sexta-feira, 13 de abril de 2018

Réquiem para um defunto vivo


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    Na sexta-feira passada a Globo News ligou o full time para a iminente prisão de Lula no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, a cobertura me trouxe um sentimento de perda e de tristeza. Uma melancolia que provocou-me a reação de só ouvir as vozes das repórteres falando. Não quis ver as imagens, fiquei curvado e muito tempo de costas para a televisão apenas escutando as sucessivas repetições de informações.

    Foi uma "matéria jornalística" com ares de cobertura perfeita para satisfazer aos louvadores e aos detratores de Lula. Quase como uma tempestade perfeita, que a tudo destrói.

   A cobertura parecia um réquiem para um defunto vivo. Para mim era o enterro simbólico e um enterro real para muitos que colocaram seus rancores, recalques e todo tipo de afeto negativo em cima de Lula e, talvez, nem saibam a razão objetiva.

     O defunto.

    Um tipo de defunto que ao longo de quase quatro anos foi sendo cevado parcimoniosamente com pequenas doses diárias de ódio, como pílulas com aparência de placebo, sem gosto, com efeito lento para  depois desse longo tempo a alma, já totalmente tomada pelo ódio, se tornar facilmente permeável às manipulações de quem comanda a mente dos indivíduos.

    Mas agora as circunstâncias políticas, criadas há tempos,  exigiam esse defunto para acalmar a turba que se mostrava violenta.  Mas, matar literalmente era um risco muito grande que os estrategistas não queriam correr. Em situações semelhantes, o melhor é sangrar aos poucos para que o defunto vivo suma dos corações dos que o odeiam e dos corações dos que o amam.

      Fiquei mais de hora ouvindo as repetições das repórteres da Globo News, sentindo que queriam uma declaração bombástica, uma nova oportunidade para repetir aos quatros ventos um escorregão, mas não houve. Estranhamente, surpreendentemente ou com sabedoria os discursos não foram incendiários. A violência dos militantes, foi um dano único, pequeno, diante do potencial de confusão existente.  Nada de maior significância. Até as pancadas que alguns jornalistas levaram foram desidratadas pela mídia porque levaria a um aprofundamento indesejado da sua causa. Quem faz a história é quem a conta, então ...

       Na última semana as inserções ao vivo da cobertura televisiva se repetem, vazias de conteúdo, repletas de sentindo. Dois signos estão presentes: "Olhe, seu líder está preso; olhe, seu ódio já pode ser aplacado, seu inimigo está preso."

      No entanto, bem mais significativo é  o discurso de que ninguém está acima da lei, o que me levou a lembrar de uma história, que pode ser do folclore político de Pernambuco, não tenho certeza.

     Dizem que Agamenon Magalhães quando foi governador do estado e ao ser questionado por correligionário sobre uma ameaça eleitoral respondeu, parafraseando Maquiavel (*): "Para os amigos tudo. Para os inimigos os rigores da lei."

     Assim foram as coisas e as muitas lacunas destes pensamentos, para as quais não sou capaz de suprir, possam ser preenchidas com a reflexão de cada leitor.

     Quem sabe neste estilo,

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Abraço,

   

    

    

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Seu lindo bom dia

        Adote o hábito de dizer algo amável ao pronunciar as primeiras palavras pela manhã. Isso estabelecerá sua disposição mental e emocional para todo o dia... Frase de Norman Vincent Peale.

    A vontade de falar sobre a política e suas nuances sem fim ainda me estimulava, mas a inspiração desta semana veio mesmo pela voz sintetizada do aplicativo do Uber e em vez da aridez de falar dos tantos conflitos de nossa realidade atual a voz saída do autofalante do celular me fez ir atrás de uma coisa simples, mas,  geralmente negligenciada. 

     Nesta quarta eu peguei um carro do Uber e o GPS estava conectado ao aplicativo do próprio APP, depois de cinco minutos a voz orienta o motorista, uma voz suave, quase musical, um pouco mais à frente me lembrei da voz metálica e em mono tom do Wize e do Google Maps. 

     Não de imediato, mas um tempo depois a voz de Iris Littieri chegou aos meus ouvidos vinda das minhas recordações. Ela é a dona da famosa voz dos aeroportos brasileiros dos anos 1990. Uma voz suave e lindamente pronunciada.

      São três vozes femininas, mas a quarta me encantou, uma voz belíssima e muito musical.

     Mas antes de falar dela, recordo vivamente de um senhozinho que às cinco horas da manhã caminhava no Parque da Jaqueira no contrafluxo dizendo para cada pessoa que o via: "Bom dia!" Quando não havia resposta ele replicava com um sorriso; "Ainda existe bom dia!", e continuava sua campanha solitária pela humanização do amanhecer naquele pequeno trecho do Recife. 

      Voltando para a voz do GPS do Uber: "Em 800 metros faça uma leve curva a direita na rua Fernandes Vieira" e tal voz me fez lembrar o que por anos, mais de vinte, reclamava uma crônica. 

    Hoje, 2018, a época: 1995. Neste ano cheguei em Barbosa Ferraz, lá no Paraná, na metade do mês de agosto. 

      Fui gerenciar a agência do Banco do Brasil. Lá o principal cliente da agência, fosse pelos negócios ou pela sua enorme influência, era a cooperativa COAMO, por causa disso tínhamos que manter contato com o entreposto dela na cidade praticamente todos os dias.

     Sempre que ligava, a telefonista, que eu supunha ser, atendia e me passava para o gerente do entreposto. Foram pelo menos três semanas  de contato por telefone, só umas poucas vezes conversei com ele pessoalmente na agência do BB.

    A resposta inicial nestas ligações era sempre: "Coamo, bom dia!", sem o padrão de dizer o próprio nome. Com o passar do tempo a sonoridade da voz e o timbre musical me encantou, quando ligava para lá gostava de ouvir: "Coaamo, boom diia! "


     Agora imagine de olhos fechados ouvir na  voz mais bela que você já ouviu na vida dizer um bom dia com essa musicalidade. 


     Imaginou?


    Bem, o tempo passou e eu necessitei conversar com o gerente Darci sobre a safra de verão a ser financiada, eram acordos sobre funcionamento daquele ano: pagamento direto, como agir com os clientes endividados (Qual divisão das receitas o Banco do Brasil e a COAMO fariam), negócios como a retribuição dela em aplicações financeiras, etc.

    Agendo a visita, que ocorreu em um dia de setembro e chego lá antes do horário, pela manhã.  Darci está resolvendo alguns negócios e atrasou alguns minutos, a mulher que me atendeu indicou uma cadeira e eu fiquei esperando. 

    Quando ele chegou, me chamou à sua mesa e começamos a conversar, em certo momento a jovem chega perto, diz algo para ele, eu escutei e não me interessei. A mesa de Darci ficava vizinha ao Caixa e a mulher também atuava como auxiliar à gerência.

    Conversa vai, acertos vêm, toca o telefone: "Coamo, bom dia!" Outra ligação: "Coamo, bom dia!" E a voz bonita, sonora e musical, seguiu me encantando, no entanto, a fantasia de sua dona ser tão bela quanto a sua voz quase estragou o fato de que ela embevecia quem ouvia seu lindo bom dia. 

    Abraço, bom dia!


      

      

quarta-feira, 28 de março de 2018

Tempos Sombrios

       

       A forma inteligente de manter as pessoas passivas e obedientes é limitar estritamente o espectro da opinião aceitável, mas permitir um debate intenso dentro daq... Frase de Noam Chomsky.

      A filósofa Hanna Arendt escreveu um livro cujo título remete ao quadro que veio se criando desde a segunda eleição de Lula. Este livro analisa a situação de pessoas célebres nas circunstâncias críticas que o envolviam em suas vidas perante eventos como o Totalitarismo.

     "Homens em tempos sombrios", pego emprestado Tempos Sombrios para refletir, minimamente, sobre os tempos de 2018 no Brasil.

      De início quero trazer uma pequena recordação de um professor que um dia disse que ao se trabalhar com inteligência (empresarial) se deve prestar atenção aos sinais fracos.  Só que agora não há mais sinais fracos do risco de ruptura institucional e social no Brasil. 
     
     Atirar ovos é prosaico, mas um sinal, atirar pedras, uma violência grave mas que passou sem a devida importância da sua gravidade, mas atirar com arma de fogo em uma caravana politica é uma circunstância tão crítica quanto o que ocorre no Rio de Janeiro.  É uma semente capaz de abrir a porta do inferno.

     Em 1982 meu pai era candidato a prefeito em Bom Conselho.  A campanha naquele ano já começou com ruptura entre amigos, correligionários de longa data. Em poucas semanas a cidade estava em pé-de-guerra.  Os sinais daquele tempo estão como o do presente.  Violência verbal que se transformou em violência de fato, capangas andando armados e provocando, cidadãos andando armados, na velha aura da "macheza" dos homens "valentes", massa de manobra para alguns "líderes". O resultado desses sinais, que o poder público não atuou a tempo e hora, implicou em duas mortes antes daquela eleição, entre elas a do meu pai e criou um bando que tomou conta da cidade e matou mais alguns após o fechamento das urnas.

     Nesta terça-feira os fatos atropelaram a retórica e o direcionamento de uma Televisão quando começava a divulgar, na última segunda, as ameaças que chegaram aos familiares do ministro do STF Edson Fachin. Na segunda-feira mesmo, esta TV, na primeira inserção da entrevista, já insinuava que a ameaça vinha dos simpatizantes de partido político.

      Na terça-feira, quem leva bala? 

    Um ônibus cheio de jornalistas que acompanhavam a caravana do PT no Paraná e os fatos mataram a estratégia de insinuar que as ameaças contra  Fachin tinha nome e sobrenome, os "radicais" inconformados com a Lava Jato. Matutando, senti o power soft, que persistiria dias a fio, até criar a percepção no público que era o desespero diante da iminente prisão do seu líder motivando  as ameaças, iniciando a manipulação da opinião pública às vésperas da eleição e apontando: Este grupo é o culpado pelas ameaças. 

   Pelo episódio da última terça-feira tudo indica que o radicalismo tenha feito muitos adeptos das várias correntes de crenças do "eu estou certo" e quem "pensa diferente, está errado". Situação amplamente observada nas redes sociais e aproveitada por quem pode manipular a opinião pública.

    As duas situações merecem uma apuração isenta e profissional, mas será que vai ocorrer ou teremos sempre informações filtradas?

   Parece que o caminho atual no Brasil leva ao ditado: dois bicudos não se beijam, se bicam.

     O Brasil está repleto de bicudos prontos para tirar o couro do outro.

 "Homens e mulheres em tempos sombrios".

Abraço,

terça-feira, 20 de março de 2018

Quando ganhar importa e perder não importa.

        Sabe, de imediato e até precipitado cunhei a frase: Quando ganhar importa e perder não Importa.

        De sábado para cá, fiquei com idas e vindas se escreveria uma crônica a respeito desta frase pois me pareceu até demais filosófica e que exigiria de mim uma profundidade que não sou capaz de abordar com simplicidade e conteúdo.  Eis um dilema, então desisti, fui atrás de outro tema e até achei: Cachorro de monturo. Que também é outra história.

     Aí a turma do Recife se encontra no CINFAABB, melhor do que destrinchar a sigla é dizer o que ela  significa: jogos dos aposentados do Banco do Brasil.

     Cada um vai por si e a estrutura a Federação das AABBs organiza.

     No universo imenso dos aposentados do Banco do Brasil 3.000 pessoas é uma ninharia, mas uma ninharia valiosa.

     Eu mesmo reencontrei colegas que há mais de 15 anos não via. Um pouco de conversa me lembrou maus e bons momentos.  Mas o prazer de estarmos juntos valeu a viagem.

     Sofri um engano terrível ao achar que a derrota não importava, sim importava.  Vi muitos rostos tristes saindo do campo com a derrota nas costas. A derrota importava, no entanto, era uma importância momentânea, celebrar a vida logo ganhava preponderância e a derrota ligeiro não passava de um registro estatístico.

     Esse registro apagado em questão de horas tem dado lugar para a celebração de reencontrar pessoas com as quais temos bons afetos.

    Agora, cada hora, em que a vida se esvai em menos tempo do que já vivemos, participar dos jogos dos aposentados contribui para sermos felizes e confraternizar a vida com os amigos.

     No ano que vem ou daqui a seis meses pode parecer rotina, mas rotina da boa.

     Até lá meus nobres amigos e amigas.

Abraço,

quarta-feira, 14 de março de 2018

Passando a borracha na vida

     
Se me esqueceres, só uma coisa, esquece-me bem devagarinho.... Frase de Mario Quintana.
     

       No último sábado fui cumprir a minha agenda comigo mesmo na AABB de Recife. Devolvi dois livros,  um dos quais uma Antologia de Vinicius de Morais, um daqueles  livros da lombada dourada. Nele li uma emocionada crônica de quando Antonio Maria faleceu em 1964. Aquele  pernambucano que compôs um dos frevos mais lindos que já ouvi, Frevo n.1.

      Nessa agenda, quase religiosa, inclui pegar emprestado mais livros, tomar alguns cafezinhos na biblioteca e consagrar a viagem ao paraíso tomando umas cervejinhas.

     Ainda na biblioteca fui na estante dos escritores de crônica, nesta escolhi três livros.  Houve um que folheei  e quase o devolvi à estante, mas me lembrei da verve gostosa do filho do autor que com frequência está com Geraldo Freire na Rádio Jornal. Pai, José Nivaldo; filho, José Nivaldo Júnior e o livro, Nordeste à flor da pele.

    Bem, fui no índice, li os títulos de algumas crônicas e fui,  sem muito interesse às orelhas da capa e só não deixei o livro lá por causa do autor do texto da orelha ser um cronista arretado, Sérgio Gondim, filho do Dr. José Nivaldo, outro médico com a sensibilidade de um observador do mundo.

      Na orelha, em certo trecho, ele fala da mãe na terceira pessoa, talvez para se afastar da emoção, disse que ela organizou carinhosamente a coletânea das crônicas publicadas pelo esposo ao longo dos anos no Jornal do Comércio do Recife e que compuseram o livro "Nordeste à flor da pele".

     Aqui entra minha parte na história.  Desejando aprender como compor personagens recebi um convite para conversar com Dr. José Nivaldo na sua casa, vizinha à agência do Banco do Brasil em Surubim. Bom de prosa, ele falou dos seus livros, dos prêmios literários e nada, nadinha de como compor um personagem. 

      Prosa vai, prosa vem, eu cheio de dedos por conversar com uma lenda viva quando de repente chega Dra. Neíse, ela olha para o esposo, como se a borracha da vida tivesse parado e ela tido uma janela para lembrar  de Dr. José Nivaldo.

     Tudo ali se transformou, o semblante alegre caiu para um expressão pétrea e ouvi: "ela tem Alzheimer". Esta frase vem se ombrear com a de Sérgio Gondim: "Organizá-lo em livro é uma homenagem à companheira.  Uma forma de manter a motivação e a alegria, sabendo que não pode mais compartilhar com ela", contemporânea da época em que estive com ele, 2004.

      Aí veio a lembrança que motivou  esta crônica:
      - Cida, ôh Cida! Cida, ôh Cida!
      - Mas Cida saiu agora. - Foi a resposta da cuidadora.
      - Não, estou chamando a Cida "menina".

   Assim, assim dona Judite vai agarrando a borracha, travando uma luta, o quanto pode, para manter as lembranças de mais de 84 anos de vida.
     
Abraço,

PS:
Frevo nº 1 na voz de Maria Betânia.
     

sexta-feira, 9 de março de 2018

Trombei de novo com a história e achei uma casa com alma

Não chegamos a conhecer as pessoas quando elas vêm a nossa casa; devemos ir a casa delas para ver como são.... Frase de Johann Goethe.

      Trombei de novo com a história.
     
    Quase todos os nossos interesses são direcionados, mas certos encontros são regidos pelo acaso e por causa disso trombei de novo com a história.

     O interesse pelos problemas causados pelo nazismo ocorreu pela curiosidade de querer saber com uma nação desenvolvida, já na época, fez o holocausto.  Li muito para compreender parte do seu espectro e parei de ler o assunto porque a leitura exige muito do Espírito, embora tenha ficado a chama da velha e boa curiosidade. 

    O trabalho de corretor tem me levado a entrar na casa de outras pessoas, desta vez entrei na casa da família judaica-alemã de nome Bleckenfeld e por causa desse encontro saiu esta pequena história. 

     A crônica em si não foi difícil, os sentimentos já haviam me dado o rumo da escrita, no entanto, eu tive a maior dificuldade para escolher o título. Ora  foi Casa Bleckenfeld, depois:  Não se pega, nem se vê e quase no penúltimo escrevi: Na casa Bleckenfeld, não se pega e nem se vê. 

     Passei uns dias e escrevi o penúltimo: Não se pega, nem se vê na casa Bleckenfeld, por fim, me lembrei do fato de que trombei de novo com a história e isto me inspirou a achar o título. 

     O caso foi o seguinte.
  
      Sabe quando a gente entra em algum lugar e sente arrepios, uma energia ruim. Fazia tempo que não sentia tal coisa.

    No sábado passado eu fui mostrar um apartamento para um casal interessado em compra-lo. Na ficha estava escrito, desocupado, de fato não mora mais ninguém nele.

    O prédio é amplo, porteiro simpático, a maioria dos moradores ainda são os primeiros habitantes, vista bonita para o rio Capibaribe. Eu poderia continuar descrevendo outras boas características, mas encontrei uma que não se vê e nem se pega.

    14 horas.

     Parece que quem vai olhar imóveis são sempre pontuais. Chegamos, para minha sorte o sobrinho da dona do apartamento fez toda a apresentação. Ele entrou em cena no começo da visita e logo estava conversando com os interessados.

     Saímos do elevador e eu me adiantei para abrir a porta entalhada, que não representou nada para mim, apenas achei que a dona do apartamento tinha  um gosto exótico. Mas logo ouvi a admiração de Dive e a pronta resposta do sobrinho, Pedro: ela foi entalhada por um artista renomado. Portanto, uma obra de arte, com dupla função. Foi uma cena viva, descreveu  um bem, com seus afetos e não um produto, com suas peculiaridades técnicas.

     Dive, artista plástico, começou a olhar para o apartamento, mas estava encantado com a porta, logo disse que desejaria a porta se fechar a compra, ao que Pedro disse que era preciso consultar a prima.  Claro que quem coloca uma obra de arte como uma porta precisa ter dinheiro, de gosto refinado e ainda mais de, sensibilidade.

    A porta a enlevar os visitantes, foi a primeira surpresa daquele lar.

    O apartamento está todo mobiliado, camas, mesas, cozinha, cortina, armários de marca, guarda-roupas de madeira nobre. Distinto de um imóvel vazio que estimula a imaginação de quem vai comprar, visitar um imóvel com mobília dá uma dimensão do aproveitamento do espaço existente. No estado em que o vi, tudo pareceu bem proporcional.

    Apartamento duplex, sobem Dive e Pedro e ao perceber as ausências deles, subo em seguida e paro no final da escada, senti uma atmosfera diferente, algo a mais me tocou, até paro alguns segundos tentando entender o que senti.

    Na parte de cima, livros. Há livros cuidadosamente organizados, edições originais de mais de cinquenta anos, outros mais recentes. Nesta hora me lembrei de um costume antigo que testemunhei em muitas casas, expor na estante da sala livros com a lombada dourada. 

     Andamos mais um pouco e os dois casais começaram a conversar sobre um conhecido em comum, primo do Pedro. Dive fala da sua trajetória, de sua vida profissional, publicitário e agora pintor, e o papo rola, eu saio e volto para os livros, folheio alguns, olho a lombada de vários, vejo até o livro Arquipélago Gulag deitado sobre outros.

     Esse costume, em desuso, é bem antigo mesmo, que casa hoje você entra na sala e vê livros?

     Isto me chamou a atenção, quais outros livros foram retirados? Quais obras amadas existiram ali?

     Não sei se por causa dos livros, se pelas imagens dos santos em um canto, se pela limpeza do imóvel, não sei a razão, só a nudez das camas revelava não haver ninguém naquele lar, mas mesmo assim e  não sei explicar: Aquela casa vazia tem alma e, alma boa.

   Abraço,

Em tempo: 

Entenda o porquê desse novo encontro ter este título lendo a crônica abaixo:





 

   


Existimos: A que será que se destina?

Viktor Frankl             Começou, começou, começou aquilo que muitos refugam, mas têm uma apaixonada, apaixonada reação ao ouvir opiniões c...