sexta-feira, 21 de maio de 2021

Mulheres adultas têm pelos

 


Não é um título original, peguei emprestado de Marcela Guimarães. 

Há algum tempo, antes deste maio, havia lido alguma coisa a respeito do tema. Não sei dizer o que li com clareza, só recordo o contexto e o assunto.

O texto de Marcela é que me deu o título da crônica. O artigo está na revista Continente, de setembro do ano passado. A matéria fala de um projeto de uma zine, um tipo de  revista eletrônica, criada pela autora, que é fotógrafa.

Por causa da pandemia, chegaram ao mesmo tempo as revistas represadas durante vários meses. Essa, abri a cerca de um mês, sabe, li com aquela agonia dos tempos atuais, passando por cima das frases, olhando basicamente as imagens e suas legendas. Uma típica leitura da internet, três linhas, já se pula para outra postagem.

Mesmo assim, o assunto não foi para a porta de saída, sentou-se na sala como um visitante insistente. Muitos dias após a primeira e apressada leitura essa visita se levantou e disse:

- Olha, veja de novo. Está muito interessante - peguei, folheie e pus a revista no meio das outras. O visitante permaneceu invisível até dois dias atrás, foi quando reabri a revista e lá veio ele de novo:

- Pode ler, vai gostar - então li, lendo.

O texto perpassa aspectos culturais, sociais, femininos, masculinos, argumentos sobre saúde e higiene. Sem deixar de citar que é também um negócio.

Ao ter atenção para a matéria fiz uma viagem na minha própria estranheza de menino adolescente, quando em certo momento dos meus 13 anos vi os primeiros pelos pubianos nascendo, da vergonha de ser visto minha mãe ao tomar banho com meus irmãos e ela me olhar nesse novo corpo.

Andando na rua, na adolescência dos anos 1970, achava estranho que muitas meninas tivessem vastos pelos nos braços e nas pernas. Algum tempo depois observava nessas pernas as marcas da raspagem à Gilette[1]. Até percebia em várias outras, que os pelos dos braços estavam descoloridos com o uso de água oxigenada volume 20.

Lembro de um arquétipo da minha adolescência entre os rapazes da minha terra, que era o uso do bigode. Quanto mais vasto, mais apreciado. Havia também o uso da barba. Eu não tinha nenhuma dois em abundância. Na barba desciam uns pelos espaçados pelos lados do rosto, que a muito custo se pareciam com costeletas. Para bigode, coitado, era uma risca de giz de preto. Uma coisa mínima. Ainda assim, insisti em usar.

Voltando ao texto de Marcela, me situo na parte em que a autora observa como as mães levam as filhas ao ginecologista, como as orienta a se depilarem, em alguns casos, até antes dos 15 anos.

Uma questão cultural se formou. Mais à frente, a matéria remete a outros aspectos: influência de namorados, maridos, amantes, da sociologia do trabalho, entre outros. Impondo, mesmo para quem não queria tanto, um padrão sem pelos para as mulheres a ponto de provocar dificuldade de se realizar o exame toxicológico para as motoristas profissionais, pela ausência de pelos a serem coletados.

Marcela incorporou várias fotografias na matéria, a maioria de axilas. Também nessa altura da leitura recordei de um certo estranhamento de minha parte. Vejam. Os homens não usam camisetas com frequência, as mulheres usam muitas blusas sem mangas, de alças. Ao se ver em público pelos nas axilas, isto entrou naquele estado mental de olhar diferente por causa da cultura da depilação feminina, também assimilada pelos homens. É como uma afronta aos cânones visuais do nosso tempo.

Muitas vezes apenas expressar um ponto de vista pode nos tornar vítimas de impropérios, de perseguições, do ódio insano que se vê a todo instante. Mesmo em algo tão pessoal, como optar por ter ou não pelos expostos, pode parecer “uma grave infração penal”. O que tende a tornar mais conveniente ou seguro se esconder ou seguir a ordem das massas. O danado é que às vezes isso se torna inevitável.

Muito se fala das tribos, do modo exponencial que cresceram no ambiente da internet. Tornou-se mais fácil se juntar as pessoas com as mesmas predileções e radicalizar contra quem pensa e age diferente.

Como tantas outras crenças limitantes que recebemos pela vida, ser o que se deseja, ou usar o que se quer, gera impacto na nossa vontade. Fazer cara de paisagem não é uma tarefa fácil, mas pode ser a alternativa de se ser o que se deseja.



[1] Gilette – Marca da lâmina de barbear.


Ótimo final de semana

Marconi Urquiza

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Perfil no Instagram (mais visual)

https://www.instagram.com/mulheresadultastempelos/

Link da revista eletrônica(visual e com depoimentos):

Revista: Mulheres adultas têm pelos

Link da matéria na revista Continente (artigo completo): 

Mulheres adultas têm pelo

2 comentários:

  1. Esta é mais uma regra imposta pela estética e pelo "politicamente correto".

    Conta o folclore da poesia popular que num debate de improviso um dos cantadores implicava com o parceiro por ele ser careca.

    Eis a pérola criada pelo descabelado:

    "Nessa história de cabelo
    Eu não dou muito cavaco.
    Cabelo nasce no ouvido,
    No nariz e no sovaco
    Cabelo é como capim
    Cresce em qualquer buraco"

    Valeu. Caro amigo

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