Em certo momento eu me convidei e não fui, em outro momento fui convidado e não compareci, agora fui convidado de novo e fui.
E fui, fui nesta quarta-feira acompanhar o treino do time de futebol minicampo 65+ da AABB Recife. Fiquei observando o time jogar, a movimentação, o posicionamento, as falas e os "técnicos" em campo. No bom e no mal sentido. Do humilde ao que se acha.
Observei sentado, depois de um tempo senti que deveria anotar, se não, esqueceria. Me pus a anotar alguns pontos.
Queria trazer um contexto, o meu negócio sempre foi jogar futebol, tive a experiência de um dia como árbitro, deixei. Não iria me diverti. Nunca cogitei ser técnico, embora em algum momento dos últimos 23 anos fiz estudos para entender melhor o futebol e poder fazer comentários de jogos para Rádio Integração FM.
O início como comentarista diletante foi penoso, eu não enxergava nada, nada do jogo, do seu desenvolvimento, do posicionamento, da percepçao, do fôlego, do humor dos jogadores. Eu era, como milhões de pessoas, uma pessoa que gostava de ver um bom jogo de futebol.
Sendo um típico torcedor, comecei a querer olhar o jogo com aquele visão de quem ver a partida com a percepção mais técnica. Quando mais melhorava nisso mais difícil ficava ver um jogo do meu time preferido - o Sport Recife. Houve momentos em que percebi que o time estava desencaixado - na gíria dos iniciados no futebol. No popular, quando percebia que o time estava desarrumado, mudava de canal. A sensação que iria ser derrotado me incomodava.
Passada essa fase, deixei de comentar na rádio e perdi um pouco o olhar técnico. É muito melhor ver o futebol como espetáculo, show, apreciar a arte, a técnica, a inteligência e as jogadas dos atletas. Mas um olhar treinado não nos abandona, mesmo sem julgar o que vê, a gente que adquire alguma expertise continua a ver detalhes em partida de futebol.
Feita essa contextualização, vamos para o treino do 65+. Em certo momento, na segunda parte do treino uma jogada de ataque se desenvolvia e se desenvolveu muito bem, até que um dos jogadores se irritou e deu às costas para a jogada justamente quando o passe foi dado para ele. Deu às costas e saiu reclamando. Um dos atletas se voltou para mim e disse: "Expulsa ele". Na hora que ocorreu, deu a mesma vontade, me contive. Naquele treino era só para observação. Juntarei mais observações no futuro se sentir que poderei contribuir e tambem se houver clima para tal, aí mudarei de observador para auxiliar técnico.
Alguns pontos para reflexão, principalmente para mim. Liderança e poder formal. No sentido que liderança é o poder concedido por uma equipe, é fundamental ter em vista da característica do time. E o poder formal é naquele sentido que a organização concede o poder para o técnico agir.
Liderança depende de mim, de algumas condições, habilidade e proximidade. Poder, se houver, me será concedido. Terei. Se terei, haverá ambiente institucional para usar? Haverá igualmente suporte da direção do clube? Prefiro desde sempre agir com o poder da liderança, é sempre mais fácil e mais leve.
Passado este ponto da liderança mais poder, temos o aspecto mais técnico e disciplinar (poder). Já conheço os jogadores há muito tempo, alguns são mais técnicos no sentido tático, outros mais habilidosos com a bola, outros pelo fôlego. O futebol tem no seu dinamismo a sua grande magia. Se de repente, um jogador faz uma jogada espetacular, é preciso levar em conta que há outros jogadores em campo que podem ter dado condições para tal.
Os deslocamentos em campo são naturais no futebol. Em certo momento, um jogador pode estar na esquerda, ou no centro, ou mais à direita na mesma jogada e isto é fácil no minicampo. A questão é como o time está organizado para suprir esses deslocamentos, como os outros jogadores fazem para evitar que tal deslocamento abra a possibilidade do adversário ganhar o jogo.
Este é um preâmbulo para algumas observações que anotei no treino da última quarta. Vou escrever conforme a minha lembrança for alimentando este texto.
— Não treinamos, jogamos mais uma pelada. No sentido que treino é um ensaio para um jogo, um campeonato, um torneio. Em uma competição temos dois tempos. Na última quarta os jogadores se desgastaram prematuramente correndo demais.
— Segundo ponto. Nenhuma conversa como se irá jogar, o que se fará nas jogadas paradas, como se dará cobertura, como será a transição para o ataque e para a defesa. Pouco diálogo prévio e muito menos quando a bola estava em jogo. Não é esquema tático, isso é necessário, talvez seja sofisticado para nós. Mas precisamos sim, dessa conversa para que o jogo seja coletivo.
— Terceiro ponto, a maioria está com pouco fôlego. Isto requer melhorar bem.
— Posições no time. Cada posição tem movimentos básicos a serem respeitados. Por exemplo: um defensor vai ao ataque e deve ir, mas perdeu a bola, ou a bola foi para o adversário, o reposicionamento é necessário e imediato para não sobrecarregar outros jogadores e evitar tomar o gol ou uma derrota. Isto vale para ataque, meio de campo, goleiro. Ver o jogo jogando é muito difícil, requer treino, acuidade e um esforço deliberado, mas é possível.
— Em muitos momentos fomos para o ataque, mas o passe era ruim. Em outros momentos, era só correria, uma condução de bola na vertical sem pensar em passes laterais e também de chutes de meia distância. Temos um jogador alto e que cabeceia bem, nenhuma bola foi lançadapara Luciano tentar o cabeceio.
— Se treino é para ensaiar algumas jogadas, criar conjunto, saber como a equipe deve desenvolver o jogo, a gente precisar aceitar criar algumas jogadas artificialmente para realizar estes ensaios. Em alguns momentos, no passado, isto foi tentado, mas a reclamação venceu a boa intenção.
— Somos todos amadores, isto é um fato. Somos todos voluntários, outro fato. Estamos ali por que amamos jogar futebol. Tens uns melhores, outros nem tanto, mas uma equipe se forma por um conjunto de competências. Quer ver, um ótimo atacante com frequência é um péssimo marcador. Um defendor fabuloso muitas vezes não tem reflexos para agir com a rapidez de um atacante. Para um time virar uma equipe há que se ter respeito pelo próximo.
"Experimentemos orientar, em vez de gritar!:
Então vamos nos divertir, vamos pensar coletivamente, pois estou com o objetivo de trazer a medalha de ouro de Belo Horizonte. Estívemos perto duas vezes.
Para finalizar, a gente não sabe como os outros times jogam, mas devemos saber como nós jogamos e os treinos são para isso.
Por hora, é só.
Abração, Marconi Urquiza

