sexta-feira, 11 de abril de 2025

Lembrança vazia

 

        Sábado passado me larguei de Recife no meio da tarde e fui a Bom Conselho. (284 km). Fui por que o amigo Antiógenes me incluiu em uma homenagem ao Frei José, nosso Frei Lourenço, fundador do Centro Sportivo Bomconselhense, o CSB.

        No domingo o clube fez 53 anos de fundação. Foi o ressurgimento do time como seniors 60+. Que é um congraçamento de peladeiros que todos os domingos vão ao campo soçaite da AABB de Bom Conselho. Jogam e depois se confraternizam com um café da manhã.

        Quando parei em Garanhuns, perto das 18h e abri a porta do carro para ir jantar senti o friozinho gostoso, relaxante, saudável. Eu gosto desse friozinho, me deixa contente e saudoso.

        Jantei e fui para Bom Conselho, cheguei lá sete e meia da noite. Fui logo para o hotel. Logo dormi. Mas pela madrugada acordei várias vezes, estava preocupado em não chegar atrasado no campo da AABB. A pelada se organiza a cada domingo às 6.00h. Cheguei lá a essa hora e já estavam, além de Marcos Guedes, o organizador da pelada, vários jogadores.

        O tempo depois chegou Antiógenes e Frei Lourenço. Não tivemos muito papo nessa hora, apenas fotografias. Tinha muita gente. Pelada de 10 minutos, quem perde sai. Os dois primeiros jogos foram empate. Vem o terceiro e nosso time perde de 1 x 0. Jogamos mais uma, nova derrota de 2 x 0.

        Acabou a pelada, que tem hora para terminar, às sete e meia da manhã. Fomos para o café da manhã e para a simples e imensa homenagem a Frei Lourenço que 53 anos atrás criou o CSB, organizou e liderou por 3 anos. Esse time deixou um legado para muitos jovens, jovens adultos e adolescentes à epoca, como eu e Antiógenes.

        Estávamos aguardando os alimentos do café da manhã chegarem e sentei à frente de Frei Lourenço e conversarmos um pouco sobre o CSB. Veio a homenagem a ele, que recebeu um quadro com três fotos dos equipes iniciais do infantil, juvenil e adulto. 

        Do infantil só lembro por causa da foto, do juvenil lembro mais, pois vi muito jogos e daquele adulto de início não tenho nenhuma recordação de algum jogo. Lembro muito do time que se formou com Geraldo Grade, Chicão, Gato, Zé Cícero, Elisênio, Élcio, os demais jogadores não recordo os nomes.  Lembrei do ponta esquerda: Zequinha, que tinha uma jogada plástica. Correr pela esquerda, com a bola correndo pelo chão e cruzar de primeira, achava lindo tais cruzamentos. Geraldo Grade, multiatleta, jogava tão bem como o maior zagueiro daquele inicio dos anos 1970, o Luís Pereira. Lembro que Chicão passava rápido da lateral direita para ir linha de fundo.

        No domingo passado, Chicão, aos 75 anos, estava em campo. Ao vê-lo tocando a bola, dando passes, se posiocionando em campo fiquei a pensar: "Ele deve ter jogado muita bola quando jovem". Frei Lourenço, aos 86 anos e meio, também estava. em campo. O que me lembrou dele jovem, na ponta esquerda, habilidoso e forte para caramba, que não deixava lateral o pegar com rispidez.

        Voltando para o salão onde esperava o café. Fiquei papeando com Frei Lourenço, fiz alguma observação sobre o time infantil, ele disse que não lembrava e mostrei a foto a ele. Apontei para mim aos 13 anos.

        Naquela hora lembrei que ele me aplaudiu, me estimulando, após uma tentativa de passe longo para o ponta direita que não deu certo. O passe foi na direção do meio da área. Mas isto não comentei com ele. Comentei sobre um gol de Elisênio, uma arrancada fenomenal do meio do campo e que terminou com o chute dentro do gol de antes da linha da grande área e; ele caindo após o chute e do chão ver a bola entrar. O quando lembro até hoje me impressiona a imagem, pois a poeira do campo de terra fez uma nuvem encobrir o corpo de Elisênio. O craque em um time de ótimos jogadores.

        Até esse momento eu só tinha referência de ter estado no CSB por causa da lembrança desse passado aos 13 anos e da foto. Mais nada. Não mais que a lembrança daquele treino e talvez de um jogo que fizemos no campo da AGA em Garanhuns, no qual perdemos e tomamos um vareio. Pois o time do AGA, daquele dia, me pareceu mais organizado em campo que o nosso.

        Por causa dessa viagem passei a semana me perguntando, sem resposta: Como eu fui parar naquele time infantil do CSB? Daqueles jogadores eu era, aos 13 anos, o mais alto e seguramente o mais grosso. Meu ídolo na época era o Rivellino e acabei na zaga para aprender a marcar, tomar dibles, dar chutões e tentar sair com a bola dominada e principalmente, ser resiliente diante de um jogador habilidoso, não desistir de ir atrás e não deixá-lo fazer o gol.

        Eu queria ser um jogador técnico e um dia papai nos levou para ver em Recife Naútico e Palmeiras (1972). Aí o Naútico faz um ataque perigoso e Luís Pereira dá um bicão, afastando a bola, que veio cair na arquibanca do Estádio do Arruda, perto de onde estávamos. Aquele lance foi uma inspiração e uma libertação, com 12 anos eu pensei: Se Luís Pereira (zagueiro da Seleção Brasileira) dar um chutão desses, eu posso dar e me libertei da vergonha de ser grosso.

        Em certo momento Frei Lourenço, feliz, me agradeceu por ter feito aquela homenagem. Agora vai a minha resposta: Olha Frei, fiquei com vergonha de dizer, não fui eu, a criação da homenagem veio de Antiógenes, com o apoio e uma organização esplêndida de Marcos Guedes. Ganhei de presente meu nome nela.

        E pior,  não respondi ao seu agradecimento, em uma deselegância tremenda. Mas agora digo: Frei Lourenço, de nada. Essa homenagem é mais que merecida. 

        Faltou essa cortesia para o senhor. 

        Naquela manhã o CSB Seniors 60+ estava criado, torço que nunca mais se acabe. Que evolua na sua missão de agregar nossos veteranos, dando o esporte como fator de saúde física e de amizades duradouras.

        Bem , a lembrança vazia se encheu de vida de outras recordações dos 16 anos que vivi em Bom Conselho, depois foi o mundo que me recebeu.


        Abração a todos.

        Marconi Urquiza


Outras fotos:

   
     Frei Lourenço e Antiógenes

    Antiógenes e Marcos Guedes

12 comentários:

  1. Marconi, nos que vivenciamos as belezas e as amizades do passado, recordando tudo o que ocorreu naqueles tempos, temos ainda um futuro pela frente para vivermos dia após dia. Muito boa as suas colocações atuais se esquecer de um passado não muito distante.

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  2. Sensacional amigão. Fomos parar no infantil do CSB porque estudávamos no Frei Caetano e todos os atletas do juvenil e infantil estudavam lá. Já no adulto foi diferente surgiu com atletas da escola e da nossa querida e amada Bom Conselho. Foi arretado demais lhe reencontrar e revivermos quando fundamos o CSB infantil em 1972.

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  3. Tempos idos presentes na memória

    Gostaria de parabenizar os organizadores dessa belíssima e merecida homenagem.

    Naquela época eu era apenas um garoto que aos domingos à tarde esperava ansioso pelos jogos no antigo campo de futebol. Não tínhamos televisão em nossa casa e a futura paixão pelo Sport e Flamengo teve início vendo aqueles monstros baterem na bola com tanta maestria, a vibração chegava ao limite nas disputas com o Vera Cruz. Que goleiro magnífico tinha o time do conhecido “Alto do sangue” o ataque era impiedoso, mas o CSB tinha Chicão e Grade, para concluir com o tão esperado grito, contava com a elegância de Elisenio e a determinação de Paulo Jorge. Perdoem-me os demais, porém só consigo lembrar desses nomes e do famoso Beruz.

    Eu sou agradecido pelo que a vida me ofereceu e oferece, neste caso, poder ser forjado no futebol assistindo o CSB, e mais tarde ter a paixão melhorada através do Canal 100 no Cine Brasília.

    Meu pai sempre me levava aos domingos ao campo e à medida que a admiração aumentava, surgia também um sentimento de orgulho, pois meu pai era motorista de uma caminhonete Ford verde e passou a transportar o CSB a outras cidades, eu sempre estava lá. Recordo de uma passagem em Arapiraca, um jogo que acredito ter sido contra o CSA. O estádio estava em construção e ao lado da entrada existia uma residência com a porta semelhante a do campo. Os atletas desceram da caminhonete e foram entrando naquela casa. Se não me engano, Grade era o primeiro. Imaginem o susto da dona da casa. Em outra feita foi um jogo em Quipapá, onde terminou em pancadaria e precisamos sair um pouco apressados. Aquilo era o máximo, estava junto dos caras que na sombra generosa de Frei Lourenço elevavam o nome de Bom Conselho, ao tempo que me sentia seguro por estar na companhia e proteção de Anísio Peixoto, meu pai.

    Artur Pedro


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    1. Grande Arthur Pedro, excelente a sua lembrança. Enriqueceu uma narrativa que lá de trás eu só tenho fragmentos. Muito Obrigado. Abração.

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  4. Eventos desta espécie servem para legitimar amizades, fazer a história viva e ratificar o valor das boas obras. Parabéns.

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  5. Excelentes recordações. Belíssima homenagem para o Frei Lourenço e por tabela um belo reencontro dos amigos de longas datas.
    Que o CSB Seniors 60+ possa continuar com as belas jogadas da boa idade com direito aos bons papos do pós peladas.
    Simbora Marconi.🤝🎯🙌

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  6. Marconi, sua narração permitiu viajar com você, não só no "Espaço" (de Recife a Bom Conselho), mas principalmente, no "Tempo", levando-nos até quando o Futebol era "Arte". Era jogado com emoção e com o coração, mais do que com os pés. Um tempo em que eu também entrava em campo, mas não para jogar, e, sim, para trabalhar, nas transmissões da Rádio Imembuy de Santa Maria-RS (história que já contei, aqui). Você comprovou que, o que passa, é o tempo. As amizades permanecem.

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    1. Brandão, muito obrigado. É verdade, o tempo é qe passa, as amizades permanecem.

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