sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Sorte ou sortilégio

 


        Dizem que tem sete vidas
        O gato, animal felino.
        Dizem que há proteção
        Maior pra "bebo" e menino
        Mesmo que existe sorte,
        Não é salutar na morte
        Vivermos tirando "fino".
                Ademar Rafael Ferreira

            Na semana passada Cida sofreu um acidente enquanto fazia sua corrida matinal, um táxi bateu nela, pegou no braço que impactou o abdomen. Mesmo sentindo dores deste então, ela está apenas machucada. Dois segundos a mais, um metro a mais, ela poderia estar muito machucada ou morta. Foi sorte.

            Desde ontem fiquei pensando nos quase acidentes, felizmente. Estava parado na esquina da rua Angustura com a avenida Rosa e Silva, em Recife, deixando o trânsito me dar a oportunidade atravessar aquela rua e seguir meu caminho. Cem metros antes ouvi o ronco de uma moto, moto de motoboy, com aquele baú de fibra de vidro na traseira. Ele saiu do Habibs, pega a parte direita da Rosa e Silva e acelera tudo que pode. Eu estava na beira da calçada, a alguns centímetros do asfaldo e a moto veio rápida, pensei que o motoboy iria desacelerar um pouco para entrar à direita na rua Angustura, mas que nada, senti foi o vento do baú roçando minha barriga. Confesso, após alguns segundos o medo chegou, dei um passo atrás e me demorei a atravessar a rua.

            Em outra esquina, desta vez na Rua Dom Bosco com a via local da Avenida Agamenon Magalhães, estava nas imediações do Hospital da Restauração. Neste dia andava pensando em um monte de coisas, a atenção não estava voltada para a rua, mas para dentro da minha cabeça. Alguns metros antes vi o sinal aberto para o pedestre e registrei isso e parti na passada para atravessar a rua, e, e só me dei conta que ele havia aberto para os veículos ao sentir uma Kombi raspando meu corpo. Acho que exclamei assim: "Minha nossa senhora!" Acho que passei o dia pensando, por pouco minha família só receberia a notícia que eu fui atropelado e morto.

            Quando era criança, brincando de carro de rolimã pelas ruas eladeirada de Bom Conselho, junto com os amigos, saímos da Praça Pedro II e resolvemos descer a ladeira da Rua 15 de novembro, a partir do antigo cinema Brasília, onde hoje é a agência do Banco Santander, se existir. Descemos pela calçada da esquerda, eu fui o último a descer. Na minha vez parei debaixo de um Ford Rural. Essa imagem é vivíssima até hoje, mais de 50 anos depois. O dono carro olhando sério para mim, eu sem saber o que fazer, a menor de 1 metro do pneu do carro.

            Entre estes casos e outros, principalmente usando o celular dirigindo, até hoje tive sorte. Mas precisa alimentar esta sorte ao não dar motivo para ela me abandonar.

            Em tempo: Sortilégio é Feitiçaria; ação do feiticeiro que pratica magia ou bruxaria.

            Faltou assunto, para não deixar de passar uma crônica escrevi esta.

            

            Por hora é, abração!

            Marconi Urquiza

            

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Adultização (Felca)

 

(*)

               Nesta semana, bombou nas redes sociais o vídeo em que o youtuber Felca denuncia o esquema da Adultização de crianças por pedófilos. A primeira frase que me veio à mente foi: "Entrei de gaito em um navio, entrei...", como uma indicação que muitos pais não se deram conta desse problema ao liberar acesso irrestrito das crianças à internet. 

        Tem um termo comum no direito para dizer que é culpa da empresa por não vigiar, acompanhar, monitorar: culpa in vigilando. Para os pais, pode não ser diferente, pois eles têm o dever de saber o que os filhos, ainda crianças, fazem e evitar que caiam em armadilhas.

        Vídeo de enorme repercussão, mobilizou vários deputados federais, o presidente da Câmara Federal, Hugo Motta, para pautar o assunto e colocar os projetos em votação. Aqueles homens e mulheres têm filhos e netos; poderiam se preocupar com eles, mas o cálculo é sempre "causar" nas redes, aparecerem agora como defensores da família é ótimo para se "dar bem" nas redes e nos futuros votos. A questão maior, é como o ex-deputado federal Maurício Rands denominou em programa de rádio, eles são os projetos de finais de semana, feitos para aparecer e param por aí.

        E na próxima sexta-feira, esse clamor que ocorreu nesta ainda motivará os parlamentares?

        A acusação de Felca, na minha opinião, é contra a submissão do Brasil aos interesses das Big Techs, e toda manifestação a favor de evitar isso é acompanhada por uma ofensiva ao estilo dos gangsters, mafiosos. Primeiro, vem a cooptação com dinheiro, influência, apoio e facilitação para o nome ganhe proeminência perante o eleitorado. Se não funcionar, vem a chantagem branda; se isso não transformar o parlamentar em apoio às Big Techs, as armas de guerra são utilizadas.

        Tem outra estratégia: atuar de dentro contra tais medidas, minando qualquer iniciativa contrária, cooptando outras pessoas e passando informações que possam ser utilizadas para acabar qualquer iniciativa parlamentar que restrinja as Big Techs.

        Lembrei-me de alguns livros que li quando planejava escrever um romance de ficção, e eles esmiuçam como o caos foi causado pelas Big Techs ao redor do mundo. Entre eles estão: Os engenheiros do caos e A máquina do caos. Nesse contexto, há um exemplo do que aconteceu com o caos político em Mianmar, originado por postagens no Facebook que viralizaram; a empresa foi avisada e não tomou providências. Também recomendo este livro: Mercado sombrio - Cybercrime e você, que trata dos crimes provenientes do submundo da internet, a denominada Dark Web.

        Quase finalizando, tem uma parte de pessoas que vêm tais empresas atuando para serem os supra-governos mundiais, submetendo os países aos seus modos de pensar, principalmente querendo transformar nações inteiras em fantoches para seus interesses e vontades, cooptando-nos através dos algoritmos. Isso extrapola o aspecto econômico e financeiro, para ser uma força política permanente. Nesta semana, li algo que me deixou mais atento às ações dos Estados Unidos contra o Brasil; a mensagem dizia literalmente: o caso não é sobre economia, é sobre política. POLÍTICA.

        Muitos de nós, de tão politizadas estão as coisas, rejeitamos a política. Negamos a política, abandonamos a política e quem dela gosta e quem dela tira vantagem, adora a falta de vigilância dos cidadãos eleitores.

        Vou usar como analogia do termo 'A Economia da atenção', que o que move as redes sociais, sequestrar a nossa atenção por qualquer meios.

        Um sociológo, o qual não lembro o nome, comentou que o que faz muita gente parecer anestesiada perante tantos conflitos, brigas e escândalos divulgados Brasil afora é que estamos submetidos a uma defesa psicológica que implica cansaço, podendo ser uma estratégia eficaz: cansar a sociedade para que não reaja. Sem reação, a estrada fica livre para se fazer muitas das barbaridades que vemos todos os dias.

        De certo modo, creio que vivemos sob um experimento psicológico que deu certo. Nos dominar pelo likes e cliques do que gostamos individualmente de ver. Essas empresas têm sob seu controle uma enorme quantidade de informações sobre cada um que lhes acessa às suas redes e com tais dados podem desenvolver estratégias de algoritmos que nos influenciam permanentemente.  

        Por fim, para quem puder, vamos cuidar para que as crianças da família não sofram com a Adultização, às vezes sem que nos demos conta.


        Por hora, é só. Marconi Urquiza.


(*) Imagem disponível em https://www.blogdotiaolucena.com/abra-o-olho/

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

Um conto, quase uma crônica. Uma mistura de ambos.

 



            Um conto, quase uma crônica, uma mistura de ambos.


MARCONI URQUIZA

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O DOM DO MISTÉRIO

Uma homenagem a Luiz Clério Duarte.

  

Estava na redação do jornal local, Notícia Regional. Fazia uma visita de cortesia. Sem aviso prévio do diretor do jornal, ele havia começado a publicar seus escritos. Crônicas, contos, comentários. Um dia, ao acaso, leu o jornal e ficou sensibilizado, disse que viajaria só para agradecer a gentileza. E levou um bom tempo.

O tempo passou, e Jasme José viajou, realizando uma visita a muitas pessoas. No segundo dia em que esteve na cidade, foi à redação do Notícia Regional. Precisava agradecer a gentileza, queria conversar, se sentia solitário. Estava contente por poder ouvir outras pessoas, diferentes do seu círculo de amizades.

Ao chegar ao escritório, viu apenas o diretor do jornal, Arno Ivanovich. Desde a primeira vez que fora apresentado ao repórter, ele ficara curioso para saber a razão de ter sido batizado com um nome estrangeiro, tão fora da tradição da região. Após cinco minutos de conversa, perguntou:

— Desculpa, você tem parentesco com russo?

— Não, é que meu pai, em certo momento, foi um simpatizante do comunismo e andou inventando isso. Você não sabe a maior: um dia, ele viu a marca Arno...

— Ventilador? Indagou Jasme.

— É, também. Meu nome foi dado assim, e Ivanovich foi derivado do próprio nome de papai, Ivan.

— Ah! Bom.

— Seu nome também é incomum.

— É verdade. Papai quis homenagear seu avô, que era apelidado de Jasme.

A conversa correu, Jasme viu um livro sobre a mesa, pegou-o e folheou. Sem muito interesse, devolveu-o ao local de origem. Arno acompanhou o movimento, então comentou:

— Este livro é mais fraco que os outros que ele escreveu.

— Como?

— É muito superficial, afirmou Arno.

— Hum! Folheei o artigo sobre um político, mas não me aprofundei. O pouco que li deu para perceber que tem um tom meio especulativo, comentou Jasme.

— Tem muitas falhas: falhas históricas, não cita as fontes e tem, até erros elementares na redação.

— Notei esse aspecto gramatical em um livro anterior, observou Jasme.

— Mas, para mim, o pior é ele se apropriar dos relatos, como se fossem dele. Com isso, Arno encerrou o assunto, quase, não fosse o comentário de Jasme:

— Ele tem até um parente que é catedrático na faculdade.

— É, ele poderia pedir uma indicação de um revisor, mas lhe falta humildade.

— Também acho.

O assunto esfriou, mas, em certo instante, o jornalista fez uma pergunta:

— Você sabia que Ténisson é doutor em Machado de Assis?

— Ele fez tese sobre Machado de Assis?

— Foi.

— Não sabia. Eu sabia que ele era um professor importante na área de literatura brasileira. Sei até que, com certa constância, aparece nos jornais e até é convidado para editar e organizar coletâneas de uma editora importante.

Arno silenciou por algum tempo, então falou, pensando no professor Ténisson:

— Machado de Assis...

— Leu algum livro dele? Indagou Jasme.

— Memórias Póstumas de Brás Cubas. Mas não pergunte nada. Faz muito tempo que li. E você leu?

— Li vários contos. Estava aqui tentando; não lembro ter lido nada na escola, nem de algum livro dele fazer parte daqueles obrigatórios nos vestibulares que fiz. Mas eu demorei a ler Machado de Assis e ocorreu o mesmo com Clarice Lispector. Buscava citações deles e, mais nada, respondeu Jasme.

— A internet está inundada de escritos sobre os dois. Digitou o nome e aparece uma lista de postagens quase interminável.

— Acredito que isso tenha atrasado minha leitura de um livro completo. Só fui ler dois neste ano, dois livros de contos de Clarice. Já os contos de Machado de Assis li há mais tempo, informou Jasme.

Chegou um rapaz, conversou rápido com Arno; depois chegou outro e sentou no sofá. Após o bom dia, se calou e ficou zapeando no celular. Depois chegou mais um homem, pegou cinquenta exemplares do jornal para distribuir em uma comunidade rural.

Jasme observava essa dinâmica; quando ela acalmou, ele perguntou por Aldo Mário:

— Faz tempo que não vem por aqui, respondeu Arno.

— Gostaria de conversar com ele sobre uma série de eventos políticos aqui da cidade.

— Ele não vem mais, se irritou porque discordei dele. Mas lá pelas três horas da tarde, você acha Aldo no seu escritório. Vá lá que ele vai contar o que sabe. É um historiador natural.

— Obrigado. Você sabe dizer se Ténisson está por aqui?

— Acho que não; ele andou visitando a mãe há uns quinze dias. Vem pouco. O melhor procurar por ele na Capital, na Universidade, informou Arno.

— É mesmo! É que, agorinha, eu estava pensando que todo mundo, sem exagero, fala de Bentinho e de Capitu. Principalmente dela. Traiu, não traiu e com isso vai alimentando a polêmica, sem conclusão, sobre o comportamento de Capitu. É um mistério sem fim.

— É verdade. Machado traz isso em Dom Casmurro, observou Arno.

— Sabe o que eu estava pensando? Jasme deu uma suspirada. Não se sentia seguro quanto ao comentário que faria, embora tivesse a sensação de que a sua percepção fosse mais uma faceta de Machado de Assis.

Arno nada disse; aguardou o comentário ser dito:

— Sabe, Arno, nos contos que li, eu notei um padrão: o primeiro aspecto é que ele não entrega nada antes do final. Se quisermos saber o desfecho tem que terminar a leitura. Do segundo aspecto... nada disse.

— Não entendi o segundo aspecto, quis saber Arno, uma vez que Jasme não conclui o seu raciocínio.

— Não estou bem certo. Você já leu algum conto dele?

— Poucos.

— Talvez, o professor Ténisson não concorde com o segundo aspecto. É que, se ele escrevesse nos dias de hoje, seria o melhor escritor de mistério. Aí começou a explicar o seu raciocínio, citando vários contos em que o escritor prende a atenção do leitor, ao mesmo tempo que o distrai com narrativas paralelas.

Quando Jasme terminou os seus comentários, Arno disse:

— Nunca pensei nisso e também não li ninguém teorizando sobre esse aspecto.

— Na verdade, não pesquisei a respeito. É que li tantos livros de literatura policial ou de algum gênero de escrita semelhante que cheguei à conclusão de que o grande Machado de Assis brincava de iludir o leitor e fazê-lo ler até o fim.

Arno se calou e depois disse:

— Quem sabe eu peça a Ténisson para escrever sobre esse dom do mistério em Machado de Assis.

Na calçada surgiram dois amigos de Arno, e ele convidou Jasme para se juntar a eles, dando por encerrada a conversa.

— Jasme, a turma das onze horas está chegando. Fique aí para conversar com eles e rever alguns amigos e, quem sabe, recordar algumas histórias.

Jasme mudou da cadeira para o sofá, olhando cada rosto que chegava, recordando dos tempos em que aqueles homens, quando mais jovens, apareciam no comércio do seu pai para uma prosa diária no final da tarde. Aí viajou para Machado de Assis e se indagou: quantos mistérios tem por aqui? E o mistério do Bulandim? E do carro de bois que nunca chegava?

Em algum dia de 2021, no meio da sufocante pandemia de Covid-19.


Abração, Marconi Urquiza

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

O Dom do mistério

 



         Nesta semana ouvi um recorte de uma entrevista de Marcelo Rubens Paiva em que citou o período da pandemia de Covid-19, ele falou sobre ter escrito durante e sobre a pandemia, especialmente sobre ela.

        Falar, escrever, conversar sobre esse sofrimento virou meio um tabu e também das dores a serem esquecidas. Eu estou nesta corrente que se lembrar da sofrência durante a Covid é angustiante. Então tenho evitado.

        Dois dias após ter ouvido o comentário de Marcelo Rubes Paiva, na última quarta-feira li um e-mail em que um membro da Academia de Artes e Letras da AABB Recife informava o envio de sua obra para a Antologia 2025. Isto me livrou de perder o prazo para enviar a minha contribuição. 

        Faz tempo que crio apenas o normal, não que queira algo excepcional, mas um pouco melhor que o normal. Foi então que recorri ao estoque de contos. Estava lá, só utilizei.

        Abri o arquivo com os 78 contos e no primeiro título que me chamou a atenção eu cliquei e li o rascunho. Ao contrário de alguns contos, esse carecia de revisão, ajuste na diagramação, ajustes nos diálogos, enfim, um ajuste geral para que se tornasse compreensível. Comecei a debulhar o texto como se fosse uma espiga de milho. Depois de uma hora terminei.

        Vou fazer uma confissão. Comecei a leitura, releitura, e fui lendo sem entender o que o escritor queria, EU. Mas prossegui, fui lendo e corrigindo, ajustando. Ainda na metade , o escritor (EU) continuava obscuro, aí apareceu no conto, Machado de Assis, aí, a mensagem foi ficando menos enbaçada e foi nesse ponto que a recordação veio plena.

        Com a vacinação dando esperança de sobreviver à Covid fui dando vazão a uma infinidade de ideias que se chocavam na cabeça. De julho a novembro de 2021 me pus a escrever, havia terminado o romance Decisão de Matar e desejava me manter sadio, a escrita foi o caminho para isso naqueles longos meses. Então fui misturando fatos e fui deixando a mente ditar de modo espontâneo a escrita. São mais de 60 contos com temas diversos, aleatórios.

        Foi quando escrevi um conto inspirado pela personagem Maria Moura, do romance Memorial de Maria Moura, de Rachel de Queiroz, no qual fiz uma narração fantasiosa e para mim, saborosa. Esse conto foi fenomenal, despertou em mim a vontade de criar contos nos quais trago algum escritor para o contexto. 

        Foi quando comecei a me lembrar de  alguns sentimentos das leituras de vários escritores e foram caindo as ideias sobre a caneta e o papel A4. Eles foram inicialmente manuscritos.

        Ariano Suassuna, Clarice Lispector, Jorge de Lima (do poema A Invenção de Orfeu), Jorge Amado, Machado de Assis, Gilberto Freire, Antonio Maria (cronista de 3.000 crônicas, compositor, etc), Manoel Bandeira e outros.

        No conto que trago Gilberto Freire criei um encontro hipotético com ele, muitos anos depois que timidez nos fez fugir do seu aniversário de 80 anos. Eu vi na TV Globo que ele estava fazendo 80 anos e teria na sua casa um evento. Então eu convidei para meu irmão Marcello para irmos, e fomos. Ninguém nos barrou e subimos a ladeira que levava à sua casa, já dentro de área dela no bairro Apipucos, Recife. Então empolgados, andamos e subimos a escada frontal, quando paramos à altura da porta de entrada, envidraçada, lá vinha ele caminhando pelo corredor para chegar à sua biblioteca, estava dando entrevista a uma TV. A timidez tomou conta e voltamos rapidamente. Fomos embora. Perdemos a chance de o conhecer pessoalmente.

        Muito tempo depois li vários livros dele e Ingleses no Brasil me deixou apaixonado por uma pequena frase: Não foi tanto, decerto! Mas foi quanto. Em abril de 2002 escrevi um poema com esta frase como título, em 2021, finalmente consegui apresenta-lo a Gilberto Freyre, ao fantasiar um encontro com ele, e que a ficção me permitiu finalmente vencer a timidez.

        Aí o mestre Machado chegou, me pegou e puxou para dentro das letras, provocando o conto que intitula essa crônica. 

        Então um sentido de urgência chegou, de repente lembrei que todos aqueles contos podem caber em um livro, dois livros, até três pequenas coletâneas e que o tempo encurta a cada dia.

        Finalizo com as últimas estrofes do poema: Não foi tanto, decerto! Mas foi quanto.

        Decerto! Foi quando

        o coração se abriu

        para querer e 

        o resultado é mais

        que uma soma

        percebida

        É mais uma conta 

        Sentida,


        Então pode se dizer

        que o amor não


        É tanto, decerto! É

        quanto.


        Bem por hora, é só.

        Abração, Marconi Urquiza.

quinta-feira, 24 de julho de 2025

A alma apareceu ao ouvir as músicas de Luiz Gonzaga.

 

(*)

        Ontem vi um vídeo curto com o depoimento do Dominguinhos e sobre o que ocorreu com ele no momento em que gravava A Triste Partida. No meio da gravação ele parou, ficou em silêncio e chorou. 
    
        Quando ele falou que esteve na gravação em que Luiz Gonzaga fez do poema, que estava no estúdio. Disse que com o disco pronto levou para seu pai, que de imediato colocou para tocar e quando começou a ouvir destampou a chorar e naquele instante, ao recordar, chorou de novo, emocionado, também chorei, também me emocionei, também senti-me como um retirante que sai do Nordeste e não consegue mais voltar.
        
        Era final de 2001, há meses a vontade voltar para Pernambuco vinha se insinuando. As dificuldades de crescimento na carreira me deixava com uma carga de frustração enorme, constante e contrariando o ótimo desempenho de pelo menos 5 anos. Desempenho ruim, guilhotina, desempenho superior, nada. Era aquela realidade na época do Paraná. Então eu havia começado a alimentar o espírito para escapar dessa frustração, ou fugir dela. A história me puniu assim mesmo.  A carreira estagnou do mesmo jeito.
        
        No final de 2001, houve uma reunião geral em Curitiba com os adminstradores do Banco do Brasil no Paraná. Três dias, ouvindo os líderes da empresa, aí chegou a hora de retornar, de pegar o vôo de volta para Maringá. 

        Esperando a hora de embarcar, saí passeando pelo Aeroporto Afonso Pena. Foi uma tentativa de evitar que o tédio tomasse conta da alma. Doido por leitura e livros dei de cara com uma banca de revistas. Na hora em que me aproximo cresceu aos meus olhos um CD de Luiz Gonzaga. Luiz Gonzaga ao vivo. Volta para curtir. De tantos discos dele, de vinil ou CD aquele era uma novidade absoluta para mim. Leio a contracapa, a história daquele CD e daquela gravação ao vivo. Um resgate de quase trinta anos de quando ocorreu o show ao vivo no Teatro Tereza Rachel, no Rio de Janeiro, em 1972. Estávamos em 2001.

        Quanto é? Paguei sem barganhar qualquer valor.
        
        No avião venho ao lado do gerente de Cidade Gaucha, com quem tinha afinidade e que infelizmente não recordo o seu nome. Ainda no voo comentei sobre a vontade de voltar a Pernambuco, cuja ausência completava 13 anos. Eu vivia um momento de melancolia. Aperto financeiro sem fim. A carreira estagnada, uma sensação que a minha origem atrapalhava minhas ambições profissionais. Era preciso tomar decisões.  Há muito que sentia que nossos filhos não tinham uma forte relação afetiva com os outros parentes e eu achava que eles deveriam ter.
        
        Ao chegar em Maringá, o amigo me oferece carona até Cianorte, a 70 km de distância.  No meio do caminho peço para ouvir o CD, ele permite e aí comecei a fungar, a falar da saudade, a me sentir, mesmo com um emprego ótimo, um salário que me permitia de vez em quando voltar e rever os parentes, a me sentir um retirante. Naquela hora de viagem ocorreu uma tsunami de sentimentos evidenciados pelas canções que ouvia, pelo sorriso misturado às lágrimas por estar ouvindo as prosas de Luiz Gonzaga. Foi uma sofrência inimaginável.
        
        Volto ao que disse Dominguinhos sobre o choro do pai, que saiu de Garanhuns para nunca mais voltar. Que quando o pai ouviu A Triste Partida chorou copiosamente, ele afirmou, aquilo foi a morte, a morte do pai, embora estivesse vivo. Até arrisco interpretar o sentimento de Dominguinhos, o pai entregava os pontos de nunca mais ver Garanhuns e os seus amigos. Estava derrotado. A música fez romper a barragem da saudade.
        
        Sabe, cada música que Luiz Gonzaga cantou no show, reproduzida no CD, tocou uma parte do meu coração. Cada canção me lembrava de uma parte da minha vida, da infância, da juventude, da vida adulta. Do assassinato de papai, dos encontros em nossa casa, especialmente na Semana Santa e no Natal. De ter me sentido expulso de Pernambuco quando o Banco do Brasil promoveu a drástica reorganização em 1995. De ter procurado o Superintendente do Banco do Brasil de Pernambuco e não ter nenhum efeito prático. De ter me sentindo muito feliz por ter sido nomeado e ido embora para o Paraná. De ter me sentido enormemente feliz quando reencontrei a família em Curitiba, após 4 meses de separação.

        A volta de lá doeu, e engraçado, é que fui recebido por vários colegas do Banco do Brasil como um invasor das vagas do estado. Um certo quê de discriminação. Mas isto o tempo ajudou a superar.
        
        Há cerca de 26 anos estávamos em Bom Conselho para batizar Philip, em certo instante me afastei e fui para a calçada frontal da Igreja Matriz, me escorei na mureta e comecei a olhar para as duas praças adjacentes. A grande, praça Pedro II e a menor, Praça João Pessoa, que preserva o nome, mas virou mera rua.
        
        Fiquei vários minutos olhando tudo ao redor, quase nada era igual ao tempo de adolescente. Corri os olhos para dentro tentando achar aquele rapaz, magro, andando desengoçado, atravessando a praça na longitudinal indo ou vindo de sua da casa. Não achei o rapaz e nem o menino, o adulto que olhava todas as edificações queria achar um sentido especial naquela miragem, mas não achou, o passeio apenas reconheceu as praças que vira outras vezes. Nem saudade, nem alegria pelo retorno momentâneo. A sua alma estava neutra. Na praça não estava sua alma, a alma apareceu ao ouvir as músicas de Luiz Gonzaga naquele CD.
        
        Felizmente pudemos voltar e vivemos vários anos de um congraçamento familiar saboroso. Encontros natalinos em Bom Conselho lindos e alegres. Não temos mais, mas que valeu muito, valeu. Esses encontros valeram a pena ter voltado do Paraná.
        
        Bem, chegou a hora de ouvirmos Dominguinhos, razão desta crônica.
                

Clique no vídeo.


                Por hora é só, abração!


                Marconi Urquiza.


(*)
Imagem retirada deste site: 
https://novabrasilfm.com.br/app/uploads/2023/02/dominguinhos-foto-daryan-dornelles.jpg


sexta-feira, 18 de julho de 2025

Lua Bonita

        É uma mistura de conto com as minhas lembranças 
das mocinhas que andavam aos bandos 
na nossa rua lá em Bom Conselho, 
ao mesmo tempo tão próximas e tão inacessíveis.

        
        Um mês atrás, o algoritmo do YouTube "advinhou" minha alma e como advinhou, me fez escutar Belchior cantando a canção  Lua bonita com Dominguinhos acompanhando. De imediato, me encantou; de imediato, minha mente vive (veve) a cantá-la.


        Como essa canção ficou escondida para mim tanto tempo? Comecei a me indagar, a me cutucar e, naquela mania — mania de interpretar e mania de inventar fiquei tentado a achar uma história.


        Primeiro, Lua Bonita era aquela moça descia a rua Conselheiro João Alfredo com a saia rodada, com seu perfume de fulô amarela a embeleza a vida. A moça que eu e meus amigos não podíamos nem chegar perto, tudo que se tinha era a fantasia de ter um cheiro distante e a fuganda no pescoço, que nós fazíamos como se fosse nela, mas que nada, Lua passava serena, no alto de sua paixão pelo outro e não por nós.


        A gente olhava para os outros rapazolas, "mas o que esse cara tem" para Lua ser tão apaixonada, todos ali pensavam, e lá vinha ela balançando seu perfume. A lindeza dela era de doer. Do homem dela, mal se via a ponta dos dentes, "que cara fechada" e o cara se divertia com aquele magote de rapazolas apaixonados por sua Lua. Pelas costas, o sorriso dele era aberto, a sua máscara era de ser sisudo. Mas ele se derretia de paixão.


        De repente, descobre-se que Jorge, com quem jogávamos bola, é o amor de Lua; e manda nela com a força de uma apaixonada. "Lua tá cega, que tu vê nele?" Mas Lua só escuta os corações dos rapazolas zabubarem descompassados e olhava para cima ignorando um monte de rapazes que estavam emplumando-se, querendo que aquela beldade dissesse: Oiiii, Antonio; Oiii, Marcos; Oiii, Tito; Oiii,  Benedito!. Nada, nada, nada de nos embelezar também com a sua voz, mas ela não podia nos impedir de vê-la, de ver Lua Bonita e brilhosa.


        Aí um dia, Carlos, que morava em outra rua, chegou arrojado, com aquele carro enorme do pai. Quando a viu descer a rua, rodando a saia do vestido, se pôs de pé, armou o melhor sorriso, ajeitou a roupa nova, balançou o cabelo para o seu perfume se espalhar. Naquele dia, Lua estava com o vestido florido, Carlos não teve dúvida, encostou nela e disse: Quero namorar com você; Como? Me respeite, eu sou uma mulher casada. E Lua desceu a rua, enfeitando a vida dos nossos olhos.

        Então um dos rapazolas, afeito à poesia, cantorolou, de início baixinho, a canção que seu avô adorava cantar, e  logo depois a estrofe saiu forte e sentida, e foi  assim:

Lua bonita

se tu não casada

eu preparava uma escada

Para ir no céu te beijar...

        


    Clique no vídeo e escute a canção na voz de Zé do Norte

Lua bonita

Se tu não fosse casada
Eu preparava uma escada
Pra ir no céu te beijar

Se colasse teu frio
Com meu calor
Pedia a Nosso Senhor
Para contigo casar


Lua bonita
Me faz aborrecimento
Ver São Jorge num jumento
Pisando teu quilarão

Pra que casas-te
Com homem tão sisudo
Que come dorme e faz tudo
Dentro do teu coração


Lua bonita
Meu São Jorge é teu senhor
É por isso que ele vive
Pisando teu esplendor


Lua bonita
Se tu quer o meu conselho
Vai ouvir eu tô alheio
Quem te fala é o meu amor

Deixa São Jorge
No seu jubaio a montado
E vem cá para o meu lado
Pra gente viver sem dor



sexta-feira, 11 de julho de 2025

UX

 


            Isto eu ouvi em uma entrevista de João Campos no poadcast Reconversa no You Tube. Se não fora meu interesse na satisfação do cliente no pós-venda, este aspecto da entrevista não seria lembrado. Ele repetiu várias vezes a sigla UEX, deduzo que seja algo assim: Unidade da Experiência do Cliente. De certo modo deduzi o que isto representa. Dei uma filada na internet e achei: experiência de excelência e de uma cultura centrada no cliente.  

           Em primeiro momento, UX foi por mim entendido como UEX. Este UX é a experiência do usuário, do cliente. Tratando cidadão como cliente ele transformou a entrega dos serviços públicos para o recifense, mas, mais que isto, que o que objetivamente os cidadães querem, colocou as pessoas na alça de mira do respeito.
        
        Esta é uma cultura que mudou a forma como as pessoas são tratadas, quando via de regra, no gestor público, o pensamento é que são meros eleitores. Meros eleitores.

        A partir do momento que assisti essa entrevista a minha atenção para as pesquisas de satisfação cresceu, até comecei a respondê-las mais. Do mesmo modo, muitas empresas ampliaram tais pesquisas. Os cookies (aqueles programas que registram as nossas consultas na internet), começaram a direcionar para mim muitas pesquisas.
    
        Algumas delas são puras pesquisas da minha experiência de atendimento, algumas se disfarçam de serem tais, mas são pesquisas para nos conhecerem mais, com maior profundidade psicólogica.

        Na última semana, o Instagram usou a lábia para me fazer responder uma pesquisa, em tese de minha experiência nele. Comecei, quando estava por volta da 10 questão, parei.  O Instagram havia modificado radicalmente as perguntas iniciais, nessa guinada, entraram perguntas que têm haver com o STF na sua trativa para por nas regras nas redes sociais, por um limite e responsabilidade. havia perguntas que queria saber o meu pensamento político, se eu pensava pela direita ou pela esquerda, se eu era a favor ou contra, ou se minha opinião era indeferente à pergunta. 
    
        Uma das mais famosas experiências do usuário, são as pesquisas que o Uber faz após as corridas. As estrelinhas que o usuário opina como foi o motorista. O Sebrae, por exemplo, basta consultar o seu site, no dia seguinte recebemos uma pesquisa.

        A Drogasil na hora do atendimento, no caixa, já tem as carinhas para que o cliente opine. 

        Então isto virou um padrão nas empresas organizadas. O que me preocupa é o que fazem com as opiniões contrárias. Via de regra as avaliações tem uso punitivo para o funcionário e em menor grau, como um feedback para a empresa melhorar a experiência real do cliente.

        Você já se deu conta dessa realidade?

        Você tem a sua UX para com as pessoas com as quais se relaciona?

        É um conceito do mundo digital que tem entrado na vida das pessoas, na sua interação além da digital.

        De todo modo, vamos voltar ao que João Campos mencionou, a UX - Experiência do Cliente, na sua gestão na prefeitura do Recife. Em certo momento da entrevista ele citou que através do aplicativo Conecta Recife o cidadão (cliente) recebe informações de direitos que nem ele sabia que tinha, como exemplo, disse que sobre os créditos de notas de serviço que abatem o valor do IPTU. Basta pedir que seu CPF conste das notas fiscais de serviço. Após vincular o número do imóvel no site da prefeitura, anualmente, sem ter que pedir, o abatimento ao IPTU ocorrerá.
        
        Eu mesmo tive a experiência de agendar várias vezes a tomada da vacina da Covid-19 e bem recente, "chuleando aplicativo" para pagar o IPTU dei de cara com a facilidade de imprimir a autorização para estacionar nas vagas especiais (de idosos). Dei três cliques, e o documento estava impresso. Com algumas pernadas, plastificado e colocado no carro.

        Não foi no Reconversa, creio ter sido no ano passado no programa Roda Vida, da TV Cultura, quando perguntado sobre a sua presença forte nas redes sociais, ele disse que não joga o jogo da balbúrdia, da negatividade e da banalidade, da lacração. Em vários momentos disse que a suas presença é para mostrar as ações concretas, dos benefícios que leva aos cidadãos (clientes). Inclui clientes hoje. Na verdade, ele procura trazer sempre mensagens de ações que beneficiam o dia a dia das pessoas que menos podem comprar tais benefícios.

        Voltando para o ponto inicial, cuja sigla é UX, que eu havia interpretado como UEX, veja o que retirei o site:
https://www.liferay.com/pt/resources/l/user-experience:

             Experiência do usuário é sobre pessoas, e não sobre design...

              

             Experiência do usuário descreve o que as pessoas experimentam quando navegam por um site, utilizando um aplicativo móvel ou interagindo de alguma outra maneira com produtos ou serviços digitais da empresa.

        Foi isto que João Campos falou, dessa interação, de saber como as pessoas se sentem quanto as ações da Prefeitura de Recife. Em ter a sensibilidade de captar tais sentimentos rapidamente, e tal atitude se esparramar para todos que o auxiliam na gestão, para os executores em todos os níveis.

        Ele me pôs a pensar quanto ao serviço que prestamos na limpeza de sofá, d seja perante aos clientes, seja perante os funcionários que é que têm o contato na execução dos serviços nas casas das pessoas, seja de transformar, no frio do contato de Whatsapp em algo menos mecânico, e até caloroso.

        Bem, a experiência do cliente é sobre pessoas. Isto precisa estar na mente quando a gente conversa no cotidiano. A vida se transforma.


        Por hora, é o que tenho. Uma pequena pincelada em um mundão de assuntos e temas que carecem de atenção.

        Abração, Marconi Urquiza.


Fonte da imagem:
DLK Infotelecon

        

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