sexta-feira, 6 de março de 2026

Existimos: A que será que se destina?


Viktor Frankl
 

        Começou, começou, começou aquilo que muitos refugam, mas têm uma apaixonada, apaixonada reação ao ouvir opiniões contrárias.

        Às quartas-feiras a gente tem uma roda de conversa após o futebol, se fala sobre quase tudo, principalmente futebol, conversas avulsas, de tudo que era tipo, durante muito tempo, um certo tipo de assunto não chegou a aparecer. Aquela tema que separou muitos amigos e famílias, mas nesta última quarta-feira alguns minutos de conversa sobre política e políticos se insinuou. 

        Hoje lembrei-me de Jessé Souza: Será que há tantos ressentidos assim? Ou na vertente de Michel Alcoforado, em uma variante da cultura brasileira apresentado no livro Coisas de Rico, que cada brasileiro tem o seu rico de estimação.

        Será que cada brasileiro tem o seu político truculento, mentiroso, desonesto de estimação?

        E o papo começou a rolar na direção dos políticos e iria passar para o tema eleição presidencial, porém, em alguns minutos, chegou um amigo, super bem humorado, brincalhão como ninguém e sem perceber desviou o assunto.

        Creio, nas próximas semanas deverá voltar mais forte. Talvez, talvez venha tão radical quanto foram nas últimas duas eleições. Isto fez me lembrar da mente que vai sendo moldada pela repetição, pela expulsão das formas de refletir sobre as situações. Pelos algoritmos. A respeito destes programas, é vezeiro, que eles têm direção e intenções e; não é a democracia, a pluridade sadia de pensamentos e visões de mundo. Até compreender isto pensava que estes programas das redes sociais eram apenas um fator de negócios, de venda, de audiência; me fazendo recordar é que preciso saber qual é a intenção de quem pronuncia um pensamento ou age de certa forma, a tal ponto que recapitulei uma frase, que não recordo a autoria, e, em contexto, diz assim: Não tem ciência neutra, apesar dos métodos científicos, porque ainda perdura no pesquisador a sua subjetividade.

        Quando jovem ouvi um comentário sobre um certo candidato, político profissional, que teria dito sobre ele mesmo e sobre os eleitores: Quem tem que se apaixonar é o eleitor, político que se apaixona pela eleição perde. Creio que perde a perspectiva da batalha, que tem que começar bem antes, cega diante das evidências de uma campanha ou situação ao se portar como um apaixonado.

        Nesta quinta-feira, finalzinho da tarde, com as luzes sumindo na noite, comecei divagar diante do curto papo, de um indício ainda fraco, menos fraco que antes de 2018, e que me fez fazer uma analogia para a frase da canção Cajuína, de Caetano Veloso: Apenas a matéria vida era tão fina e peguei outra frase emprestada para trazer aqui nessa dúvida: Existimos: A que será que se destina?

        E será que vamos transformar a amizade, apenas a matéria vida - "amizade' - era tão fina. Tão fina, tão frágil, tão desprezível, tão desprezível em nome de uma convicção que vem sendo imposta sutilmente por um atributo mental regressivo externo.

        E vamos existir assim? Existimos: A que será que se destina? À briga, a perda desse bem, à solidão, a repulsa social. Ou algo tão humano quanto isto que escrevi, mas, mais grandioso, enaltecedor da vida em paz quando respeitamos a amizade e o convívio familiar. 

        Como se leciona na disciplina Inteligência Competitiva: Atenção para os sinais fracos, ele podem ser um prenúncio de uma perda. Esses são os sinais fracos que percebi no momento.


        Bem, por hora, é só.  

        Abração, Marconi Urquiza.

        

VIKTOR FRANKEL - Psiquiatra, neurologista. Sobrevivente de um campo de concentração nazista na segunda guerra mundial e ele escreveu sobre este período no livro: Em busca de Sentido

        Em resumo: Trata da busca por um sentido para a vida. Ter um sentido para a vida transforma a pessoa e salva de uma morte precoce.

        

        

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Uma frase que fez pensar

Extraída do Google.

            Até aqui nos ajudou o Senhor.
Esta uma frase bíblica. Samuel 7.12.

        Na versão católica a frase é assim: Até aqui nos socorreu o Senhor. 

        No primeiro momento que li esta frase me pus a pensar. Pensar como uma fé condicionada, com limite ou com um quê de conformismo. Nisso fui ler o restante do versículo para tentar compreender o contexto da mensagem ali inclusa. 

        ¹² Então tomou Samuel uma pedra, e a pôs entre Mizpá e Sem, e chamou o nome dela Ebenézer; e disse: Até aqui nos ajudou o Senhor.
        ¹³ Assim os filisteus foram abatidos, e nunca mais vieram aos termos de Israel, porquanto foi a mão do Senhor contra os filisteus todos os dias de Samuel. 

        1 Samuel 7:12,13

        Fiquei lendo, relendo, tentando compreender o contexto histórico e não alcancei a compreensão. 

        Depois li tudo o capítulo 7 e, nele traz a história de um ataque dos filisteus ao povo de Israel antigo e eles foram a Samuel para que pedisse ajuda ao Senhor, que ouviu Samuel e fez os filisteus fugirem. Este é um resumo da minha interpretação.

        Seria gratidão por ter tido os filisteus (um povo da antiguidade) afastados?

        Haveria uma mensagem subjacente?

        Nos dias atuais seria uma reforço ou a força da fé com a realística consciência que o Senhor pode parar de ajudar?

        Que esse apoio tem limites ou nem sempre está ele está para ajudar?

        Na semana passada acabei por recordar uma imensa dificuldade profissional e o medo avassalador que sentia naquele 1998. Me acabava na oração, lia e repetia o salmo que traz uma oração de fé: o senhor é meu pastor e nada me faltará. Foram meses nessa angústia e a situação não melhorava. Estava longe de mim compreender a complexidade daqueles tempos e parecia que vivia em um loop de problemas.

        Aquilo tudo precisava de uma solução e não estava exclusivamente na oração,  nem no medo, mas no primeiro passo libertador,  que levou ao segundo, ao terceiro e em alguns meses as dificuldades começaram a virar bons resultados e uma fé diferente foi ganhando corpo no meu espírito,  a fé da confiança, do acerto e do cuidado para não retroceder. 

        Passada está fase de luta, a vida prosseguiu e muito anos depois vejo a chamada e assisti duas vezes ao trailer do filme O Julgamento de Deus - Deus no Banco dos Réus e não tive coragem de assisti-lo. Mas a história contida naquele longa metragem traz o choque entre a fé dos Judeus e a realidade de estarem em um campo de concentração nazista. É um filme que suscita muita reflexão, não apenas pelo contexto daqueles fatos, como para a própria vida diante de situações extremas.

        Meses depois vi uma péssima cópia do filme no notebook, o que se salvou nela foi o som, bom e bem dublado. 

        Fui até o final, apesar do incômodo emocional. Em certo momento os judeus montaram um tribunal. Defesa, acusação, juiz, ministério público. Testemunhas.

        Uma frase, depois de tantos anos, se fixou em minha memória, não recordo com exatidão, um dos julgadores de Deus disse no filme, algo assim: Nós somos o povo escolhido por Deus e por que estamos aqui? Ali no campo de concentração para serem mortos. Um choque brutal.

        Agora chegamos ao presente,  parece que as guerras em que pessoas matam em nome da fé reduziram as suas eclosões, mas a semente continua adormecida a espera de um momento propício para fanatizar pessoas. Tem um ponto que despertei a observar nas pessoas após ler Pobre de Direita - a vingança dos bastardos, que é o ressentimento. Esse sentimento é poderoso para uma ação violenta.

        Mas ontem, quando li na logomarca de uma empresa, em um adesivo colado na porta de um caminhão a frase: Até aqui ajudou o Senhor, pude compreender que no Brasil, grande parte dos crentes de qualquer credo tem essa Fé no Senhor como indivíduo, às vezes ou muitas vezes é tão forte e viram alvo da manipulação dos falsos profetas. 

        Em tempo: a minha fé é na bondade das pessoas. Tem pessoas bondosas e poucos sabem, tem as maldosas e muitas sentem.

        Para finalizar, tenho uma profunda admiração pelas pessoa que têm fé,  elas são diferentes. 

        A esse respeito pude ser partícipe de um grupo de orações.  Lá por 2000 uma colega de faculdade foi acometida de câncer de mama. E, em certa noite, outra colega chamou quem queria orar para ela, fui, gosto de ser solidário e fui. Noite a noite rezamos o Pai Nosso de mãos dadas. Aquela roda de oração fez sua energia chegar àquela colega que estava distante de nós cerca de 450 quilômetros, tratando da doença. Após a cura, ocasionalmente revelei que nós fazíamos essa oração, se a memória não falha, ela comentou: Era por isso que eu me acalmava. 

        Foram atos de fé,  de abnegação e de despreendimento. Orar pelo outro nada mais é que isto, despreendimento. É dar de si sem buscar retorno. 

        Bem, por hora é só. 

        Abração, Marconi. 






sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Sem dominação simbólica não existe capitalismo,

 



        A primeira vez que me aprofundei neste ponto da "dominação simbólica" completou 15 anos. Estava enrolado na redação da dissertação e, pior, com as ideias confusas, sem clareza de qual tema desenvolver. O tempo corria rápido e olhava para a mesa daqui de casa, 1,80m de comprimento por 1,00 de largura, abarrotada de artigos, fotocópias de teses e desertação, fotocópia de trechos de livros e minhas anotações. Olhava aquilo tudo e não sabia como organizar o tempo e o texto da dissertação. Estava mais para o que o romano Cícero lecionou: "Para quem não sabe aonde vai, qualquer vento serve." Essa era a minha realidade naquele 2011.

         Tempos antes havia esbarrado em algum artigo sobre métodos de gestão de pessoas que falava do Toyotismo. Um método de produção just-in-time, entre outros pontos. Neste artigo o autor citou sobre a subjetividade do Toyotismo. 

         Naquela situação da organização da dissertação o orientador havia me emprestado um livro que aprofundava sobre a subjetividade no trabalho. O domínio simbólico da empresa sobre seus funcionários. 

        Nele, o autor não expressava claramente, mas em suas páginas sugeria sobre a Meritocracia, por exemplo. Método que estimula que, trabalhando duro, você alcança o que deseja. Nem é todo mentira, nem é todo verdade, mas está mais para ludribiar a maioria das pessoas que se guiam e se guiaram pela Meritocracia. Bem, para mim, só pude compreende-la bem depois como mais uma forma de dominar a subjetividade de uma pessoa, há várias.

        Tratei de ler o livro, com todo cuidado que um estudante deve ter ao se deparar uma obra que pode lhe abrir as portas para fazer um trabalho acadêmico de porte. E fui lendo e, fui me assustando, me vendo envolvido em cada estratégia daquelas mencionadas no livro. Fui me vendo naquele Banco do Brasil, de 2010 a 2015, onde tudo era feito para sequestrar a nossa subjetividade, de modo que qualquer meta, por mais pesada que fosse, a gente acharia um modo de entregar o "número" (como uma coisa menor, quase irrelevante, simples, etc) e acreditar que com isto conquistaria a meritocracia sugerida pela empresa.

        Lendo o livro O Poder das Orqanizações a minha vida ficou em revista durante muito tempo, muito. Por exemplo, neste livro o autor mostrava que uma empresa norte-americana fazia eventos que lembrava a um culto religioso, isto estava em suas páginas de modo explícito com o título: A religião.

        Comecei a correr a memória para um tempo mais próximo. A captura da camisa da seleção brasileira em prol de uma corrente política, o desvio dos ilícitos com as brigas constantes e acusações falsas reiteradas, capturando a atenção para olhar para o outro lado e não para o lado onde estes ilícitos estavam ocorrendo.

        Já havia lido o livro Pobre de Direita, onde Jessé Souza esmiuça a questão do ressentimento, como isto foi explorado politicamente, a ponto de que comecei observar com maior atenção este sentimento em pessoas com as quais convivo. Um negócio de muitos tentáculos, desde o âmbito pessoal, quanto na economia em geral, da falta de oportunidades e da negação em geral dos direitos, como educação, etc.

        Depois de muito relutar comprei outro livro: Por que a esquerda morreu? E o que devemos fazer para ressuscitá-la, também de Jessé Souza. A capa é vermelha com letras brancas, pretas e amarelas. Na contracapa vem a frase: Sem dominação simbólica não existe capitalismo. A cor de fundo é amarela. A frase com esta cor de fundo representa um forte aviso, um alerta vigoroso. É simbólico. 

        É um livro pequeno, com 138 páginas, mas que exige uma leitura lenta para que se capture e compreenda corretamento o que está lendo. Sobretudo, reflita sobre o que leu.

        Voltando ao início da crônica - A Meritocracia - foi mais uma estratégia que o capitalismo dominou o simbolismo do esforço, hercúleo, pessoal, de tal forma que a longo prazo criou uma ilusão. Não tinha vaga para todas as pessoas.

        O que o livro nos coloca é que o capitalismo é mutante, um camaleão enorme, que vai açambarcando todas as manifestações de repulsa, inconformismo, revolta da população e, vai a amansando para seus interesses.

        Para quem goste do assunto, sugiro a leitura deste livro e do livro Pobre de Direita. Duas leituras, independente da crença, ou descrença, da posição política ou da neutralidade, que podem ajudar na compreensão dos últimos 10 anos no Brasil.


        Por hora, é só.

        Marconi Urquiza



        

        

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

E se passou 50 anos

 

Foto captura no Facebook de Laércio Souza

         Por um motivo relevante, acabei indo a Bom Conselho, cidade onde nasci, 50 anos depois de ter saído dela para estudar em outra cidade.

        Naquele fevereiro de 1976 fui estudar no Colégio Santa Sofia, em Garanhuns (PE). Colégio que ainda mantém a sua missão de educar os jovens. Naquele ano, haviam três grandes colégios privados na cidade: o Colégio Diocesano, o Santa Sofia e o Colégio XV de Novembro (Presbiteriano). Em comum, foram todos eles criados por instituições religiosas.

        Mas, naquele início de 1976, quando saí, era tímido, inseguro e com uma enorme carência e deficiência nas matérias exatas (Física, Química e Matemática). Entre o Colégio de Bom Conselho, que era uma escola referenciada na época, e o Colégio Santa Sofia, havia um mundo de distância. Para mim, um enorme desvio a ser superado, um degrau absurdamente alto que não consegui transpor.  Deficiência nessas disciplinas que nunca supri.

        Alguns pontos, entre muitos, foram marcantes, destaco. Desapegar da casa e me adaptar a viver em uma pensão, apenas entre adultos. 

        Outro ponto: o deslocamento de Garanhuns para Bom Conselho e vice-versa era muito ruim. Aos sábados, havia poucos carros particulares de passageiros, e o ônibus era depois de 10 horas da manhã. No domingo era obrigado a sair cedo, havia um ônibus pela manhã e outro 10 horas da noite. Só depois de vários meses é que comecei a ter carona do gerente da Caixa Econômica Federal de Garanhuns, Álvaro Gomes, que saía de Bom Conselho às 5 horas da manhã a cada segunda-feira.

        O terceiro ponto da jornada em Garanhuns foi a experiência com a professora de Português do Colégio Santa Sofia.  Todos os dias, olhe! Todos os dias ela aplicava um ditado; treinamos essa forma de redação o ano inteiro, e eu gostava disso. Já tinha alguma habilidade para escrever, pois no Colégio Frei Caetano de Messina, em Bom Conselho, também tínhamos esse tipo de treinamento. Com o tempo, comecei a inventar alguns textos.

        E uma saudade cavalar que levei anos para superar. 

        A história correu e eis que estou novamente em Bom Conselho. No último sábado dei uma passeada rápida pela cidade; no centro e nas ruas adjacentes ela parece a mesma, mas não é. Não é a mesma cidade das minhas lembranças. As pessoas mudaram, novas pessoas chegaram ao mundo, sou um estranho para 99,9% delas. A maioria dos meus contemporâneos vivem longe da cidade. 

      As pessoas de hoje ignoram sobre a história ocorrida durante 1982. Não sabem que o pau cantou e que ocorreram mortes na disputa política em que papai acabou assassinado.

        Neste 07 de fevereiro de 2026, sábado, ao sair com meu cunhado Washington comentei para ele, faz 50 anos que saí daqui. "50 anos?" 50 anos. "Muito tempo." Fui estudar no Santa Sofia, depois fui estudar em Recife e, de lá, fui trabalhar no Banco do Brasil; e a conversa terminou.

        Até 1987 pensava muito em Bom Conselho. Depois, fomos para Tabatinga, no Amazonas, e essa lembrança foi diminuindo à medida que novos desafios surgiam, vencer as circunstâncias, superar a mim mesmo no caminho da sobrevivência física e no Banco do Brasil, que passava por intensa transformação corporativa.

        Posso até me lembrar como via a cidade, mais lenta, menos frenética, com os jovens reunidos na Praça Pedro II, para onde iam se encontrar com amigos e amigas, para paquerar, namorar e para alguns se exibirem com os carros dos pais. Haviam alguns carros com sons altos, mas ninguem imaginaria os paredões de hoje.

        Os bailes e carnavais no Clube dos 30 ainda existiam. A religiosidade católica era muito forte, o padre da Igreja Matriz tinha uma grande influência. Durante os anos 1970 foi uma moda da moças fugirem para casar. Mas há uma tradição que permanece até hoje, virou cultura na cidade, os desfiles de Sete de Setembro. Era e é o maior evento coletivo, social e "afetivo" da cidade.

        Vou repetir: o desfile do dia Sete de Setembro é "o maior evento coletivo, social e afetivo de Bom Conselho". Uma cidade inteira vai assisti-lo, os jovens vão participar, os colégios se enfeitam; e os professores parecem sentir-se mais importantes por coordenarem as equipes. As fanfarras são um mundo à parte.  50 anos depois, isso está bem mais forte.

        E eu nestes 50 anos? 

        Restam muitas lembranças até os 16 anos, outras até os 22 anos, quando fui trabalhar no sertão.

      Entre elas, algumas peculiares como a vigilância que fazia para pegar a primeira fornada de pão na padaria para leva-los em casa e comer um ou dois pães com manteiga, derretida pelo calor deles. Da doideira que era para estar pronto para ir jogar futebol nos treinos do antigo campo da ABA e no Clube dos 30. De contar uns trocados para ir tomar algumas cervejas no Bar do Géo ou no Restaurante Kennedy.

        De marcar o tempo para ir visitar a primeira namorada às 19 horas.  Chegava sempre antes e ficava na garagem escutando a família jantar. Tenho lembranças frequentes da temperatura amena da madrugada e do final da tarde, após escurecer. Em Bom Conselho, a partir das 17.30h começa correr um ventinho gostoso entre as serras e vai amenizando o calor do dia.

        E, fisicamente, fui de 68 para os atuais 104,5 quilos. Mentalmente, nem sei o que dizer. Bom! Aprendi a escrever.

        Saltando dos 16 para 66 anos, com um romance escrito cujo enredo foi inspirado na secular história da cidade, onde, especialmente, as lembranças de um período de 14 anos afloraram, de 1968 e 1982, que se juntaram às muitas leituras sobre o espírito nordestino, especialmente o espírito da disputa política. 

        Neste livro não entraram as minhas recordações do jovem que brincava com os amigos e amava jogar futebol na rua mesmo com as constantes reclamações do padre Carício. Também, que eu e os amigos, ficávamos admirando as lindas vizinhas que subiam e desciam a rua Conselheiro João Alfredo; que saia correndo para cobrir o almoço na farmácia de papai. Que que tinha fome por gibi e lia adoiado os livrinhos de bang-bang e por aí vai.

        Agora, em 2026, Bom Conselho é uma nova cidade, com outro dinamismo, com a beleza antiga e singular da Igreja Matriz e do colégio Nossa Senhora do Bom Conselho, e a beleza nova do Parque Feliciano, e a visão extraordinária de parte da cidade a partir do oitão da prefeitura, na praça Frei Caetano. A mesma foto que ilustra está crônica.

        Minha minúscula participação nesta história secular da cidade está nas páginas do romance O último café do Coronel, cujo personagem central me inspirei na importante figura histórica do Coronel Zé Abílio, em que ele é o condutor da narrativa. Neste livro temos um apanhado histórico, politico, social, das disputas, dos costumes, das amizades e inimizadas que ocorreram na cidade de 1911 até 1982. 

         E se passou 50 anos, com o coração rodando pelas ruas da infância e da juventude, das paqueras e dos jogos de futebol que enfeitaram meus sonhos juvenis.

         Por hoje, é só.

        

        Abração e ótimo Carnaval.


        Marconi Urquiza 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Auxiliar técnico

       


         Em certo momento eu me convidei e não fui, em outro momento fui convidado e não compareci, agora fui convidado de novo e fui.

        E fui, fui nesta quarta-feira acompanhar o treino do time de futebol minicampo 65+ da AABB Recife. Fiquei observando o time jogar, a movimentação, o posicionamento, as falas e os "técnicos" em campo. No bom e no mal sentido. Do humilde ao que se acha.

        Observei sentado, depois de um tempo senti que deveria anotar, se não, esqueceria. Me pus a anotar alguns pontos.

        Queria trazer um contexto, o meu negócio sempre foi jogar futebol, tive a experiência de um dia como árbitro, deixei. Não iria me diverti. Nunca cogitei ser técnico, embora em algum momento dos últimos 23 anos fiz estudos para entender melhor o futebol e poder fazer comentários de jogos para Rádio Integração FM.

        O início como comentarista diletante foi penoso, eu não enxergava nada, nada do jogo, do seu desenvolvimento, do posicionamento, da percepçao, do fôlego, do humor dos jogadores. Eu era, como milhões de pessoas, uma pessoa que gostava de ver um bom jogo de futebol. 

        Sendo um típico torcedor, comecei a querer olhar o jogo com aquele visão de quem ver a partida com a percepção mais técnica.  Quando mais melhorava nisso mais difícil ficava ver um jogo do meu time preferido - o Sport Recife. Houve momentos em que percebi que o time estava desencaixado -  na gíria dos iniciados no  futebol. No popular, quando percebia que o time estava desarrumado, mudava de canal. A sensação que iria ser derrotado me incomodava.

        Passada essa fase, deixei de comentar na rádio e perdi um pouco o olhar técnico.  É muito melhor ver o futebol como espetáculo, show, apreciar a arte, a técnica, a inteligência e as jogadas dos atletas. Mas um olhar treinado não nos abandona, mesmo sem julgar o que vê, a gente que adquire alguma expertise continua a ver detalhes em partida de futebol.

        Feita essa contextualização, vamos para o treino do 65+. Em certo momento, na segunda parte do treino uma jogada de ataque se desenvolvia e se desenvolveu muito bem, até que um dos jogadores se irritou e deu às costas para a jogada justamente quando o passe foi dado para ele. Deu às costas e saiu reclamando. Um dos atletas se voltou para mim e disse: "Expulsa ele". Na hora que ocorreu, deu a mesma vontade, me contive. Naquele treino era só para observação. Juntarei mais observações no futuro se sentir que poderei contribuir e tambem se houver clima para tal, aí mudarei de observador para auxiliar técnico.

        Alguns pontos para reflexão, principalmente para mim. Liderança e poder formal. No sentido que liderança é o poder concedido por uma equipe, é fundamental ter em vista da característica do time. E o poder formal é naquele sentido que a organização concede o poder para o técnico agir.

        Liderança depende de mim, de algumas condições, habilidade e proximidade. Poder, se houver, me será concedido. Terei. Se terei, haverá ambiente institucional para usar? Haverá igualmente suporte da direção do clube? Prefiro desde sempre agir com o poder da liderança, é sempre mais fácil e mais leve.

        Passado este ponto da liderança mais poder, temos o aspecto mais técnico e disciplinar (poder). Já conheço os jogadores há muito tempo, alguns são mais técnicos no sentido tático, outros mais habilidosos com a bola, outros pelo fôlego. O futebol tem no seu dinamismo a sua grande magia. Se de repente, um jogador faz uma jogada espetacular, é preciso levar em conta que há outros jogadores em campo que podem ter dado condições para tal.

        Os deslocamentos em campo são naturais no futebol. Em certo momento, um jogador pode estar na esquerda, ou no centro, ou mais à direita na mesma jogada e isto é fácil no minicampo. A questão é como o time está organizado para suprir esses deslocamentos, como os outros jogadores fazem para evitar que tal deslocamento abra a possibilidade do adversário ganhar o jogo.

        Este é um preâmbulo para algumas observações que anotei no treino da última quarta. Vou escrever conforme a minha lembrança for alimentando este texto.

        — Não treinamos, jogamos mais uma pelada. No sentido que treino é um ensaio para um jogo, um campeonato, um torneio. Em uma competição temos dois tempos.  Na última quarta os jogadores se desgastaram prematuramente correndo demais.

       — Segundo ponto. Nenhuma conversa como se irá jogar, o que se fará nas jogadas paradas, como se dará cobertura, como será a transição para o ataque e para a defesa. Pouco diálogo prévio e muito menos quando a bola estava em jogo. Não é esquema tático, isso é necessário, talvez seja sofisticado para nós. Mas precisamos sim, dessa conversa para que o jogo seja coletivo. 

      — Terceiro ponto, a maioria está com pouco fôlego. Isto requer melhorar bem.

      — Posições no time.  Cada posição tem movimentos básicos a serem respeitados. Por exemplo: um defensor vai ao ataque e deve ir, mas perdeu a bola, ou a bola foi para o adversário, o reposicionamento é necessário e imediato para não sobrecarregar outros jogadores e evitar tomar o gol ou uma derrota. Isto vale para ataque, meio de campo, goleiro. Ver o jogo jogando é muito difícil, requer treino, acuidade e um esforço deliberado, mas é possível.

       — Em muitos momentos fomos para o ataque, mas o passe era ruim. Em outros momentos, era só correria, uma condução de bola na vertical sem pensar em passes laterais e também de chutes de meia distância. Temos um jogador alto e que cabeceia bem, nenhuma bola foi lançadapara Luciano tentar o cabeceio. 

     — Se treino é para ensaiar algumas jogadas, criar conjunto, saber como a equipe deve desenvolver o jogo, a gente precisar aceitar criar algumas jogadas artificialmente para realizar estes ensaios. Em alguns momentos, no passado, isto foi tentado, mas a reclamação venceu a boa intenção.

     — Somos todos amadores, isto é um fato. Somos todos voluntários, outro fato. Estamos ali por que amamos jogar futebol. Tens uns melhores, outros nem tanto, mas uma equipe se forma por um  conjunto de competências. Quer ver, um ótimo atacante com frequência é um péssimo marcador. Um defendor fabuloso muitas vezes não tem reflexos para agir com a rapidez de um atacante. Para um time virar uma equipe há que se ter respeito pelo próximo. 

        "Experimentemos orientar, em vez de gritar!:

         Então vamos nos divertir, vamos pensar coletivamente, pois estou com o objetivo de trazer a medalha de ouro de Belo Horizonte. Estívemos perto duas vezes. 

        Para finalizar, a gente não sabe como os outros times jogam, mas devemos saber como nós jogamos e os treinos são para isso.


        Por hora, é só.

        Abração, Marconi Urquiza

    

    


        

        


sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Inquietação - Teremos tempestades de misseis?

 

Porta  avisões chinês - Fonte Carta Capital - Foto: Handout / various sources / AFP.

       

        Desde de a última segunda-feira estou inquieto. Por esses desvãos da mente, de repente surgiu uma analogia que me assusta. Trata-se de um personalidade má, que se juntou a muita outras pessoas más, que queria "um reino" para 1.000 anos. Tentou um golpe, entrou pelo voto popular e pelo medo do comunismo, com agressividade desmedida pelos seus aficcionados e tumultos em cima de tumultos. 

        Elegeu uma parte da população para direcionar seu ódio interior e a crença que todos os males econômicos se deviam a essa parcela da população, isto como modo de unir a massa, e uniu. Fez da comunicação uma forma de convencimento para as ações, basta ver os eventos gigantescos de Nuremberg. Queria respaldo da opinião pública, também fez do medo a sua arma de dominação interna. 

        O que há hoje? Os emigrantes na am. do norte viraram esse público para alimentar o ódio.

        Esse "reino do século XX" em poucos anos era uma potência militar sem precedentes, logo absorveu partes de outros países que falavam a mesma língua, depois escolheu um país para invadir, grande e fraco militarmente, foi como uma faca quente sobre a manteiga. As defesas derreteram em poucos dias.

        Vamos para o presente, a  chamada para a campanha eleitoral era "Am.... grande de novo". Tentou um golpe e fracassou, foi para justiça, se provou que era culpado, mas foi deixado concorrer, ganhou a eleição. Com discurso que parecia de falastrão, partiu para a prática agressiva, tarifas de importação, apoio à destruição da Faixa de Gaza. Quem sabe se ali não testou muitas armas? 

        Aquela figura má do primeiro parágrafo deu apoio bélico incondicional ao Generalíssimo Franco, na Guerra Civil Espanhola, de 1936. Experimentando seus aviões e técnicas de bombardeio, treinando seus pilotos e experimentando armas.

        Vamos para um paralelo incômodo, invadiu a Venezuela, entrou no país como faca quente na manteiga, sequestrou o ditador e colocou as mãos nas reservas de petróleo. Vai expandir o país para a Groenlândia diante de fraqueza militar do Dinamarca e da Otan. Teme uma invasão de misseis pelo norte, como se soubesse que uma guerra brutal estivesse sendo gestada nas entranhas das mentes ávidas pelo poder mundial.

        Trata a Rússia como inimiga, afaga vez por outra seu ditador, diz que quer a guerra dela com a Ucrânia termine, mas, creio, acha bom que os seus recursos sejam constantemente gastos. Ficará enfraquecida? 

        Tem outro inimigo gigante, quer derrubar a China, mas por hora, é obrigado a respeitar.

        Trata os demais países como crianças para levarem chineladas por capricho, enquanto isso, guerreia no subterrâneo da internet, provocando colapso na infraestrutura de muitos países.

        A sensação, é que uma guerra enorme, militar, esteja para ocorrer em algum momento. Tal qual o espírito daquele homem mal da Alemanha Nazista tivesse tomado conta da alma de alguém, que só parará com a destruição de muita gente, até de si mesmo.

        Para mim, importante, prestem atenção nos discursos dele. São a antessala de ações que estão sendo planejadas, são aviso de tempestades que estão para ocorrer. Ele mesmo é o sistema meteológico da catástrofe política.

        Pelo que li, em breve o Irã receberá essa tempestade.

Bem, por hora é só.

Abração, Marconi Urquiza.

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

O poder revela ou transforma uma pessoa?

 

imagem: Orlando/UOL.

         Um papo na última segunda-feira entre aposentados do Banco do Brasil que tiveram poder concedido pela empresa, sendo quatro ex-auditores e 2 ex-administradores de agência, provocou esta crônica. Durante algum tempo o assunto versou sobre se o poder e o dinheiro revela a personalidade de uma pessoa ou se a modifica. O viés não foi dito, mas esse viés era sobre a prepotência, maldade, vaidade.

          A maioria não opinou, ficaram pensando. Evidente, poderia ter havido a mudança pelo lado positivo, mas isto não estava em discussão.

        A visão de um dos seis, que explicitou a sua opinião era que o poder e o dinheiro, mais para o poder, tinha o força de desmascarar quem é uma pessoa, a sua índole, ter atitude que sempre quis ter e não fazia por que lhe faltava o poder. 

        Nós ficamos ouvindo os argumentos e certo momento opinei que o poder pode apenas mostrar a face ou perfil de quem usa o poder para se locupletar, ou e, também, para oprimir, para praticar o mal, para se sentir respeitado, impor a sua vontade, e ou, para demonstrar para os seus pares que é o cara. É necessário observar que o meio de convivência pode influenciar comportamentos não tão santos. Insisto nisso, por que este foi o víes daquele papo.

       Em certo momento opiniei que o poder pode apenas revelar o caráter de uma pessoa, como ocorreu com milhões no Brasil desde 2018 ao se sentirem empoderados por uma corrente de pensamento comunicada à exaustão. 

        No mesmo momento, argumentei que o poder pode modificar uma pessoa. Pode ocorrer para muitas pessoas se sentirem como Deus, dono da vida e morte de alguém. Por exemplo: muitas vezes quem tem uma arma na mão tende a exagerar uma palavra como uma ofensa e reage brutamente, na maioria das vezes, bastaria o silêncio. Ou a pessoa se enche de confiança, como se o mundo fosse dela e de mais ninguém.

        Ou a organização lhe concede tanto poder, que sem um freio institucional, esse poder vira um tirania. Ou se no seu meio, um padrão violento de exercício do poder é aceito, aquele indíviduo de repente para ser aceito, faz o "que todo mundo faz", por exemplo, ser agressivo em uma gestão.

        Penso que o mais comum em quem galga o poder é se tornar vaidoso. Às vezes fica tão cheio de certezas que não consegue escutar os avisos que correm em qualquer ambiente. Sejam explicitos ou não. 

        A palavra voltou ao interlocutor, que parecia querer dar um recado para os presentes, que poderiam ter conhecimento de algum pormenor entre esse interlocutor e algum dos demais.

        Aí, sem ter compreendido a percepção do parágrafo anterior, argumentei que entre a cor branca e a cor preta tem uma vasta área cinza. A pessoa pode ser má e o poder dar-lhe um impulso irrefreável para praticar a maldade, ou se a sua arrogância é velada, com o poder se sente à vontade para mostra-lá sem pudor, entre outros comportamentos.

        Durante o tempo que ocorreu naquela conversa eu interpretei que os argumentos  que aquele interlocutor trouxe à mesa versava sobre si mesmo, talvez sim, talvez sim indiretamente, mas a compreeensão ao final deste texto mudou de lado, o papo ali e a insistência fez alterar a perpepção de que havia ali um desejo de dar um recado e obter uma confissão de um dos presentes que praticou o mal por ter tido poder.

        Para encerrar, vou trazer uma frase que me encantou e encanta até hoje pela sua significância para mim:

         "Quando Pedro me fala de Paulo, sei mais de Pedro do que de Paulo". Se a sentença foi realmente proferida por Freud, não se sabe. Entretanto, o significado da mensagem faz sentido. Yannik D'Elboux (UOL, 19.08.2014).

            Bem, por hora é só.

            Abração, Marconi.

         

A Previ e o Banco Master: a diferença entre Déficit e Rombo

 



Por Djalma Xavier.

        Pra começo de conversa, trago dois personagens que tem algo a nos ensinar e ilustram bem as questões principais abordadas nessa crônica.

        Antônio Vaqueiro, meu avô, já dizia em meados do século passado: “O olho do dono é que engorda o boi”. Ele não sabia nada de investimentos, mas sabia cuidar do seu patrimônio, que se resumia a 2 juntas de bois de arado e uma dúzia de vacas mestiças. Sua poupança era seu pequeno rebanho. Em sua sabedoria sertaneja, acrescentava ao adágio popular: o cuidado e a vigilância do vaqueiro é que evitam que o boi seja roubado e que a vaca vá pro brejo, literalmente.

        Ivan Sant’Anna, ex operador do mercado de capitais, escreveu o livro “Rapina”. É ficção, mas acredito que o autor pode ter se inspirado fatos reais, visto que trabalhava na área. Tem como pano de fundo a bolsa de valores na década de 90 e detalha como corretoras lesavam os fundos de pensão em negociações de ações, com base em informações privilegiadas e corrupção de agentes públicos.

        Por incrível que pareça, as histórias reais de “Seu” Antônio Vaqueiro e a ficção de Ivan Sant’Anna servem de alerta para nós beneficiários da Previ e se relacionam com o rombo do Banco Master. É de domínio publico que fundos de pensão são frequentemente alvo de tentativas de negociatas danosas aos seus patrimônios e associados. No caso da Previ, o olho do dono, ou seja, nosso olhar, nosso cuidado com nosso patrimônio é fundamental. Talvez esse seja nosso diferencial e, juntamente com nosso estatuto e governança, é que permitiram que nosso fundo de pensão tenha sobrevivido relativamente ileso a tentativas de uso político e evitado alguns investimentos de alto risco, como por exemplo, em CDB’s do Banco Master.

        Vamos aos fatos: Está estampado na manchete do jornal Folha de São Paulo, em sua edição de 25.11.25, “18 fundos previdenciários investiram R$ 1,86 bilhão no Banco Master”. Verifica-se, ao se ler a reportagem completa, que o nome da Previ não aparece na FSP, nem em nenhuma mídia relacionada a fraude em tela. Conforme portal de transparência da entidade e declaração da diretoria da Previ, não houve nenhum investimento em papéis do Banco Master.

        O Déficit da Previ, ocorrido durante exercício de 2024, foi denominado apressadamente pela mídia como ‘O ROMBO DA PREVI’, amplificado e alardeado exaustivamente, especialmente pela CNN. Entre fevereiro e março/25 o site da CNN noticiou quase que diariamente o que seria o rombo ou o roubo do século na Previ. Não se dava ênfase alguma ao que dizia a outra parte, no caso, a diretoria da Previ. Eles não estavam interessados na explicação de que os papéis de renda variável flutuam de acordo com o mercado e que as aplicações em Títulos do Tesouro Nacional também variam para baixo caso as taxas de juros subam, como era o caso. Um certo ministro do TCU abriu uma auditoria no dia 11.02.2025, e, com ajuda da mídia, o presidente da Previ foi massacrado publicamente, julgado e condenado, sem direito a defesa.

        Percebe-se a parcialidade da CNN, que publicou no seu site no dia 15.02.25, o seguinte: “Para Jorge Boucinhas, professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV/EAESP), a principal questão em debate é se o rombo resulta de gestão inadequada ou de atos ilícitos, como corrupção. A Previ é comandada pelo sindicalista João Luiz Fukunaga.”

        Houve até um certo deputado, fritador de hambúrguer em Miami nas horas vagas e oportunista em tempo integral, que aproveitou o ensejo e desceu o sarrafo na Previ e no BB, com óbvios objetivos políticos.

        Passado um tempo, verificou-se que realmente o déficit da Previ era decorrente de flutuação normal de mercado, que não havia rombo de R$ 14 bilhões e que o valor real do déficit acumulado era de aprox. R$ 3 bilhões, ao final do ano fiscal de 2024. Desde então, passaram-se 10 meses, e o resultado acumulado da Previ até o mês 10/2025 é superavitário em R$ 9,48 bilhões. A carteira de investimentos da Previ cresceu aproximadamente R$ 14 bilhões no ano de 2025, atingindo a cifra de R$ 239 bilhões.

        A mídia estrategicamente esqueceu do assunto, pois divulgar resultado positivo não dá ibope. A CNN também não toca mais no assunto. O relatório da Auditoria do TCU para apuração do déficit, ao que tudo indica, não deu em nada. Se houve algum prejuízo para a Previ em função de acusações infundadas, fica por isso mesmo. Dessa forma, coloca-se uma pedra em cima e vamos em busca de outro assunto para desgastar o governo.

        O que realmente foi espantoso foi a reação de alguns colegas, da ativa e aposentados. Posso estar enganado, mas aparentava que estavam torcendo contra a Previ, de quem são beneficiários, dando um tiro no próprio pé. Segundo parte deles, “a atual administração iria afundar a Previ”; “Já vi esse filme antes”, etc. Realmente, no passado, houve prejuízos em outros fundos de pensão e isso pode ter causado essa reação nessas pessoas. Na Previ foi diferente, essas pessoas receberam BET, igual aos demais colegas. Tento ter empatia, mas... Entretanto, ao que tudo indica, pelos números e fatos elencados, essas pessoas estavam equivocadas. Ainda bem, para todos nós.

        Bem, mas vamos ao que interessa. A situação da Previ hoje e as perspectivas futuras. As previsões econômicas costumam não se cumprir ou mesmo macular a fama de oráculo dos analistas econômicos. Mas para 2026, há um consenso que haverá redução da taxa Selic.

        A carteira de renda fixa da Previ se beneficia em um cenário de queda de taxa de juros. Basta a perspectiva de baixa de juros futuros para que o valor de mercado dos títulos públicos ( NTN-B) se eleve substancialmente. O efeito de uma redução na taxa Selic da ordem 2 ou 3% numa carteira de títulos públicos no valor de R$ 166 bilhões é muito positivo no resultado do fundo. Se nos próximos anos as taxas de juros retornarem para patamares civilizados, o efeito no balanço da Previ será fantástico.

        A renda variável vem tendo um resultado consistente, com a alta das ações da Vale, Neoenergia, Itaú e Vibra. Somente essas quatro empresas elevaram o patrimônio da Previ em aproximadamente 10 bilhões de reais, em 2025, sem contar os dividendos.

        Seria ingenuidade, muita ingenuidade, supor que ao longo de sua história a Previ não foi alvo de fraudes e tentativas de ingerência, propostas de corrupção ativa e ofertas de investimentos que, invariavelmente, teriam como consequência prejuízos para seus aposentados. A quantidade de recursos financeiros do fundo de pensão sempre atraiu os olhos dos governantes de plantão. O que fez a diferença em relação a outros fundos de pensão, que tiveram seus fundos dilapidados, foi nossa governança, nossa politica de investimentos e a autogestão. São os próprios beneficiários, que dependem da Previ pra sobreviver, que cuidam do seu patrimônio. Enfim, somos milhares de beneficiários, instruídos e conscientes. Nós que temos de cuidar do que é nosso. Cada noticia que envolva a Previ precisa ser analisada e ter sua fonte verificada. O site da Previ deveria ser visitado com mais frequência e ter seus números fiscalizados por nós. É de nosso interesse. O preço a pagar pela solidez da Previ, que nos garantirá uma aposentadoria digna, é a eterna vigilância.

        E para um futuro mais distante, o que podemos esperar? As incertezas econômicas são muitas. Todo investimento tem um grau de risco, maior ou menor, mas sempre tem. Mesmo os investimentos mais seguros, em títulos públicos, estão sujeitos ao risco país e a um risco de moratória da dívida pública. A médio prazo, isso seria pouco provável, mas, econômica e estatisticamente falando, não seria impossível. Por outro lado, a curto prazo, com certo grau de otimismo, podemos ter esperança de dias melhores. Pode ser difícil, mas não custa nada sonhar: O Superávit deste ano (2025) está garantido e, em um cenário de queda de juros em 2026 e 2027 (possível), com crescimento da Bolsa (imprevisível), há uma possibilidade de recebermos novamente o Benefício Especial Temporário. Esse filme já vi. E gostei.

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

O fofoqueiro

      


         Quando comecei a ler o livro Os Espiões, de Luís Fernando Veríssimo, uma impressão foi tomando conta, páginas e páginas, muitos capítulos, aquelas conversas dos personagens irradiando pedaços de suas próprias impressões e a minha, isto aqui está com jeito de fofoca.

        Aí o passeio pelas páginas escapou para algumas lembranças, como a do fofoqueiro clássico, o malidicente, daquele ainda mais classudo, o que fica levando e trazendo conversas só para ver o "mel" correr solto. Desses eu fugia dos encontros, vai para lá boca fedorenta.

        Mas há o fofoqueiro, aquela meia boca, que só insinua, sabe de alguma coisa que pode desagradar e chega como conselheiro: Olhe, se eu fosse você, fica de olho! De olho em quê? Até imagina que há um interesse, fique só de olho  e solta uma meia verdade e nunca diz nada inteiro, o desejo é ser importante e assim, vai manipulando algumas pessoas.

        Eu gosto mesmo, a quem chamo de fofoqueiro, aquele que chega, quando não tem assunto, inventa um só para nos fazer rir. É o fofoqueiro das invenções, um criador de literatura oral das mais originais. Acho que essa história eu já falei por aqui. Adolescente, chegou um dos fregueses de papai e começou a conversa na farmácia, naquelas horas em que a freguesia não chegava. Conversa animada, cheia e "is", ilustrando cada passagem e arrematou: Você conhece a história de Zé Mole? Conhecia Zé Mole, um ancião que era freguês de papai. Aí contou como ele ganhou o apelido.

        Certa vez, Zé Mole, que era "inspetor de quarteirão" chegou perto de  um valentão que tumultuava uma festa e deu voz de prisão: "Teje preso", o valentão sabecou um murro em Zé e o derrubou no chão, na versão daquele fofoqueiro, do chão mesmo Zé gritou: "Teje solto" e aí Zé virou Zé Mole. O pior é que eu, aos 17 anos, mangando do idoso, falei: Teje preso, teje solto. Resumo: nunca mais ele foi comprar seus remédios na fármacia de papai.

        Aí ontem foi a minha vez, o do fofoqueiro intrometido, do pitaqueiro que entende ou não do traçado. Estou ali, lavando as mãos para ir ao encontro da turma da AABB de Recife, que participa dos jogos dos aposentados em Natal, nisso chegam dois atletas de futebol da AABB Natal. Um deles falou assim para o outro, não sei se eu bebo, se eu beber e tomar um gol eles vão reclamar e aí eu disse de supetão: Homem, vá beber, por que se tomar gol, eles vão reclamar do mesmo jeito. Ainda hoje pela manhã escuto uma das maiores risadas espontâneas que ouvi na vida, o goleiro se desmachou em um riso logo e contente. Parece que aquele pitaco lhe abriu uma gigantesca lembrança saborosa que o fez gargalhar.

        Mas não é mesmo, peladeiro adora reclamar, adora alfinetar uma jogada ruim, adora se sentir o "Pelé" e arrochar no que ele ver de medíocre  no outro e muitos deles, esquecem de se divertir. Nessa horas não digo nada, mas a vontade é dizer: Homem vá se divertir, ora bolas!

        Homem vá beber, por que se tomar gol, eles vão reclamar do mesmo jeito.

        Olhe, não sou fofoqueiro, mas adora ouvir uma conversa mole.

           

        Abração, Marconi Urquiza.

        

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Acordei ouvindo Chuva de honestidade

 



            Depois de semanas sem uma ideia que considerava boa para escrever uma crônica, essa canção me acordou para essa questão:

           — Quando ser honesto?

           — Como ser honesto?

           — Por que ser honesto?

            Respostas variadas, respostas diversas para todos nós, pode ser que haja pessoa que diga não para as três indagações, pode ser que haja seletividade, sim um, duas, não para outra; sim para todas. Não é uma questão filosófica, creio que seja mais de crença, de valores, que seja de cultura. Se se vive em ambiente corruptor, a chance para ser desonesto é enorme. Tal qual se viva em um ambiente violento, para ser violento, para muitos, é um passo.

            Com um simplismo dos nossos tempos, ao se acreditar que a própria ação contra valores da sociedade, contra valores legais, da convivência é bom, é "honesto" para si, não ser honesto não vai tocar a alma de uma pessoa  para agir diferente.

            Quanto aos valores. Valores é um negócio complicado, mais difícil de uma interpretação que a crença, os valores são mutantes, cada época tem os seus valores, cada grupo social também, igualmente mutantes, os que influenciam outras pessoas conseguem, de certo modo, transfundir os seus valores para outras pessoas, se forem bons, maravilha. E se não forem? 

            Aí a canção Chuva de honestida (Flávio Leandro) me levou a uma história antiga, desde a infância. Costumava ouvir de papai essa expressão: honestidade de princípio. Passei anos procurando um interpretação possível, mas hoje achei, não a resposta, mas a compreensão que ele queria dizer, e estava no seu comportamento, respeitoso com as pessoas e com as cincunstâncias 

            Da história antiga venho para o presente. Agora, ontem, hoje pode ocorrer, ocorreu nesta semana e em semanas anteriores. Um dos nossos funcionários chega à casa de uma cliente, de um cliente, e em algum momento é "convidado" a lavar algum estofado sem ter contratado o serviço.

            É uma crença comum que a corrupção só ocorra na busca pelo dinheiro público, pelo poder, pelos dois, pela riqueza fácil. Mas as empresas não dizem quanto perdem com este fenômeno cultural no Brasil, elas não divulgam, não querem obviamente publicidade, pois podem alertar para outra ações corporativas poucas "santas" contra seus clientes.

            A canção Chuva de honestidade é tocante, forte na sensibilização, imensa na mensagem, gigante em significado. Trazendo a frase de Thomas Jefferson, em que "o preço da liberdade é a eterna vigilância" do povo, dos líderes. Para isto, é todo dia, todo dia. Para a honestidade é a mesma coisa, uma das dificuldades é que vamos naturalizando a desonestidade, ela é corriqueira, muito, mas não deve ser aceita, deve se reclamar, documentar e provar que houve a desonestidade, e sobretudo informar. Com provas, não dar para derrubar com papo e com pressão.

Mas tem mão boba enganando a gente

Secando o verde da irrigaçãoNão, eu não quero enchentes de caridadeSó quero chuva de honestidadeMolhando as terras do meu sertão
            
            Tem um livrinho, que li já faz um bom tempo, O efeito lúcifer - como boas pessoas fazem coisas más, nele o autor fala do "canto do sistema", que ele vai se insinuando e sem perceber se pratica coisas más. 

            Em outro livro, que não consegui ler completamente, pois o assunto, de tanto ler a respeito havia esgotado "meu estômago para coisas ruins", mas vale a pena ser citado: Crer e destruir - os intelectuais na máquina de guerra da SS nazista. 

            São livros que alertam, para nos manter ligados para os cantos da sereia para agir mal

            De toda forma, é uma assunto difícil, que cabe discussão, divergência e reflexão.

            No link, está a canção para quem desejar ouvir.

            Por hoje é só, abração!
            Marconi Urquiza




sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Uma mistura de emoções



        Amigas, amigos, 

            lá no comecinho da Bienal do Livro de Pernambuco deste ano eu fui bater um papo com mais dois escritores sobre o livro O último café do Coronel e os seus livros, naquela tarde de 03 de outubro estava cheio de expectativa, menos de público, já havia visto alguns eventos assim, em que apenas estavam os escritores, o pessoal do som e as apresentadoras da Bienal.  De resto, mais ninguém.  De repente, várias amigos chegaram e eu fiquei feliz. Mas muito inquieto. Começaram as perguntas, as primeiras respondi um tanto toscamente, depois fui ficando mais seguro e mais acostumado com o timbre de voz do mediador, que era baixo. Além de tudo, havia uma poluição sonora que nos impedia de ouvir claramente.

        Depois  que acabou, fiquei mais um tempo na Bienal, andei um pouco, o tempo passou, e em parte comecei a rememorar alguns contextos do ínício do projeto, em que fui a várias pessoas para conversar a respeito do evento que vitimou papai e elas não quiseram, ou não puderam, se esquivaram. Havia passado tanto tempo, e relembrar àquelas dores não era desejado.

        Os dias foram passando e eu, como que encostei o livro em um canto de alguma estante, como se as lembranças mais dolorosas dos eventos provocassem em mim dor, desconforto, e um incômodo que a alma não queira enfrentar. Penso que de certo modo, até ontem, quis fugir da história que eu próprio escrevi.

        Mas de 10 dias para cá a emoção saiu do passado e caiu no presente, nosso cão, o Freud, de 7 anos e meio, anda bem doente. Até julho ele tinha uma ótima saúde. No final daquele mês foi feita nele uma limpeza de tártaro com sedação, a partir daí, como marco temporal, ele apareceu com uma anemia profunda, acelerada, cavalar, beirando à morte.

        Começamos a correr atrás de veterinários, mas um diagnóstico preciso, capaz de ensejar um tratamento correto, ainda não foi feito. Sabe, nós nos afeiçamos ao pequeno animal, ao mesmo tempo que o sentimento de uma perda,  que pode ser próxima, foi crescendo em mim uma desconfiança que viramos uma "mina de ouro", que a cura não é pretendida, afora por nós. Às vezes isto beira a descrença que a doença de Freud não tem cura, mas juntando pedaços de reflexões, que o diagnóstico mais adequado e mais rápido não está sendo feito por uma incapacidade moral ou técnica,  quem sabe?

        Por fim, nesta segunda-feira, percebi no semblante dos funcionários da clínica que havia algo errado, o que só aumentou a desconfiança, aí, na quarta-feira nos avisaram que a amostra de sangue para um exame complexo coagulou, era preciso tirar mais sangue, de quem está muito anêmico? É quase uma irreponsabilidade.

        Em tempo, Freud tomou uma tranfusão de sangue na quinta-feira passada, não melhorou quase nada,  e hoje, também quinta-feira, a sua palidez só aumentou.  Nisso tudo, só uma boa notícia, ele voltou a se alimentar quase normal.

        Mas sabe aquele sentimento que em algum momento fomos ludibriado. Oxalá seja só a frustração de um tutor que não vê o quadro com otimismo.

        Não tem como se desapegar de Freud, temos que ir administrando os sentimentos que ele, a qualquer momento falecerá, se a cura não for encontrada.

        

        Bem, por hora é só.

        

        Abração, Marconi.


        


        

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

Miniditadura

 

        É assunto para um ensaio, vai uma crônica. Aos 5 anos, a ditatura de 1964 começou, zero de noção, lembro vagamente que estava na frente da casa do coronel José Abílio em Bom Conselho, brincando na calçada da Igreja Matriz quando aviões sobrevoaram a sua residência, e ele, já idoso, vestido com paleto preto, sentando em cadeira na varanda de sua casa também observou estes sobrevoos. Ele não tinha poder formal, mas era uma liderança política histórica na região. Mas os novos poderes estavam dando o aviso: temos armas. 

        Na eleição de 1964 venceu um candidato da Arena, na 1968, também, na 1972, mais um, na 1976, outro da Arena, na 1982, já era o PDS, partido dos militares que comandavam o Brasil, venceu também. "Estava tudo em casa em Bom Conselho". 

        O mais próximo da ação da ditatura que tivemos em nossa casa foi quando papai, vice-prefeito de Bom Conselho, em 1969 foi intimado para a ir ao Quartel do Exército em Garanhuns. Vários de Bom Conselho foram acusados de atividades subversivas. Felizmente foi comprovado que ele cuidadava dos seus negócios de comerciante.

        Mas tal ocorrência fez papai sempre nos alertar para os perigos de certos comentários e de assumir abertamente simpatia pela oposição à ditadura. 

        Ao chegar na universidade em 1979 estava cheio de avisos e não gostava de me envolver com a parte mais política dos estudantes. Sobre a ditatura naquela época, o mais próximo que tive foi o relato de outro sobre uma manifestação de um ano antes, talvez dois, na rua do Hospício. O caso ocorreu em Recife, ele narrou que a cavalaria entrou fechando a rua vindo da Avenida Conde da Boa Vista e outro grupo de políciais à cavalo vindo do rua Riachuelo. Não haveria saída. Como resposta os estudantes jogaram milhares de bola de gude no asfalto para que os cavalos escorregassem e caíssem. Na sua narrativa, ele disse que, com muitos outros colegas escapou pela Loja Americanas antes que a porta de ferro fosse fechada. 

        Depois de ouvir isto, o cuidado aumentou e tratei de conversar pouco e ter muita atenção no campus na Universidade Federal Rural de Pernambuco.

        Chegou 1982, início da jornada no Banco do Brasil, janeiro daquele ano começaram as primeiras noções de hierarquia, de competição entre as pessoas, colaboração interesseira, e das regras externalizadas e escritas e das regras não escritas. Sobre a cultura organizacional, a compreensão veio muitos anos depois. A hierarquia era rígida, pouco se falava em liderança. 

        A primeira experiência de liderança dessa época foi com Paulão, presidente de AABB de Afogados da Ingazeira. O que tornou a AABB um clube grande, com recursos para os associados. As pessoas estavam ajudando, ele conseguiu agregar muita gente com o propósito de construir à AABB. Dentro das agências, em todas do Banco do Brasil, o processo era quase militar tem termos de hierarquia.

        Vou dar um pinote no tempo, 1993, na Avaliação de Desempenho para os gestores a Liderança já era uma exigência institucional.  Foi uma ação, um conceito, uma nova atitude e principalmente, um aprendizado contínuo. Liderança, imagino, implica em atitude de busca mais consensual, quanto for possível, sem abandonar a hierarquia. Uma tal mistura que é de difícil aplicação no dia a dia, se aproxima de uma estado de arte.

        Mais outro saldo no tempo. Entre 2010 e 2015 veio uma experiência que pessoas que não leram os relatos sobre a ditadura e por isso não conseguiram imaginar os seus efeitos.  Em 2023 o "piquenique" foi feito na beira do abismo. Por muito pouco o Brasil não caiu no poço fundo e de águas poluídas de uma ditadura. A quem concorde, a quem discorde. É fundamental respeitar os pontos de vista.

        Em 2010 recebemos um novo gerente, daquelas pessoas de uma habilidade fenomenal de conduzir as pessoas, quase como se todos fossem um rebanho. É possível que essa pessoa pudesse se apresentar assim: Como é o seu nome? Ah! Meu nome é Liderança.

        De 2013 a 2014, apenas um ano, foi a vez do que chamo miniditadura. A pessoa usou todos os conceitos como destruir o que uma equipe construiu. Até chegar havia um sentimento de pertencimento e de colaboração enorme entre os funcionários da agência, depois abriu as portas da divisão, e tudo foi mudando, sendo destruído, as pessoas não se reconheciam mais naquelas medidas. A arbitrariedade era a medida para todas as coisas, o adoecimento das pessoas virou regra, o afastamento por causa do comprometimento da saúde se tornou comum. 

        Passados 11 anos do final daquele ano "sabático", trazendo como pano de fundo o julgamento que se desenrolou no STF, as lembranças começaram a querer sair. Violência física, não houve. Violência psicológica, muita. Experimentação psicológica, por exemplo, uma pessoa sozinha atender no dia mais de 50 clientes,  até tal pessoa se esgotar, sem mudar nada, mesmo com o adoecimento dela, com o esgotamento físico e mental severo. Sem querer ser duro, uma experimentação maldosa. 

        Ali naquele microcosmo, fiz essa projeção como viver em uma ditadura. Os humores do ditador atropela as regras, a hierarquia protege o executor de suas ordens maldosas, o sistema se protege, se apropria da vida dos atingidos. Quem se manifesta precisa ser tosado. Quem se rebelar já era. O silêncio é quase uma omertá mafiosa. Aí de quem reclamar, ganha uma alvo na testa.

        Não tem vida fácil na ditadura, seja ela gigante, seja mini.

        Enfim, era o que tinha a dizer da experiência minúscula em uma ditadura.

        

        Abração, Marconi Urquiza.

        

Existimos: A que será que se destina?

Viktor Frankl             Começou, começou, começou aquilo que muitos refugam, mas têm uma apaixonada, apaixonada reação ao ouvir opiniões c...