sexta-feira, 9 de outubro de 2020
Cheiro de pão francês
sexta-feira, 2 de outubro de 2020
Você se lembra?
- Sabe, na semana passada eu recebi aqui no trabalho um xará, Antônio, só Antônio. Ele sentou aí onde você está, se apresentou, melhor, disse que era amigo do chefe. Mostrou o seu álbum de fotografias do seu trabalho. Rapaz, eu estranhei as roupas coloridas.
- De palhaço?, - perguntou Genilton.
- Não. Poderia ser ... – e Marco Antônio parou de falar, pensava.
- De palhaço Marco? Só pode ser.
- Não, de Drag Queen.
- Drag Queen!!, - Genilton falou tão devagar, o estranhamento do exotismo da profissão de Antônio só não foi maior, por que ele via vez por outra um na tevê.
- Pois é. Nem deu tempo de pensar em algo, ela já foi contando o seu problema ...
- Qual problema esse bicha tem? Não é para ter nenhum.
- Mas tem ...
- Ignora, irmão. Ignora.
- Não consegui ...
- Você tem o coração mole. Mole demais.
- Genilton, eu tinha que ouvir. Olha, no estado dele, dez reais para mim não custa nada. Nada. Nada ...
- É que você é rico, mas também é muito besta!
Marco Antônio já tinha resolvido parar aquela conversa com Genilton. Estava procurando a palavra mais educada para interromper o papo, que havia se tornado desagradável, mas de repente Genilton mudou de tom, já crítico, rosnou:
- Você gosta é de bicha! Não é?
- Genilton, dia desses um cliente sentou na minha frente e começou a conversar.
- Eu sei, você tem paciência.
- Aí esse cliente me pediu socorro. Não tinha forças para subir essa escada.
- Lá vem você com seu coração bondoso, - disse Genilton, irônico.
- Eu chamei Zezé e ele desenrolou, - desta vez não houve réplica.
- Sabe, um mês depois ele voltou, mas dessa vez não pediu ajuda.
- É capaz de ser o tal de Drag Queen.
- E ele contou uma história linda. Disse que um dia estava na aula quando uma colega chamou parte da turma para rezarem juntos.
- Agora vem você com religião.
- Pois bem, ele disse que durante mais de mês ele rezaram no intervalo do recreio a favor de um colega, que ele não tinham tanta intimidade.
- Falando da oração para o colega, - respondeu Genilton.
- É verdade. Foi quando ele disse que quase dois meses depois, aquele colega voltou curado e depois de uns quinze dias ele se aproximou do rapaz e disse a ele: “Nós rezamos toda noite quando você estava em doente.”
- Era para mim. Esse homem é o Drag Queen?
- É.
- Eu não agradeci. Onde ele está?
- Morreu ... estava bem doente. Pegue esse papel, ele deixou esse poema que um amigo havia feito naquele tempo.
Genilton pegou, desembrulhou o papel amarrotado como quem abre um pacote de pão e se pôs a ler:
Muitas vezes nos
damos por vencidos
ao ouvirmos
de alguém um
diagnóstico.
Porém Deus nos
prepara o prognóstico
Atendendo com amor
nossos pedidos.
Os problemas são
todos removidos (no áudio errei e gravei resolvidos)
quando a fé se torna
cristalina.
E a resposta que
vem da mão divina
nos devolve por inteiro
as emoções.
Ao notarmos que
nossas orações
Alteram as razões da
medicina.
Ass. Ademar Rafael Ferreira
- Não sei o que dizer.
- Depois que ele saiu de vez da vida, eu só penso nele assim: Meu amigo, um certo Antônio, - falou Marco Antônio.
- É, - disse Genilton, e o silêncio se fez ouvir.
sexta-feira, 25 de setembro de 2020
Inspirador de personagem
Sabe uma daquelas perguntinhas que coloca a gente para pensar? Foi o que me ocorreu, quando me perguntaram como eu havia criado os personagens do romance A Puta Rainha.
Pois bem, meses atrás conversando pelo Instagram com uma leitora prévia do romance, ela disse que assim que tivesse oportunidade queria conversar sobre os personagens do livro, como os havia criado. A pergunta me fez pensar, eu criei mesmo ou foi a intuição que me conduziu?
No início confesso que fui tudo intuição. Tudo saiu de supetão da minha mente.
Quando pensava nessa crônica, eu recordei de um livro de Mário Vargas Llosa, cujo título é: Cartas a um Jovem Escritor. Em certo trecho deste livro ele observa que toda ficção começa autobiográfica. Em miúdos, um escritor começa um livro à partir de um ponto da sua própria vivência.
Não fugi a esta regra. Eu comecei A Puta Rainha por causa uma lembrança que me deu o motivo e o impulso naquele início*. Durante semanas esse impulso me conduziu, a história parecia que era ditada, no entanto, em certo ponto dessa trajetória da criação do livro eu me vi perdido, sem saber como encaminhar o livro para o final.
Então, em certo dia, eu fui para a Livraria Cultura do Paço da Alfândega, aqui em Recife. Agora fechada. Saí zapeando entre as estantes e em um dos móveis, que expunham as capas dos livros, eu vi A Jornada do Escritor (Christopher Vogler). Comprei e fui ler, na medida em que lia, eu fui remoldando a narrativa. Nesse livro descobri que um bom personagem, além de um conflito que precisa resolver, precisa de um mentor.
O mentor, também um personagem de ficção, que tem a função de ajudar o personagem principal a ser forte, valente, superar a si mesmo, superar as dificuldades e chegar no fim do livro diferente. Bem, tudo isso dentro de uma lógica chamada de verossimilhança, e que significa que tudo que está escrito no livro parece ser uma história verdadeira. Olha!!
Imagine amigo, pense no dilema. "A mentira" precisa ser bem contada, se a narração parece irreal pode cair no descrédito e o livro fracassar. Agora imagine, um escritor cair em uma situação de descrédito na era do cancelamento, das redes sociais viralizando tudo.
Com base no livro de Vogler eu comecei a pensar em um mentor para Dora. No perfil de uma pessoa que fosse capaz de dar um rumo para uma jovem de 14 anos.
Matutei, matutei para lá, para cá, passeie pelas minhas lembranças, pelas dezenas de livros que li, pelos exemplos do livro A Jornada do Escritor, até que um dia acordei pensando em um, o Coronel Zélio.
Veja o que ocorreu.
Nos primórdios do site Estante Virtual eu fui à caça de um livro antigo que tinha ouvido falar, de um uma pessoa real da nossa cidade - Bom Conselho. Uma liderança política que se manteve ativa mais de 50 anos, até falecer aos 84 anos. Essa pessoa era o coronel Zé Abílio - José Abílio de Albuquerque Ávila. Ao caçar, eu achei dois exemplares do seu livro: Um Coronel do Sertão. Era a sua autobiografia. Em 2010 eu li o livro, há uma frase nele que me soou como um aviso que o coronel dava aos seus desafetos: Não adianta o cabra gritar por São Bento depois da cobra picar. Achei tão significativa que incorporei no romance A Puta Rainha.
Por causa da leitura desse livro eu comecei a lembrar de um monte de comentários sobre o coronel Zé Abílio, da sua inteligência agregadora, da sua liderança pessoal e política, do seu jeito ardiloso de fazer as campanhas, do seu famoso cafezinho das cinco horas da tarde, mantido toda a sua vida. Aí, aos poucos, com base nesse personagem histórico eu comecei a imaginar quem seria o mentor para Dora, então fui construindo-o na medida em que escrevia, assim surgiu o Coronel Zélio. Ele não é o espelho do coronel Zé Abílio, mas tirei dele, o que mais me impressionou, a sua sabedoria de vida.
Bem que eu poderia incorporar uma chamada bem humorada para quando o coronel Zélio mandasse um aviso, frase costumeiramente dita pelo Padre Arlindo de Tamandaré quando encerra os seus vídeos: Mas menino!
Ao caminho fique
Atento
Pra não gritar por São
Bento
Depois que a cobra
picar.
Coronel Zé Abílio Um coronel do Sertão
sexta-feira, 18 de setembro de 2020
Escritor .... Hum !!!!!
É poder filosofar
E com imaginação
Aprender e ensinar.
Jamais ficar deprimido
Em tudo buscar sentido
Ser dinâmico sem surtar.
- Sou escritor.
Alguns olharam e não disseram nada, outros exclamaram:
Há quase um ano venho adiando o lançamento do livro A Puta Rainha, sonhando com o impossível, sonhando que um editora de porte de uma Companhia das Letras se interessasse pelo livro. Não tinha ilusões, mas tinha a esperança do verbo esperar, agora estou transformando a esperança para o verbo esperançar. Resolvi agir. Meses atrás criei uma marca: Galo Prosador e ela foi contestada pelo Clube Atlético Mineiro. Desisti dela e criei outra: Prosa Books, imaginando ir além. Vamos ver o que vai dar.
sexta-feira, 11 de setembro de 2020
Foi na inauguração do campo
Sabe, alguns dias atrás estava zapeando pela tevê e parei alguns instantes em um jogo do CRB, na série B, em Maceió. Em certo instante o câmera correu pela arquibancada vazia e aí eu me lembrei que meu pai me levou para a inauguração do Estádio Rei Pelé, em setembro de 1970. Pelé estava lá, o Santos inteiro, goleando a Seleção Alagoana.
Três anos depois, em algum domingo ensolarado de 1973, acho que Bom Conselho estava no maior frisson. Campo de terra arrumado, terraplanagem recente, traves novas, rede de náilon e viria um artista nacional para inaugurar.
Pedro de Lara, famoso por atuar no Programa Silvio Santos. Filho de Bom Conselho, saído como retirante, era o convidado ilustre. De longe todos vimos ele entrar no campo de paletó, com seu sapato social, preto, brilhando ao sol. Se aproximou do grande círculo, junto com o prefeito e mais uma ou duas autoridades e inaugurou o campo com um curto chute.
Ao redor do campo, atrás das linhas, havia uma multidão e eu estava lá, logo depois da linha de meio de campo na direção do cemitério. O campo não era no sentido norte-sul, para que a luz solar ficasse na lateral das barras, ele era no sentido leste-oeste e o cemitério ficava a oeste. Perto dele ficava um dos gols, o outro, ficava perto do muro que dividia o campo, o antigo campo do ABA, que era fronteiriço com uma rua.
Acabada a inauguração, iria começar uma melhor de três. CSB - Centro Sportivo Bomconselhense, era um e outro time, se a memória não me engana, era o Vera Cruz, do Alto de Zé Flexeiras.
Antes de falar do jogo, vou falar do campo. Ele estava lisinho e macio, a raspagem com a motoniveladora tinha deixado o terreno duro, bom de jogar. Naquele dia não ventava muito, no entanto, quando o vento fazia a sua graça, quem estava do lado da linha que ficava perto do hospital sofria, todavia, a gente ficava de costas para o sol e era melhor de ver o jogo.
A primeira coisa que a memória registrou, foram os ternos (camisas, calções, meiões) novinhos e parecendo engomados. As pernas dos jogadores lustravam com os raios solares. Parece que havia, naquele tempo, o costume de passar terebentina ao se massagear. A camisa do CSB lembrava a do Palmeiras de 1972, a do Vera Cruz, a memória falha, mas penso que era preta, listrada de amarelo, listras verticais. Tenho enorme dúvida a esse respeito.
Começou o jogo, jogo aberto. Uma correria enorme. Jogo franco, bom de ver. Aí o CSB fez um gol, depois fez outro. Aí veio o terceiro gol. Nessa hora o CSB atacava para o gol do cemitério, o gol a oeste.
Bem leitor, tudo aqui é de memória. Só de memória. Vou reavivar a minha localização na torcida. Nesta hora eu e a muita gente tinha caminhado mais para perto do gol do Vera Cruz, mais ou menos a 35 metros da linha de fundo.
Aí, em certo momento, o CSB armou um contra-ataque e a bola foi passada para Elisênio, jogador de passadas largas. Ali, logo depois do círculo central, ao receber a bola, imagino que ele viu um corredor, com os marcadores distantes, ele correu rápido com a bola dominada. A cada passada dele e dos defensores um rastro de poeira foi se criando, quando ele se aproximou da entrada da grande área, já havia se formado uma pequena nuvem.
Não lembro direito, se ele chuta e cai ou caindo chutou. Mas lembro que ele ficou olhando do chão a corrida veloz da bola até ela entrar no gol. Afinal, nós torcíamos pelo CSB e vibramos com o gol.
Aquela queda me deixou curioso, tempos depois eu me encontrei com Elisênio e perguntei para ele a razão da queda, não lembro a resposta: não sei se disse que caiu para se proteger ou se levou um tranco. Só sei de uma coisa, foi um gols dos mais bonitos que já eu vi.
Abração, Semana Iluminada.
Marconi Urquiza
Elisênio:
sexta-feira, 4 de setembro de 2020
PRESENTEAR, O QUE VOCÊ FAZ?
Fiquei imaginando a expressão de quem me deu um presente que não me agradou, a minha cara eu sei, de decepção: "Que cara mais mal agradecido, quando dei um presente e ele mal recebeu", fora outras intermitências.
Nada mais justo que evitar a decepção do presenteado e ainda mais a própria, que dá um presente que desagrada, não é mesmo?
Suponho que isto ocorra com muitos. Então o que se faz, combinar o presente, combina-se, compra-se e entrega ao presenteado um almoço frio. Mas é assim mesmo, evita o desgosto que pode durar uma vida de mágoas.
Uma dos modos de presentear é conhecer a pessoa. Os seus gostos e dar um presente entre as preferências, captado de um comentário fortuito, por exemplo, e fazer uma surpresa agradável. Só que isto é quase uma impossibilidade mundial, pois quase todos nós não olhamos desse jeito para as pessoas.
Outro modo de presentear e eu já fiz, é chamar a pessoa a ser presenteada e levar para uma loja que você possa pagar e ficar ouvindo os comentários. Isto funciona melhor, imagino, ao se tentar presentear uma mulher. Pois bem, quando ela se agradar, você diz, escolhe o seu.
A arte que mais utilizo de presentear é sair com o amigo, o filho, beber uma cervejas e rachar a conta. Fraquinho, né?
Certa vez conversando com amigo ao telefone, ele comentou sobre um livro de um jornalista, falou loas e disse que me mandaria uma cópia, pois não achou o livro impresso, agradeci e uma semana depois chegou a sua carta e a fotocópia do livro. Comprei um original e mandei para ele. Não sei a cara dele e nem ele viu a minha, meio desgostoso com o que eu entendia ter sido uma ideia ruim, a fotocópia. Tempos depois recebi o livro original.
Tempos atrás, outro amigo deu-me um livro de poemas, livro bonito, mas como não é o meu gosto literário mais forte. Acho que não fui agradável.
Destes dois exemplos, vem a outra parte de um bom modo de presentear: Não fazer expectativa.
E agora vem a de ser presenteado: Não fazer expectativa.
O ato de presentear, é, na maioria da vezes, uma representação, a demonstração de afeto, então receba o afeto e só olhe o presente depois.
- Comprei um livro de Estatística para a minha esposa.
- Professor, por que você acha isso? - Cidão pareceu surpreso, deu um sorriso leve, olhou para cada um daqueles três alunos e então respondeu:
sexta-feira, 28 de agosto de 2020
CELEBRAÇÃO DE AMIZADE

Existimos: A que será que se destina?
Viktor Frankl Começou, começou, começou aquilo que muitos refugam, mas têm uma apaixonada, apaixonada reação ao ouvir opiniões c...
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Por Djalma Xavier. Pra começo de conversa, trago dois personagens que tem algo a nos ensinar e ilustram bem as questões principais...
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Sábado passado me larguei de Recife no meio da tarde e fui a Bom Conselho. (284 km). Fui por que o amigo Antiógenes me incluiu e...
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Ontem o amigo Loyola se foi. Há alguns meses descobriu um tumor no pâncreas. Ao saber da notícia, no início da noite, de sua...





