sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O tempo e suas experiências

            Aqui a idade é 13 anos.

Tinha 17 anos e sentia inveja de muitos rapazes da minha idade. Bebiam, dirigiam velozes, namoravam e diziam que faziam sexo.

A minha timidez e também os limites da criação me amarravam.  Sexo: era donzelo.

Aí um dia, estava na farmácia de papai, reclamei e demonstrei inveja dos rapazes mais jovens que eu e que faziam tudo isso.

Seu Naduca ouviu minha queixa,  na minha inveja juvenil. Trinta anos mais do que eu, me fitou sério e então falou: "Olha, você vai fazer coisas antes deles" e enumerou algumas.

"Vai tirar carteira de motorista, vai votar antes deles, será de maior antes, se apresentará no Exército". Foi um consolo e uma verdade. Eu tinha algo  que aqueles rapazes teriam depois de mim. Foi mais que um consolo.  Foi quase um: "você é foda". Não era, mas me senti o "foda".

Minha gratidão ficou incompleta, nunca lhe disse assim: "Seu Naduca, muito obrigado, o senhor me fez me ver diferente, melhor". 

Agora, 50 anos depois, estou aqui, na casa dos 67 anos, e passei por novas experiências que só idade dá: aposentadoria, ser empreendedor sem depender do empreendimento; fazer duas cirurgias que vém com a idade, como a raspagem da próstata e a cirurgia da catarata.

Não tem jeito, nenhum gênio em situações normais as fará antes que tempo o venha abraçar. 

Então volto aos 17 anos, em que de certo modo queria adiantar o tempo, agora ocorreu ao contrário, empurrei quase ao limite para dizer: "Doutor ou Doutora, vamos marcar a cirurgia?"

Falando do tempo, me ocorreu de uma canção que fala dele no sentido de sua passagem, é uma de Alceu Valença, onde ele diz:

Você quer parar o tempo  
O tempo não tem parada

O tempo em si não tem fim
Não tem começo

Você quer parar o tempo
O tempo não tem parada. 

Assim é que Alceu Valença alerta em Embolada do Tempo, que ele não tem parada e vale mesmo é fazer da viagem que resta um imenso prazer. 


Então, um grande abraço.

Marconi Urquiza. 

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Sábado, 29.08.26. 
Na Praça do Sebo, Recife.  Dia do seu 45° aniversário 

Em tempo:
Seu Naduca é Arnaldo Cavalcanti, amigo de papai e frequentador diário da Farmácia Confiança, lá em Bom Conselho, Pernambuco. Hoje existinta.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

A notícia não era boa

       

        No último dia 13 de agosto ouvi a notícia que um amigo e antigo colega de trabalho está  bem doente, desenganado, magro e recluso.
         A minha mente fez o milagre de trazer boas recordações do convívio.
         Fez seis anos que o vi pela última vez em Salvador nos jogos de aposentados do Banco do Brasil, depois não nos vimos mais. Em 2019 estive em Araruna (PR), onde ele mora, fui à sua casa, mas não estava. Voltei a Recife sem conversar com ele.
         Mas ontem,  ao saber do seu estado de saúde, senti uma paralisia, como se uma notícia tão ruim nada significasse para mim, mesmo assim avisei a outro amigo em comum, que me pediu o telefone dele para falar ou enviar uma mensagem. Foi só aí que despertei da minha indiferença. 
        Saí dela e escrevi uma mensagem, mesmo intuindo que ele não leria. As notícias vinda do Paraná deram conta que ele se isolou, não quer visita e nem conversas, não quer palavras que não vão resolver seu problema de saúde. Não quer consolo. 
        Agora mesmo chegou esse questionamento: Qual consolo se pode levar a uma pessoa com doença incurável?
        Ontem foi essa minha dúvida e dilema. O que e como escrever? 
        Fui socorrido pela ótima recordação de um poema que ele fez para mim por causa de um gol que marquei no estádio municipal de Araruna. 
       Um gol em que fiz uma embaixadinha e chutei a bola. Por causa dele, recebi essa homenagem sua no mural da agência do Banco do Brasil na cidade.
        Que posso dizer?
        Abração, amigo. Abração!

        Marconi.

O fofoqueiro

      


         Quando comecei a ler o livro Os Espiões, de Luís Fernando Veríssimo, uma impressão foi tomando conta, páginas e páginas, muitos capítulos, aquelas conversas dos personagens irradiando pedaços de suas próprias impressões e da minha, isto aqui está com jeito de fofoca.

        Aí o passeio pelas páginas escapou para algumas lembranças, como a do fofoqueiro clássico, o malidicente, daquele tipo ainda mais classudo, o que fica levando e trazendo conversas só para ver o "mel" correr solto. Desses eu fugia dos encontros, vai para lá boca fedorenta.

        Mas há o fofoqueiro, aquele meia boca, que só insinua, sabe de alguma coisa que pode desagradar e chega como conselheiro: Olhe, se eu fosse você, ficava de olho! De olho em quê? Até imagina que há um interesse, fique só de olho  e solta uma meia verdade e nunca diz nada inteiro, o desejo é ser importante e assim, vai manipulando algumas pessoas.

        Eu gosto mesmo, a quem chamo de fofoqueiro, daquele que chega, quando não tem assunto, inventa um, só para nos fazer rir. É o fofoqueiro das invenções, um criador de literatura oral das mais originais. 

Acho que essa história eu já falei por aqui. Adolescente, chegou um dos fregueses de papai e começou a conversar na farmácia, naquelas horas em que a freguesia não chegava. Conversa animada, cheia de "is", ilustrando cada passagem e arrematou: "Você conhece a história de Zé Mole?" Conhecia Zé Mole, um ancião que era freguês de papai. Aí contou como ele ganhou o apelido.

        "Certa vez, Zé Mole, que era 'inspetor de quarteirão' chegou perto de  um valentão que tumultuava uma festa e deu voz de prisão: 'Teje preso'," o valentão sabecou um murro em Zé e o derrubou no chão, na versão daquele fofoqueiro, do chão mesmo, Zé gritou: "Teje solto" e aí Zé virou Zé Mole. O pior é que eu, aos 17 anos, mangando do idoso, falei: Teje preso, teje solto. Resumo: nunca mais ele foi comprar seus remédios na fármacia de papai.

        Aí ontem (novembro de 2025) foi a minha vez, o do fofoqueiro intrometido, do pitaqueiro que entende ou não do traçado. Estou ali, lavando as mãos para ir ao encontro da turma da AABB de Recife, que participava dos jogos dos aposentados em Natal, nisso chegam dois atletas de futebol da AABB Natal. Um deles falou assim para o outro, não sei se eu bebo, se eu beber e tomar um gol eles vão reclamar e aí eu disse de supetão: Homem, vá beber, por que se tomar gol, eles vão reclamar do mesmo jeito. Ainda hoje pela manhã escuto uma das maiores gargalhada espontânea que ouvi na vida. O goleiro se desmachou em um riso longo e contente. Parece que aquele pitaco lhe abriu uma gigantesca e saborosa lembrança que o fez gargalhar.

        Mas não é mesmo? Peladeiro adora reclamar, adora alfinetar uma jogada ruim, adora se sentir o "Pelé" e arrochar no que ele ver de medíocre  no outro e muitos deles, esquecem de se divertir. Nessas horas não digo nada, mas a vontade é dizer: Homem vá se divertir, ora bolas!

        Homem vá beber, por que se tomar gol, eles vão reclamar do mesmo jeito.

        Olhe, não sou fofoqueiro, mas adora ouvir uma conversa mole.

           

        Abração, Marconi Urquiza.

        

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Rapaz, você caiu em uma armadilha

        


        Rapaz, você caiu em uma armadilha e não foi a primeira vez. 

        Para deixar o leitor precavido, o assunto é sobre pontos da política. Essa danada que está em nossas vidas, quer se queira ou não;  quer se envolva diretamente ou não. 

        Na realidade, somos influenciado pela política todo o tempo. Até mesmo na omissão dos gestores públicos. 

        Na atualidade, conversar sobre política, com pessoas próximas, é caminho espinhoso e fácil para um desentendimento aqui no Brasil, à distância, os conflitos viraram regra. Como é fácil brigar pelas redes sociais! Aliás, não tão recente, o agravamento vem desde 2010 e piorou significativamente a partir de 2018. 

       Mas vamos para o agora. Na quarta-feira da semana passada peguei uma conversa andando e dei a minha opinião. O primeiro erro, foi não me inteirar antes de todo o assunto e evitar que opiniões tivessem se chocado. Era para sendo sondado mais do que se tratava e principalmente da visão de mundo dos meus interlocutores.

        Dez minutos antes, um amigo me perguntou o que estava escrevendo e respondi, informando de cara, o título do romance: A quinta forma de matar.  Logo em seguida falei uma sinopse, dizendo que o enredo é sobre os odiados e odiadores  (os haters) da Internet e também sobre o que me motivou a escrever envolvendo esta temática, que foi o suicídio de um filho adolescente de uma cantora de Campina Grande (PB), agredido pela gigantesca pressão sobre a sua sexualidade em uma rede social, em uma única noite. Depois, ilustrei, citando o "gabinete do ódio" de Bolsonaro, que foi um vetor de muitas agressões Brasil afora.

        Após essa informação, o amigo saiu e eu fui ao sanitário, ao voltar é que caí na minha própria armadilha. 

        O assunto naquela altura era a política eleitoral deste ano no âmbito da presidência da República.  Diferente de outros períodos eleitorais, comecei a acompanhar com mais assiduidade as pesquisas.

        Nessa de pegar o ônibus andando, me baseando nas mais recentes pesquisas para aquela quarta-feira a que me referi e quando assunto pendeu para a perspectiva de resultado da eleição à presidência eu me meti e opinei: "Lula vai ganhar".

        Como se diz no popular, "cutiquei onça com vara curta" e caiu sobre mim uma avalanche de "argumentos", opiniões e dados que não espelham a realidade, pelo menos das fontes que li e são várias, pelo menos estas: G1, UOL, Diplomatiqué Brasil e BBC Brasil.

        Vieram argumentos sobre os juros do Bacen, preço do diesel, fraude do consignado do INSS, entre outras que não recordo.  Tentei argumentar cada um dos pontos com os fatos investigados pela Polícia Federal, ledo engano, não estavam para ouvir qualquer informação que contradissesse seus "convicções".

        A armadilha apertou ainda mais o "meu pé", foi quando, tardiamente,  percebi que aquele papo estava viciado pela virulência, especialmente de um deles, que argumentava sem querer ouvir e elevava cada vez mais a voz. 

        Era hora de ir embora,  aquilo ali não tinha "futuro", pensei até que foi perca de tempo. Levantei-me e saí; já distante ouvi a frase irônica, "Marconi, também te amo". De costas, respondi com o polegar erguido.

        Sim, o papo em si não me ajudou em nada a enriquecer meus conhecimentos, mas foi muito útil para não cair em armadilhas como aquela; que podem transformar um relacionamento ameno, quase de amigos,  em um estrago que afasta as pessoas.

        Ao final, lembrei-me de uma frase que reporta uma decisão já de vários anos: Se for para eu me estressar, estou fora. Melhorando o entendimento, se for para me estressar, não quero nem saber. Só quero gastar minha energia com coisa boa.

        Foi assim, mais uma lição para a vida; a intolerância também está presente em quem menos se espera, ou pela sabedoria de um dos ditados mais populares da minha adolescência: Quem ver cara, não ver coração. É preciso estar sempre atento.

        Por hora, é o que tenho. 

Abração, Marconi.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Tenho saudade do tempo em que os meus grandes medos cabiam em um abraço

  

     

Tenho saudade do tempo em que os meus grandes medos cabiam em um abraço.

        Não sei o autor desta frase, mas ouvi nesta quinta-feira durante a audição do programa de rádio de Geraldo Freire, na CBN Recife.  O papo rolava sobre a situação atual, da influência desmedida para muita gente das redes sociais e dos temores que elas induzem a uma multidão. De certo modo, o temor à Deus foi substituido pelo temor de viralizar alguma que gere ódio e sofrer a avalanche de um Bullying digital.

        Ao dizer está frase, um dos presentes, quando sentia medo ia à sua mãe e ela lhe abraçava. Coisa tão simples quanto poderosa. Um abraço da mãe para acabar com o medo.

        Não é só o abraço em si, é uma mensagem de acolhimento, de pertencimento e sobretudo de amor. 

        O medo é uma força poderosa, arrasadora, que suprime a esperança e a fé que move uma pessoa para buscar ter a sua vida prosseguindo em paz. Quando o medo é real, próximo, a pessoa se retrai, muitas vezes esse medo é como um vento de uma irradiação atômica, não se vê, mas é real, outras, como foi mencionado hoje, o medo comum de agradar àquela multidão "sem rosto", pronta a beber o sangue que enche a internet de ódio. 

        Um daqueles que estavam no programa de Geraldo Freire revelou uma saudade, revelada com esta frase, de uma vida mais simples. Do medo simples, sanado com um abraço.

        Bem, é tudo que tenho para hoje.


        Um grande abraço.

         Marconi.

        

        

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Copas do Mundo

 

Criada pelo Google Gemini


        Na última segunda-feira, o radialista Geraldo Freire perguntou aos presentes, no seu programa Acerto de Contas, qual a copa preferida de cada um. 1970, 1982, 2002 foram as preferidas dos cinco participantes.

        Isso me estimulou a pensar. Tenho inúmeras lembranças, não de uma única copa. Meu desafio é escrever em um parágrafo o que algumas delas mais significou para mim.

        Vou começar pelo fim.

        2014 -  A derrota pesada contra a Alemanha foi como uma caixa de cerveja Original estragada e um silêncio avassalador e perda da paixão pela seleção brasileira.

        Vamos às lembranças ótimas e amenas.

        No tri o futebol não tinha despertado em mim tanto interesse, não entendia quase nada de futebol e, quando acabava o jogo, ia me juntar à multidão que se aglomerava na Praça Pedro II, em Bom Conselho, para ouvir a música tema da Copa, pular, a gritar e gozar dos adversários derrotados. No dia da final, isso foi marcante; o Diário de Pernambuco trouxe um pôster de Pelé e de uma bandeira. Isto antes do jogo pela manhã. Papai colocou o pôster de Pelé no capô da Ford Rural e estacionou o carro em frente da sua farmácia, depois andou pela cidade como se desfilasse. Dessa copa conservei comigo  durante uns 20 anos uma tabela miúda da Copa, preenchida; depois a perdi. O Pra frente, Brasil, salve a seleção.... me levou a desfilar no 7 de Setembro daquele ano uniformizado com a camisa 11, de Rivellino. Um colega perguntou por que escolhi a de Rivellino, "Ah! Quero ter um chute forte como o dele".

        Foi a vez da TV colorida em casa. Havia poucas na cidade e, nossa casa se enchia de gente para assistir aos jogos. Duas recordações recorrentes: eu e meu irmão Marcelo, após cada jogo assistido, fosse do Brasil ou não, íamos para a frente da casa tentar imitar os gols e defesas dos goleiros. A lembrança marcante foi ver papai lacrimejar ao assistir a disputa do terceiro lugar e o Brasil perder para a Polônia em 1974.

        Já estava morando em Recife, estudante, e, por causa dos horários dos jogos não se chocarem com os das aulas, assisti a todos os jogos que passaram na TV. Neste ano, catei um caderno novo de molas, pequeno, e me pus a anotar todos os jogos, quem fez o gol, em qual tempo ocorreu e o placar. Lembro com clareza quando Roberto Dinamite dominou a bola com a coxa e fez o gol contra a Austria em 1978. Aquele caderninho ainda me acompanhou anos a fio. Lamento que o perdi.

        Eita, foi o ano do choque total. Na derrota da seleção para a Itália já estava trabalhando em Afogados da Ingazeira (PE). No terceiro gol, a cidade silenciou; um grupo de colegas que assistia ao jogo na pensão de Dona Duda emudeceu. Após o terceiro gol, demorei alguns minutos, sem acreditar que o time tivesse forças para empatar saí discretamente de Dona Duda e fui à agência do Banco do Brasil. Se a memória não falha, naquele dia, só era para trabalhar de manhã. Fui andando pela cidade, silenciosa, silêncio absoluto; só se ouviam os sons  altos das televisões. Naquela tarde de 1982 fui o primeiro a entrar na agência. Tentei evitar ouvir a narração do jogo, mas não havia nenhum local dentro da agência ou na cidade que não a ouvisse. Impossível. Cada minuto martelava em minha cabeça. Após o término da partida, pouco a pouco os colegas foram chegando à agência em silêncio, naquela decepção absurda; o trabalho foi o refúgio para pacificar a mente.

        Nestas copas não recordo de episódios marcantes, apenas a lembrança do pênalti perdido por Sócrates contra a França, em 1986 e do passe de Maradona em 1990 para o gol que nos derrotou. 

        Não houve nada de especial durante as partidas que antecederam a final, apenas uma opinião aos amigos que assistiam e estavam impacientes, disse que naquele instante o jogo parecia ser de xadrez, via uma disputa de estratégia contra Camarões, dada a sua marcação até então eficiente. Logo depois Romário fez o gol. O jogo contra a Holanda eu estava na estrada, não vi. A final foi aquele jogo tinhoso. Mas a lembrança vigorosa foi no pós-jogo da final, durante a comemoração. Havia um pequeno clube de veteranos de futebol em Bom Conselho, chamado Falta de Ar. Assisti à final na sede desse clube. Quando Baggio chutou o pênalti para fora, toda a turma saiu correndo para ir para a Praça Pedro II, que explodiu de alegria naquela noite de 1994. Demorei uns 10 minutos, fiquei apreciando a comemoração dos jogadores no estádio. Quando saí para a rua, vi algo maravilhoso. Estava no alto do cemitério, apelido daquela rua. Deste local se pode ver toda a rua Manoel Borba. Como se fosse algo coordenado, os carros entravam na fila, subindo a rua para percorrer a cidade em carreata gigantesca e parar na Praça Pedro II. Não uma carreata qualquer. Se na cidade houvesse naquele ano mil carros, todos estavam na rua naquele instante. Confesso que não imaginava haver tanto carro na cidade. O buzinaço tomou conta.

        Já estávamos no Paraná, Ronaldo Fenômeno havia raspado a cabeça e nossos três filhos também rasparam. Do futebol, lembro de um gol de Rivaldo, creio que contra a Dinamarca em 1998, em que ele deu uma rosca na bola, com o goleiro em cima dele, e a bola passou um palmo ou dois palmos acima das pernas do goleiro. E a tristeza pela derrota contra a França. Lembro que o Paraguai foi um time com uma defesa forte e só perdeu para a França. 

        Nessa copa, foi a minha copa do nervosismo; não consegui assistir a nenhum jogo, ficava ouvindo a narração nervosa de Galvão Bueno madrugada adentro. Só vi a parte da final do jogo contra a Alemanha em 2002. Vitória consolidada, Nega saiu com os filhos e os amigos deles em cima da carroceria da  Chevrolet S10 a correr a passeata; de tanto buzinar, a buzina ficou rouca. Ela, com os filhos, correndo pela cidade, e eu em pé olhando, com lágrimas, o time do Brasil fazendo a roda no meio do campo para agradecer pela vitória na Copa do Mundo. Impressionante.

        Agora temos mais uma copa; para mim é melhor não se empolgar. Se ganhar o Hexa, vou vibrar muito. Se não ganhar, o futebol não sairá do meu coração.

        E as suas copas?


        Abração, Marconi.

       

sexta-feira, 29 de maio de 2026

A sensação que desliguei

 A SENSAÇÃO QUE DESLIGUEI


    Fazia tempo que a sensação de desligar mentalmente não ocorria. Atualmente, em geral, estamos todos conectados ao Instagram, no Facebook, TikTok e outras redes sociais.  Elas são mestres em pequenas doses constantes do hormônio do prazer, a dopamina, o que provoca na maioria das pessoas a sensação de nunca desligar.

        Outro efeito colateral é a falta de foco. No nosso caso, isso atinge de modo grave o que, no passado, era motivo de prazer e ocorria espontaneamente: a leitura. Lia habitualmente, um livro após o outro. Hoje em dia, a tentativa de ler exige um esforço enorme, horário marcado, tempo marcado, tempo mínimo de leitura. Hoje vou ler 30 minutos, amanhã será uma hora e assim ocorre a tentativa de levar a leitura de um livro adiante. Se o livro exige mais concentração, ocorre o abandono. Nos últimos 15 dias, dois ficaram pelo caminho: Ave Palavra, de Guimarães Rosa, e Todos os Contos, de Clarice Lispector. 

        Já estou no terceiro livro nestes mesmos 15 dias. Agora é "O Nazista e o Psiquiatra", escrito por um jornalista. A leitura não é complexa, e por isso, já li 50 páginas desde a última sexta-feira, mesmo com toda a dificuldade de manter o foco na leitura.

        A maior oposição que sinto é o impulso de abrir o celular e cutucar o Instagram; a mente está naquele viés de vício. Ainda não, ainda posso evitar e evito muitas vezes, mas meu foco foi embora, a minha imaginação seguiu pelo mesmo caminho.

        Aquele sentimento que desliguei mentalmene tem tanto tempo que não recordo quando ocorreu. Com segurança, foi há mais de 15 anos; ainda trabalhava no Banco do Brasil. Foi tão estranho que sequer lembrava a senha de acesso ao sistema geral da empresa. Depois da aposentadoria, desenvolvi um modo de viver para não sentir o vazio da falta de uma rotina. Naquela vibração do ditado popular que diz: ' Cabeça vazia é oficina do diabo.' Até que, há quase cinco anos, comecei a cuidar de uma nanoempresa e que hoje posso afirmar ser uma microempresa. Assim, a rotina que era leve foi ficando agitada e longa.

        Saltando no tempo. Em abril, nós (eu e Cida) viajamos para participar do CINFABB (jogos de aposentados do Banco do Brasil) em Belo Horizonte. Ir, vir, participar, acompanhar, conhecer a cidade — viagem para uma das cidades históricas. Mesmo abrindo o sistema para passar os serviços para a equipe e atender online os clientes, a rotina foi leve. Leve. Doze dias de viagem.

        Quando chegamos, no dia 3 de maio, fui ao quarto que uso como escritório, sentei-me à cadeira e pus os braços sobre a mesa, olhando para o computador. Neste momento veio o sentimento e a sensação: "Eu desliguei". Sabe, me senti ótimo. Feliz, até.

        Bem, por enquanto, é só.

        Abração, Marconi.

        


        PS: ilustração gerada pelo Google Gemini

        

segunda-feira, 18 de maio de 2026

ANTES DE MIM - Escrita por Djalma Xavier.

  


Antes de mim

            “Somos muitos Severinos, iguais em tudo na vida.                                Morremos de morte igual. Mesma morte Severina.”
                                 
                                João Cabral de Melo Neto

              A vida devia ser bem melhor, e será !!!”

 Gonzaguinha

 

         Antes de mim houve outro Djalma. Com mesmo nome e sobrenome, mesmo pai, mesma mãe, nascido dois anos antes pelas mãos da mesma parteira, na mesma casa de chão batido, na zona rural do sertão pernambucano.

Em 18 de março de 1963, com dois anos de idade, meu irmão Djalminha foi para o céu. Minhas irmãs mais velhas diziam que ele era uma criança linda. Não há fotos dele. Não havia dinheiro pra esses “luxos”.

        Quando esse triste fato ocorreu, minha mãe estava grávida de mim (7 meses) e, dois meses depois, em 18 de maio, Djalminha “renasceu” para devolver a alegria àquela casa entristecida. O novo Djalminha herdou o nome e todo amor e carinho que a família tinha por “Djalminha do céu”, como ficou sendo chamado meu irmãozinho, pra nos diferenciar.  Nasci privilegiado nesse sentido. E eu e meus três irmãos mais novos fomos super protegidos para evitar que aquela tragédia se repetisse.

        Naquele tempo (meados dos anos 60) e naquele lugar não havia nenhuma estrutura de saúde. Se houvesse talvez meu nome fosse outro, e minha família teria mais um membro. Teria sido mais feliz. Não havia médicos nas proximidades; não havia ambulância pra levar um doente até uma cidade maior com hospital e nem estradas transitáveis por onde um carro qualquer poderia ter levado meu irmão pra ser medicado.

        Percebendo que o caso era grave, minha mãe e meu pai levaram meu irmão para o hospital mais próximo na garupa de um cavalo, por um percurso de 30 km de estradas carroçáveis. Não deu tempo. Quando chegaram a uma cidade com médico, já era tarde demais.

        A condição de miserabilidade que rodeava a gente daquele lugar era muito triste. Muitos casos semelhantes ao da nossa família aconteceram.

        A mortalidade infantil era uma vergonha nacional. Houve até uma reportagem da revista Veja sobre a mortalidade infantil no interior do nordeste, denunciando a existência de cemitérios só de “anjinhos”, bebês que morriam antes mesmo de se batizar. Havia muitas crianças que não “vingavam”. Morriam de diarreia, verminoses e outras doenças relativamente fáceis de tratar. Muito tempo depois surgiu um ‘anjo de verdade”, Dra. Zilda Arns, com sua Pastoral da Criança e disseminação do uso do soro caseiro, salvou milhares de crianças e ajudou muito a mudar aquela triste realidade.

        Aqui não se trata de ideologia. Nem de governo A ou governo B. Trata-se de humanidade. De tratar seres humanos como seres humanos. Diante da calamidade que era a saúde pública naqueles tempos de chumbo, parecia que Brasília pouco se importava que morressem tantos brasileirinhos por falta de assistência médica.  É muito triste, mesmo cruel, que se pense assim, mas talvez acreditassem que as famílias eram numerosas, então, se algumas crianças não sobrevivessem, seria mera fatalidade, culpa do destino.

        Depois desse triste episódio, lenta e gradualmente, as coisas começaram a melhorar por ali. A situação financeira da família melhorou um pouco e mudamos para uma casa melhor. Vieram vacinas para o vilarejo próximo e eu e meus irmãos mais novos tivemos mais acesso a remédios e, ainda com alguma dificuldade, a cuidados médicos. E, graças a Deus, nenhuma outra criança morreu naquela casa.

        Para desentristecer e desdramatizar um pouco, cabe registrar que atualmente meu filho é médico e trabalha em um Posto de Saúde na zona rural. Esse fato, por si só gratificante e reparador, produz uma esperança concreta de que muitos prováveis “djalminhas” poderão ser salvos, porque agora existe um médico próximo a eles, e isso pode fazer a diferença entre a morte e a vida.



quinta-feira, 30 de abril de 2026

6 x 0 = 13 gols contra, nenhum a favor.

        


        Pensei horas, horas. Pensei com vagar mais horas. O que faz uma equipe de futebol perder de 1x 0 no primeiro jogo e na partida seguinte ser derrotado por 4x0. Com falhas individuais evidentes, claras, e facilmente particularizadas, e depois desabar.

        Quase como uma unanimidade, as análises são que nosso time é fraco, sem talento, sem resolutividade. Tem que ter reforço. Uma das soluções mais reivindicadas.

        Precisar, precisa. É solução? É também, mas não é milagre. Isto levou a lembrar do escritor e professor Robert F. Mager, que em um dos seus livros lencionou que o pensamento imediato que treinar funcionário de baixo rendimento não é solução milagrosa para melhorar o seu desempenho e que é preciso ir mais além. Sinto a mesma coisa quando se fala em reforço.

        Por que perdemos de 2x0, 6x0, 4x0, 1x0?  Ou na ordem de realização dos jogos: 1x0; 4x0, 6x0; 2x0.

        Onde estava a alma? 

        Não estava no campo, no banco, no papo. Não estava em canto nenhuma, muitos pensaram.

        E os treinos, alguns bem sucedidos, geraram uma confiança exagerada ou irreal? 

        Por outro, foi  como tivesse ocorrido a quebra do frágil gelo de um lago que parecia congelado, como se os jogadores tivessem afundado em alguma crença que estavam em um time "bom, entrosado". Na primeira rachadura, o lago se liquifez.

        De repente, será? De repente, será? Será que de repente aquela toda importância prévia aos jogos oficiais se esfarelou?

        Então, não tenho nenhuma certeza, mas muito questões a refletir e apenas uma convicção: "jogo é jogo, treino é treino".

        Uma partida de competição não é pelada, no jogo competitivo há outras competências, outros cuidados e cobra a compreensão que o jogo de futebol competitivo, mesmo amador e de veteranos, exige um bocado de conhecimento que só jogar pelada não oferece, tipo: como fazer a cobertura; que sistema de defesa adotar, o mesmo para o sistema de ataque; como fazer transição para o ataque e para a defesa. A marcação vai ser alta, vai ser marcação baixa; o jogo vai ser reativo ou agressivo; o que fazer nas bolas paradas, tanto no ataque como defensivas. Esta lista não termina, há muito mais. E também como adaptar tudo isto às características individuais de cada jogador.
 
        Depois destas palavras e para finalizar, o negócio é se organizar fora e dentro do campo e, na nosso mente também, para ter um desempenho que não nos incomode.

        Para finalizar, sem preparo físico, que cada um cuide do seu. Pois, sem preparo fisico, teremos os mesmos resultados.

        Bem, por hora é que o tenho. 

        Abração, Marconi. 


sexta-feira, 17 de abril de 2026

"A arte de viver é simplesmente a arte de conviver", Mário Quintana

        

        O carro corria suave pela avenida, via de mão única com duas faixas,  o passageiro olhava placidamente as pessoas andando na calçada e as fachadas das lojas. Nisso o carro para, ele levanta a cabeça e ver o sinal fechado, no mesmo momento um Virtus engata ré e inicia a saída do estacionamento de uma academia. A tranquila viagem se transforma. O motorista do Uber, na faixa dos 45 anos, aciona a buzina, não como um alerta,  agressivo,  demorado,  inconsequente. Para avisar bastaria três toques curtos.

        O sinal abriu e o motorista fez um comentário, entendido pelo passageiro como discriminatório. Ele preferiu silenciar. 

        A viagem prosseguiu por cerca de 500 metros, logo mais outro semáforo fechou e deu oportunidade para o Virtus emparelhar e dizer ao motorista que ela havia visto o carro pela câmara de ré e que não iria bater nele. Depois saiu rápido e o motorista a perseguiu ruidosamente, raivosamente. Perigosamente. Logo adiante a dona do Virtus entrou à direita e o motorista desejou ir atrás,  mas logo lembrou que tinha um passageiro e seguiu para o destino, abandonando a perseguição.

         O passageiro disfarçou, mas se preocupou com a explosão raivosa,  um ressentimento brutal contra aquela mulher, que o motorista nem conhecia, uma violenta misoginia, um perigo ambulante ao volante daquele Uber. Durante cerca de 20 minutos foi descarregando toda sorte de ódio contra aquela motorista. 

         Aquele passageiro desceu e não agradeceu pela viagem. Saiu acreditando que ali estaria uma pessoa violenta, com ares de um ser simpático, uma máscara que caiu em um poucos segundos.

        Na calçada olhou para o carro se afastando, torcendo que ao pegar novo Uber encontrasse um espírito mais ameno, mais responsável e não misógeno. Sem ranço de ressentimento.

            O tempo passou e mais de dois anos depois do episódio a sua recordação trouxe à tona algumas questões, por exemplo:
            
        Como você reage ao interpretar que seu interlocutor é inferior?
     
        Como você reage ao levar uma fechada de uma pessoa com um carro humilde?
      
        Como reage ao levar um não ao chegar em um atendimento? 

        E se o seu viés de certeza for contrariado?

        Como você reflete a respeito de tudo isso e sobre este texto?
      
        Estas questões são uma parte da realidade que nos cerca, dos seus vieses afetivos que serão super estimulados nos próximos meses e, possivelmente, testando nossos freios emocionais, que deverão estar revisados junto com a capacidade de reflexão para se evitar o descontrole emocional que acometeu o motorista do Uber. 

      Zele pelo seu entorno, ele vai devolver saúde, paz, alegria, companheirismo, apoio, amizade e amor.

      Bem, é o que tenho para o momento. 

     Abração, Marconi.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Jovinho e seu bom humor

Gerada pela IA Gemini 


Há dias venho lembrando dessa pessoa,  daquelas expansivas, que exalam o bom humor como se fosse  um jasmim.

        Depois de mais de 20 anos sem saber seu destino,  se já foi ou ssssssssssssss espalhando seu Jovinho! Jovinho acompanhando pelo sorriso e um vozeirão forte e propositalmente alto para que todos os ouçam assim se apresentava.

        Não há uma explicação lógica para ele voltar às minhas recordações, esse viés de saudade. Uma carência de um tipo de bom humor espontâneo? Uma carência de uma pessoa que parecia carregar em si a alegria de ser ele mesmo?

        "Por que o Senhor tem esse nome?" A curiosidade havia chegado.  Eu era comerciante em Cianorte, comprovava e vendia mamona, então fiquei conhecido por Chico da Mamona, depois de muitos anos assim, ganhei esse sobrenome, hoje sou Chico Mamona.

        Ele tinha duas fazendas pequenas de soja, uma Araruna e outra em Tapejara, ambas no Paraná. 

        Um dia ele apareceu na agência do Banco do Brasil de Araruna (PR) e convidou um monte gente para um churrasco em Tapejara. Depois vim saber que ele dava essa festa anualmente após a colheita da soja. Se a lembrança estiver correta, era no dia do seu aniversário.

        Depois não o vi mais,  vez por lembrava dele por causa da insistência em que pagar o custeio agrícola em dinheiro vivo. "Não seu Chico, tem que depositar na sua conta." Jovinho, Jovinho, é, é, éeeeeee em dinheeeeeiro!

        Recordar isso nos divertia, depois a lembrança voltava para aquela parte da mente que só quando provocada, mas agora foi diferente,  veio espontânea. 

        Bem, seu Chico Mamona, um grande abraço onde quer que esteja. 

        Bom dia, Jovinho!
        "Bom dia, seu Chico Mamona! Sente aqui."

        Por hoje, é o que tenho.
        Abração,  Marconi. 

        
        PS: 
        Seu Chico Mamona se despediu em 2019. "Francisco Nizo".

sexta-feira, 3 de abril de 2026

O medo, uma música, um tareco, uma mariola




No meio do encontro semanal após a pelada desta quarta-feira, na conversa com Jeovane, cada um falando de suas experiências de vida acabei contando uma pequena história e ele me perguntou: "Você já contou isso para Patrúcio (Patrúcio Amorim - o poeta do forró)?" Nunca contei a ninguém, é a primeira vez que falo disso - foi a minha resposta. 

        Por causa desse papo resolvi escrever essa história. 

        O medo gravava na alma a insegurança de uma jornada de vida, 11 anos de dedicação, esforço, coragem, apoio e um tanto de doideira ao irmos para o desconhecido,  Tabatinga,  no Amazonas, depois a loucura dobrou, estávamos em Boca do Acre, também Amazonas, quase Acre, dado a proximidade de 256 quilômetros com Rio Branco. Amazonas era na prática uma referência meramente geográfica. Rio Branco foi até a capital de um chope, que para não pirar me levou a percorrer de 520 km, ida e volta de Boca do Acre a bordo de um Fusca azul.
         Mas aí errei, errei feio e fui para em Palmeirina (PE), uma minúscula agência e logo regrediu para posto e pelo ralo foi meu cargo de gerente geral, com todas as implicações emocionais, de renda e da carreira. 
        A água não subiu de uma vez, o desespero foi chegando aos poucos e foi apertando a vida, a perspectiva individual se reduzindo diante do aperto promovido pelo Banco do Brasil no Plano de Demissão Voluntária, em 1995.
        Nesse período fui a uma reunião em Caruaru (PE), entre os temas estava sobre as vagas restantes no Estado de Pernambuco, que havia perdido inúmeras. 
        Terminou a reunião e no corredor abordei o recém nomeado Superintende Regional, perguntei como me recoloceria, mais que a resposta, foi a empáfia que doeu. Deu-me raiva, silenciosa, não resignada e saí da cidade furando todos sinais vermelhos. Coisa que evitava fazer. 
        Aqueles 150 quilômetros até o lar foi com esse sentimento.  Nos dias seguintes o desespero me fez pedir transferência para 800 agências diferentes.
        Em um desses dias coloquei Barbosa Ferraz, no Paraná,  no outro estava transferido. Havíamos vindos de longe a coisa de um ano e já íamos para quase 3.000 km das nossas origens.  Apesar de tudo,  isto nos deu tranquilidade.
        Após essa notícia, em certo dia, perdemos o horário da remessa do malote para Garanhuns e tive que ir levá-lo em uma dependência de nome CESEC, naquela cidade. 
        Na volta para casa, na rua do Colégio Santa Sofia, ao me aproximar do esquina ouvi o som, alto, vigoroso, de uma música que não sei explicar como me tocou. Parei o carro, atravessei as duas ruas e entrei na discoteca,  sim, se vendiam CDs em lojas. 
        O dono já havia trocado de cantor, "Ei moço, quem era que tocava agora?" Coloquei vários nessa meia-hora.  "Não, foi agora, tem 5 minutos." O rapaz puxou um disco e disse: "Foi esse, tá um sucesso enorme." E em seguida colocou uma certa música. 
        Mais de 30 anos se passou, aquele som forte da discoteca, com a mensagem intrínseca da canção e a voz do cantor reverberou na minha mente, no meu coração e em nossas vidas. Sem saber, sem compreender,  ali nascia um novo rumo, uma vida de luta, em que matar um leão por dia era fichinha. Saí da loja renovado,  no carro ouvia o CD com um som menos potente, mas quem precisava! A potência estava na canção e naquele cantor que eu desconhecia.
        A conversa com o amigo Jeovane, na AABB Recife, me proporcionou a recordação dessa história, que me fez bem diferente ao chegar no Paraná, cheio de confiança e com uma disposição e criatividade poderosas, afloradas, nas dificuldades de Palmeirina, o que me fez superar as barreiras de ter outra origem.
        Bem, Tareco e Mariola, na voz de Flávio José,  foi minha iluminação e abertura para receber a força do Universo e vencer aqueles desafios postos pela vida e pela empresa naquele 1995.
        Torço que em suas vidas tenha lhe ocorrido algo assim, que a recordação ainda seja capaz de lhe energizar.

        Bem, por hora, é o que tenho. 

        Abração, Marconi Urquiza. 

sexta-feira, 27 de março de 2026

Boa tarde!


Boa tarde! 

Sentei-me na loja para esperar o conserto do celular e fiquei pensando: amanhã é dia de crônica,  faz duas semanas que não escrevo uma, aliás, não escrevo nada. Um tempo atrás ainda rascunhava um ajuntado de frases, mas vivo procurando um assunto e tudo que vêm à mente são as coisas críticas do nosso tempo.  Até parece que estou na armadilha do algoritmo das coisas ruins, dos pontos que deveriam exigir um mínimo de reflexão. 
     Nesta quinta-feira corri por alguns endereços: Hospital Português de Recife,  o apartamento de mamãe (em reforma), a clínica veterinária e aqui, agora, a oficina de celular. O celular do serviço anda tão parado, com uma folga perigosa por que os clientes não chegam e a empresa não fatura,  como os impostos, o faturamento é variável.  Vende mais, mais imposto é arrecadado.
     Depois da loja do celular corri para a Safe Clean de Recife,  empresa que nos ajuda imensamente, coletei tapetes limpos e pedi a um funcionário que nos ajudasse consertando um pulverizador de aço inox.
     Nesta sexta-feira estarei em JAMPA, João Pessoa,  devolvendo os tapetes para os clientes. É preciso um mínimo de pensamento de logística para não ficar dando voltas na cidade.
      Por uma falha nesse planejamento estou indo duas vezes à cidade na mesma semana. Não é uma lição nova, pois isto sei há muito tempo, é um lembrete que não se pode se descuidar e nem estar exausto ao trabalhar, pois a atenção nestas circunstâncias voa igual ao Condor.
      Há momentos em que olho para a tela do computador e vejo outras entranhas, a empresa que carece ser mais organizada para ser proativa nos momentos de diminuição da demanda e, que passa por nós mesmos.
      Nesta semana um amigo perguntou, esta escrevendo muito? Quase como um lamento respondi: nada, é que ao tomar conta da empresa toma todo o meu tempo fisico e mental. Este é que pega. O tempo mental. Pois há muito não consigo dividi-lo com a escrita. O escritor entrou em uma hibernação mais longa que as dos ursos.
      Depois de oito meses ensaiei jogar futebol ao ir ao treino na AABB, mas o joelho esquerdo falseou quatro vezes,  nas duas últimas a dor foi aguda e sobrou um joelho dolorido desde então. Isto indica que fazer reforço muscular frequente e mais forte é fundamental. 
     Nos últimos meses andei lendo mais, de dezembro para cá devo ter lido uns quatro livros, lembro de três: "Por que a esquerda morreu" - de Jesse de Souza, é  um livro análise desta ocorrência sobre a corrente política.  É um livro chato de ler. A leitura não flui. Antes havia lido o romance "Os espiões", de Luís Fernando Veríssimo. Dois terços do livro ele passou a impressão que o que passou na história era uma grande fofoca, na parte final se transformou em um livro de final comum. Com alguma atenção dá para perceber a técnica literário aflorando. 
      Depois li, melhor, descobri a escritora Maria Valéria Resende, com o romance "Outros cantos". Um história interessantíssima e que tem como pano de fundo a ditadura de 1964. Mas é sobretudo sobre a pobreza do interior nordestino,  sobre a falta de perspectiva no tempo narrado no romance.  Comecei até a viajar na memória da infância e adolescência,  naquela pobreza de muito amigos daquela época em Bom Conselho. Situação que me marcou a vida inteira. 
    Depois tentei ler o livro de Waldrido Warde e Lincoln Gakiya: "Segurança Pública: O Brasil livre das máfias."  Não consegui terminar.  Para mim faltou mesclar ao texto técnica de redação jornalística e até literária, para que tema tão recheado de citações legais sejam assimilavéis para o leitor fora do campo do direito penal. Então larguei para debaixo da mesa de centro e ele virou está lembrança. 
      Depois dele voltei para Maria Valéria Rezende, com o "O voo da guará vermelha". Guará é uma ave. É uma história interessantíssima,  que vem tratando das dores profundas dos dois personagens de maneira magistral,  que não afasta o leitor. Que mistura os espinhos das suas vidas e ao enredo das histórias contadas por Rosélio. 
     Bem, preciso terminar.  O dia está clareando que estou finalizando esta crônica. 

     Portanto!
     Bom dia, luminoso dia!

      Abração!
      Marconi. 

sexta-feira, 6 de março de 2026

Existimos: A que será que se destina?


Viktor Frankl
 

        Começou, começou, começou aquilo que muitos refugam, mas têm uma apaixonada, apaixonada reação ao ouvir opiniões contrárias.

        Às quartas-feiras a gente tem uma roda de conversa após o futebol, se fala sobre quase tudo, principalmente futebol, conversas avulsas, de tudo que era tipo, durante muito tempo, um certo tipo de assunto não chegou a aparecer. Aquela tema que separou muitos amigos e famílias, mas nesta última quarta-feira alguns minutos de conversa sobre política e políticos se insinuou. 

        Hoje lembrei-me de Jessé Souza: Será que há tantos ressentidos assim? Ou na vertente de Michel Alcoforado, em uma variante da cultura brasileira apresentado no livro Coisas de Rico, que cada brasileiro tem o seu rico de estimação.

        Será que cada brasileiro tem o seu político truculento, mentiroso, desonesto de estimação?

        E o papo começou a rolar na direção dos políticos e iria passar para o tema eleição presidencial, porém, em alguns minutos, chegou um amigo, super bem humorado, brincalhão como ninguém e sem perceber desviou o assunto.

        Creio, nas próximas semanas deverá voltar mais forte. Talvez, talvez venha tão radical quanto foram nas últimas duas eleições. Isto fez me lembrar da mente que vai sendo moldada pela repetição, pela expulsão das formas de refletir sobre as situações. Pelos algoritmos. A respeito destes programas, é vezeiro, que eles têm direção e intenções e; não é a democracia, a pluridade sadia de pensamentos e visões de mundo. Até compreender isto pensava que estes programas das redes sociais eram apenas um fator de negócios, de venda, de audiência; me fazendo recordar é que preciso saber qual é a intenção de quem pronuncia um pensamento ou age de certa forma, a tal ponto que recapitulei uma frase, que não recordo a autoria, e, em contexto, diz assim: Não tem ciência neutra, apesar dos métodos científicos, porque ainda perdura no pesquisador a sua subjetividade.

        Quando jovem ouvi um comentário sobre um certo candidato, político profissional, que teria dito sobre ele mesmo e sobre os eleitores: Quem tem que se apaixonar é o eleitor, político que se apaixona pela eleição perde. Creio que perde a perspectiva da batalha, que tem que começar bem antes, cega diante das evidências de uma campanha ou situação ao se portar como um apaixonado.

        Nesta quinta-feira, finalzinho da tarde, com as luzes sumindo na noite, comecei divagar diante do curto papo, de um indício ainda fraco, menos fraco que antes de 2018, e que me fez fazer uma analogia para a frase da canção Cajuína, de Caetano Veloso: Apenas a matéria vida era tão fina e peguei outra frase emprestada para trazer aqui nessa dúvida: Existimos: A que será que se destina?

        E será que vamos transformar a amizade, apenas a matéria vida - "amizade' - era tão fina. Tão fina, tão frágil, tão desprezível, tão desprezível em nome de uma convicção que vem sendo imposta sutilmente por um atributo mental regressivo externo.

        E vamos existir assim? Existimos: A que será que se destina? À briga, a perda desse bem, à solidão, a repulsa social. Ou algo tão humano quanto isto que escrevi, mas, mais grandioso, enaltecedor da vida em paz quando respeitamos a amizade e o convívio familiar. 

        Como se leciona na disciplina Inteligência Competitiva: Atenção para os sinais fracos, ele podem ser um prenúncio de uma perda. Esses são os sinais fracos que percebi no momento.


        Bem, por hora, é só.  

        Abração, Marconi Urquiza.

        

VIKTOR FRANKEL - Psiquiatra, neurologista. Sobrevivente de um campo de concentração nazista na segunda guerra mundial e ele escreveu sobre este período no livro: Em busca de Sentido

        Em resumo: Trata da busca por um sentido para a vida. Ter um sentido para a vida transforma a pessoa e salva de uma morte precoce.

        

        

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Uma frase que fez pensar

Extraída do Google.

            Até aqui nos ajudou o Senhor.
Esta uma frase bíblica. Samuel 7.12.

        Na versão católica a frase é assim: Até aqui nos socorreu o Senhor. 

        No primeiro momento que li esta frase me pus a pensar. Pensar como uma fé condicionada, com limite ou com um quê de conformismo. Nisso fui ler o restante do versículo para tentar compreender o contexto da mensagem ali inclusa. 

        ¹² Então tomou Samuel uma pedra, e a pôs entre Mizpá e Sem, e chamou o nome dela Ebenézer; e disse: Até aqui nos ajudou o Senhor.
        ¹³ Assim os filisteus foram abatidos, e nunca mais vieram aos termos de Israel, porquanto foi a mão do Senhor contra os filisteus todos os dias de Samuel. 

        1 Samuel 7:12,13

        Fiquei lendo, relendo, tentando compreender o contexto histórico e não alcancei a compreensão. 

        Depois li tudo o capítulo 7 e, nele traz a história de um ataque dos filisteus ao povo de Israel antigo e eles foram a Samuel para que pedisse ajuda ao Senhor, que ouviu Samuel e fez os filisteus fugirem. Este é um resumo da minha interpretação.

        Seria gratidão por ter tido os filisteus (um povo da antiguidade) afastados?

        Haveria uma mensagem subjacente?

        Nos dias atuais seria uma reforço ou a força da fé com a realística consciência que o Senhor pode parar de ajudar?

        Que esse apoio tem limites ou nem sempre está ele está para ajudar?

        Na semana passada acabei por recordar uma imensa dificuldade profissional e o medo avassalador que sentia naquele 1998. Me acabava na oração, lia e repetia o salmo que traz uma oração de fé: o senhor é meu pastor e nada me faltará. Foram meses nessa angústia e a situação não melhorava. Estava longe de mim compreender a complexidade daqueles tempos e parecia que vivia em um loop de problemas.

        Aquilo tudo precisava de uma solução e não estava exclusivamente na oração,  nem no medo, mas no primeiro passo libertador,  que levou ao segundo, ao terceiro e em alguns meses as dificuldades começaram a virar bons resultados e uma fé diferente foi ganhando corpo no meu espírito,  a fé da confiança, do acerto e do cuidado para não retroceder. 

        Passada está fase de luta, a vida prosseguiu e muito anos depois vejo a chamada e assisti duas vezes ao trailer do filme O Julgamento de Deus - Deus no Banco dos Réus e não tive coragem de assisti-lo. Mas a história contida naquele longa metragem traz o choque entre a fé dos Judeus e a realidade de estarem em um campo de concentração nazista. É um filme que suscita muita reflexão, não apenas pelo contexto daqueles fatos, como para a própria vida diante de situações extremas.

        Meses depois vi uma péssima cópia do filme no notebook, o que se salvou nela foi o som, bom e bem dublado. 

        Fui até o final, apesar do incômodo emocional. Em certo momento os judeus montaram um tribunal. Defesa, acusação, juiz, ministério público. Testemunhas.

        Uma frase, depois de tantos anos, se fixou em minha memória, não recordo com exatidão, um dos julgadores de Deus disse no filme, algo assim: Nós somos o povo escolhido por Deus e por que estamos aqui? Ali no campo de concentração para serem mortos. Um choque brutal.

        Agora chegamos ao presente,  parece que as guerras em que pessoas matam em nome da fé reduziram as suas eclosões, mas a semente continua adormecida a espera de um momento propício para fanatizar pessoas. Tem um ponto que despertei a observar nas pessoas após ler Pobre de Direita - a vingança dos bastardos, que é o ressentimento. Esse sentimento é poderoso para uma ação violenta.

        Mas ontem, quando li na logomarca de uma empresa, em um adesivo colado na porta de um caminhão a frase: Até aqui ajudou o Senhor, pude compreender que no Brasil, grande parte dos crentes de qualquer credo tem essa Fé no Senhor como indivíduo, às vezes ou muitas vezes é tão forte e viram alvo da manipulação dos falsos profetas. 

        Em tempo: a minha fé é na bondade das pessoas. Tem pessoas bondosas e poucos sabem, tem as maldosas e muitas sentem.

        Para finalizar, tenho uma profunda admiração pelas pessoa que têm fé,  elas são diferentes. 

        A esse respeito pude ser partícipe de um grupo de orações.  Lá por 2000 uma colega de faculdade foi acometida de câncer de mama. E, em certa noite, outra colega chamou quem queria orar para ela, fui, gosto de ser solidário e fui. Noite a noite rezamos o Pai Nosso de mãos dadas. Aquela roda de oração fez sua energia chegar àquela colega que estava distante de nós cerca de 450 quilômetros, tratando da doença. Após a cura, ocasionalmente revelei que nós fazíamos essa oração, se a memória não falha, ela comentou: Era por isso que eu me acalmava. 

        Foram atos de fé,  de abnegação e de despreendimento. Orar pelo outro nada mais é que isto, despreendimento. É dar de si sem buscar retorno. 

        Bem, por hora é só. 

        Abração, Marconi. 






sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Sem dominação simbólica não existe capitalismo,

 



        A primeira vez que me aprofundei neste ponto da "dominação simbólica" completou 15 anos. Estava enrolado na redação da dissertação e, pior, com as ideias confusas, sem clareza de qual tema desenvolver. O tempo corria rápido e olhava para a mesa daqui de casa, 1,80m de comprimento por 1,00 de largura, abarrotada de artigos, fotocópias de teses e desertação, fotocópia de trechos de livros e minhas anotações. Olhava aquilo tudo e não sabia como organizar o tempo e o texto da dissertação. Estava mais para o que o romano Cícero lecionou: "Para quem não sabe aonde vai, qualquer vento serve." Essa era a minha realidade naquele 2011.

         Tempos antes havia esbarrado em algum artigo sobre métodos de gestão de pessoas que falava do Toyotismo. Um método de produção just-in-time, entre outros pontos. Neste artigo o autor citou sobre a subjetividade do Toyotismo. 

         Naquela situação da organização da dissertação o orientador havia me emprestado um livro que aprofundava sobre a subjetividade no trabalho. O domínio simbólico da empresa sobre seus funcionários. 

        Nele, o autor não expressava claramente, mas em suas páginas sugeria sobre a Meritocracia, por exemplo. Método que estimula que, trabalhando duro, você alcança o que deseja. Nem é todo mentira, nem é todo verdade, mas está mais para ludribiar a maioria das pessoas que se guiam e se guiaram pela Meritocracia. Bem, para mim, só pude compreende-la bem depois como mais uma forma de dominar a subjetividade de uma pessoa, há várias.

        Tratei de ler o livro, com todo cuidado que um estudante deve ter ao se deparar uma obra que pode lhe abrir as portas para fazer um trabalho acadêmico de porte. E fui lendo e, fui me assustando, me vendo envolvido em cada estratégia daquelas mencionadas no livro. Fui me vendo naquele Banco do Brasil, de 2010 a 2015, onde tudo era feito para sequestrar a nossa subjetividade, de modo que qualquer meta, por mais pesada que fosse, a gente acharia um modo de entregar o "número" (como uma coisa menor, quase irrelevante, simples, etc) e acreditar que com isto conquistaria a meritocracia sugerida pela empresa.

        Lendo o livro O Poder das Orqanizações a minha vida ficou em revista durante muito tempo, muito. Por exemplo, neste livro o autor mostrava que uma empresa norte-americana fazia eventos que lembrava a um culto religioso, isto estava em suas páginas de modo explícito com o título: A religião.

        Comecei a correr a memória para um tempo mais próximo. A captura da camisa da seleção brasileira em prol de uma corrente política, o desvio dos ilícitos com as brigas constantes e acusações falsas reiteradas, capturando a atenção para olhar para o outro lado e não para o lado onde estes ilícitos estavam ocorrendo.

        Já havia lido o livro Pobre de Direita, onde Jessé Souza esmiuça a questão do ressentimento, como isto foi explorado politicamente, a ponto de que comecei observar com maior atenção este sentimento em pessoas com as quais convivo. Um negócio de muitos tentáculos, desde o âmbito pessoal, quanto na economia em geral, da falta de oportunidades e da negação em geral dos direitos, como educação, etc.

        Depois de muito relutar comprei outro livro: Por que a esquerda morreu? E o que devemos fazer para ressuscitá-la, também de Jessé Souza. A capa é vermelha com letras brancas, pretas e amarelas. Na contracapa vem a frase: Sem dominação simbólica não existe capitalismo. A cor de fundo é amarela. A frase com esta cor de fundo representa um forte aviso, um alerta vigoroso. É simbólico. 

        É um livro pequeno, com 138 páginas, mas que exige uma leitura lenta para que se capture e compreenda corretamento o que está lendo. Sobretudo, reflita sobre o que leu.

        Voltando ao início da crônica - A Meritocracia - foi mais uma estratégia que o capitalismo dominou o simbolismo do esforço, hercúleo, pessoal, de tal forma que a longo prazo criou uma ilusão. Não tinha vaga para todas as pessoas.

        O que o livro nos coloca é que o capitalismo é mutante, um camaleão enorme, que vai açambarcando todas as manifestações de repulsa, inconformismo, revolta da população e, vai a amansando para seus interesses.

        Para quem goste do assunto, sugiro a leitura deste livro e do livro Pobre de Direita. Duas leituras, independente da crença, ou descrença, da posição política ou da neutralidade, que podem ajudar na compreensão dos últimos 10 anos no Brasil.


        Por hora, é só.

        Marconi Urquiza



        

        

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

E se passou 50 anos

 

Foto captura no Facebook de Laércio Souza

         Por um motivo relevante, acabei indo a Bom Conselho, cidade onde nasci, 50 anos depois de ter saído dela para estudar em outra cidade.

        Naquele fevereiro de 1976 fui estudar no Colégio Santa Sofia, em Garanhuns (PE). Colégio que ainda mantém a sua missão de educar os jovens. Naquele ano, haviam três grandes colégios privados na cidade: o Colégio Diocesano, o Santa Sofia e o Colégio XV de Novembro (Presbiteriano). Em comum, foram todos eles criados por instituições religiosas.

        Mas, naquele início de 1976, quando saí, era tímido, inseguro e com uma enorme carência e deficiência nas matérias exatas (Física, Química e Matemática). Entre o Colégio de Bom Conselho, que era uma escola referenciada na época, e o Colégio Santa Sofia, havia um mundo de distância. Para mim, um enorme desvio a ser superado, um degrau absurdamente alto que não consegui transpor.  Deficiência nessas disciplinas que nunca supri.

        Alguns pontos, entre muitos, foram marcantes, destaco. Desapegar da casa e me adaptar a viver em uma pensão, apenas entre adultos. 

        Outro ponto: o deslocamento de Garanhuns para Bom Conselho e vice-versa era muito ruim. Aos sábados, havia poucos carros particulares de passageiros, e o ônibus era depois de 10 horas da manhã. No domingo era obrigado a sair cedo, havia um ônibus pela manhã e outro 10 horas da noite. Só depois de vários meses é que comecei a ter carona do gerente da Caixa Econômica Federal de Garanhuns, Álvaro Gomes, que saía de Bom Conselho às 5 horas da manhã a cada segunda-feira.

        O terceiro ponto da jornada em Garanhuns foi a experiência com a professora de Português do Colégio Santa Sofia.  Todos os dias, olhe! Todos os dias ela aplicava um ditado; treinamos essa forma de redação o ano inteiro, e eu gostava disso. Já tinha alguma habilidade para escrever, pois no Colégio Frei Caetano de Messina, em Bom Conselho, também tínhamos esse tipo de treinamento. Com o tempo, comecei a inventar alguns textos.

        E uma saudade cavalar que levei anos para superar. 

        A história correu e eis que estou novamente em Bom Conselho. No último sábado dei uma passeada rápida pela cidade; no centro e nas ruas adjacentes ela parece a mesma, mas não é. Não é a mesma cidade das minhas lembranças. As pessoas mudaram, novas pessoas chegaram ao mundo, sou um estranho para 99,9% delas. A maioria dos meus contemporâneos vivem longe da cidade. 

      As pessoas de hoje ignoram sobre a história ocorrida durante 1982. Não sabem que o pau cantou e que ocorreram mortes na disputa política em que papai acabou assassinado.

        Neste 07 de fevereiro de 2026, sábado, ao sair com meu cunhado Washington comentei para ele, faz 50 anos que saí daqui. "50 anos?" 50 anos. "Muito tempo." Fui estudar no Santa Sofia, depois fui estudar em Recife e, de lá, fui trabalhar no Banco do Brasil; e a conversa terminou.

        Até 1987 pensava muito em Bom Conselho. Depois, fomos para Tabatinga, no Amazonas, e essa lembrança foi diminuindo à medida que novos desafios surgiam, vencer as circunstâncias, superar a mim mesmo no caminho da sobrevivência física e no Banco do Brasil, que passava por intensa transformação corporativa.

        Posso até me lembrar como via a cidade, mais lenta, menos frenética, com os jovens reunidos na Praça Pedro II, para onde iam se encontrar com amigos e amigas, para paquerar, namorar e para alguns se exibirem com os carros dos pais. Haviam alguns carros com sons altos, mas ninguem imaginaria os paredões de hoje.

        Os bailes e carnavais no Clube dos 30 ainda existiam. A religiosidade católica era muito forte, o padre da Igreja Matriz tinha uma grande influência. Durante os anos 1970 foi uma moda da moças fugirem para casar. Mas há uma tradição que permanece até hoje, virou cultura na cidade, os desfiles de Sete de Setembro. Era e é o maior evento coletivo, social e "afetivo" da cidade.

        Vou repetir: o desfile do dia Sete de Setembro é "o maior evento coletivo, social e afetivo de Bom Conselho". Uma cidade inteira vai assisti-lo, os jovens vão participar, os colégios se enfeitam; e os professores parecem sentir-se mais importantes por coordenarem as equipes. As fanfarras são um mundo à parte.  50 anos depois, isso está bem mais forte.

        E eu nestes 50 anos? 

        Restam muitas lembranças até os 16 anos, outras até os 22 anos, quando fui trabalhar no sertão.

      Entre elas, algumas peculiares como a vigilância que fazia para pegar a primeira fornada de pão na padaria para leva-los em casa e comer um ou dois pães com manteiga, derretida pelo calor deles. Da doideira que era para estar pronto para ir jogar futebol nos treinos do antigo campo da ABA e no Clube dos 30. De contar uns trocados para ir tomar algumas cervejas no Bar do Géo ou no Restaurante Kennedy.

        De marcar o tempo para ir visitar a primeira namorada às 19 horas.  Chegava sempre antes e ficava na garagem escutando a família jantar. Tenho lembranças frequentes da temperatura amena da madrugada e do final da tarde, após escurecer. Em Bom Conselho, a partir das 17.30h começa correr um ventinho gostoso entre as serras e vai amenizando o calor do dia.

        E, fisicamente, fui de 68 para os atuais 104,5 quilos. Mentalmente, nem sei o que dizer. Bom! Aprendi a escrever.

        Saltando dos 16 para 66 anos, com um romance escrito cujo enredo foi inspirado na secular história da cidade, onde, especialmente, as lembranças de um período de 14 anos afloraram, de 1968 e 1982, que se juntaram às muitas leituras sobre o espírito nordestino, especialmente o espírito da disputa política. 

        Neste livro não entraram as minhas recordações do jovem que brincava com os amigos e amava jogar futebol na rua mesmo com as constantes reclamações do padre Carício. Também, que eu e os amigos, ficávamos admirando as lindas vizinhas que subiam e desciam a rua Conselheiro João Alfredo; que saia correndo para cobrir o almoço na farmácia de papai. Que que tinha fome por gibi e lia adoiado os livrinhos de bang-bang e por aí vai.

        Agora, em 2026, Bom Conselho é uma nova cidade, com outro dinamismo, com a beleza antiga e singular da Igreja Matriz e do colégio Nossa Senhora do Bom Conselho, e a beleza nova do Parque Feliciano, e a visão extraordinária de parte da cidade a partir do oitão da prefeitura, na praça Frei Caetano. A mesma foto que ilustra está crônica.

        Minha minúscula participação nesta história secular da cidade está nas páginas do romance O último café do Coronel, cujo personagem central me inspirei na importante figura histórica do Coronel Zé Abílio, em que ele é o condutor da narrativa. Neste livro temos um apanhado histórico, politico, social, das disputas, dos costumes, das amizades e inimizadas que ocorreram na cidade de 1911 até 1982. 

         E se passou 50 anos, com o coração rodando pelas ruas da infância e da juventude, das paqueras e dos jogos de futebol que enfeitaram meus sonhos juvenis.

         Por hoje, é só.

        

        Abração e ótimo Carnaval.


        Marconi Urquiza 

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