Estava devendo uma gratidão e nunca manifestei. Eita, Tia Lídia, muito obrigado por ter me recebido e a meus irmãos em sua casa, muito obrigado por ter cuidado da gente.
Sabe, Tia Lídia está viva e fez 100 anos no final de março. Em 30 de março fomos à sua festa de centenário em Saloá. Saímos de Recife na véspera e ainda chegamos atrasados na missa. Na pequena igreja católica estavam basicamente os parentes. Filho, sobrinhos, genros, netos, netas, bisnetos e bisnetas, concunhada, como minha mãe. Muita gente que não lembrava, muita gente que não conhecia, os mais jovens.
Em pouco tempo que estávamos na igreja a curta missa foi encerrada. A sessão de fotos nela tomou tanto tempo quanto a missa. Mas como era importante ter tantas fotos junto a uma pessoa tão querida.
Tia Lídia ver pouco e de perto. Escuta bem. Na saída da igreja ela conversou comigo animada.
Coisa de 10 minutos, Cida e a sua filha Lela vieram com ela ao nosso carro e a levamos ao local da recepção. Um salão grande, repleto de familiares. Pelo canto do ouvido escutei uma pessoa dizer: Tia Lídia é paciente, escuta tudo e sem enxergar quase nada não se irrita. Mas, mas ela era a estrela da festa e todo mundo queria ter mais uma foto com ela. Nós também. Esse nós são meus irmãos, as esposas e mamãe.
Observando aquela movimentação e vendo Tia Lídia sentada com a sua bela roupa azul e branco, com o cabelo branco, todo branco, sem tintura, combinando e contrastando com o azul celeste de sua roupa eu fui viajando na lembrança, na lembrança daquele menino magrelo que saia de Bom Conselho e ia passar as férias escolares na casa dela e de tio Serafim.
Naqueles instantes veio com uma clareza absoluta, como um vídeo, eu acordando, indo ao banheiro e ao sair ouvir a voz dela dizer: Marconi senta na mesa, já levo o leite quente. Leite tirado naquela manhã pelo primo Jaime, que madrugava para alimentar as vacas e para tirar o primeiro leite para levar à casa dos seus pais.
Sobre a mesa estava o cuscuz novinho, o queijo de coalho assado, o pão na chapa, a garrafa de café forte e lá vinha o leite fumaçando e ela colocava sobre o cuscuz que eu já havia me servido. Era um tratamento especial. Tão dela, tão especial, mas para todos que chegam à sua casa. Nada de exclusivismo.
Naquele milagre que a memória faz e lembrei-me de algumas vezes que tio Serafim pediu a Jaime que fosse na mercearia do Valderez comprar uma goiabada, a goiabada Peixe, que ele comia muito e com gosto. Uma dessas vezes nós fomos no lombo de um jumento e tomei um tombo, um tombo grande e não me machuquei por ter caído sobre uma touceira de capim. É que jumento decidiu parar para comer e baixou a cabeça repentinamente. Subitamente me vi voando e me segurando no vazio pela da rédea do animal.
Em outra ocasião nós comemos uma melancia verde e Tia Lídia se aperreou e para evitar dor de barriga fez da casca dessa melancia um chã para eu não adoecer. Noutra vez foi Tio Serafim, que para mim, do nada, percebeu que havia uma cobra verde escondida no terreiro de secar café. Até hoje me pergunto, como ele descobriu aquele animal.
Mas aí eu cresci, fui ficando adolescente e deixei de ir ao sítio Barro de Souza e à casa de Tia Lídia. Fui me afastando, a vida e eu mesmo fui caminhando para longe de Saloá e dos encontros com os familiares.
O tempo na recepção foi passando, os assuntos foram se esgotando e eu chamei Cida para irmos para o hotel em Garanhuns. Às seis e meia da tarde saímos de Saloá trazendo no matulão um milhão de lembranças que não cabem na minha mente, só no coração.
Feliz Páscoa!
Abração, Marconi Urquiza.
Outra foto:


Parabéns, Marconi. Essa crônica também me fez viajar no tempo e lembrar algumas boas histórias da minha infância.
ResponderExcluirMuito obrigado. Que legal.
ExcluirEssas recordações faz agente viver. Parabéns por eternizar histórias tão bonitas. Isso é família!
ResponderExcluirBom dia. Muito obrigado.
ExcluirViajar para celebrar 100 anos de uma tia é para poucos. Afinal apenas 0,018% da população brasileira chegam aos 100 anos. O melhor disto tudo é encontrar várias gerações reunidas e recordar as maravilhosas lembranças de boas convivências. Parabéns para Tia Lídia que brilha no seu centenário com saúde e lucidez.
ResponderExcluirSimbora Marconi e que venha mais 10 anos de comemoração com sua Tia Lídia.
Em tempo: tenho duas tias centenárias mas a saúde não está em ordem.
Amigo Oceano, foi uma festa ótima. Todo mundo querendo tirar fotos com ela, que pacientemente aceitou as sessões de fotografias.
ExcluirNo Japão, a velhice é quase um templo — e o idoso, seu guardião mais sagrado. A cultura oriental, moldada por séculos de sabedoria e silêncio respeitoso, aprendeu a honrar o tempo e a dignidade de quem já percorreu longos caminhos. Lá, os jovens escutam os mais velhos não por obrigação, mas por reverência. Consultam-os como quem busca a bússola antes de zarpar. E quando um idoso faz aniversário, celebra-se não apenas o tempo, mas o legado.
ResponderExcluirPor aqui, envelhecer parece um castigo. Escondemos os cabelos brancos, tememos as rugas como se fossem falhas. Talvez por isso envelheçamos tão mal: não aprendemos a amar o tempo, a ouvir sua voz, a reconhecer sua grandeza.
Parabéns, Marconi, por despertar em nós esse olhar mais atento e gentil, ao evocar com tanto afeto a figura luminosa de Tia Lídia. Agora entendo por que, há quatro décadas, dei esse nome à minha caçula — mesmo sem saber o motivo. Era mais que um nome. Era uma semente. E hoje, floresceu em sentido.
Amigo Hayton, muito obrigado pela citação de sua filha. Abração.
ExcluirParabéns meu amigo, comemorações desta espécie fazem bem ao coração e alma. Viva nossos pais, avós, tias, tios e mestres que nos ensinam, TAMBÉM, no silêncio da velhice.
ResponderExcluirAmigo Ademar, muito obrigado. Sem dúvida, se nossos corações estiverem atentos, os mais idosos podem nos ajudar muito.
ExcluirParabéns Marconi pela bela crônica e por compartilhar conosco.
ResponderExcluirMuito obrigado. Abração.
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