Um irmão ligou para uma das irmãs e disse: "Olha, isso aqui tá uma bagunça!" Dias depois essa irmã foi naquele local e constatou a desordem. Estavam amontoados: roupas, medicamentos, móveis, objetos pessoais, fotografias, postais, tudo. Restos de lembranças, restos de afeto, Pinceladas de amor.
Uma das irmãs voltou com os restos de uma fotografia em forma de painel, a outra levou pequenos objetos da mãe. Um baú era para o irmão mais velho, lembranças do pai. Pinceladas de saudade.
Algum dia, 48 anos antes, cinco, dos sete irmãos entraram. De adolescentes a crianças, entraram naquela casa. Nos anos seguintes, outros dois se juntaram: irmão e irmã.
A casa. Gradeada, garagem, varanda, salas, a mesa onde todos faziam as refeições. As namoradas, os namorados foram chegando, netas e netos preenchendo o afeto, gritando e brincando, enchiam de sons a casa.
As pinceladas de amor cresceram.
A casa foi modificada, mais bonita, mais aberta. A mesma casa, uma casa diferente. Dos primeiros moradores, restaram três. Dois se foram, a casa ficou do tamanho do mundo. Gigante, vazia, sem alegria, sem gente a lhe dar voz, cheiro, presença. O amor agora chora. As lembranças eram de uma saudade irremediável.
Juntou-se tudo, de qualquer modo e levaram dali. O choque daquilo tudo junto, colocados sem os cuidados. Sem os sentimentos entranhados na alma. Olhar triste que exprimia o afeto incompleto. Quem os levou, quem os arrumou de qualquer jeito não captou, não poderia captar quanto de amor todos aqueles objetos, inanimados, tinha de vida.
Alguns buscando pedaços que lhe trouxessem afago para o peito. Pedaços de objetos, das lembranças que enchessem os corações.
Vida morta, vida posta, vida que segue. "Olha, isso aqui tá uma bagunça". Era o coração chorando, com as lágrimas escondidas sob uma constatação. Eram as Pinceladas de amor teimando para não serem caiadas (*).
Pinceladas de saudade,
pinceladas de Amor.
Lembranças que se entranham,
lembranças que se ama.
Pincelados de amor,
Pinceladas de Saudade.
Semana Iluminada.
Marconi Urquiza
(*)
Caiadas. Caiar: pintar, encobrir com tinta derivada da Cal Virgem.
Pinceladas de uma família
Fotografias de agosto de 2009.
Da esquerda para a direita.
Filhos:
1ª fila: Washington, Aparecida, Michele, Nivaldo,
2ª fila: Sueli, Maria Luíza, Pedro.
Sentados: José (Seu Zé Barros) e Dona Judite.
Fotógrafo: Creio, ter sido eu mesmo.
Da esquerda para a direita.
Netos:
1ª fila: Philip Urquiza, Raphael Urquiza, Igor Gonçalves Costa, Victor Urquiza.
2ª fila: Bhianca Lins, Fernando Ferro, Tanagra Ferro, Victor Ferro.
3ª fila: Maria Clara Rabelo, Paloma Gonçalves Costa, Ana Luíza Rabelo, Raina Gonçalves Costa
4ª fila: Thiago Lins, José de Araújo Costa (Zé Barros), Raissa Azevedo Costa, Dona Judite Leonília de Azevedo.
Atrás da câmera: Eu.



Quando os encontros são pincelados com o branco da paz, o verde da esperança toma lugar e o cinza da saudade se afasta. Parece a vegetação da caatinga nas primeiras chuvas. Valeu.
ResponderExcluirObrigado. Sensibilidade de poeta. Dez.
ExcluirQue crônica linda!
ResponderExcluirMarconi, você é um poeta.
A família de Zé Barros é alegria e muitas boas lembranças.
Um abraço fraterno para você e sua família.
Obrigado, Celina. Abração.
ExcluirArretado pai, texto traz boas lembranças e muita saudade.
ResponderExcluirObrigado, Rapha.
ExcluirQue arretado amigão este resgate maravilhoso destas belas lembranças.
ResponderExcluirFoi, amigo. Quando Cida disse que Pedrinho tinha falado a frase que "estava uma bagunça", eu penso que entrei no sentimento dele. Tão apegado ao seu Zé Barros e a dona Judite. 39 anos que mora em Natal, nunca deixou de ir em Bom Conselho. Nunca largou a casa onde viveu. Menos agora, ela foi alugada.
ExcluirFamília querida, belos registros!
ResponderExcluirOBRIGADO
Excluir