sexta-feira, 7 de maio de 2021

Conversa com Ivan


Fotografia copiada do Facebook



               A saudade quanto vem
     abraça.
     Às vezes maltrata,
     outras, 
     afaga.


Imagine. 

Imagine que você vê uma fotografia antiga de uma pessoa que conviveu na sua infância. Aí a fotografia sai de dois grupos do Whatsapp e se esbarra com ela no Facebook. Um fragmento de um sentimento que ficou rondando a sua lembrança há muito tempo aparece de novo. Uma sensação crescendo e então aquilo de muito anos atrás encheu o coração, voltou para ser compartilhado.

Inicialmente lembrei-me de um encontro, uma conversa e aos poucos uma história foi se formando

Ocorreu em dois momentos distintos. Na infância, em Bom Conselho, havia três farmácias. A de papai, a de Ivan Crespo e a de Nelo. Farmácia Confiança, Drogaria Crespo e Farmácia Mons. Alfredo Dâmaso - penso que era esse o nome. Tenho dúvida.

Nessa época o movimento de carros na Praça Pedro II era pequeno. A farmácia de papai ficava na Praça João Pessoa, uma extensão da grande praça Pedro II.

Várias vezes papai me mandou ir até Ivan comprar algum medicamento que faltava para despachar uma receita médica. Nesse tempo eu ainda usava calça curta. O que acho interessante, diferente dos dias atuais, é que não se andava tanto pela calçada, era mais pelo meio da rua.

A caminhada desde a farmácia de papai até a de Ivan era de cerca de 150 metros, feito na diagonal, subindo a rua. Acho que as primeiras vezes que cumpri essa missão eu devia ter uns 10 anos. Hoje tenho 61anos, lá se vão mais de 50 anos.

Assim que eu saia do balcão da nossa farmácia, antes de pisar na calçada, o dinheiro já estava todo dobrado e preso na mão esquerda. Tão fechada que ficava dolorida.

De punho fechado caminhava o mais rápido que podia, algumas vezes chegava ofegante, mas não era por cansaço, era do medo e pela ansiedade de cumprir aquele trabalho.

Sabe, uma coisa me veio agora. Ao escrever essas lembranças surgiu cristalina a recordação de como Ivan me tratava. Ele nunca me chamou pelo nome. Me recebia sempre com um sorriso, com simpatia e achava engraçado o meu cuidado com o dinheiro todo amassado que passava para ele. Nunca falou Marconi, só Marne Novo.

       Depois dessa fase pouco o vi. Muitos anos depois eu fui visita-lo, em meados dos anos 1990, ele estava montando uma fábrica de doces. Conversamos um pouco. Contou parte dos seus planos. 

Após esse encontro, o tempo correu, nos anos seguintes o vi umas poucas vezes e de longe. Até que certo dia mudei a minha atitude. Nessa época pesquisava para um livro que pretendia escrever, um romance com a história sobre a morte de papai.

Havia conversado com alguns amigos de meu pai e não prossegui com esse intento, pois havia muita emoção represada ao tratar do assunto. Aqueles homens pareciam querer se desmanchar em lágrimas ao iniciar a conversa sobre a sua morte. Parei, também não suportei.

Acreditando que falar com os adversários políticos da época poderia ser o caminho para a obtenção de luz para algumas dúvidas, comecei a pensar em algumas pessoas. Depois de muitas dúvidas, indecisões e adiamentos repetidos, criei coragem e fui falar com Ivan. Ele devia estar com 70 anos e eu atravessava os 48.

Cheguei um dia à tarde, quase final de expediente. Ele estava sentado na mesa onde ficava o caixa, no meio da farmácia. Me aproximei e me cumprimentou como sempre, com o Marne Novo. Pedi licença e sentei-me na cadeira que me ofereceu. Me fez algumas perguntas, quis saber quantos filhos tinha, idade, essas coisas. Falei que tinha vivido distante, mas agora trabalhava em Pernambuco. Emendei e falei das minhas lembranças de criança quando ia lá comprar os remédios, ele riu ao dizer que eu tinha um medo danado de perder o dinheiro. Também ri.

A cada minuto da nossa conversa sentia que ele ia se emocionando, acho que se surpreendeu com minha visita.  Depois de alguns minutos disse-lhe o que mais desejava. Comentei do meu projeto, da minha dificuldade em obter comentários e perguntei se poderia me dizer alguma coisa daquela confusão enorme da eleição de 1982.

Ele me expôs detalhes que eu nunca havia tomado conhecimento. Da provocação inicial na Praça Pedro II em outubro daquele ano, da armadilha não percebida por papai naqueles episódios, desde o mês de agosto. Foram informações importantes para compreender a escalada da violência que tomou conta daquela disputa.

Nessa altura eu senti que Ivan estava muito emocionado e eu tentava me comportar como um repórter investigativo, mas não consegui, inventei uma desculpa que teria de pegar os filhos na casa do sogro e saí o mais rápido que pude, segurando as lágrimas.

Peguei o carro e fui na direção contrária ao destino que usei como desculpa. Após um passeio curto voltei pela Praça Pedro II e passei pela frente do seu comércio. Agora Ivan estava sentado em um banco de praça, no canteiro central do largo da praça. Ele estava com o olhar distante, não sei se sentia só, não parecia triste, como das outras vezes que o havia visto naquele mesmo local.

Bem, eis um pequeno fragmento de duas vidas. 


Ótimo final de semana.

Marconi Urquiza

 

Fonte da imagem:http://tiagopadilhaoblog.blogspot.com/

4 comentários:

  1. Em nossas buscas para entendermos algo que ocorreu no passado, muitas vezes, as descobertas nos sugerem deixar como está. Doe menos. Um abraço.

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  2. É meu caro Marconi, as fotografias retratam alguns momentos da nossa vida, e as lembranças fazem parte da nossa vida.
    Abraço.

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  3. Intenso! Texto de quem valoriza o sentimento e o sentir. Escrever assim não é pra muitos! Parabéns, Amigo!

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