sexta-feira, 11 de setembro de 2026
O tempo e suas experiências
sexta-feira, 14 de agosto de 2026
A notícia não era boa
O fofoqueiro
Quando comecei a ler o livro Os Espiões, de Luís Fernando Veríssimo, uma impressão foi tomando conta, páginas e páginas, muitos capítulos, aquelas conversas dos personagens irradiando pedaços de suas próprias impressões e da minha, isto aqui está com jeito de fofoca.
Aí o passeio pelas páginas escapou para algumas lembranças, como a do fofoqueiro clássico, o malidicente, daquele tipo ainda mais classudo, o que fica levando e trazendo conversas só para ver o "mel" correr solto. Desses eu fugia dos encontros, vai para lá boca fedorenta.
Mas há o fofoqueiro, aquele meia boca, que só insinua, sabe de alguma coisa que pode desagradar e chega como conselheiro: Olhe, se eu fosse você, ficava de olho! De olho em quê? Até imagina que há um interesse, fique só de olho e solta uma meia verdade e nunca diz nada inteiro, o desejo é ser importante e assim, vai manipulando algumas pessoas.
Eu gosto mesmo, a quem chamo de fofoqueiro, daquele que chega, quando não tem assunto, inventa um, só para nos fazer rir. É o fofoqueiro das invenções, um criador de literatura oral das mais originais.
Acho que essa história eu já falei por aqui. Adolescente, chegou um dos fregueses de papai e começou a conversar na farmácia, naquelas horas em que a freguesia não chegava. Conversa animada, cheia de "is", ilustrando cada passagem e arrematou: "Você conhece a história de Zé Mole?" Conhecia Zé Mole, um ancião que era freguês de papai. Aí contou como ele ganhou o apelido.
"Certa vez, Zé Mole, que era 'inspetor de quarteirão' chegou perto de um valentão que tumultuava uma festa e deu voz de prisão: 'Teje preso'," o valentão sabecou um murro em Zé e o derrubou no chão, na versão daquele fofoqueiro, do chão mesmo, Zé gritou: "Teje solto" e aí Zé virou Zé Mole. O pior é que eu, aos 17 anos, mangando do idoso, falei: Teje preso, teje solto. Resumo: nunca mais ele foi comprar seus remédios na fármacia de papai.
Aí ontem (novembro de 2025) foi a minha vez, o do fofoqueiro intrometido, do pitaqueiro que entende ou não do traçado. Estou ali, lavando as mãos para ir ao encontro da turma da AABB de Recife, que participava dos jogos dos aposentados em Natal, nisso chegam dois atletas de futebol da AABB Natal. Um deles falou assim para o outro, não sei se eu bebo, se eu beber e tomar um gol eles vão reclamar e aí eu disse de supetão: Homem, vá beber, por que se tomar gol, eles vão reclamar do mesmo jeito. Ainda hoje pela manhã escuto uma das maiores gargalhada espontânea que ouvi na vida. O goleiro se desmachou em um riso longo e contente. Parece que aquele pitaco lhe abriu uma gigantesca e saborosa lembrança que o fez gargalhar.
Mas não é mesmo? Peladeiro adora reclamar, adora alfinetar uma jogada ruim, adora se sentir o "Pelé" e arrochar no que ele ver de medíocre no outro e muitos deles, esquecem de se divertir. Nessas horas não digo nada, mas a vontade é dizer: Homem vá se divertir, ora bolas!
Homem vá beber, por que se tomar gol, eles vão reclamar do mesmo jeito.
Olhe, não sou fofoqueiro, mas adora ouvir uma conversa mole.
Abração, Marconi Urquiza.
quinta-feira, 23 de julho de 2026
Rapaz, você caiu em uma armadilha
sexta-feira, 3 de julho de 2026
Tenho saudade do tempo em que os meus grandes medos cabiam em um abraço
Tenho saudade do tempo em que os meus grandes medos cabiam em um abraço.
Não sei o autor desta frase, mas ouvi nesta quinta-feira durante a audição do programa de rádio de Geraldo Freire, na CBN Recife. O papo rolava sobre a situação atual, da influência desmedida para muita gente das redes sociais e dos temores que elas induzem a uma multidão. De certo modo, o temor à Deus foi substituido pelo temor de viralizar alguma que gere ódio e sofrer a avalanche de um Bullying digital.
Ao dizer está frase, um dos presentes, quando sentia medo ia à sua mãe e ela lhe abraçava. Coisa tão simples quanto poderosa. Um abraço da mãe para acabar com o medo.
Não é só o abraço em si, é uma mensagem de acolhimento, de pertencimento e sobretudo de amor.
O medo é uma força poderosa, arrasadora, que suprime a esperança e a fé que move uma pessoa para buscar ter a sua vida prosseguindo em paz. Quando o medo é real, próximo, a pessoa se retrai, muitas vezes esse medo é como um vento de uma irradiação atômica, não se vê, mas é real, outras, como foi mencionado hoje, o medo comum de agradar àquela multidão "sem rosto", pronta a beber o sangue que enche a internet de ódio.
Um daqueles que estavam no programa de Geraldo Freire revelou uma saudade, revelada com esta frase, de uma vida mais simples. Do medo simples, sanado com um abraço.
Bem, é tudo que tenho para hoje.
Um grande abraço.
Marconi.
sexta-feira, 5 de junho de 2026
Copas do Mundo
Na última segunda-feira, o radialista Geraldo Freire perguntou aos presentes, no seu programa Acerto de Contas, qual a copa preferida de cada um. 1970, 1982, 2002 foram as preferidas dos cinco participantes.
Isso me estimulou a pensar. Tenho inúmeras lembranças, não de uma única copa. Meu desafio é escrever em um parágrafo o que algumas delas mais significou para mim.
Vou começar pelo fim.
2014 - A derrota pesada contra a Alemanha foi como uma caixa de cerveja Original estragada e um silêncio avassalador e perda da paixão pela seleção brasileira.
Vamos às lembranças ótimas e amenas.
No tri o futebol não tinha despertado em mim tanto interesse, não entendia quase nada de futebol e, quando acabava o jogo, ia me juntar à multidão que se aglomerava na Praça Pedro II, em Bom Conselho, para ouvir a música tema da Copa, pular, a gritar e gozar dos adversários derrotados. No dia da final, isso foi marcante; o Diário de Pernambuco trouxe um pôster de Pelé e de uma bandeira. Isto antes do jogo pela manhã. Papai colocou o pôster de Pelé no capô da Ford Rural e estacionou o carro em frente da sua farmácia, depois andou pela cidade como se desfilasse. Dessa copa conservei comigo durante uns 20 anos uma tabela miúda da Copa, preenchida; depois a perdi. O Pra frente, Brasil, salve a seleção.... me levou a desfilar no 7 de Setembro daquele ano uniformizado com a camisa 11, de Rivellino. Um colega perguntou por que escolhi a de Rivellino, "Ah! Quero ter um chute forte como o dele".
Foi a vez da TV colorida em casa. Havia poucas na cidade e, nossa casa se enchia de gente para assistir aos jogos. Duas recordações recorrentes: eu e meu irmão Marcelo, após cada jogo assistido, fosse do Brasil ou não, íamos para a frente da casa tentar imitar os gols e defesas dos goleiros. A lembrança marcante foi ver papai lacrimejar ao assistir a disputa do terceiro lugar e o Brasil perder para a Polônia em 1974.
Já estava morando em Recife, estudante, e, por causa dos horários dos jogos não se chocarem com os das aulas, assisti a todos os jogos que passaram na TV. Neste ano, catei um caderno novo de molas, pequeno, e me pus a anotar todos os jogos, quem fez o gol, em qual tempo ocorreu e o placar. Lembro com clareza quando Roberto Dinamite dominou a bola com a coxa e fez o gol contra a Austria em 1978. Aquele caderninho ainda me acompanhou anos a fio. Lamento que o perdi.
Eita, foi o ano do choque total. Na derrota da seleção para a Itália já estava trabalhando em Afogados da Ingazeira (PE). No terceiro gol, a cidade silenciou; um grupo de colegas que assistia ao jogo na pensão de Dona Duda emudeceu. Após o terceiro gol, demorei alguns minutos, sem acreditar que o time tivesse forças para empatar saí discretamente de Dona Duda e fui à agência do Banco do Brasil. Se a memória não falha, naquele dia, só era para trabalhar de manhã. Fui andando pela cidade, silenciosa, silêncio absoluto; só se ouviam os sons altos das televisões. Naquela tarde de 1982 fui o primeiro a entrar na agência. Tentei evitar ouvir a narração do jogo, mas não havia nenhum local dentro da agência ou na cidade que não a ouvisse. Impossível. Cada minuto martelava em minha cabeça. Após o término da partida, pouco a pouco os colegas foram chegando à agência em silêncio, naquela decepção absurda; o trabalho foi o refúgio para pacificar a mente.
Nestas copas não recordo de episódios marcantes, apenas a lembrança do pênalti perdido por Sócrates contra a França, em 1986 e do passe de Maradona em 1990 para o gol que nos derrotou.
Não houve nada de especial durante as partidas que antecederam a final, apenas uma opinião aos amigos que assistiam e estavam impacientes, disse que naquele instante o jogo parecia ser de xadrez, via uma disputa de estratégia contra Camarões, dada a sua marcação até então eficiente. Logo depois Romário fez o gol. O jogo contra a Holanda eu estava na estrada, não vi. A final foi aquele jogo tinhoso. Mas a lembrança vigorosa foi no pós-jogo da final, durante a comemoração. Havia um pequeno clube de veteranos de futebol em Bom Conselho, chamado Falta de Ar. Assisti à final na sede desse clube. Quando Baggio chutou o pênalti para fora, toda a turma saiu correndo para ir para a Praça Pedro II, que explodiu de alegria naquela noite de 1994. Demorei uns 10 minutos, fiquei apreciando a comemoração dos jogadores no estádio. Quando saí para a rua, vi algo maravilhoso. Estava no alto do cemitério, apelido daquela rua. Deste local se pode ver toda a rua Manoel Borba. Como se fosse algo coordenado, os carros entravam na fila, subindo a rua para percorrer a cidade em carreata gigantesca e parar na Praça Pedro II. Não uma carreata qualquer. Se na cidade houvesse naquele ano mil carros, todos estavam na rua naquele instante. Confesso que não imaginava haver tanto carro na cidade. O buzinaço tomou conta.
Já estávamos no Paraná, Ronaldo Fenômeno havia raspado a cabeça e nossos três filhos também rasparam. Do futebol, lembro de um gol de Rivaldo, creio que contra a Dinamarca em 1998, em que ele deu uma rosca na bola, com o goleiro em cima dele, e a bola passou um palmo ou dois palmos acima das pernas do goleiro. E a tristeza pela derrota contra a França. Lembro que o Paraguai foi um time com uma defesa forte e só perdeu para a França.
Nessa copa, foi a minha copa do nervosismo; não consegui assistir a nenhum jogo, ficava ouvindo a narração nervosa de Galvão Bueno madrugada adentro. Só vi a parte da final do jogo contra a Alemanha em 2002. Vitória consolidada, Nega saiu com os filhos e os amigos deles em cima da carroceria da Chevrolet S10 a correr a passeata; de tanto buzinar, a buzina ficou rouca. Ela, com os filhos, correndo pela cidade, e eu em pé olhando, com lágrimas, o time do Brasil fazendo a roda no meio do campo para agradecer pela vitória na Copa do Mundo. Impressionante.
Agora temos mais uma copa; para mim é melhor não se empolgar. Se ganhar o Hexa, vou vibrar muito. Se não ganhar, o futebol não sairá do meu coração.
E as suas copas?
Abração, Marconi.
sexta-feira, 29 de maio de 2026
A sensação que desliguei
A SENSAÇÃO QUE DESLIGUEI
Fazia tempo que a sensação de desligar mentalmente não ocorria. Atualmente, em geral, estamos todos conectados ao Instagram, no Facebook, TikTok e outras redes sociais. Elas são mestres em pequenas doses constantes do hormônio do prazer, a dopamina, o que provoca na maioria das pessoas a sensação de nunca desligar.
Outro efeito colateral é a falta de foco. No nosso caso, isso atinge de modo grave o que, no passado, era motivo de prazer e ocorria espontaneamente: a leitura. Lia habitualmente, um livro após o outro. Hoje em dia, a tentativa de ler exige um esforço enorme, horário marcado, tempo marcado, tempo mínimo de leitura. Hoje vou ler 30 minutos, amanhã será uma hora e assim ocorre a tentativa de levar a leitura de um livro adiante. Se o livro exige mais concentração, ocorre o abandono. Nos últimos 15 dias, dois ficaram pelo caminho: Ave Palavra, de Guimarães Rosa, e Todos os Contos, de Clarice Lispector.
Já estou no terceiro livro nestes mesmos 15 dias. Agora é "O Nazista e o Psiquiatra", escrito por um jornalista. A leitura não é complexa, e por isso, já li 50 páginas desde a última sexta-feira, mesmo com toda a dificuldade de manter o foco na leitura.
A maior oposição que sinto é o impulso de abrir o celular e cutucar o Instagram; a mente está naquele viés de vício. Ainda não, ainda posso evitar e evito muitas vezes, mas meu foco foi embora, a minha imaginação seguiu pelo mesmo caminho.
Aquele sentimento que desliguei mentalmene tem tanto tempo que não recordo quando ocorreu. Com segurança, foi há mais de 15 anos; ainda trabalhava no Banco do Brasil. Foi tão estranho que sequer lembrava a senha de acesso ao sistema geral da empresa. Depois da aposentadoria, desenvolvi um modo de viver para não sentir o vazio da falta de uma rotina. Naquela vibração do ditado popular que diz: ' Cabeça vazia é oficina do diabo.' Até que, há quase cinco anos, comecei a cuidar de uma nanoempresa e que hoje posso afirmar ser uma microempresa. Assim, a rotina que era leve foi ficando agitada e longa.
Saltando no tempo. Em abril, nós (eu e Cida) viajamos para participar do CINFABB (jogos de aposentados do Banco do Brasil) em Belo Horizonte. Ir, vir, participar, acompanhar, conhecer a cidade — viagem para uma das cidades históricas. Mesmo abrindo o sistema para passar os serviços para a equipe e atender online os clientes, a rotina foi leve. Leve. Doze dias de viagem.
Quando chegamos, no dia 3 de maio, fui ao quarto que uso como escritório, sentei-me à cadeira e pus os braços sobre a mesa, olhando para o computador. Neste momento veio o sentimento e a sensação: "Eu desliguei". Sabe, me senti ótimo. Feliz, até.
Bem, por enquanto, é só.
Abração, Marconi.
PS: ilustração gerada pelo Google Gemini
segunda-feira, 18 de maio de 2026
ANTES DE MIM - Escrita por Djalma Xavier.
Antes de mim
“A vida devia ser bem melhor, e será !!!”
Gonzaguinha
Antes de mim houve outro Djalma. Com mesmo nome e sobrenome, mesmo pai, mesma mãe, nascido dois anos antes pelas mãos da mesma parteira, na mesma casa de chão batido, na zona rural do sertão pernambucano.
Em 18 de março de 1963, com dois anos de idade, meu irmão Djalminha foi para o céu. Minhas irmãs mais velhas diziam que ele era uma criança linda. Não há fotos dele. Não havia dinheiro pra esses “luxos”.
Quando esse triste fato ocorreu, minha mãe estava grávida de mim (7 meses) e, dois meses depois, em 18 de maio, Djalminha “renasceu” para devolver a alegria àquela casa entristecida. O novo Djalminha herdou o nome e todo amor e carinho que a família tinha por “Djalminha do céu”, como ficou sendo chamado meu irmãozinho, pra nos diferenciar. Nasci privilegiado nesse sentido. E eu e meus três irmãos mais novos fomos super protegidos para evitar que aquela tragédia se repetisse.
Naquele tempo (meados dos anos 60) e naquele lugar não havia nenhuma estrutura de saúde. Se houvesse talvez meu nome fosse outro, e minha família teria mais um membro. Teria sido mais feliz. Não havia médicos nas proximidades; não havia ambulância pra levar um doente até uma cidade maior com hospital e nem estradas transitáveis por onde um carro qualquer poderia ter levado meu irmão pra ser medicado.
Percebendo que o caso era grave, minha mãe e meu pai levaram meu irmão para o hospital mais próximo na garupa de um cavalo, por um percurso de 30 km de estradas carroçáveis. Não deu tempo. Quando chegaram a uma cidade com médico, já era tarde demais.
A condição de miserabilidade que rodeava a gente daquele lugar era muito triste. Muitos casos semelhantes ao da nossa família aconteceram.
A mortalidade infantil era uma vergonha nacional. Houve até uma reportagem da revista Veja sobre a mortalidade infantil no interior do nordeste, denunciando a existência de cemitérios só de “anjinhos”, bebês que morriam antes mesmo de se batizar. Havia muitas crianças que não “vingavam”. Morriam de diarreia, verminoses e outras doenças relativamente fáceis de tratar. Muito tempo depois surgiu um ‘anjo de verdade”, Dra. Zilda Arns, com sua Pastoral da Criança e disseminação do uso do soro caseiro, salvou milhares de crianças e ajudou muito a mudar aquela triste realidade.
Aqui não se trata de ideologia. Nem de governo A ou governo B. Trata-se de humanidade. De tratar seres humanos como seres humanos. Diante da calamidade que era a saúde pública naqueles tempos de chumbo, parecia que Brasília pouco se importava que morressem tantos brasileirinhos por falta de assistência médica. É muito triste, mesmo cruel, que se pense assim, mas talvez acreditassem que as famílias eram numerosas, então, se algumas crianças não sobrevivessem, seria mera fatalidade, culpa do destino.
Depois desse triste episódio, lenta e gradualmente, as coisas começaram a melhorar por ali. A situação financeira da família melhorou um pouco e mudamos para uma casa melhor. Vieram vacinas para o vilarejo próximo e eu e meus irmãos mais novos tivemos mais acesso a remédios e, ainda com alguma dificuldade, a cuidados médicos. E, graças a Deus, nenhuma outra criança morreu naquela casa.
Para desentristecer e desdramatizar um pouco, cabe registrar que atualmente meu filho é médico e trabalha em um Posto de Saúde na zona rural. Esse fato, por si só gratificante e reparador, produz uma esperança concreta de que muitos prováveis “djalminhas” poderão ser salvos, porque agora existe um médico próximo a eles, e isso pode fazer a diferença entre a morte e a vida.
quinta-feira, 30 de abril de 2026
6 x 0 = 13 gols contra, nenhum a favor.
sexta-feira, 17 de abril de 2026
"A arte de viver é simplesmente a arte de conviver", Mário Quintana
sexta-feira, 10 de abril de 2026
Jovinho e seu bom humor
sexta-feira, 3 de abril de 2026
O medo, uma música, um tareco, uma mariola
sexta-feira, 27 de março de 2026
Boa tarde!
sexta-feira, 6 de março de 2026
Existimos: A que será que se destina?
Começou, começou, começou aquilo que muitos refugam, mas têm uma apaixonada, apaixonada reação ao ouvir opiniões contrárias.
Às quartas-feiras a gente tem uma roda de conversa após o futebol, se fala sobre quase tudo, principalmente futebol, conversas avulsas, de tudo que era tipo, durante muito tempo, um certo tipo de assunto não chegou a aparecer. Aquela tema que separou muitos amigos e famílias, mas nesta última quarta-feira alguns minutos de conversa sobre política e políticos se insinuou.
Hoje lembrei-me de Jessé Souza: Será que há tantos ressentidos assim? Ou na vertente de Michel Alcoforado, em uma variante da cultura brasileira apresentado no livro Coisas de Rico, que cada brasileiro tem o seu rico de estimação.
Será que cada brasileiro tem o seu político truculento, mentiroso, desonesto de estimação?
E o papo começou a rolar na direção dos políticos e iria passar para o tema eleição presidencial, porém, em alguns minutos, chegou um amigo, super bem humorado, brincalhão como ninguém e sem perceber desviou o assunto.
Creio, nas próximas semanas deverá voltar mais forte. Talvez, talvez venha tão radical quanto foram nas últimas duas eleições. Isto fez me lembrar da mente que vai sendo moldada pela repetição, pela expulsão das formas de refletir sobre as situações. Pelos algoritmos. A respeito destes programas, é vezeiro, que eles têm direção e intenções e; não é a democracia, a pluridade sadia de pensamentos e visões de mundo. Até compreender isto pensava que estes programas das redes sociais eram apenas um fator de negócios, de venda, de audiência; me fazendo recordar é que preciso saber qual é a intenção de quem pronuncia um pensamento ou age de certa forma, a tal ponto que recapitulei uma frase, que não recordo a autoria, e, em contexto, diz assim: Não tem ciência neutra, apesar dos métodos científicos, porque ainda perdura no pesquisador a sua subjetividade.
Quando jovem ouvi um comentário sobre um certo candidato, político profissional, que teria dito sobre ele mesmo e sobre os eleitores: Quem tem que se apaixonar é o eleitor, político que se apaixona pela eleição perde. Creio que perde a perspectiva da batalha, que tem que começar bem antes, cega diante das evidências de uma campanha ou situação ao se portar como um apaixonado.
Nesta quinta-feira, finalzinho da tarde, com as luzes sumindo na noite, comecei divagar diante do curto papo, de um indício ainda fraco, menos fraco que antes de 2018, e que me fez fazer uma analogia para a frase da canção Cajuína, de Caetano Veloso: Apenas a matéria vida era tão fina e peguei outra frase emprestada para trazer aqui nessa dúvida: Existimos: A que será que se destina?
E será que vamos transformar a amizade, apenas a matéria vida - "amizade' - era tão fina. Tão fina, tão frágil, tão desprezível, tão desprezível em nome de uma convicção que vem sendo imposta sutilmente por um atributo mental regressivo externo.
E vamos existir assim? Existimos: A que será que se destina? À briga, a perda desse bem, à solidão, a repulsa social. Ou algo tão humano quanto isto que escrevi, mas, mais grandioso, enaltecedor da vida em paz quando respeitamos a amizade e o convívio familiar.
Como se leciona na disciplina Inteligência Competitiva: Atenção para os sinais fracos, ele podem ser um prenúncio de uma perda. Esses são os sinais fracos que percebi no momento.
Bem, por hora, é só.
Abração, Marconi Urquiza.
VIKTOR FRANKEL - Psiquiatra, neurologista. Sobrevivente de um campo de concentração nazista na segunda guerra mundial e ele escreveu sobre este período no livro: Em busca de Sentido.
Em resumo: Trata da busca por um sentido para a vida. Ter um sentido para a vida transforma a pessoa e salva de uma morte precoce.
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026
Uma frase que fez pensar
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026
Sem dominação simbólica não existe capitalismo,
A primeira vez que me aprofundei neste ponto da "dominação simbólica" completou 15 anos. Estava enrolado na redação da dissertação e, pior, com as ideias confusas, sem clareza de qual tema desenvolver. O tempo corria rápido e olhava para a mesa daqui de casa, 1,80m de comprimento por 1,00 de largura, abarrotada de artigos, fotocópias de teses e desertação, fotocópia de trechos de livros e minhas anotações. Olhava aquilo tudo e não sabia como organizar o tempo e o texto da dissertação. Estava mais para o que o romano Cícero lecionou: "Para quem não sabe aonde vai, qualquer vento serve." Essa era a minha realidade naquele 2011.
Tempos antes havia esbarrado em algum artigo sobre métodos de gestão de pessoas que falava do Toyotismo. Um método de produção just-in-time, entre outros pontos. Neste artigo o autor citou sobre a subjetividade do Toyotismo.
Naquela situação da organização da dissertação o orientador havia me emprestado um livro que aprofundava sobre a subjetividade no trabalho. O domínio simbólico da empresa sobre seus funcionários.
Nele, o autor não expressava claramente, mas em suas páginas sugeria sobre a Meritocracia, por exemplo. Método que estimula que, trabalhando duro, você alcança o que deseja. Nem é todo mentira, nem é todo verdade, mas está mais para ludribiar a maioria das pessoas que se guiam e se guiaram pela Meritocracia. Bem, para mim, só pude compreende-la bem depois como mais uma forma de dominar a subjetividade de uma pessoa, há várias.
Tratei de ler o livro, com todo cuidado que um estudante deve ter ao se deparar uma obra que pode lhe abrir as portas para fazer um trabalho acadêmico de porte. E fui lendo e, fui me assustando, me vendo envolvido em cada estratégia daquelas mencionadas no livro. Fui me vendo naquele Banco do Brasil, de 2010 a 2015, onde tudo era feito para sequestrar a nossa subjetividade, de modo que qualquer meta, por mais pesada que fosse, a gente acharia um modo de entregar o "número" (como uma coisa menor, quase irrelevante, simples, etc) e acreditar que com isto conquistaria a meritocracia sugerida pela empresa.
Lendo o livro O Poder das Orqanizações a minha vida ficou em revista durante muito tempo, muito. Por exemplo, neste livro o autor mostrava que uma empresa norte-americana fazia eventos que lembrava a um culto religioso, isto estava em suas páginas de modo explícito com o título: A religião.
Comecei a correr a memória para um tempo mais próximo. A captura da camisa da seleção brasileira em prol de uma corrente política, o desvio dos ilícitos com as brigas constantes e acusações falsas reiteradas, capturando a atenção para olhar para o outro lado e não para o lado onde estes ilícitos estavam ocorrendo.
Já havia lido o livro Pobre de Direita, onde Jessé Souza esmiuça a questão do ressentimento, como isto foi explorado politicamente, a ponto de que comecei observar com maior atenção este sentimento em pessoas com as quais convivo. Um negócio de muitos tentáculos, desde o âmbito pessoal, quanto na economia em geral, da falta de oportunidades e da negação em geral dos direitos, como educação, etc.
Depois de muito relutar comprei outro livro: Por que a esquerda morreu? E o que devemos fazer para ressuscitá-la, também de Jessé Souza. A capa é vermelha com letras brancas, pretas e amarelas. Na contracapa vem a frase: Sem dominação simbólica não existe capitalismo. A cor de fundo é amarela. A frase com esta cor de fundo representa um forte aviso, um alerta vigoroso. É simbólico.
É um livro pequeno, com 138 páginas, mas que exige uma leitura lenta para que se capture e compreenda corretamento o que está lendo. Sobretudo, reflita sobre o que leu.
Voltando ao início da crônica - A Meritocracia - foi mais uma estratégia que o capitalismo dominou o simbolismo do esforço, hercúleo, pessoal, de tal forma que a longo prazo criou uma ilusão. Não tinha vaga para todas as pessoas.
O que o livro nos coloca é que o capitalismo é mutante, um camaleão enorme, que vai açambarcando todas as manifestações de repulsa, inconformismo, revolta da população e, vai a amansando para seus interesses.
Para quem goste do assunto, sugiro a leitura deste livro e do livro Pobre de Direita. Duas leituras, independente da crença, ou descrença, da posição política ou da neutralidade, que podem ajudar na compreensão dos últimos 10 anos no Brasil.
Por hora, é só.
Marconi Urquiza
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026
E se passou 50 anos
Foto captura no Facebook de Laércio Souza
Por um motivo relevante, acabei indo a Bom Conselho, cidade onde nasci, 50 anos depois de ter saído dela para estudar em outra cidade.
Naquele fevereiro de 1976 fui estudar no Colégio Santa Sofia, em Garanhuns (PE). Colégio que ainda mantém a sua missão de educar os jovens. Naquele ano, haviam três grandes colégios privados na cidade: o Colégio Diocesano, o Santa Sofia e o Colégio XV de Novembro (Presbiteriano). Em comum, foram todos eles criados por instituições religiosas.
Mas, naquele início de 1976, quando saí, era tímido, inseguro e com uma enorme carência e deficiência nas matérias exatas (Física, Química e Matemática). Entre o Colégio de Bom Conselho, que era uma escola referenciada na época, e o Colégio Santa Sofia, havia um mundo de distância. Para mim, um enorme desvio a ser superado, um degrau absurdamente alto que não consegui transpor. Deficiência nessas disciplinas que nunca supri.
Alguns pontos, entre muitos, foram marcantes, destaco. Desapegar da casa e me adaptar a viver em uma pensão, apenas entre adultos.
Outro ponto: o deslocamento de Garanhuns para Bom Conselho e vice-versa era muito ruim. Aos sábados, havia poucos carros particulares de passageiros, e o ônibus era depois de 10 horas da manhã. No domingo era obrigado a sair cedo, havia um ônibus pela manhã e outro 10 horas da noite. Só depois de vários meses é que comecei a ter carona do gerente da Caixa Econômica Federal de Garanhuns, Álvaro Gomes, que saía de Bom Conselho às 5 horas da manhã a cada segunda-feira.
O terceiro ponto da jornada em Garanhuns foi a experiência com a professora de Português do Colégio Santa Sofia. Todos os dias, olhe! Todos os dias ela aplicava um ditado; treinamos essa forma de redação o ano inteiro, e eu gostava disso. Já tinha alguma habilidade para escrever, pois no Colégio Frei Caetano de Messina, em Bom Conselho, também tínhamos esse tipo de treinamento. Com o tempo, comecei a inventar alguns textos.
E uma saudade cavalar que levei anos para superar.
A história correu e eis que estou novamente em Bom Conselho. No último sábado dei uma passeada rápida pela cidade; no centro e nas ruas adjacentes ela parece a mesma, mas não é. Não é a mesma cidade das minhas lembranças. As pessoas mudaram, novas pessoas chegaram ao mundo, sou um estranho para 99,9% delas. A maioria dos meus contemporâneos vivem longe da cidade.
As pessoas de hoje ignoram sobre a história ocorrida durante 1982. Não sabem que o pau cantou e que ocorreram mortes na disputa política em que papai acabou assassinado.
Neste 07 de fevereiro de 2026, sábado, ao sair com meu cunhado Washington comentei para ele, faz 50 anos que saí daqui. "50 anos?" 50 anos. "Muito tempo." Fui estudar no Santa Sofia, depois fui estudar em Recife e, de lá, fui trabalhar no Banco do Brasil; e a conversa terminou.
Até 1987 pensava muito em Bom Conselho. Depois, fomos para Tabatinga, no Amazonas, e essa lembrança foi diminuindo à medida que novos desafios surgiam, vencer as circunstâncias, superar a mim mesmo no caminho da sobrevivência física e no Banco do Brasil, que passava por intensa transformação corporativa.
Posso até me lembrar como via a cidade, mais lenta, menos frenética, com os jovens reunidos na Praça Pedro II, para onde iam se encontrar com amigos e amigas, para paquerar, namorar e para alguns se exibirem com os carros dos pais. Haviam alguns carros com sons altos, mas ninguem imaginaria os paredões de hoje.
Os bailes e carnavais no Clube dos 30 ainda existiam. A religiosidade católica era muito forte, o padre da Igreja Matriz tinha uma grande influência. Durante os anos 1970 foi uma moda da moças fugirem para casar. Mas há uma tradição que permanece até hoje, virou cultura na cidade, os desfiles de Sete de Setembro. Era e é o maior evento coletivo, social e "afetivo" da cidade.
Vou repetir: o desfile do dia Sete de Setembro é "o maior evento coletivo, social e afetivo de Bom Conselho". Uma cidade inteira vai assisti-lo, os jovens vão participar, os colégios se enfeitam; e os professores parecem sentir-se mais importantes por coordenarem as equipes. As fanfarras são um mundo à parte. 50 anos depois, isso está bem mais forte.
E eu nestes 50 anos?
Restam muitas lembranças até os 16 anos, outras até os 22 anos, quando fui trabalhar no sertão.
Entre elas, algumas peculiares como a vigilância que fazia para pegar a primeira fornada de pão na padaria para leva-los em casa e comer um ou dois pães com manteiga, derretida pelo calor deles. Da doideira que era para estar pronto para ir jogar futebol nos treinos do antigo campo da ABA e no Clube dos 30. De contar uns trocados para ir tomar algumas cervejas no Bar do Géo ou no Restaurante Kennedy.
De marcar o tempo para ir visitar a primeira namorada às 19 horas. Chegava sempre antes e ficava na garagem escutando a família jantar. Tenho lembranças frequentes da temperatura amena da madrugada e do final da tarde, após escurecer. Em Bom Conselho, a partir das 17.30h começa correr um ventinho gostoso entre as serras e vai amenizando o calor do dia.
E, fisicamente, fui de 68 para os atuais 104,5 quilos. Mentalmente, nem sei o que dizer. Bom! Aprendi a escrever.
Saltando dos 16 para 66 anos, com um romance escrito cujo enredo foi inspirado na secular história da cidade, onde, especialmente, as lembranças de um período de 14 anos afloraram, de 1968 e 1982, que se juntaram às muitas leituras sobre o espírito nordestino, especialmente o espírito da disputa política.
Neste livro não entraram as minhas recordações do jovem que brincava com os amigos e amava jogar futebol na rua mesmo com as constantes reclamações do padre Carício. Também, que eu e os amigos, ficávamos admirando as lindas vizinhas que subiam e desciam a rua Conselheiro João Alfredo; que saia correndo para cobrir o almoço na farmácia de papai. Que que tinha fome por gibi e lia adoiado os livrinhos de bang-bang e por aí vai.
Agora, em 2026, Bom Conselho é uma nova cidade, com outro dinamismo, com a beleza antiga e singular da Igreja Matriz e do colégio Nossa Senhora do Bom Conselho, e a beleza nova do Parque Feliciano, e a visão extraordinária de parte da cidade a partir do oitão da prefeitura, na praça Frei Caetano. A mesma foto que ilustra está crônica.
Minha minúscula participação nesta história secular da cidade está nas páginas do romance O último café do Coronel, cujo personagem central me inspirei na importante figura histórica do Coronel Zé Abílio, em que ele é o condutor da narrativa. Neste livro temos um apanhado histórico, politico, social, das disputas, dos costumes, das amizades e inimizadas que ocorreram na cidade de 1911 até 1982.
E se passou 50 anos, com o coração rodando pelas ruas da infância e da juventude, das paqueras e dos jogos de futebol que enfeitaram meus sonhos juvenis.
Por hoje, é só.
Abração e ótimo Carnaval.
Marconi Urquiza
O tempo e suas experiências
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