropas de Proteção), "cegamente leais", era claro e era uma ordem. 

Dias desses, eu vi o filme "Nunca Deixe de se Lembrar", contextualizado durante o nazismo e após a segunda guerra na Alemanha oriental e também na Alemanha ocidental. Há uma frase que eu guardei. O personagem principal ouviu uma pergunta, sobre ele ter fugido antes da construção do muro de Berlim: "Como é que você sabia que que eles iam fazer? - É só pensar ao contrário do que eles dizem. " 

     É preciso conhecer o método e o pensamento. "Como é que você sabia que eles iam fazer?"

O Caos precisa da polêmica, qualquer caos. A menção de um medicamento ineficaz só existiu para manter a estratégia de arenga em evidência, pois se houvesse concordância, seria escolhido outro ponto para polemizar. A estratégia é inventar novas verdades, repeti-las, mudá-las, nova repetição dessa nova verdade inventada, vem mais uma verdade, mais outra, mais uma, mais outra, mais uma, mais outra, mais uma, mais outra... Atacar as pessoas, atacar as pessoas, até que sejamos "corpos dóceis", aí poder sair cantando: "Tá dominado, tá tudo dominado"...

     A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, corpos ‘dóceis’. A disciplina aumenta as forças dos corpo (em termos econômicos de utilidade) e diminui essas mesmas forças (em termos políticos de obediência) […] a coerção disciplinar estabelece no corpo o elo coercitivo entre uma aptidão aumentada e a dominação acentuada. Foucault - Vigiar e Punir


Filtrar é a essência, fazer a profilaxia das mãos e do rosto. Água, sabão, pano duplo, cheirar de longe. Outra profilaxia é fundamental, a do pensamento. Lembre da frase: SE PUDER FIQUE EM CASA. "SE PUDER SE INFORME." Com isso a distopia brasileira pode começar a ser vencida pela nossa compreensão da realidade.


Abração, semana venturosa.
Marconi Urquiza

Links de citações:

Extra, livro para se aprofundar:
     

Existimos: A que será que se destina?

Viktor Frankl             Começou, começou, começou aquilo que muitos refugam, mas têm uma apaixonada, apaixonada reação ao ouvir opiniões c...