sexta-feira, 29 de agosto de 2025
Quase gol
sexta-feira, 22 de agosto de 2025
Sorte ou sortilégio
O gato, animal felino.
Dizem que há proteção
Maior pra "bebo" e menino
Mesmo que existe sorte,
Não é salutar na morte
Vivermos tirando "fino".
Na semana passada Cida sofreu um acidente enquanto fazia sua corrida matinal, um táxi bateu nela, pegou no braço que impactou o abdomen. Mesmo sentindo dores deste então, ela está apenas machucada. Dois segundos a mais, um metro a mais, ela poderia estar muito machucada ou morta. Foi sorte.
Desde ontem fiquei pensando nos quase acidentes, felizmente. Estava parado na esquina da rua Angustura com a avenida Rosa e Silva, em Recife, deixando o trânsito me dar a oportunidade atravessar aquela rua e seguir meu caminho. Cem metros antes ouvi o ronco de uma moto, moto de motoboy, com aquele baú de fibra de vidro na traseira. Ele saiu do Habibs, pega a parte direita da Rosa e Silva e acelera tudo que pode. Eu estava na beira da calçada, a alguns centímetros do asfaldo e a moto veio rápida, pensei que o motoboy iria desacelerar um pouco para entrar à direita na rua Angustura, mas que nada, senti foi o vento do baú roçando minha barriga. Confesso, após alguns segundos o medo chegou, dei um passo atrás e me demorei a atravessar a rua.
Em outra esquina, desta vez na Rua Dom Bosco com a via local da Avenida Agamenon Magalhães, estava nas imediações do Hospital da Restauração. Neste dia andava pensando em um monte de coisas, a atenção não estava voltada para a rua, mas para dentro da minha cabeça. Alguns metros antes vi o sinal aberto para o pedestre e registrei isso e parti na passada para atravessar a rua, e, e só me dei conta que ele havia aberto para os veículos ao sentir uma Kombi raspando meu corpo. Acho que exclamei assim: "Minha nossa senhora!" Acho que passei o dia pensando, por pouco minha família só receberia a notícia que eu fui atropelado e morto.
Quando era criança, brincando de carro de rolimã pelas ruas eladeirada de Bom Conselho, junto com os amigos, saímos da Praça Pedro II e resolvemos descer a ladeira da Rua 15 de novembro, a partir do antigo cinema Brasília, onde hoje é a agência do Banco Santander, se existir. Descemos pela calçada da esquerda, eu fui o último a descer. Na minha vez parei debaixo de um Ford Rural. Essa imagem é vivíssima até hoje, mais de 50 anos depois. O dono carro olhando sério para mim, eu sem saber o que fazer, a menor de 1 metro do pneu do carro.
Entre estes casos e outros, principalmente usando o celular dirigindo, até hoje tive sorte. Mas precisa alimentar esta sorte ao não dar motivo para ela me abandonar.
Em tempo: Sortilégio é Feitiçaria; ação do feiticeiro que pratica magia ou bruxaria.
Faltou assunto, para não deixar de passar uma crônica escrevi esta.
Por hora é, abração!
Marconi Urquiza
sexta-feira, 15 de agosto de 2025
Adultização (Felca)
(*)
Nesta semana, bombou nas redes sociais o vídeo em que o youtuber Felca denuncia o esquema da Adultização de crianças por pedófilos. A primeira frase que me veio à mente foi: "Entrei de gaito em um navio, entrei...", como uma indicação que muitos pais não se deram conta desse problema ao liberar acesso irrestrito das crianças à internet.
Tem um termo comum no direito para dizer que é culpa da empresa por não vigiar, acompanhar, monitorar: culpa in vigilando. Para os pais, pode não ser diferente, pois eles têm o dever de saber o que os filhos, ainda crianças, fazem e evitar que caiam em armadilhas.
Vídeo de enorme repercussão, mobilizou vários deputados federais, o presidente da Câmara Federal, Hugo Motta, para pautar o assunto e colocar os projetos em votação. Aqueles homens e mulheres têm filhos e netos; poderiam se preocupar com eles, mas o cálculo é sempre "causar" nas redes, aparecerem agora como defensores da família é ótimo para se "dar bem" nas redes e nos futuros votos. A questão maior, é como o ex-deputado federal Maurício Rands denominou em programa de rádio, eles são os projetos de finais de semana, feitos para aparecer e param por aí.
E na próxima sexta-feira, esse clamor que ocorreu nesta ainda motivará os parlamentares?
A acusação de Felca, na minha opinião, é contra a submissão do Brasil aos interesses das Big Techs, e toda manifestação a favor de evitar isso é acompanhada por uma ofensiva ao estilo dos gangsters, mafiosos. Primeiro, vem a cooptação com dinheiro, influência, apoio e facilitação para o nome ganhe proeminência perante o eleitorado. Se não funcionar, vem a chantagem branda; se isso não transformar o parlamentar em apoio às Big Techs, as armas de guerra são utilizadas.
Tem outra estratégia: atuar de dentro contra tais medidas, minando qualquer iniciativa contrária, cooptando outras pessoas e passando informações que possam ser utilizadas para acabar qualquer iniciativa parlamentar que restrinja as Big Techs.
Lembrei-me de alguns livros que li quando planejava escrever um romance de ficção, e eles esmiuçam como o caos foi causado pelas Big Techs ao redor do mundo. Entre eles estão: Os engenheiros do caos e A máquina do caos. Nesse contexto, há um exemplo do que aconteceu com o caos político em Mianmar, originado por postagens no Facebook que viralizaram; a empresa foi avisada e não tomou providências. Também recomendo este livro: Mercado sombrio - Cybercrime e você, que trata dos crimes provenientes do submundo da internet, a denominada Dark Web.
Quase finalizando, tem uma parte de pessoas que vêm tais empresas atuando para serem os supra-governos mundiais, submetendo os países aos seus modos de pensar, principalmente querendo transformar nações inteiras em fantoches para seus interesses e vontades, cooptando-nos através dos algoritmos. Isso extrapola o aspecto econômico e financeiro, para ser uma força política permanente. Nesta semana, li algo que me deixou mais atento às ações dos Estados Unidos contra o Brasil; a mensagem dizia literalmente: o caso não é sobre economia, é sobre política. POLÍTICA.
Muitos de nós, de tão politizadas estão as coisas, rejeitamos a política. Negamos a política, abandonamos a política e quem dela gosta e quem dela tira vantagem, adora a falta de vigilância dos cidadãos eleitores.
Vou usar como analogia do termo 'A Economia da atenção', que o que move as redes sociais, sequestrar a nossa atenção por qualquer meios.
Um sociológo, o qual não lembro o nome, comentou que o que faz muita gente parecer anestesiada perante tantos conflitos, brigas e escândalos divulgados Brasil afora é que estamos submetidos a uma defesa psicológica que implica cansaço, podendo ser uma estratégia eficaz: cansar a sociedade para que não reaja. Sem reação, a estrada fica livre para se fazer muitas das barbaridades que vemos todos os dias.
De certo modo, creio que vivemos sob um experimento psicológico que deu certo. Nos dominar pelo likes e cliques do que gostamos individualmente de ver. Essas empresas têm sob seu controle uma enorme quantidade de informações sobre cada um que lhes acessa às suas redes e com tais dados podem desenvolver estratégias de algoritmos que nos influenciam permanentemente.
Por fim, para quem puder, vamos cuidar para que as crianças da família não sofram com a Adultização, às vezes sem que nos demos conta.
Por hora, é só. Marconi Urquiza.
(*) Imagem disponível em https://www.blogdotiaolucena.com/abra-o-olho/
sexta-feira, 8 de agosto de 2025
Um conto, quase uma crônica. Uma mistura de ambos.
Um conto, quase uma crônica, uma mistura de ambos.
MARCONI URQUIZA
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O DOM DO MISTÉRIO
Uma homenagem a Luiz Clério Duarte.
Estava na redação do jornal local, Notícia Regional. Fazia uma visita de cortesia. Sem aviso prévio do diretor do jornal, ele havia começado a publicar seus escritos. Crônicas, contos, comentários. Um dia, ao acaso, leu o jornal e ficou sensibilizado, disse que viajaria só para agradecer a gentileza. E levou um bom tempo.
O tempo passou, e Jasme José viajou, realizando uma visita a muitas pessoas. No segundo dia em que esteve na cidade, foi à redação do Notícia Regional. Precisava agradecer a gentileza, queria conversar, se sentia solitário. Estava contente por poder ouvir outras pessoas, diferentes do seu círculo de amizades.
Ao chegar ao escritório, viu apenas o diretor do jornal, Arno Ivanovich. Desde a primeira vez que fora apresentado ao repórter, ele ficara curioso para saber a razão de ter sido batizado com um nome estrangeiro, tão fora da tradição da região. Após cinco minutos de conversa, perguntou:
— Desculpa, você tem parentesco com russo?
— Não, é que meu pai, em certo momento, foi um simpatizante do comunismo e andou inventando isso. Você não sabe a maior: um dia, ele viu a marca Arno...
— Ventilador? Indagou Jasme.
— É, também. Meu nome foi dado assim, e Ivanovich foi derivado do próprio nome de papai, Ivan.
— Ah! Bom.
— Seu nome também é incomum.
— É verdade. Papai quis homenagear seu avô, que era apelidado de Jasme.
A conversa correu, Jasme viu um livro sobre a mesa, pegou-o e folheou. Sem muito interesse, devolveu-o ao local de origem. Arno acompanhou o movimento, então comentou:
— Este livro é mais fraco que os outros que ele escreveu.
— Como?
— É muito superficial, afirmou Arno.
— Hum! Folheei o artigo sobre um político, mas não me aprofundei. O pouco que li deu para perceber que tem um tom meio especulativo, comentou Jasme.
— Tem muitas falhas: falhas históricas, não cita as fontes e tem, até erros elementares na redação.
— Notei esse aspecto gramatical em um livro anterior, observou Jasme.
— Mas, para mim, o pior é ele se apropriar dos relatos, como se fossem dele. Com isso, Arno encerrou o assunto, quase, não fosse o comentário de Jasme:
— Ele tem até um parente que é catedrático na faculdade.
— É, ele poderia pedir uma indicação de um revisor, mas lhe falta humildade.
— Também acho.
O assunto esfriou, mas, em certo instante, o jornalista fez uma pergunta:
— Você sabia que Ténisson é doutor em Machado de Assis?
— Ele fez tese sobre Machado de Assis?
— Foi.
— Não sabia. Eu sabia que ele era um professor importante na área de literatura brasileira. Sei até que, com certa constância, aparece nos jornais e até é convidado para editar e organizar coletâneas de uma editora importante.
Arno silenciou por algum tempo, então falou, pensando no professor Ténisson:
— Machado de Assis...
— Leu algum livro dele? Indagou Jasme.
— Memórias Póstumas de Brás Cubas. Mas não pergunte nada. Faz muito tempo que li. E você leu?
— Li vários contos. Estava aqui tentando; não lembro ter lido nada na escola, nem de algum livro dele fazer parte daqueles obrigatórios nos vestibulares que fiz. Mas eu demorei a ler Machado de Assis e ocorreu o mesmo com Clarice Lispector. Buscava citações deles e, mais nada, respondeu Jasme.
— A internet está inundada de escritos sobre os dois. Digitou o nome e aparece uma lista de postagens quase interminável.
— Acredito que isso tenha atrasado minha leitura de um livro completo. Só fui ler dois neste ano, dois livros de contos de Clarice. Já os contos de Machado de Assis li há mais tempo, informou Jasme.
Chegou um rapaz, conversou rápido com Arno; depois chegou outro e sentou no sofá. Após o bom dia, se calou e ficou zapeando no celular. Depois chegou mais um homem, pegou cinquenta exemplares do jornal para distribuir em uma comunidade rural.
Jasme observava essa dinâmica; quando ela acalmou, ele perguntou por Aldo Mário:
— Faz tempo que não vem por aqui, respondeu Arno.
— Gostaria de conversar com ele sobre uma série de eventos políticos aqui da cidade.
— Ele não vem mais, se irritou porque discordei dele. Mas lá pelas três horas da tarde, você acha Aldo no seu escritório. Vá lá que ele vai contar o que sabe. É um historiador natural.
— Obrigado. Você sabe dizer se Ténisson está por aqui?
— Acho que não; ele andou visitando a mãe há uns quinze dias. Vem pouco. O melhor procurar por ele na Capital, na Universidade, informou Arno.
— É mesmo! É que, agorinha, eu estava pensando que todo mundo, sem exagero, fala de Bentinho e de Capitu. Principalmente dela. Traiu, não traiu e com isso vai alimentando a polêmica, sem conclusão, sobre o comportamento de Capitu. É um mistério sem fim.
— É verdade. Machado traz isso em Dom Casmurro, observou Arno.
— Sabe o que eu estava pensando? Jasme deu uma suspirada. Não se sentia seguro quanto ao comentário que faria, embora tivesse a sensação de que a sua percepção fosse mais uma faceta de Machado de Assis.
Arno nada disse; aguardou o comentário ser dito:
— Sabe, Arno, nos contos que li, eu notei um padrão: o primeiro aspecto é que ele não entrega nada antes do final. Se quisermos saber o desfecho tem que terminar a leitura. Do segundo aspecto... nada disse.
— Não entendi o segundo aspecto, quis saber Arno, uma vez que Jasme não conclui o seu raciocínio.
— Não estou bem certo. Você já leu algum conto dele?
— Poucos.
— Talvez, o professor Ténisson não concorde com o segundo aspecto. É que, se ele escrevesse nos dias de hoje, seria o melhor escritor de mistério. Aí começou a explicar o seu raciocínio, citando vários contos em que o escritor prende a atenção do leitor, ao mesmo tempo que o distrai com narrativas paralelas.
Quando Jasme terminou os seus comentários, Arno disse:
— Nunca pensei nisso e também não li ninguém teorizando sobre esse aspecto.
— Na verdade, não pesquisei a respeito. É que li tantos livros de literatura policial ou de algum gênero de escrita semelhante que cheguei à conclusão de que o grande Machado de Assis brincava de iludir o leitor e fazê-lo ler até o fim.
Arno se calou e depois disse:
— Quem sabe eu peça a Ténisson para escrever sobre esse dom do mistério em Machado de Assis.
Na calçada surgiram dois amigos de Arno, e ele convidou Jasme para se juntar a eles, dando por encerrada a conversa.
— Jasme, a turma das onze horas está chegando. Fique aí para conversar com eles e rever alguns amigos e, quem sabe, recordar algumas histórias.
Jasme mudou da cadeira para o sofá, olhando cada rosto que chegava, recordando dos tempos em que aqueles homens, quando mais jovens, apareciam no comércio do seu pai para uma prosa diária no final da tarde. Aí viajou para Machado de Assis e se indagou: quantos mistérios tem por aqui? E o mistério do Bulandim? E do carro de bois que nunca chegava?
Em algum dia de 2021, no meio da sufocante pandemia de Covid-19.
Abração, Marconi Urquiza
sexta-feira, 1 de agosto de 2025
O Dom do mistério
Nesta semana ouvi um recorte de uma entrevista de Marcelo Rubens Paiva em que citou o período da pandemia de Covid-19, ele falou sobre ter escrito durante e sobre a pandemia, especialmente sobre ela.
Falar, escrever, conversar sobre esse sofrimento virou meio um tabu e também das dores a serem esquecidas. Eu estou nesta corrente que se lembrar da sofrência durante a Covid é angustiante. Então tenho evitado.
Dois dias após ter ouvido o comentário de Marcelo Rubes Paiva, na última quarta-feira li um e-mail em que um membro da Academia de Artes e Letras da AABB Recife informava o envio de sua obra para a Antologia 2025. Isto me livrou de perder o prazo para enviar a minha contribuição.
Faz tempo que crio apenas o normal, não que queira algo excepcional, mas um pouco melhor que o normal. Foi então que recorri ao estoque de contos. Estava lá, só utilizei.
Abri o arquivo com os 78 contos e no primeiro título que me chamou a atenção eu cliquei e li o rascunho. Ao contrário de alguns contos, esse carecia de revisão, ajuste na diagramação, ajustes nos diálogos, enfim, um ajuste geral para que se tornasse compreensível. Comecei a debulhar o texto como se fosse uma espiga de milho. Depois de uma hora terminei.
Vou fazer uma confissão. Comecei a leitura, releitura, e fui lendo sem entender o que o escritor queria, EU. Mas prossegui, fui lendo e corrigindo, ajustando. Ainda na metade , o escritor (EU) continuava obscuro, aí apareceu no conto, Machado de Assis, aí, a mensagem foi ficando menos enbaçada e foi nesse ponto que a recordação veio plena.
Com a vacinação dando esperança de sobreviver à Covid fui dando vazão a uma infinidade de ideias que se chocavam na cabeça. De julho a novembro de 2021 me pus a escrever, havia terminado o romance Decisão de Matar e desejava me manter sadio, a escrita foi o caminho para isso naqueles longos meses. Então fui misturando fatos e fui deixando a mente ditar de modo espontâneo a escrita. São mais de 60 contos com temas diversos, aleatórios.
Foi quando escrevi um conto inspirado pela personagem Maria Moura, do romance Memorial de Maria Moura, de Rachel de Queiroz, no qual fiz uma narração fantasiosa e para mim, saborosa. Esse conto foi fenomenal, despertou em mim a vontade de criar contos nos quais trago algum escritor para o contexto.
Foi quando comecei a me lembrar de alguns sentimentos das leituras de vários escritores e foram caindo as ideias sobre a caneta e o papel A4. Eles foram inicialmente manuscritos.
Ariano Suassuna, Clarice Lispector, Jorge de Lima (do poema A Invenção de Orfeu), Jorge Amado, Machado de Assis, Gilberto Freire, Antonio Maria (cronista de 3.000 crônicas, compositor, etc), Manoel Bandeira e outros.
No conto que trago Gilberto Freire criei um encontro hipotético com ele, muitos anos depois que timidez nos fez fugir do seu aniversário de 80 anos. Eu vi na TV Globo que ele estava fazendo 80 anos e teria na sua casa um evento. Então eu convidei para meu irmão Marcello para irmos, e fomos. Ninguém nos barrou e subimos a ladeira que levava à sua casa, já dentro de área dela no bairro Apipucos, Recife. Então empolgados, andamos e subimos a escada frontal, quando paramos à altura da porta de entrada, envidraçada, lá vinha ele caminhando pelo corredor para chegar à sua biblioteca, estava dando entrevista a uma TV. A timidez tomou conta e voltamos rapidamente. Fomos embora. Perdemos a chance de o conhecer pessoalmente.
Muito tempo depois li vários livros dele e Ingleses no Brasil me deixou apaixonado por uma pequena frase: Não foi tanto, decerto! Mas foi quanto. Em abril de 2002 escrevi um poema com esta frase como título, em 2021, finalmente consegui apresenta-lo a Gilberto Freyre, ao fantasiar um encontro com ele, e que a ficção me permitiu finalmente vencer a timidez.
Aí o mestre Machado chegou, me pegou e puxou para dentro das letras, provocando o conto que intitula essa crônica.
Então um sentido de urgência chegou, de repente lembrei que todos aqueles contos podem caber em um livro, dois livros, até três pequenas coletâneas e que o tempo encurta a cada dia.
Finalizo com as últimas estrofes do poema: Não foi tanto, decerto! Mas foi quanto.
Decerto! Foi quando
o coração se abriu
para querer e
o resultado é mais
que uma soma
percebida
É mais uma conta
Sentida,
Então pode se dizer
que o amor não
É tanto, decerto! É
quanto.
Bem por hora, é só.
Abração, Marconi Urquiza.
quinta-feira, 24 de julho de 2025
A alma apareceu ao ouvir as músicas de Luiz Gonzaga.
(*)
sexta-feira, 18 de julho de 2025
Lua Bonita
Como essa canção ficou escondida para mim tanto tempo? Comecei a me indagar, a me cutucar e, naquela mania — mania de interpretar e mania de inventar fiquei tentado a achar uma história.
Primeiro, Lua Bonita era aquela moça descia a rua Conselheiro João Alfredo com a saia rodada, com seu perfume de fulô amarela a embeleza a vida. A moça que eu e meus amigos não podíamos nem chegar perto, tudo que se tinha era a fantasia de ter um cheiro distante e a fuganda no pescoço, que nós fazíamos como se fosse nela, mas que nada, Lua passava serena, no alto de sua paixão pelo outro e não por nós.
A gente olhava para os outros rapazolas, "mas o que esse cara tem" para Lua ser tão apaixonada, todos ali pensavam, e lá vinha ela balançando seu perfume. A lindeza dela era de doer. Do homem dela, mal se via a ponta dos dentes, "que cara fechada" e o cara se divertia com aquele magote de rapazolas apaixonados por sua Lua. Pelas costas, o sorriso dele era aberto, a sua máscara era de ser sisudo. Mas ele se derretia de paixão.
De repente, descobre-se que Jorge, com quem jogávamos bola, é o amor de Lua; e manda nela com a força de uma apaixonada. "Lua tá cega, que tu vê nele?" Mas Lua só escuta os corações dos rapazolas zabubarem descompassados e olhava para cima ignorando um monte de rapazes que estavam emplumando-se, querendo que aquela beldade dissesse: Oiiii, Antonio; Oiii, Marcos; Oiii, Tito; Oiii, Benedito!. Nada, nada, nada de nos embelezar também com a sua voz, mas ela não podia nos impedir de vê-la, de ver Lua Bonita e brilhosa.
Aí um dia, Carlos, que morava em outra rua, chegou arrojado, com aquele carro enorme do pai. Quando a viu descer a rua, rodando a saia do vestido, se pôs de pé, armou o melhor sorriso, ajeitou a roupa nova, balançou o cabelo para o seu perfume se espalhar. Naquele dia, Lua estava com o vestido florido, Carlos não teve dúvida, encostou nela e disse: Quero namorar com você; Como? Me respeite, eu sou uma mulher casada. E Lua desceu a rua, enfeitando a vida dos nossos olhos.
Então um dos rapazolas, afeito à poesia, cantorolou, de início baixinho, a canção que seu avô adorava cantar, e logo depois a estrofe saiu forte e sentida, e foi assim:
Lua bonita
se tu não casada
eu preparava uma escada
Para ir no céu te beijar...
Clique no vídeo e escute a canção na voz de Zé do Norte
Lua bonita
Se tu não fosse casada
Eu preparava uma escada
Pra ir no céu te beijar
Se colasse teu frio
Com meu calor
Pedia a Nosso Senhor
Para contigo casar
Lua bonita
Me faz aborrecimento
Ver São Jorge num jumento
Pisando teu quilarão
Pra que casas-te
Com homem tão sisudo
Que come dorme e faz tudo
Dentro do teu coração
Lua bonita
Meu São Jorge é teu senhor
É por isso que ele vive
Pisando teu esplendor
Lua bonita
Se tu quer o meu conselho
Vai ouvir eu tô alheio
Quem te fala é o meu amor
Deixa São Jorge
No seu jubaio a montado
E vem cá para o meu lado
Pra gente viver sem dor
Composição de Zé do Norte / Zé Martins
Bem, por hora, é só.
Abração, Marconi
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